Cheguei cedo demais. Vi-me obrigado a sentar num banco e esperar naquela sumptuosa praça onde a magnificência do tamanho e o apelo dos ornamentos pedia que o bairro à volta fosse um nobre baixo. E era. Não importa, que fosse paris, seria ainda assim uma praça fedorenta. Resta esse toque de molesto às praças, a saber, o expedito irrevogável de que as praças fedem. Como haveria de ser diferente? Veja, trata-se de um lugar público. Mas não como um museu ou biblioteca, em cujos portões elevados e olhos vigilantes dos cidadãos mais rigorosos faz-se exigência e coibição à intrusão perniciosa de um indigente que se faça passar por intelectual mendigo enquanto arruma seu colchão em papelão grosseiro em frente a uma delicada obra de arte ou num corredor onde morassem grandes clássicos da literatura medieval, por exemplo. Não, as praças são públicas porque seus bancos dispõe-se de forma indulta e acolhedora tanto aos bem tratados traseiros da gente que ali a volta habita uma impecável residência, quanto aos lençóis sujos e mal cheirosos daqueles que, por falta da cara espécie, fazem dali por tantas noites abrigo. E, não obstante àquela hora eu não pudesse ver os tais desvalidos que a noite ali moravam (dormiam, urinavam, comiam, transavam e, talvez, até defecassem) eu podia sentir o cheiro, como numa nota derradeira sobre o contraste localizado entre a imagem que eu via e o odor que ela encerrava. Isso porque a manhã já trazia os seus raios mais violentos de sol e a um que ali se largasse indefeso e desprotegido, o amargo calor trataria de castigar com severa insistência, fazendo-me crer que os bem aventurados inquilinos daquele espaço a céu aberto, esperariam pela noite a cair para retornar ao leito do qual eram, em todo caso, a quinta-essência, qual seja aquela de que se destila um perfume.
Mas era uma praça, sem dúvida, majestosa. Majestosa era o adjetivo adequado àquele arranjo de paisagem e arquitetura. À frente do banco sobre o qual eu me debruçava em um sóbrio e degenerado Henri Miller, erguia-se um elegante chafariz. E tal qual a acre personalidade daquele que eu tinha em mãos e me fazia lendo, pus-me uma questão que há um momento me sobreveio como o palpitar agudo de um nojo. E tanto menos, naquele momento, o mal cheiro seria o precipitador de meu vômito, caso viesse mesmo a vomitar. Não vomitei, mas explico aqui o porque de tal insinuação. Vá lá que os chafarizes tenham sua beleza tangenciada pela imponência e conjunto que envolvem, o caso é que bem mais provável que isso era o fato de que desde muito tempo os nobres que os construíam haviam esquecido de explicar às novas gerações a serventia e a moral daqueles ataviados cuspidores de água. Mas, ainda que a nova geração - essa que muitas vezes recorria ao apelo às preocupações com os recursos naturais do "planeta" - jamais viesse a entender o orgulho e a necessidade daqueles fidalgos chafarizes, nenhuma retaliação se fazia aparente e nem nunca se fez. É provável que aos olhos dos mais exigentes ativistas, aquele desperdício passasse batido, enquanto, quem sabe, um notável ecologista passeasse desalarmado com seu cachorro Astolfo por entre os jardins refrescantes daquela praça.
Eis a tradição em que se encosta esse pretensioso ornamento, o chafariz: Atávico como um obsoleto instrumento, que agora serve apenas ao uso saudosista e epigráfico dos descedentes de seu antigo senhor, o chafariz faz reverência a dinastia do rei; figura no centro do espaço, como em menção a importância do símbolo que encerra e expõe uma contradição muito patente aos de espírito mais crítico e de coerência mais conservada - que apesar de toda pompa da qual a classe burguesa ainda se cerca, os reis já deviam há muito terem deixado de existir. Ora lá, que as coroas se tenham transformado em cartolas, e os dourados mantos em ternos sofisticados, e talvez o fato de que nunca haveremos de expurgar totalmente o problema das classes, mas nada disso redime aquela cena anacrônica e patética em que se vê o homem sentado em poltrona de ouro maciço ostentanto sobre a caixola o galardão injustificado ornado em ouro e nada menos que alguns diamantes.
E, no entanto, temos notícia de que na Inglaterra, pioneira e propulsora da primeira e mais impactante revolução industrial, ainda se ostenta com vasta arrogância a onerosa superfluidade de uma família real. Sei até que por um breve período, à força de umas quantas poderosas armas teve-se lá o governo republicano daquele tal Oliver Cromwell, mas ao rigor dessa atual em que há uma velha senhora que sai às ruas aclamada e é chamada “rainha” apenas por haver nascido, faço-me obrigado a acreditar que esses ingleses são mesmo uns idiotas. E que me perdoem os Beatles e os Rolling Stones, mas não posso tomar de todo aquele que faz corte a um tal soberano, que não seja esse um completo idiota.
Mas isso não vem ao caso. E até entendo que hajam por aquelas bandas chafarizes desse porte ou mais, afinal, a história tem lá sua ordem de dominados e dominadores, mas ainda repugno certos arcaísmos como aquele que, no centro da praça, fazia menção a um gosto de classe de pelo menos um século passado.
Ao lado da agua cristalina e de virtuosas formas daquela fonte, pessoas sem alguma expressão tragavam um ócio empoeirado junto com aquele cheiro degradante da deliberada praça; que carregava, ainda, no nome, um santo a mais pra sua inegável nobre linhagem. Se me fosse permitido comparar, eu diria que sentar-se num banco naquele lugar e observar os gestos e as frases, dos homens e das fontes - que ali se igualavam -, era como mirar a estampa do mérito de uma inteira história de dominação ardil e à força na face dos imbecis bisnetos dessa gente sem alma que levantara castelos; bisnetos esses que, agora, passados os tempos da guerra em que tiveram alçadas suas riquezas, passeavam pela alameda da praça com seu discurso pastoso e pretensamente humanista em que “liberdade” e “democracia” se distanciavam da prática usurária de seus articuladores e resumiam-se hipocritamente em nomes como “bem comum” e “justiça”. Eu teria cuspido nessa gente se minha saliva já não tivesse secado com o sol quente e a poeira do lugar. Como não cuspi, bastou-me o silêncio para constatar que foi só isso que fiz: pensar. E isso apenas. Bastaria dizer que o ócio que nessas praças nos invade é como a morte que chega com o inverno, acompanhada da eterna melancolia do invalido ou da desgostosa meditação do vagabundo. E No fim das contas, eu mesmo com o livro aberto nada li que não fosse a vida em si mesma, e com a mente desenganda que estava quase perdi a hora. A entrevista era às 2 e o local a 10 minutos dali.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Vinho tinto e vela...com classe.
Faltou luz. – Que merda! – Eu reclamo silenciosamente. Minhas noites já são tão monótonas mesmo com todo aparato tecnológico de que disponho pra me entreter.
Tecnologia de merda! Nada funciona sem energia elétrica.
Pior ainda, a geladeira não funciona sem energia elétrica. Todo aquele lixo de comida congelada que eu comprei ontem vai pro caralho. Foda-se também! Não há lá grande diferença entre essa porcaria estragando no meu estomago ou na geladeira.
Puxo uma garrafa de vinho que já começa a suar na estante inferior da porta do refrigerador. “Carménère” – diz o rótulo. “Uva sofisticada” – eu penso. Dará toque refinado ao bolo fecal que já já vai se embolar no meu intestino – isso se não descer tudo numa rajada. As sobras da janta também me encaram lá do fundo da prateleira de cima, ao centro. Arranco-as do frescor viscoso que a geladeira ainda conserva - Janto de novo e que se foda! Coloco o prato na mesa e fecho a geladeira. Tudo isso com apenas uma das mãos já que a outra se banha na cera endurecida de uma vela que dá visão ao pobre cego entediado que sou.
Debaixo da cera a pele queimada, agora, maneja o garfo que vai ao encontro do macarrão – Penne ao alho e óleo – e volta e meia espeta um engordurado filé de frango à milanesa que vai direto à boca para ser partido pelos incisivos do porco preguiçoso que dispensou à refeição uma faca. Hahauhaha! Gargalho de boca aberta, deixando escapar uma ou outra fagulha da massa. Recupero o fôlego com um gole generoso no vinho que enchia até a borda uma rechonchuda caneca. Rio de mim mesmo, iluminado ao canto pela vela à metade que me queimara a mão de melhor uso, a mão direita. Rio especialmente pela ironia da coisa. A janta que tenho em mãos é resquício de uma primeira refeição que fiz logo no começo da noite. A fome, em todo caso, é protocolar e se lança desavergonhadamente sob a justificativa rasteira de que pouco importa o pecado da gula se a comida iria estragar de qualquer modo. No entanto, é essa refeição porca e grosseira que me tenta arrancar do tédio imperativo dessa noite iluminada por uma só vela.
A vela me olha. Acostumada aos romances de uma casta mais polida que a minha, a chama delicada que se inflama no pavil já carbonizado deve me ver como um glutão. A imagem me incomoda. Molho polegar e indicador na boca suja de comida e os pressiono contra a chama em retaliação ao mal julgamento que fizera de mim. A vela, obviamente, se apaga. A mão larga o garfo no prato e, tateando no escuro, segue instintivamente até a caneca. Um gole daquelas. “Carménère” – relembro. Uva sofisticada. Realça o amargo do alho que a essa altura já me empesteia o hálito.
Hahauhahasg asgha! Me engasgo no meio da gargalhada e uma corredeira de vinho tinto me escorre pelas narinas. Resolvo acender a vela novamente pra ver o estrago. Manchou a cueca. A única peça que ainda me cobria a pele – menos mal. A chama da vela se infla. Vadia orgulhosa! Me olha, dessa vez com despeito, e pisca como se tentasse me diminuir na frente dos meus pensamentos. Mal sabe ela que escrevo tudo em minha cabeça enquanto ela lumeia e cisca conforme as correntes de ar que entram pela janela. E mais, já tenho um final prontinho pra ela.
Esvazio a caneca num gole só. Levo o prato, o garfo e os restos até a pia. A vela acompanha. Carrego-a na mão até o chão do chuveiro. Firmo-a lá com a cera que escorre. E o som chiado da chama se apagando com a violência torrencial de uma boa e certeira mijada me soa como uma canção de ninar.
Essa noite durmo como criança - disso tenho certeza.
Tecnologia de merda! Nada funciona sem energia elétrica.
Pior ainda, a geladeira não funciona sem energia elétrica. Todo aquele lixo de comida congelada que eu comprei ontem vai pro caralho. Foda-se também! Não há lá grande diferença entre essa porcaria estragando no meu estomago ou na geladeira.
Puxo uma garrafa de vinho que já começa a suar na estante inferior da porta do refrigerador. “Carménère” – diz o rótulo. “Uva sofisticada” – eu penso. Dará toque refinado ao bolo fecal que já já vai se embolar no meu intestino – isso se não descer tudo numa rajada. As sobras da janta também me encaram lá do fundo da prateleira de cima, ao centro. Arranco-as do frescor viscoso que a geladeira ainda conserva - Janto de novo e que se foda! Coloco o prato na mesa e fecho a geladeira. Tudo isso com apenas uma das mãos já que a outra se banha na cera endurecida de uma vela que dá visão ao pobre cego entediado que sou.
Debaixo da cera a pele queimada, agora, maneja o garfo que vai ao encontro do macarrão – Penne ao alho e óleo – e volta e meia espeta um engordurado filé de frango à milanesa que vai direto à boca para ser partido pelos incisivos do porco preguiçoso que dispensou à refeição uma faca. Hahauhaha! Gargalho de boca aberta, deixando escapar uma ou outra fagulha da massa. Recupero o fôlego com um gole generoso no vinho que enchia até a borda uma rechonchuda caneca. Rio de mim mesmo, iluminado ao canto pela vela à metade que me queimara a mão de melhor uso, a mão direita. Rio especialmente pela ironia da coisa. A janta que tenho em mãos é resquício de uma primeira refeição que fiz logo no começo da noite. A fome, em todo caso, é protocolar e se lança desavergonhadamente sob a justificativa rasteira de que pouco importa o pecado da gula se a comida iria estragar de qualquer modo. No entanto, é essa refeição porca e grosseira que me tenta arrancar do tédio imperativo dessa noite iluminada por uma só vela.
A vela me olha. Acostumada aos romances de uma casta mais polida que a minha, a chama delicada que se inflama no pavil já carbonizado deve me ver como um glutão. A imagem me incomoda. Molho polegar e indicador na boca suja de comida e os pressiono contra a chama em retaliação ao mal julgamento que fizera de mim. A vela, obviamente, se apaga. A mão larga o garfo no prato e, tateando no escuro, segue instintivamente até a caneca. Um gole daquelas. “Carménère” – relembro. Uva sofisticada. Realça o amargo do alho que a essa altura já me empesteia o hálito.
Hahauhahasg asgha! Me engasgo no meio da gargalhada e uma corredeira de vinho tinto me escorre pelas narinas. Resolvo acender a vela novamente pra ver o estrago. Manchou a cueca. A única peça que ainda me cobria a pele – menos mal. A chama da vela se infla. Vadia orgulhosa! Me olha, dessa vez com despeito, e pisca como se tentasse me diminuir na frente dos meus pensamentos. Mal sabe ela que escrevo tudo em minha cabeça enquanto ela lumeia e cisca conforme as correntes de ar que entram pela janela. E mais, já tenho um final prontinho pra ela.
Esvazio a caneca num gole só. Levo o prato, o garfo e os restos até a pia. A vela acompanha. Carrego-a na mão até o chão do chuveiro. Firmo-a lá com a cera que escorre. E o som chiado da chama se apagando com a violência torrencial de uma boa e certeira mijada me soa como uma canção de ninar.
Essa noite durmo como criança - disso tenho certeza.
sábado, 17 de outubro de 2009
O Grande Gatsby
Saiu extenuado do trabalho. Alienado de seus próprios pensamentos subiu no ônibus que esperava a quase 15 minutos. Sentara-se num banco estrategicamente localizado na parte central do veículo. Cansado da vida que ali trazia no dorso de um paletó surrado, dirigiu enfaticamente os olhares pela janela, por sobre o ombro esquerdo que se escorava na parede lateral do ônibus. O mundo parecia uma coisa distante, mas estava ao alcance uns cinco ou seis metros, na calçada que corria na direção oposta à sua.
O ônibus “vazio” trazia uns poucos passageiros os quais ele ignorava como se nada existisse naquela redoma senão o movimento constante, dirigido de dentro pra fora e de fora pra dentro do ônibus. A catraca estalou mais uma vez e seu pescoço virou-se. Os olhos de indiferença, os mesmos que se afastavam do mundo com um gesto evasivo do olhar compulsivo e inanimado, fixaram-se na louridão dos cabelos da mulher que chegara. Havia acabado de atravessar a catraca e se sentara do lado dele. Era alta e corpulenta, e tinha a pele morena queimada, quase mulata. Provavelmente a cor dos cabelos era o artifício impróprio de algum agente abrasivo; tinta de cabelo ou um descolorante. Algo que dava, com franca beleza, o ar da vulgaridade que também trazia na roupa. A calça – justíssima – dava sentença merecida àquelas ‘senhoras’ coxas, assim como o decote exagerado mostrava a parte superior dos seios como a vitrina que na confeitaria mostra seus doces através de uma placa translúcida.
Teve ele uma ereção. Instintivamente, puxou um livro que havia na pasta; abriu-o e pois os olhos em cima enquanto à esguelha mantinha à vista aquelas coxas e seios. O livro que se abriu, em todo caso, dizia apenas de uma atenção renovada, que agora não mais atravessava a janela. Mas o texto que o livro enredava nem sequer semântica tinha. Eram letras embaralhadas que serviam de corrimão aos olhos lascivos e imorais daquela libido iletrada.
Conforme julgou o desconforto daquele membro ereto na posição que estava, escorreu pelo assento jogando os joelhos pra cima e os apoiando no banco da frente. O pênis deslizou pela virilha e, à força, atravessou o elástico da cueca que o sufocava. Gemeu com os olhos como se algo naquele livro fizesse sentido. Deteve, então, o livro em apenas uma das mãos enquanto a outra, rompendo por entre as pernas levemente erguidas, deslizava até recostar-se no obelisco que se eriçava. Acariciou-o com certo receio, imaginando penetrar a pandora protegida por aquelas coxas salgadas que ao seu lado escondiam-se embaixo de um tecido ordinário. Percebeu, no entanto, que aquelas carícias que ocultava para si, reverberavam num movimento muscular visível também sobre os bíceps. Esperava, por isso, que o ônibus entrasse em movimento para que o despudor dedilhado por sobre o tecido da sua calça fosse confundido com a turbulência do ônibus, que trepidava com a mais sutil arrancada e só repousava quando parava na ponto. A mulher olhava para frente, mas ele imaginava-a olhando a sua performance dissimulada e ela, mordida entre os dentes, tinha nessas imagens o mesmo aspecto sujo e depravado daquela vagina depilada que ele recriava mentalmente envolta de seu pênis.
Volta e meia, esquecia de olhar para o livro e quando se dava conta virava uma página, como se aqueles parágrafos já desgastados tivessem lhe servido os prazeres de uma história contada (e de certa forma serviam). Como não pudesse mais esconder o líquido denso daquela conduta imoral, ejaculou seguidamente - quatro vezes. Gozou tão despreocupadamente que julgou ter a mulher notado o fato. Não importava; ao contrário, isso só tornava mais triunfante aquele excesso.
Coincidentemente ou não, o livro se encontrava aberto em uma ultima página de um capítulo que findava com um pequenino parágrafo. Ele leu:
“Cada um de nós desconfia que possui pelo menos uma das virtudes cardinais – e a minha é esta: sou uma das poucas criaturas honestas que jamais conheci.”
Ele não sabia do que se tratava. Não sabia que livro era. E nem quis saber.
O ônibus “vazio” trazia uns poucos passageiros os quais ele ignorava como se nada existisse naquela redoma senão o movimento constante, dirigido de dentro pra fora e de fora pra dentro do ônibus. A catraca estalou mais uma vez e seu pescoço virou-se. Os olhos de indiferença, os mesmos que se afastavam do mundo com um gesto evasivo do olhar compulsivo e inanimado, fixaram-se na louridão dos cabelos da mulher que chegara. Havia acabado de atravessar a catraca e se sentara do lado dele. Era alta e corpulenta, e tinha a pele morena queimada, quase mulata. Provavelmente a cor dos cabelos era o artifício impróprio de algum agente abrasivo; tinta de cabelo ou um descolorante. Algo que dava, com franca beleza, o ar da vulgaridade que também trazia na roupa. A calça – justíssima – dava sentença merecida àquelas ‘senhoras’ coxas, assim como o decote exagerado mostrava a parte superior dos seios como a vitrina que na confeitaria mostra seus doces através de uma placa translúcida.
Teve ele uma ereção. Instintivamente, puxou um livro que havia na pasta; abriu-o e pois os olhos em cima enquanto à esguelha mantinha à vista aquelas coxas e seios. O livro que se abriu, em todo caso, dizia apenas de uma atenção renovada, que agora não mais atravessava a janela. Mas o texto que o livro enredava nem sequer semântica tinha. Eram letras embaralhadas que serviam de corrimão aos olhos lascivos e imorais daquela libido iletrada.
Conforme julgou o desconforto daquele membro ereto na posição que estava, escorreu pelo assento jogando os joelhos pra cima e os apoiando no banco da frente. O pênis deslizou pela virilha e, à força, atravessou o elástico da cueca que o sufocava. Gemeu com os olhos como se algo naquele livro fizesse sentido. Deteve, então, o livro em apenas uma das mãos enquanto a outra, rompendo por entre as pernas levemente erguidas, deslizava até recostar-se no obelisco que se eriçava. Acariciou-o com certo receio, imaginando penetrar a pandora protegida por aquelas coxas salgadas que ao seu lado escondiam-se embaixo de um tecido ordinário. Percebeu, no entanto, que aquelas carícias que ocultava para si, reverberavam num movimento muscular visível também sobre os bíceps. Esperava, por isso, que o ônibus entrasse em movimento para que o despudor dedilhado por sobre o tecido da sua calça fosse confundido com a turbulência do ônibus, que trepidava com a mais sutil arrancada e só repousava quando parava na ponto. A mulher olhava para frente, mas ele imaginava-a olhando a sua performance dissimulada e ela, mordida entre os dentes, tinha nessas imagens o mesmo aspecto sujo e depravado daquela vagina depilada que ele recriava mentalmente envolta de seu pênis.
Volta e meia, esquecia de olhar para o livro e quando se dava conta virava uma página, como se aqueles parágrafos já desgastados tivessem lhe servido os prazeres de uma história contada (e de certa forma serviam). Como não pudesse mais esconder o líquido denso daquela conduta imoral, ejaculou seguidamente - quatro vezes. Gozou tão despreocupadamente que julgou ter a mulher notado o fato. Não importava; ao contrário, isso só tornava mais triunfante aquele excesso.
Coincidentemente ou não, o livro se encontrava aberto em uma ultima página de um capítulo que findava com um pequenino parágrafo. Ele leu:
“Cada um de nós desconfia que possui pelo menos uma das virtudes cardinais – e a minha é esta: sou uma das poucas criaturas honestas que jamais conheci.”
Ele não sabia do que se tratava. Não sabia que livro era. E nem quis saber.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
LIP's
Entraram no quarto e procederam com olhares de reprovação. Parecia um lugar imundo. A cama, desarrumada, revelava sob o lençol que se abarrotava em um canto, as espumas envelhecidas e os tecidos rasgados do colchão que lhes serviria o encosto. Ao lado da cama três pacotes de preservativos largados, abertos e, provavelmente, usados (e não faria o menor sentido se não estivessem). A janela entreaberta oferecia, pelo vão que sobrava, a vista de uma cidade suja e deserta, ainda que brilhassem os letreiros das estâncias do outro lado da rua.
Ele foi até o banheiro, que estava alagado, mijou apoiado sobre as pontas dos pés. Ela largou-se na cama que os dois, antes, haviam ajeitado (esticaram o lençol e o viraram do avesso). Ele, então, deitou ao seu lado e os dois olharam para o teto onde viam seus reflexos num espelho que o cobria, de canto a canto do quarto.
- Espelho no teto me dá uma sensação estranha? - ela disse, sem jeito, como não tivesse nada mais interessante a dizer. Não que algum tipo de embaraço a tomasse, mas era o todo daquele ambiente arquitetado para o sexo que se fazia constrangedor. A sensação de estranheza, em todo caso, se refletia no teto e nas paredes, na janela e no corpo do rapaz que deitava ao seu lado.
Ele virou lentamente a face em direção a ela e começou a acariciá-la. Passou a mão direita sobre as delicadas maças do rosto daquela menina, cuja tenra e morena pele quase se desmanchava ao toque. Ela fechou os olhos.
Ele desabotoou o vestido, soltando um a um os botões do tecido que escondia o dorso juvenil daquele corpo. Empurrou o tecido - já sem os botões como impedimento - para o lado e expôs, àquela semi-luz que entrava pela janela, o mais belo seio que já havia visto. Tocou-o, menos pelo prazer do toque que por não acreditar na concretude daquele ser deliciosamente encaixado no tórax. Levantou a aba do outro lado do vestido, descobrindo também o outro seio. Deixou-se cair sobre aqueles dois, beijando-os compulsivamente. E, enquanto sua língua se espalhava sobre um mamilo enrijecido que se esticava ao beijo, ela acariciava sua cabeça. Na verdade, puxava-lhe os cabelos com força conforme o curto corte que o rapaz exibia permitia puxar. Demoraram alguns minutos nesse processo até que a mão dele deslizasse por entre as pernas da menina, fazendo-a gemer sussurrando acima de sua cabeça. A calcinha, já molhada também por fora, era de um algodão grosso que ocultava, com tanta cobertura, a verdadeira textura daquele pedaço de pele. Não precisou avançar. Ela, percebendo a distância que aquela pequena peça de tecido abria entre o toque de um e o "sentir tocado" do outro, segurou sua mão e a levou vagarosamente para dentro da calcinha. Molhou-se o dedo todo com aquele líquido que escorria e penetrou-a.
Ela não aguentou muito tempo e pediu baixinho:
- Eu quero sentir você dentro de mim. -
Penetrou-a lentamente, primeiro; atendendo a um pedido dela que se dizia "um pouco apertada", para depois seguir com força, até que os dois respirassem pela boca tentando salvaguardar o fôlego daquela investida um tanto agressiva. Ela pediu a ele, como quem pedisse um delicioso favor:
- Goza dentro de mim? – E depois com tom de exigência. – Goza! Goza!
Ele ignorava a semântica. Entedia tudo como fosse parte de um jogo ao qual é necessário que se entregue. Mas ignorava o que realmente diziam aquelas palavras. Ela queria que ele gozasse, simplesmente. Ele, em todo caso, apenas gemia.Até que ela lhe disse:
- Preciso te contar uma coisa. Eu não vou gozar. Eu nunca gozo. - Disse como se fosse a coisa mais natural do mundo e esperava que, assim, desse a ele a liberdade de ter o prazer do coito sem por ela esperar.
Ao contrário, aquilo impactou nele onde a fraqueza era mais exposta. E ainda que se esforçasse para não tomá-lo como pessoal, ainda que tentasse absorver a naturalidade que a menina exalava ao dizer o que disse, foi como se lhe anunciasse uma incapacidade particular de levá-la ao orgasmo, como se apenas no gozo pudesse a razão do sexo estar justificada. - "Bobagem" - pensou ele logo depois. - "Se ela não goza nunca deve haver no sexo algum fundamento de prazer qualquer, senão ela simplesmente não o faria." - E ele sabia mui bem a qualidade precisa daquele argumento, pois também ele tinha no gozo o privilégio de apenas uma ou outra foda que desse - e sentia prazer mesmo assim, pois não o sentisse, teria parado há tempos.
Continuou a penetrá-la com força. Ela, entre um gemido e outro, pediu a ele que gozasse, mais uma vez. Ele – que também sabia que o gozo muito provavelmente não viria – ignorava os pedidos e adicionava mais força ao movimento cada vez que um pensamento dessa improbabilidade do coito vinha à cabeça. Pois ainda que o gozo não chegue e que o advento capital da reprodução não possa justificar qualquer acepção natural do sexo como essa dádiva evolucionária, é sempre a um fim que se caminha, ainda que se faça apenas a passeio; é o andar que pressupõe a parada e não o inverso. E se o fim representado pelo “cansaço” assumido não era tão desprezível assim, também não parecia a ordem mais natural da coisa e roubava do ato um certo conforto psicológico, desses que se traduzem mais na expectativa do destino que propriamente na chegada em termo. Pois ele continuou como se pudesse gozar, como fosse de fato ejacular, dentro ou fora daquela cálida vagina – mesmo que a razão o dissesse o contrário. E, tão logo se deixou perder na suavidade daquela pele e no calor daquele pequenino corpo suado, pôde novamente pender para o irracional que o movia sem qualquer nota.
Como o coito não veio, de um lado ou de outro, os dois se perderam entre as carícias vulgares do sexo e aquelas mais fraternais, quase assexuadas. Prosseguiram a cena com um conversa doce enquanto se olhavam com certa ternura. Ele aproximou seu rosto do dela mais uma vez; ela fechou os olhos (costumava fechar - não havia um sequer beijo ao qual desse ela o mérito do olhar). Ele a beijou. E ela, “em troca”, devolveu-lhe o beijo – o mesmo beijo.
Eram os dois desse um tipo de espíritos vaidosos que pensam que dar prazer é sempre mais digno que receber. Desses que às vezes esquecem que a completude das coisas serve-se sempre pelos dois lados. Que é preciso sentir prazer em dar para que dar seja também o fulcro do recebimento. Pois, ali, tinha-se uma ironia notória: o prazer que os dois recebiam era mais pelo fato de julgarem o prazer do outro que pela experiência mesma e fisiológica que seus corpos proporcionavam.
Ele foi até o banheiro, que estava alagado, mijou apoiado sobre as pontas dos pés. Ela largou-se na cama que os dois, antes, haviam ajeitado (esticaram o lençol e o viraram do avesso). Ele, então, deitou ao seu lado e os dois olharam para o teto onde viam seus reflexos num espelho que o cobria, de canto a canto do quarto.
- Espelho no teto me dá uma sensação estranha? - ela disse, sem jeito, como não tivesse nada mais interessante a dizer. Não que algum tipo de embaraço a tomasse, mas era o todo daquele ambiente arquitetado para o sexo que se fazia constrangedor. A sensação de estranheza, em todo caso, se refletia no teto e nas paredes, na janela e no corpo do rapaz que deitava ao seu lado.
Ele virou lentamente a face em direção a ela e começou a acariciá-la. Passou a mão direita sobre as delicadas maças do rosto daquela menina, cuja tenra e morena pele quase se desmanchava ao toque. Ela fechou os olhos.
Ele desabotoou o vestido, soltando um a um os botões do tecido que escondia o dorso juvenil daquele corpo. Empurrou o tecido - já sem os botões como impedimento - para o lado e expôs, àquela semi-luz que entrava pela janela, o mais belo seio que já havia visto. Tocou-o, menos pelo prazer do toque que por não acreditar na concretude daquele ser deliciosamente encaixado no tórax. Levantou a aba do outro lado do vestido, descobrindo também o outro seio. Deixou-se cair sobre aqueles dois, beijando-os compulsivamente. E, enquanto sua língua se espalhava sobre um mamilo enrijecido que se esticava ao beijo, ela acariciava sua cabeça. Na verdade, puxava-lhe os cabelos com força conforme o curto corte que o rapaz exibia permitia puxar. Demoraram alguns minutos nesse processo até que a mão dele deslizasse por entre as pernas da menina, fazendo-a gemer sussurrando acima de sua cabeça. A calcinha, já molhada também por fora, era de um algodão grosso que ocultava, com tanta cobertura, a verdadeira textura daquele pedaço de pele. Não precisou avançar. Ela, percebendo a distância que aquela pequena peça de tecido abria entre o toque de um e o "sentir tocado" do outro, segurou sua mão e a levou vagarosamente para dentro da calcinha. Molhou-se o dedo todo com aquele líquido que escorria e penetrou-a.
Ela não aguentou muito tempo e pediu baixinho:
- Eu quero sentir você dentro de mim. -
Penetrou-a lentamente, primeiro; atendendo a um pedido dela que se dizia "um pouco apertada", para depois seguir com força, até que os dois respirassem pela boca tentando salvaguardar o fôlego daquela investida um tanto agressiva. Ela pediu a ele, como quem pedisse um delicioso favor:
- Goza dentro de mim? – E depois com tom de exigência. – Goza! Goza!
Ele ignorava a semântica. Entedia tudo como fosse parte de um jogo ao qual é necessário que se entregue. Mas ignorava o que realmente diziam aquelas palavras. Ela queria que ele gozasse, simplesmente. Ele, em todo caso, apenas gemia.Até que ela lhe disse:
- Preciso te contar uma coisa. Eu não vou gozar. Eu nunca gozo. - Disse como se fosse a coisa mais natural do mundo e esperava que, assim, desse a ele a liberdade de ter o prazer do coito sem por ela esperar.
Ao contrário, aquilo impactou nele onde a fraqueza era mais exposta. E ainda que se esforçasse para não tomá-lo como pessoal, ainda que tentasse absorver a naturalidade que a menina exalava ao dizer o que disse, foi como se lhe anunciasse uma incapacidade particular de levá-la ao orgasmo, como se apenas no gozo pudesse a razão do sexo estar justificada. - "Bobagem" - pensou ele logo depois. - "Se ela não goza nunca deve haver no sexo algum fundamento de prazer qualquer, senão ela simplesmente não o faria." - E ele sabia mui bem a qualidade precisa daquele argumento, pois também ele tinha no gozo o privilégio de apenas uma ou outra foda que desse - e sentia prazer mesmo assim, pois não o sentisse, teria parado há tempos.
Continuou a penetrá-la com força. Ela, entre um gemido e outro, pediu a ele que gozasse, mais uma vez. Ele – que também sabia que o gozo muito provavelmente não viria – ignorava os pedidos e adicionava mais força ao movimento cada vez que um pensamento dessa improbabilidade do coito vinha à cabeça. Pois ainda que o gozo não chegue e que o advento capital da reprodução não possa justificar qualquer acepção natural do sexo como essa dádiva evolucionária, é sempre a um fim que se caminha, ainda que se faça apenas a passeio; é o andar que pressupõe a parada e não o inverso. E se o fim representado pelo “cansaço” assumido não era tão desprezível assim, também não parecia a ordem mais natural da coisa e roubava do ato um certo conforto psicológico, desses que se traduzem mais na expectativa do destino que propriamente na chegada em termo. Pois ele continuou como se pudesse gozar, como fosse de fato ejacular, dentro ou fora daquela cálida vagina – mesmo que a razão o dissesse o contrário. E, tão logo se deixou perder na suavidade daquela pele e no calor daquele pequenino corpo suado, pôde novamente pender para o irracional que o movia sem qualquer nota.
Como o coito não veio, de um lado ou de outro, os dois se perderam entre as carícias vulgares do sexo e aquelas mais fraternais, quase assexuadas. Prosseguiram a cena com um conversa doce enquanto se olhavam com certa ternura. Ele aproximou seu rosto do dela mais uma vez; ela fechou os olhos (costumava fechar - não havia um sequer beijo ao qual desse ela o mérito do olhar). Ele a beijou. E ela, “em troca”, devolveu-lhe o beijo – o mesmo beijo.
Eram os dois desse um tipo de espíritos vaidosos que pensam que dar prazer é sempre mais digno que receber. Desses que às vezes esquecem que a completude das coisas serve-se sempre pelos dois lados. Que é preciso sentir prazer em dar para que dar seja também o fulcro do recebimento. Pois, ali, tinha-se uma ironia notória: o prazer que os dois recebiam era mais pelo fato de julgarem o prazer do outro que pela experiência mesma e fisiológica que seus corpos proporcionavam.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Cinco Últimos Parágrafos de Cinco Livros Não Escritos
Já passava da meia-noite, e aquele maldito café vienense ainda entupia-se de gente. Markos insistia que permanecêssemos por lá. O cansaço era grande, meu corpo ainda não se recuperara dos excessos da noite anterior. Deixamos as mochileiras belgas no quarto do albergue e fomos aproveitar a última noite na cidade. Imaginei que fôssemos encher a cara à beira do Danúbio ou algo assim, mas meu amigo insistia que era tomando aquele café que viriam a nós as grandes idéias de uma nova concepção de mundo. "O segredo tá no café, e não volto pro Brasil sem pelo menos um Manifesto", repetia ele, e a cada vez que dizia isso eu lamentava não ter ficado no albergue com as mochileiras. Entre uma orgia com mochileiras belgas e a fundação de uma nova concepção político-artístico-filosófica, a escolha não era fácil, e a cada minuto parecia pender para as belgas. Finalmente convenci meu amigo de que, o que quer que tivesse motivado Schönberg, Wittgenstein e Musil, não era o que se encontrava em nossas xícaras. No dia seguinte, com litros de café destruindo nossos estômagos, estávamos no avião de volta pra casa. Sem qualquer nova concepção de coisa nenhuma, e sem orgia, já que ao retornarmos para o quarto as mochileiras já estavam dormindo, nuas, com um dildo por perto garantindo que havíamos sido substituídos. "Viena de Arschloch é Schwanz", resmungava Markos, como quem diz que a vida já foi mais bela.
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Com este tratado, acredito ter abarcado a totalidade dos problemas filosóficos e, ouso dizer, solucionado boa parte deles. Àqueles que não puderam me acompanhar na cadeia de raciocínio que subjaz o texto, sugiro uma nova leitura, após a qual tenho certeza de que angariarei de vós nada que não a plena concordância. No que tange a comunidade científica, antecipo meu "Não há de quê" aos agradecimentos futuros por minhas contribuições. Afinal, uma vez apresentada tal derradeira ontologia, resta a vocês alimentar vossas contas bancárias e as bocas de vossos rebentos com bolsas de pesquisa saudáveis e divertidas, posto que agora podem brincar de ciência normal sem mais incorrerem no risco de novas crises.
(Tratado Geral da Natureza das Coisas e Muito Mais)
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(Texto autocensurado pra evitar futuros aborrecimentos)
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(Texto autocensurado pra evitar futuros aborrecimentos)
("Retaliação" em Retaliação e Outras Estórias)
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Ao chegar na lanchonete, contemplei meu destino: lá estava o anão salvadorenho, com seu irônico sorriso, como uma nanica e bigoduda Gioconda. Saboreava seu caldo-de-cana enquanto cantarolava junto com uma versão antiga de Guantanamera que tocava no rádio. Todas as peças se encaixavam agora. A Operação Dromedário nunca chegou ao fim. Eu estaria para sempre preso àqueles dias de sangue e terror em Itaquaquecetuba-mirim. Tentei dar meia volta antes que fosse avistado por ele, mas era tarde. A magnum 44 tinha ficado na escrivaninha do hotel, mas avancei sobre ele com um providencial cortador de unhas que havia esquecido no bolso do casaco. Tomado pela sanguinolência, dilacerei seu diminuto corpo. Antes do suspiro final, ainda pude ouvir sua voz rouca, despedindo-se da vida: "Y antes de morirme quiero echar mis versos del alma..."
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Ao chegar na lanchonete, contemplei meu destino: lá estava o anão salvadorenho, com seu irônico sorriso, como uma nanica e bigoduda Gioconda. Saboreava seu caldo-de-cana enquanto cantarolava junto com uma versão antiga de Guantanamera que tocava no rádio. Todas as peças se encaixavam agora. A Operação Dromedário nunca chegou ao fim. Eu estaria para sempre preso àqueles dias de sangue e terror em Itaquaquecetuba-mirim. Tentei dar meia volta antes que fosse avistado por ele, mas era tarde. A magnum 44 tinha ficado na escrivaninha do hotel, mas avancei sobre ele com um providencial cortador de unhas que havia esquecido no bolso do casaco. Tomado pela sanguinolência, dilacerei seu diminuto corpo. Antes do suspiro final, ainda pude ouvir sua voz rouca, despedindo-se da vida: "Y antes de morirme quiero echar mis versos del alma..."
(Operação Dromedário)
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Pouco antes de amanhecer, senti seu corpo se afastar de mim. Com meus olhos ainda embaçados pelo sono, a observava se vestir enquanto procurava ansiosamente por algo a roubar em minha estante, seja como compensação pela noite meia-boca que lhe ofereci, seja por cleptomania. Acabou me furtando, entre outras coisas de menor valor, uma edição original em russo de Brátya Karamázovi do Dostoiévski, que ela certamente escolheu pela capa bonita, dura mas conservada. Eu sabia que a pilantra não falava russo e provavelmente acabaria vendendo aquela preciosidade por uns trocados. Eu também não falo, é verdade, mas pelo menos sei o valor inestimável daquela edição - ou seja, sei que é um valor que não dá pra estimar. Pior do que a subtração do acervo, contudo, foi ouvi-la derrubar tudo o que não convinha aos seus interesses. Passei o restante do dia reorganizando tudo, além de ter que refazer o meu catálogo. Ela não entenderia. Ninguém entende. Para tudo há um lugar, uma ordem, uma um código. Para tudo, uma posição que não se abandona. O que faço não é só um trabalho, é uma atitude diante da vida, algo que os alemães chamam de Lebensgefühl e os psicólogos chamam de Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo; está na hora de ordená-lo nas prateleiras.
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Pouco antes de amanhecer, senti seu corpo se afastar de mim. Com meus olhos ainda embaçados pelo sono, a observava se vestir enquanto procurava ansiosamente por algo a roubar em minha estante, seja como compensação pela noite meia-boca que lhe ofereci, seja por cleptomania. Acabou me furtando, entre outras coisas de menor valor, uma edição original em russo de Brátya Karamázovi do Dostoiévski, que ela certamente escolheu pela capa bonita, dura mas conservada. Eu sabia que a pilantra não falava russo e provavelmente acabaria vendendo aquela preciosidade por uns trocados. Eu também não falo, é verdade, mas pelo menos sei o valor inestimável daquela edição - ou seja, sei que é um valor que não dá pra estimar. Pior do que a subtração do acervo, contudo, foi ouvi-la derrubar tudo o que não convinha aos seus interesses. Passei o restante do dia reorganizando tudo, além de ter que refazer o meu catálogo. Ela não entenderia. Ninguém entende. Para tudo há um lugar, uma ordem, uma um código. Para tudo, uma posição que não se abandona. O que faço não é só um trabalho, é uma atitude diante da vida, algo que os alemães chamam de Lebensgefühl e os psicólogos chamam de Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo; está na hora de ordená-lo nas prateleiras.
(O Biblioteconomista)
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Razão e proporção: a singular matemática da desculpa
Entrei na van, que estava vazia, e me dirigi à ultima fileira - como fazia já no colégio e como ainda hoje faço nas situações mais diversas - sentando no assento à extrema direita (que difere dos outros por não ter banco algum à frente). Interrompendo a progressão das fileiras anteriores, vindo essas em seqüências de 3, a última fileira apresenta 4 assentos - isso porque não se pede ali o espaço deixado ao corredor que vem da entrada até a penúltima, já que, ao rigor das limitações do espaço em profundidade da van, interrompe-se o caminho ali num último renque de 4 bancos.
Mas permaneceu a van vazia por pouco tempo. No ponto seguinte preencheram-se quase todos os espaços restantes, persistindo, entre as exceções, um ou dois assentos à frente e os três lugares à minha esquerda. Não é que minhas feições desagradáveis espantassem os passageiros, preferindo estes, assim, evitar o inconveniente de ter-me como referência em um campo de visão periférica (o mais tangente que fosse), mas o fato d'eu estar sentado ao corredor devia fazê-los ponderar o ingrato exercício de olhar-me na cara e pedir-me licença, quando nos bancos que precediam tinha-se a livre passagem, já que se haviam ocupadas as janelas e, logo assim que entravam os novos passageiros, os que estavam ao corredor - educadamente - passavam ao banco à esquerda, deixando livre o assento mais acessível ao sujeito que acabasse de entrar. Mas se já eu evitava esse educado gesto, era porque me imaginava lutando contra os joelhos e as pernas que eu teria pela frente caso viesse a saltar antes que aqueles que chegaram depois. Enfim, pouco depois - na terceira ou quarta parada, talvez - uma linda morena entrara e sentara ao meu lado, deixando à sua esquerda os dois últimos assentos vagos. Imediatamente fez arder em meu ego o questionamento: Porque será que ela se manteve ao meu lado quando tinha, logo mais à esquerda, espaço para distanciar-se de mim com, ao menos, um assento de distância? Mas logo me dei conta de que, provavelmente, balizava-se ela pela mesma prática lógica que eu quando decidi ocupar o banco mais acessível ao corredor. E isso, aqui, pouco importa, porque esta história não se desenrolará em espécie de romance platônico entre a linda morena e o personagem que narra, visto que menos de 8 segundos se deram entre o instante em que ela sentou-se e o momento decisivo da chegada dos novos passageiros - esses sim dariam argumento ao enredo que aqui se apresenta. Assim, pois, ainda nesse mesmo ponto, uma corpulenta senhora subira na van e, vacilante, viu-se a morena obrigada a tomar o acento à extrema esquerda, prevendo impossível passar aquela mulher pelo vão entre o banco da frente e as suas delicadas pernas. A senhora entrou e eu me espremi na parede do carro abrindo espaço suficiente para sua passagem. Sentou-se ao lado da bela morena deixando um reduzido espaço entre as volumosas pernas recém chegadas e eu. Um espaço considerável e talvez até confortável se o passageiro que viesse a ocupá-lo tivesse proporções de um pigmeu ou fosse magro daqueles a que chamamos, pejorativamente, esqueléticos. O caso era que a mulher que vinha logo a seguir - e subira ela já sem quaisquer dúvidas de que o lugar ocupado seria aquele – possuía fartas ancas e um amplo quadril, o que me fez torcer o nariz (mas não torci de verdade) imaginando o desconforto que me faria companhia durante o resto da viagem. Fez um enorme esforço para passar, contando ainda com um esforço meu proporcional para abrir-lhe passagem, e sentou forçando as fronteiras estabelecidas entre o meu corpo e o corpo da senhora ao seu lado esquerdo.
Não era gorda - e nem a senhora, aliás. Eram desses tipos em que a idade toma para si a incumbência de reforçar o estoque de energia – esse muito necessário se vivêssemos em uma selva ou num pós-guerra em país derrotado, mas absolutamente inútil em uma sociedade industrial e bem capitalizada como aquela. Mas apesar da corpulência ponderável, também a mulher parecia sentir o desconforto moral justificado pelo reconhecimento de que sua garupa excedia razoavelmente os limites atestados pela linha divisória que havia entre os bancos. Mas eu mesmo não pude culpá-la já que o problema, ali, era maior na razão total entre as ancas dela e da senhora ao lado e o espaço insuficiente dos assentos supostamente cabidos a elas, fazendo espremer-me contra a parede do carro ao meu lado direito e, muito provavelmente, também à moça sentada à esquerda na outra janela, embora eu já não pudesse mais vê-la uma vez que, apesar do recurso da visão periférica, ela desaparecia completamente atrás dos corpos avantajados das duas mulheres que se punham entre nós.
E o desconforto que sentira a mulher alguns pontos mais tarde a fez desculpar-se comigo quando, em curva acentuada, fez-me sentir seu peso de forma mais intensa. Isso, também, porque estávamos colados desde o início e qualquer movimento seria, de fato, impossível. Comovido com a necessidade de re-tratamento dela, vi-me obrigado a respondê-la desse modo:
- Não há porque desculpar-se. Não é sua culpa se a razão entre os espaços dos assentos e os tamanhos dos nossos traseiros, nós que dividimos essa fileira, não cumpre por re-estabelecer o equilíbrio, já que também absurda é a consideração de que nossas nádegas devessem ter o tamanho exato dos assentos que ocupamos. O problema aqui é que, ao acaso, não competiu tomar nossos corpos na perfeita ou justa medida da largura do veículo. A culpa, pois, não é sua. É um caso absolutamente circunstancial.
Incompreendendo a sentença, ela me devolveu:
- Hã?!
E vi-me obrigado a redimir minha clareza descritiva e de rigoroso objeto no trivial jargão (em tom conciliador): - Essas coisas acontecem...
E ela se virou satisfeita para frente e continuou a viagem muito mais tranqüila, não pela concordância com o desconforto que eu atribuía meramente à circunstância, mas por se ter feito educada e demonstrado que nada poderia fazer para redimir-se de suas largas e incisivas ancas. Percebo que a faculdade para comunicar e receber comunicação de sentenças que estão, em complexidade, para além de amenidades como perguntar as horas ou pedir um cigarro não está dispersa na massa e se encontra, talvez, restrita a um grupo diminuto de indivíduos que se empenham e conseguem lograr em tal objetividade. Imagino que aquela não faça parte desse estreito grupo. Mas ainda que fosse gorda realmente, eu jamais a poderia culpar, com alguma diligência, pelo meu desconforto.
Mas permaneceu a van vazia por pouco tempo. No ponto seguinte preencheram-se quase todos os espaços restantes, persistindo, entre as exceções, um ou dois assentos à frente e os três lugares à minha esquerda. Não é que minhas feições desagradáveis espantassem os passageiros, preferindo estes, assim, evitar o inconveniente de ter-me como referência em um campo de visão periférica (o mais tangente que fosse), mas o fato d'eu estar sentado ao corredor devia fazê-los ponderar o ingrato exercício de olhar-me na cara e pedir-me licença, quando nos bancos que precediam tinha-se a livre passagem, já que se haviam ocupadas as janelas e, logo assim que entravam os novos passageiros, os que estavam ao corredor - educadamente - passavam ao banco à esquerda, deixando livre o assento mais acessível ao sujeito que acabasse de entrar. Mas se já eu evitava esse educado gesto, era porque me imaginava lutando contra os joelhos e as pernas que eu teria pela frente caso viesse a saltar antes que aqueles que chegaram depois. Enfim, pouco depois - na terceira ou quarta parada, talvez - uma linda morena entrara e sentara ao meu lado, deixando à sua esquerda os dois últimos assentos vagos. Imediatamente fez arder em meu ego o questionamento: Porque será que ela se manteve ao meu lado quando tinha, logo mais à esquerda, espaço para distanciar-se de mim com, ao menos, um assento de distância? Mas logo me dei conta de que, provavelmente, balizava-se ela pela mesma prática lógica que eu quando decidi ocupar o banco mais acessível ao corredor. E isso, aqui, pouco importa, porque esta história não se desenrolará em espécie de romance platônico entre a linda morena e o personagem que narra, visto que menos de 8 segundos se deram entre o instante em que ela sentou-se e o momento decisivo da chegada dos novos passageiros - esses sim dariam argumento ao enredo que aqui se apresenta. Assim, pois, ainda nesse mesmo ponto, uma corpulenta senhora subira na van e, vacilante, viu-se a morena obrigada a tomar o acento à extrema esquerda, prevendo impossível passar aquela mulher pelo vão entre o banco da frente e as suas delicadas pernas. A senhora entrou e eu me espremi na parede do carro abrindo espaço suficiente para sua passagem. Sentou-se ao lado da bela morena deixando um reduzido espaço entre as volumosas pernas recém chegadas e eu. Um espaço considerável e talvez até confortável se o passageiro que viesse a ocupá-lo tivesse proporções de um pigmeu ou fosse magro daqueles a que chamamos, pejorativamente, esqueléticos. O caso era que a mulher que vinha logo a seguir - e subira ela já sem quaisquer dúvidas de que o lugar ocupado seria aquele – possuía fartas ancas e um amplo quadril, o que me fez torcer o nariz (mas não torci de verdade) imaginando o desconforto que me faria companhia durante o resto da viagem. Fez um enorme esforço para passar, contando ainda com um esforço meu proporcional para abrir-lhe passagem, e sentou forçando as fronteiras estabelecidas entre o meu corpo e o corpo da senhora ao seu lado esquerdo.
Não era gorda - e nem a senhora, aliás. Eram desses tipos em que a idade toma para si a incumbência de reforçar o estoque de energia – esse muito necessário se vivêssemos em uma selva ou num pós-guerra em país derrotado, mas absolutamente inútil em uma sociedade industrial e bem capitalizada como aquela. Mas apesar da corpulência ponderável, também a mulher parecia sentir o desconforto moral justificado pelo reconhecimento de que sua garupa excedia razoavelmente os limites atestados pela linha divisória que havia entre os bancos. Mas eu mesmo não pude culpá-la já que o problema, ali, era maior na razão total entre as ancas dela e da senhora ao lado e o espaço insuficiente dos assentos supostamente cabidos a elas, fazendo espremer-me contra a parede do carro ao meu lado direito e, muito provavelmente, também à moça sentada à esquerda na outra janela, embora eu já não pudesse mais vê-la uma vez que, apesar do recurso da visão periférica, ela desaparecia completamente atrás dos corpos avantajados das duas mulheres que se punham entre nós.
E o desconforto que sentira a mulher alguns pontos mais tarde a fez desculpar-se comigo quando, em curva acentuada, fez-me sentir seu peso de forma mais intensa. Isso, também, porque estávamos colados desde o início e qualquer movimento seria, de fato, impossível. Comovido com a necessidade de re-tratamento dela, vi-me obrigado a respondê-la desse modo:
- Não há porque desculpar-se. Não é sua culpa se a razão entre os espaços dos assentos e os tamanhos dos nossos traseiros, nós que dividimos essa fileira, não cumpre por re-estabelecer o equilíbrio, já que também absurda é a consideração de que nossas nádegas devessem ter o tamanho exato dos assentos que ocupamos. O problema aqui é que, ao acaso, não competiu tomar nossos corpos na perfeita ou justa medida da largura do veículo. A culpa, pois, não é sua. É um caso absolutamente circunstancial.
Incompreendendo a sentença, ela me devolveu:
- Hã?!
E vi-me obrigado a redimir minha clareza descritiva e de rigoroso objeto no trivial jargão (em tom conciliador): - Essas coisas acontecem...
E ela se virou satisfeita para frente e continuou a viagem muito mais tranqüila, não pela concordância com o desconforto que eu atribuía meramente à circunstância, mas por se ter feito educada e demonstrado que nada poderia fazer para redimir-se de suas largas e incisivas ancas. Percebo que a faculdade para comunicar e receber comunicação de sentenças que estão, em complexidade, para além de amenidades como perguntar as horas ou pedir um cigarro não está dispersa na massa e se encontra, talvez, restrita a um grupo diminuto de indivíduos que se empenham e conseguem lograr em tal objetividade. Imagino que aquela não faça parte desse estreito grupo. Mas ainda que fosse gorda realmente, eu jamais a poderia culpar, com alguma diligência, pelo meu desconforto.
sábado, 12 de setembro de 2009
A lapa dos desjustados
Já há algum tempo a Lapa vem perdendo sua aura de “lugar de desajustados”. Os desajustados a continuam frequentando, diga-se em respeito, mas já não parecem mais a alma desse negócio de lá, como antes pareciam. Dito isso, vocês devem supor que eu, como imperfeito caractere até no desajuste, já não me sinto tão à vontade por aquelas bandas – e, de fato, a suposição calha. O preço da cerveja subiu vertiginosamente – eis a verdadeira alma do negócio. Já ouvi dizer que era coisa de sexo, drogas e Rock’n Roll. Suspeito que o rock’n roll fique de fora dessa vez. O resto pode ser quantificado e trocado por notas de 10. De 5 ou de 2, muitas vezes. Depende mesmo é da disponibilidade que você tem das notas.
Me lembro que 5 ou 6 anos atrás, a movimentação cessava ali na altura do arco-íris, onde se via o último cabelo loiro bem tratado e último vestido da moda. A partir dali começava a contra-lapa. A “lapa dos mal vestidos”, pra quem gosta de um jargão mais jocoso. Eu me sentava no banco de cimento na sinuca da lapa e estava perfeitamente aberto ao calor absurdo do lugar; acontece que é um lugar pequeno, com muitas mesas e algumas tantas pessoas. O som também era caótico. Eclético. Ruidoso, talvez. Mas reinava uma tolerância discreta que hoje já não mais se vê. Estamparam, na frente do lugar, uma política da boa vizinhança. Da vizinhança boa, digamos. Assim: que entrem os bons vizinhos, eles e os seus bons bens. É tudo muito rasteiro, subliminar. Um letreiro vermelho reluz em neon o nome do estabelecimento. Um nome que, no entanto, já sabíamos todos ainda quando era escrito na parede interna do lugar, com tinta preta. Começaram a cobrar entrada: foi o que me disseram. Mas já aboliram essa prática... pouco importa. A cobrança é ainda feita de uma forma menos vulgar. Um segurança se mantém de pé a frente do lugar, com cara de poucos amigos. São poucos, sim, mas eu pouco duvido que eles tenham mais grana que a média geral dos antigos frequentadores do local.
Me senti impelido a andar mais um pouco. A antiga lapa não me oferece mais o mesmo conforto, o abrigo. Seguindo a Mem de Sá, me deparei com esse lugar indeciso. Eu não conhecia. Achei que a lapa terminasse ali na altura da “casinha da cachaça”, nos limites da Gomes Freire. Não, não. Não mais. Parece que o desenvolvimento acentuado arrastou aquela margem mal assalariada um pouco mais pra direita. Tudo bem, talvez não sejamos tão mal assalariados assim alguns de nós. Mas importa mesmo é a imagem que fica. Bom, o amigo que me acompanhava também ficou surpreso com a disposição do lugar. As mesas se enfileiravam no fundo, quase no mesmo esquema espacial da antiga sinuca, que ainda existia - não pra mim. Santiago sugeriu que entrássemos. Largamos fora as cervejas que trazíamos a mão (isso porque nos proibiram de entrar bebendo, já que aquelas garrafas não houveram sido compradas ali mesmo no estabelecimento) e entramos. Tudo bem, a política é ainda a do lucro, mas como eu disse: “o que vale é a imagem”.
Uma cerveja e três fichas: como reza a remessa que se tem em vista quando apenas dois se metem ao jogo. Ao nosso lado direito 4 mulheres se derretiam ao som sabe-se lá de que variados gêneros musicais que fugiam de uma jukeboxe alimentada pelos mais distintos espíritos que ali fulguravam. Lembrava-me a antiga sinuca, onde o desmedido ecletismo (que se podia ver em uma musica do Led seguida por um funk grosseiro e em, talvez, uma ou outra da legião urbana que figurassem entre clássicos do Steve B) assumia a naturalidade de um diálogo entre Jesus Cristo e Napoleão numa casa de tratamento psiquiátrico. Junto às 4 mulheres um tipo magro e efeminado compunha a cena aos esfregões com as histéricas dançantes, enquanto Eu e Santiago locupletávamo-nos com a crônica, como se uma nostalgia nos invadisse a alma a todo instante nos lembrando que o mundo era também feito de absurdos inofensivos como aquele. A cerveja escorregava pela minha goela como fosse a manteiga descendo por entre os dentes do garfo aquecido; o copo de Santiago, esvaziava-se a cada 45 segundos. Entre uma musica do Red Hot e outra da Claudia Leite – que se fazia ali contingente e, por isso, nem de longe machucava os ouvidos sensíveis da maior parte dos “roqueiros”, que eram, talvez, maioria no lugar – as meninas puxaram as bolsas e saíram.
Chegaram outras duas. Lésbicas. Não preciso aqui descrevê-las. Deixo à imaginação de vocês o que se toma na média por duas lésbicas. Uma delas perguntou alguma coisa a Santiago. Ele sorriu e respondeu. Não consegui ouvir o diálogo, mas certamente não envolvia qualquer componente sexual. Preciso dizer que lésbicas não fazem sexo com homens? A essa altura, paráramos com a sinuca: 9 fichas jogadas, placar: 5 a 4 pra mim. Nada tão disputado, joguei a ultima ficha com vitória já garantida. Sem me gabar. Santiago não é lá muito bom nesse jogo.
De repente, um grupo de 5 se instala na mesa que deixamos à espera. Um casal clássico: a gordinha de preto e o cabeludo roqueiro e magricela; uma ruivinha saliente que se esfregava constantemente no amiguinho viado. Não me entendam mal, é que eu não conheço palavra melhor que essa pra apresentar um viado; e uma baixinha atarracada de pele morena e cabelo encaracolado. Atarracada porque a gravidade parecia ter efeito mais intenso no corpo dela, que se mantinha mais próximo ao chão fazendo-lhe a largura parecer mais visível à volta do tronco. Eu diria gordinha ou fofelete se ele tivesse um pouco mais carne. Não era o caso.
Começou o show. A ruivinha dançava orbitando lascivamente o rapaz que eu outrora chamara viado. Chamarei novamente, me desculpem – ele era mesmo viado. Consciente de que aquele não me oferecia qualquer concorrência, fixei meu olhar na garota. Ela satisfazia, também, as exigências de um certo tipo “roqueira”. Blusa branca estampada, shortinho preto curto, onde, no limite, descia uma meia-calça escura com um ou outro pequeno rasgo. Na perna direita, no entanto, a meia-calça começava um pouco mais tarde, deixando uma pequena faixa de pele exposta. Era a minha deixa. Comentei o caso com o Santiago. Ele retorquiu: “Será que é proposital?” Respondi-lhe que se fosse, ela ganharia mais alguns pontos. Levantei-me e fui até ela.
- Diz uma coisa. Esse pedacinho de perna exposta é proposital mesmo ou o acaso de uma meia-calça mal posicionada? – Disse cheio de lascívia.
Ela sorriu. – É que a meia desse lado ta um pouco mais frouxa. É sem querer, acredite. – Me disse mordendo os lábios. Aihh, aquela vadia...
Nesse meio tempo a amiga atarracada se aproximou com meia garrafa de Brahma. A ruivinha tomou da mão dela, virou a garrafa e disse que viraria ainda que estivesse cheia. Senti como uma indireta. Puxei uma Brahma e entreguei na mão dela. Ela tentou virar. Foi até a metade. Com muito esforço virou o resto em mais dois ou três goles. Senti que o “casal clássico” conversava alguma coisa a respeito com Santiago. Me virei pra eles e a gordinha disse:
- Cara, ela faz essas coisas. Fica provocando e as pessoas acabam dando bebida pra ela, mas isso não vai dar em nada.
Me senti ofendido. Não porque ela fosse a tal provocadora. Ela era e eu sabia. Mas porque julgou o casal que eu não seria suficiente pros meus próprios objetivos para com a garota. Respondi-lhes em defesa:
- Eu entendo. Mas to tranqüilo. Faz parte da brincadeira né? Como é a medalha dada a um Usain Bolt por uma façanha qualquer como correr muito rápido. Digamos que a cerveja é a justa medalha que ela merece. – E voltei a sentar ao lado do Santiago.
Ela não merecia. Não mesmo. Que se foda, ou vai ou racha!
Santiago reiterou o argumento do casal: “Ela é uma ‘teaser’, cara. Uma provocadora.”
Há algum tempo que se seguia música após música a voz do Eddie Vedder vindo das caixas de som. Algum fã qualquer do Pearl Jam, jogou 5 ou 6 fichas e nos encheu com, talvez, meia hora de “Ten”. E a vadia dançava que dançava. Não me olhava diretamente. Mas fazia cara de quem queria olhar. Vocês entendem o que eu quero dizer? É um olhar sem olhar, mas com sorriso, saca? Ela andou até jukebox procurando algum título especifico. Cheguei do lado dela e sussurrei no seu ouvido alguma coisa indecente. Talvez o conteúdo nem fosse indecente, mas era possível saber a indecência pelo meu tom de voz. Ela saiu. Deixou a espera uma musica do Prince. Maldita vadia. Saquei dois reais da carteira e coloquei a musica. Com os outros dois créditos restantes coloquei duas músicas do Dire Straits. Porque não queria perder muito tempo ali e essas estavam logo na cara, mas também porque satisfazia a noção do ecletismo que pedia o lugar logo após o Black sexual do Prince (se não me engano era Kiss).
Ela ficou excitada. Percebeu que tinha ganho aquela também. Se sentou ao lado do amigo viado. Eu tomei lugar na cadeira do outro lado, do lado dele. Comentei com ele: “Ela é uma teaser, né irmão? Sacana...” Ele se riu e confirmou. Ela percebeu que conversávamos e entrou no meio pegando a mão dele e acariciando-a sensualmente. Explicou logo depois que os dois moravam juntos. Que ele a via de calcinha regularmente. Uma imagem um tanto desnecessária naquela conversa perdida, não fosse a intenção dela, a de me provocar. Pensei: “Basta.” Puxei a mão dela até a entrada do bar, onde a calma era mais convidativa. Ela se deixou puxar. Segurei-a pela cintura e ela então se esquivou. Me disse: - Eu tenho namorado, não to interessada em nada disso!
Eu forcei mais um pouco e soltei essa: - Olha, eu não me importo. Se você quiser chama ele e a gente faz uma sacanagem juntos! – Ela riu um pouco sem graça e me empurrou com mais veemência. Disse, dessa vez com ênfase: Não! Não quero. – E voltou pra lá onde estavam os amigos. Segui de volta. Quando cheguei, a cabeça de Santiago tombava para o lado enquanto ele se esparramava na cadeira. Estava dormindo. Dei-lhe um tapa no braço que semi-apoiava a cabeça tombada e ele acordou no susto. Perguntou: “E aí?” Eu respondi: “Me deu toco.” E ele, em perfeita sincronia com os meus pensamentos: “Vadia!”. Finalmente alguém com algum bom senso, além de mim, naquela porra.
Quando o grupo se preparava pra ir embora, a amiga baixinha veio ter comigo. Não lembro bulhufas do que ela disse. Sei que a puxei pela cintura e roubei um beijo sem muita força. Ela se deixou beijar. Parei por uns segundos e percebi: Ela se queria beijada. Beijei novamente. Mencionei que era preta? Pois é. Não era “preta preta”. Mas um “preta” que bem se mostra sob a alcunha do “moreninha”. Entende? O bronzeado era natural e o beiço carnudo. Bom, perdi o voto de uma mais minoria, eu sei. Mas a honestidade ta aí, pra quem quiser ler. E sabe o que mais? Tomei a morena por troco - é essa a verdade. E a ruivinha que lá se foda, sabendo que a cerveja e as três músicas estavam pagas e bem pagas.
Eles se foram. Santiago voltara a dormir:
- Acorda seu puto! Vambora...
Vinte reais a menos no bolso e a mesma sensação da saída na sinuca da lapa de 5 anos atrás na bagagem. Doidera mermão! Vinte reais... Nada proletário demais, mas, também, nem assim tão burguês. A lapa dos desajustados...
Me lembro que 5 ou 6 anos atrás, a movimentação cessava ali na altura do arco-íris, onde se via o último cabelo loiro bem tratado e último vestido da moda. A partir dali começava a contra-lapa. A “lapa dos mal vestidos”, pra quem gosta de um jargão mais jocoso. Eu me sentava no banco de cimento na sinuca da lapa e estava perfeitamente aberto ao calor absurdo do lugar; acontece que é um lugar pequeno, com muitas mesas e algumas tantas pessoas. O som também era caótico. Eclético. Ruidoso, talvez. Mas reinava uma tolerância discreta que hoje já não mais se vê. Estamparam, na frente do lugar, uma política da boa vizinhança. Da vizinhança boa, digamos. Assim: que entrem os bons vizinhos, eles e os seus bons bens. É tudo muito rasteiro, subliminar. Um letreiro vermelho reluz em neon o nome do estabelecimento. Um nome que, no entanto, já sabíamos todos ainda quando era escrito na parede interna do lugar, com tinta preta. Começaram a cobrar entrada: foi o que me disseram. Mas já aboliram essa prática... pouco importa. A cobrança é ainda feita de uma forma menos vulgar. Um segurança se mantém de pé a frente do lugar, com cara de poucos amigos. São poucos, sim, mas eu pouco duvido que eles tenham mais grana que a média geral dos antigos frequentadores do local.
Me senti impelido a andar mais um pouco. A antiga lapa não me oferece mais o mesmo conforto, o abrigo. Seguindo a Mem de Sá, me deparei com esse lugar indeciso. Eu não conhecia. Achei que a lapa terminasse ali na altura da “casinha da cachaça”, nos limites da Gomes Freire. Não, não. Não mais. Parece que o desenvolvimento acentuado arrastou aquela margem mal assalariada um pouco mais pra direita. Tudo bem, talvez não sejamos tão mal assalariados assim alguns de nós. Mas importa mesmo é a imagem que fica. Bom, o amigo que me acompanhava também ficou surpreso com a disposição do lugar. As mesas se enfileiravam no fundo, quase no mesmo esquema espacial da antiga sinuca, que ainda existia - não pra mim. Santiago sugeriu que entrássemos. Largamos fora as cervejas que trazíamos a mão (isso porque nos proibiram de entrar bebendo, já que aquelas garrafas não houveram sido compradas ali mesmo no estabelecimento) e entramos. Tudo bem, a política é ainda a do lucro, mas como eu disse: “o que vale é a imagem”.
Uma cerveja e três fichas: como reza a remessa que se tem em vista quando apenas dois se metem ao jogo. Ao nosso lado direito 4 mulheres se derretiam ao som sabe-se lá de que variados gêneros musicais que fugiam de uma jukeboxe alimentada pelos mais distintos espíritos que ali fulguravam. Lembrava-me a antiga sinuca, onde o desmedido ecletismo (que se podia ver em uma musica do Led seguida por um funk grosseiro e em, talvez, uma ou outra da legião urbana que figurassem entre clássicos do Steve B) assumia a naturalidade de um diálogo entre Jesus Cristo e Napoleão numa casa de tratamento psiquiátrico. Junto às 4 mulheres um tipo magro e efeminado compunha a cena aos esfregões com as histéricas dançantes, enquanto Eu e Santiago locupletávamo-nos com a crônica, como se uma nostalgia nos invadisse a alma a todo instante nos lembrando que o mundo era também feito de absurdos inofensivos como aquele. A cerveja escorregava pela minha goela como fosse a manteiga descendo por entre os dentes do garfo aquecido; o copo de Santiago, esvaziava-se a cada 45 segundos. Entre uma musica do Red Hot e outra da Claudia Leite – que se fazia ali contingente e, por isso, nem de longe machucava os ouvidos sensíveis da maior parte dos “roqueiros”, que eram, talvez, maioria no lugar – as meninas puxaram as bolsas e saíram.
Chegaram outras duas. Lésbicas. Não preciso aqui descrevê-las. Deixo à imaginação de vocês o que se toma na média por duas lésbicas. Uma delas perguntou alguma coisa a Santiago. Ele sorriu e respondeu. Não consegui ouvir o diálogo, mas certamente não envolvia qualquer componente sexual. Preciso dizer que lésbicas não fazem sexo com homens? A essa altura, paráramos com a sinuca: 9 fichas jogadas, placar: 5 a 4 pra mim. Nada tão disputado, joguei a ultima ficha com vitória já garantida. Sem me gabar. Santiago não é lá muito bom nesse jogo.
De repente, um grupo de 5 se instala na mesa que deixamos à espera. Um casal clássico: a gordinha de preto e o cabeludo roqueiro e magricela; uma ruivinha saliente que se esfregava constantemente no amiguinho viado. Não me entendam mal, é que eu não conheço palavra melhor que essa pra apresentar um viado; e uma baixinha atarracada de pele morena e cabelo encaracolado. Atarracada porque a gravidade parecia ter efeito mais intenso no corpo dela, que se mantinha mais próximo ao chão fazendo-lhe a largura parecer mais visível à volta do tronco. Eu diria gordinha ou fofelete se ele tivesse um pouco mais carne. Não era o caso.
Começou o show. A ruivinha dançava orbitando lascivamente o rapaz que eu outrora chamara viado. Chamarei novamente, me desculpem – ele era mesmo viado. Consciente de que aquele não me oferecia qualquer concorrência, fixei meu olhar na garota. Ela satisfazia, também, as exigências de um certo tipo “roqueira”. Blusa branca estampada, shortinho preto curto, onde, no limite, descia uma meia-calça escura com um ou outro pequeno rasgo. Na perna direita, no entanto, a meia-calça começava um pouco mais tarde, deixando uma pequena faixa de pele exposta. Era a minha deixa. Comentei o caso com o Santiago. Ele retorquiu: “Será que é proposital?” Respondi-lhe que se fosse, ela ganharia mais alguns pontos. Levantei-me e fui até ela.
- Diz uma coisa. Esse pedacinho de perna exposta é proposital mesmo ou o acaso de uma meia-calça mal posicionada? – Disse cheio de lascívia.
Ela sorriu. – É que a meia desse lado ta um pouco mais frouxa. É sem querer, acredite. – Me disse mordendo os lábios. Aihh, aquela vadia...
Nesse meio tempo a amiga atarracada se aproximou com meia garrafa de Brahma. A ruivinha tomou da mão dela, virou a garrafa e disse que viraria ainda que estivesse cheia. Senti como uma indireta. Puxei uma Brahma e entreguei na mão dela. Ela tentou virar. Foi até a metade. Com muito esforço virou o resto em mais dois ou três goles. Senti que o “casal clássico” conversava alguma coisa a respeito com Santiago. Me virei pra eles e a gordinha disse:
- Cara, ela faz essas coisas. Fica provocando e as pessoas acabam dando bebida pra ela, mas isso não vai dar em nada.
Me senti ofendido. Não porque ela fosse a tal provocadora. Ela era e eu sabia. Mas porque julgou o casal que eu não seria suficiente pros meus próprios objetivos para com a garota. Respondi-lhes em defesa:
- Eu entendo. Mas to tranqüilo. Faz parte da brincadeira né? Como é a medalha dada a um Usain Bolt por uma façanha qualquer como correr muito rápido. Digamos que a cerveja é a justa medalha que ela merece. – E voltei a sentar ao lado do Santiago.
Ela não merecia. Não mesmo. Que se foda, ou vai ou racha!
Santiago reiterou o argumento do casal: “Ela é uma ‘teaser’, cara. Uma provocadora.”
Há algum tempo que se seguia música após música a voz do Eddie Vedder vindo das caixas de som. Algum fã qualquer do Pearl Jam, jogou 5 ou 6 fichas e nos encheu com, talvez, meia hora de “Ten”. E a vadia dançava que dançava. Não me olhava diretamente. Mas fazia cara de quem queria olhar. Vocês entendem o que eu quero dizer? É um olhar sem olhar, mas com sorriso, saca? Ela andou até jukebox procurando algum título especifico. Cheguei do lado dela e sussurrei no seu ouvido alguma coisa indecente. Talvez o conteúdo nem fosse indecente, mas era possível saber a indecência pelo meu tom de voz. Ela saiu. Deixou a espera uma musica do Prince. Maldita vadia. Saquei dois reais da carteira e coloquei a musica. Com os outros dois créditos restantes coloquei duas músicas do Dire Straits. Porque não queria perder muito tempo ali e essas estavam logo na cara, mas também porque satisfazia a noção do ecletismo que pedia o lugar logo após o Black sexual do Prince (se não me engano era Kiss).
Ela ficou excitada. Percebeu que tinha ganho aquela também. Se sentou ao lado do amigo viado. Eu tomei lugar na cadeira do outro lado, do lado dele. Comentei com ele: “Ela é uma teaser, né irmão? Sacana...” Ele se riu e confirmou. Ela percebeu que conversávamos e entrou no meio pegando a mão dele e acariciando-a sensualmente. Explicou logo depois que os dois moravam juntos. Que ele a via de calcinha regularmente. Uma imagem um tanto desnecessária naquela conversa perdida, não fosse a intenção dela, a de me provocar. Pensei: “Basta.” Puxei a mão dela até a entrada do bar, onde a calma era mais convidativa. Ela se deixou puxar. Segurei-a pela cintura e ela então se esquivou. Me disse: - Eu tenho namorado, não to interessada em nada disso!
Eu forcei mais um pouco e soltei essa: - Olha, eu não me importo. Se você quiser chama ele e a gente faz uma sacanagem juntos! – Ela riu um pouco sem graça e me empurrou com mais veemência. Disse, dessa vez com ênfase: Não! Não quero. – E voltou pra lá onde estavam os amigos. Segui de volta. Quando cheguei, a cabeça de Santiago tombava para o lado enquanto ele se esparramava na cadeira. Estava dormindo. Dei-lhe um tapa no braço que semi-apoiava a cabeça tombada e ele acordou no susto. Perguntou: “E aí?” Eu respondi: “Me deu toco.” E ele, em perfeita sincronia com os meus pensamentos: “Vadia!”. Finalmente alguém com algum bom senso, além de mim, naquela porra.
Quando o grupo se preparava pra ir embora, a amiga baixinha veio ter comigo. Não lembro bulhufas do que ela disse. Sei que a puxei pela cintura e roubei um beijo sem muita força. Ela se deixou beijar. Parei por uns segundos e percebi: Ela se queria beijada. Beijei novamente. Mencionei que era preta? Pois é. Não era “preta preta”. Mas um “preta” que bem se mostra sob a alcunha do “moreninha”. Entende? O bronzeado era natural e o beiço carnudo. Bom, perdi o voto de uma mais minoria, eu sei. Mas a honestidade ta aí, pra quem quiser ler. E sabe o que mais? Tomei a morena por troco - é essa a verdade. E a ruivinha que lá se foda, sabendo que a cerveja e as três músicas estavam pagas e bem pagas.
Eles se foram. Santiago voltara a dormir:
- Acorda seu puto! Vambora...
Vinte reais a menos no bolso e a mesma sensação da saída na sinuca da lapa de 5 anos atrás na bagagem. Doidera mermão! Vinte reais... Nada proletário demais, mas, também, nem assim tão burguês. A lapa dos desajustados...
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