segunda-feira, 28 de maio de 2012

Um filósofo, um travesti e um papagaio


Três homens caminhavam por sobre o couro calvo da cabeça de um gigante, este sentado em uma cadeira minúscula, que estaria, certamente, mais adequada às proporções daqueles três que encimavam o monstro que ao próprio senhor, cujo peso que sustentava sobre a cadeira  era pelo menos vinte mil vezes maior que o indicado pelo fabricante do assento para uma utilização supostamente segura. A cabeça calva daquele senhor, no entanto, oferecia espaço suficiente para que os três cavalheiros circulassem pensativos, de lá para cá, em provável busca por resposta a pergunta que se havia formulado segundos antes do início da cena. E se os pequeninos pés sobre sua cabeça não o incomodavam é porque nas mãos o gigante trazia um livro que roubava cada centímetro de sua atenção (que poderia também ser medida em litros tão prontamente uma conversão fosse solicitada) fazendo-o ignorar esses antropomórficos insetos que lhe bagunçavam o escalpo.

O primeiro senhor, baixo e gordo, trazia no rosto um enorme bigode, que alguns anos antes havia sido companhia de uma vasta barba e cabeleira. O cabelo, embora um pouco mais ralo, se mantinha sobre o cucuruto, mas a barba havia sido vítima de uma curiosa alopécia que o acometeu na região do queixo e das bochechas, determinando a queda gradual de todo aquele pelo que antes envolvia seu rosto, deixando agora apenas um bigode, solitário conquanto orgulhoso, dando ares de lusitano ao homem que atendia pelo título de filósofo - e se lhe fosse questionado o dado, imediatamente ele puxaria do bolso uma sumária e irrepreensível identificação indicando a veracidade da titulação.

O segundo, de cabelos longos, fartos seios e trajando um vestido vermelho justíssimo, era, em verdade, um travesti. Caminhava pensativo e rebolante enquanto girava uma pequena bolsa na altura da cintura quase onde terminava o vestido, que assim deixava expostas as coxas e boa parte das nádegas. O primeiro cavalheiro o teria tomado por mulher, não fosse ele mesmo filósofo, ou seja, homem de cuja sabedoria se poderia destilar com suficiente raciocínio as desavenças entre as configurações de gênero que atestavam o homem não ser, de fato, mulher.

O terceiro homem, consideravelmente menor que os outros, sustentava o corpo verde coberto por penas (ou o corpo coberto por penas verdes, desde que os olhos que enxergassem fossem suficientemente conscientes para se dar conta de que o corpo embaixo das penas não tinha cor, uma vez que não podia ser visto) sobre duas estreitas garras que marchavam, em passos comedidos, à direita e à esquerda. Era, na realidade, um papagaio. Nesse ponto um leitor poderá reclamar contradição a minha iniciação nesta narrativa: “Como poderia ser um homem e ao mesmo tempo um papagaio esse senhor?” - A esse leitor, justifico que não há contradição alguma. Tratava-se de um papagaio e não de um homem e se foi dado a entender de outro modo num primeiro instante, deve o leitor considerar-me com mais cuidado e recúo. Entenda, pois, esse que vos narra não é seu amigo e não tem, portanto, a pretensão de lhe ser honesto todo o tempo. O caso é que o papagaio falava e, se lhe fosse perguntado sobre a razão de ser ou não homem, poderia muito bem responder ao revés de sua condição aparente. E nesse caso poderíamos tomar por mentiroso menos o narrador - que atendendo a descrição de si dada pelo pássaro se faria enganar sobre os fatos - que o próprio papagaio, esse sim galante na astúcia tanto quanto sórdido na resposta, uma autêntica e inescrupulosa rapina da boa moral e do senso de ética. Mas isso não aconteceu, pois o papagaio, assim como os outros dois homens, se punha a pensar na questão desconhecida que impulsionara a narrativa; e essa não versava, muito provavelmente, sobre os termos da sua condição espécime.

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Repare o leitor, que a cena constituía-se em presença das figuras descritas e seus acessórios e da pequena cadeira. O espaço a volta, não tendo sido posto em diligente descrição, poderá ficar a critério daquele que imagina. Como sugestão – apenas no sentido da sugestão, todavia – eu mesmo recomendaria como cenário, o fundo de um aquário decorado com uma carcaça de um pequeno navio de plástico, por onde levantariam pequenas borbulhas de ar a cada cinco segundos, corais e algas reluzentes desenhados ao fundo, como num papel de parede perfeitamente encaixado aos moldes do vidro do aquário. Nesse caso, deverá o próprio leitor dispor da imaginação necessária a ajustar nesse quadro a figura do gigante sobre a pequena cadeira com o livro em mãos e os três senhores (um dos quais, papagaio) e suas devidas proporções para que não se desvaneça a harmonia da cena.
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Após segurar os olhos sobre livro durante algum tempo, pareceu que alguma outra coisa chamou sua atenção, quando a parte escura e circular de cada olho seu começou a ganhar movimento circular dentro das devidas órbitas, como que indicando uma dispersão imperativa, fosse por vasculharem esses olhos o espaço em busca de um inseto voador sobre cujo zumbido não se teve notícias nesse lado da história, ou fosse um surto convulsivo iminente que tomasse forma a medida que algum dispositivo fisiológico no corpo do gigante o fizesse perder o controle das esferas oculares. Os olhos pararam-se e ouviu-se, então, um reco-reco barulhento como o de uma serra, conforme uma estreita linha se desenhava na altura da testa pouco acima das sombrancelhas. Alguns segundos depois da linha atravessar toda a testa, desde uma visão frontal – e, portanto, parcial – do gigante, o barulho cessou. Os três cavalheiros se desviaram de seus pensamentos, preocupados com aquele som que se iniciara e terminara como no resoluto ecoar de uma ação objetivamente desdobrada no tempo e finda bem sucedida, se entreolharam e fizeram caretas quando sentiram o chão abaixo de seus pés mover-se. Naquele instante, como uma catapulta arremessando aquelas criaturas outrora pensantes, foi assim que se seguiu quando, descolado na altura da linha traçada na testa, o tampão da cabeça do gigante se abriu, alavancando da direita para a esquerda aqueles três e se pode ouvir seus gritos – vozes minúsculas e agudas como agora se podia vê-los quando o gigante assumia proporções de um homem mediano. Só, então, foi possível enxergar com nitidez o título que estampava a capa do livro que o homem tinha nas mãos, sobre uma cadeira ainda inadequada ao seu tamanho.

Dizia o título: “A metafísica onde menos se espera” e concluía com um subtítulo bastante sugestivo: “Homens domesticam cachorros, cachorros domesticam pulgas, e as pulgas domesticam os deuses, por P. S. Higgs” 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Uma raposa



De pelo escuro, dentes afiados, corria sobre quatro patas ágeis e coordenadas.

Não! Engano meu... não era uma raposa, mas um rato.

E roeu todo queijo que lhe servi gentilmente sobre uma pequenina ratoeira de prata.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

The Kiss



‘You are the prettiest girl I have ever met,’ the boy timidly said, being that his shyness, the shyness that made him hunch his shoulders, was equivalent to the desire that urged him to speak. The girl smiled and hesitated to respond. Even though she had seen the insecurity of the boy as a weakness, she couldn't help feeling a flattering enchantment provoked by those words coming from such a candid creature. In the same timid manner she replied: ‘Thank you.’ It must be noticed, none the less, that her shyness was flirtatious and nothing more.

 

The boy, standing in the opposite side, instantly filled himself with confidence, resembling a rosebud that, in an instant, blooms within the rocks, the earth and those trees that retain with the world a perception extended throughout the decades and centuries. He slowly guided his hands to hers, taking them in with his eyes. Returning his gazed once more toward her face he said: ‘I wish I could look at you all day, all the time.’ The pause he made before continuing did nothing other than give echo and profoundness to the words that would follow: ‘Your smile reminded me that things still more beautiful than words can spring from the lips.’

 

Its not to say that poetry is for women, particularly the young such as she, a more powerful aphrodisiac than the body and the hormones; but only that the vanity that shapes the more philistine female behavior requires that there be more substantiality in the approach than a kiss taken by force or surprise. And since her eyes were now all for his, the smile – that just one second ago was the strength and the grace of an unsuspecting praise – dissolved itself in the pressing of the lips that called for the boy to advance and act in reason of all that empathy. As his face slowly moved in, her face accordingly indicated a meeting. Then, from his lips, proud and impatient for narrating the moment, slipped the following words: ‘It’s now or never.’

 

In the exact instant the words reached the air, the girl – in accordance with an irreprehensible symmetry that gave just proportion to the demerit of the last verse – extended her hands to the boys chest interrupting his movement and inquired: ‘What did you say?’ But no answer was necessary since the ears that heard the sentence with such shock were the same attentive ears that had previously been delighted with the teasing and boasting that had taken place. And so she declared her indignation shaking her head and repeating two or three times, searching for the right intonation: ‘I can’t believe it!’

 

Thus, before the boy could explain, correct or maneuver his conduct facing such imminent failure, she turned her back and uttered a single word: ‘Never!’

 

In poetry, as in prose, it follows that every word – innocent as it may seam – is subjected to the previous; and the sentence that is read or heard in a moment leaves behind in time and memory the one that precedes it. Just as it happens when a dog in search of an animal senses its smell more evident and present the more recent the passing of that animal, such is the way a poet should face its reader. In the case of the dog being the one holding pen and paper, the trail shall be that which exudes from his own tail and nothing more.

sábado, 21 de abril de 2012

A prosa do impressionista

Contornos disformes se destacavam nos semitons e nas sombras as quais sugeriam volumes àquelas superfícies que se dispunham num espaço inteiramente constituído de substância viscosa e plasmática. Compreender que alguma diferença de densidade entre duas pequenas massas - que se movimentavam a parte de todo resto substancial presente, num espaço nem definido por um contorno preciso (como um quadro) menos ainda estendido para além de alguns metros quadrados que a consciência menos precisa pudesse perceber – e a massa que as envolvia no espaço seria o suficiente para tomá-las como organismos em desenvolvimento de alguma vida que se situasse ali. Mas isso porque uma tentativa de compreensão como essa ignorasse o colorido efusivo e inquieto que se movimentava dentro das formas. As cores, de todo modo, eram também repletas de alguma vida e se poderia ver nelas também formas se a imprecisão do contorno formado entre uma cor e outra vizinha, muitas vezes gradações sutis de um mesmo tom, fosse deposta por uma visão absoluta em que se veria cada cor como uma apenas, fazendo as manchas que se derramavam em luminosidades contorcidas sobre toda a superfície, e mesmo nas formas avolumadas no espaço tridimensional, se consolidarem em formas concisas e presentes, quando já a tridimensionalidade se dissolveria numa imagem plana e as massas, que antes se personificavam na idéia de um espaço materialmente tangível, se subtrairiam a nada. E se fosse possível imaginar um diálogo que através daquele cenário fizesse falar a personalidade de cada cor-criatura ali depositada ao lado e ao estreito de uma outra - quando já mesmo nem o espaço existisse senão uma malha obturada de criaturas-cor justapostas em um enredo que se desenvolvia conforme as mudanças de posição, sutis em alguns cantos e mais bruscamente em outros – esse diálogo assim se daria, se os ouvidos que ouvissem fossem capazes de traduzi-lo: - Sou! – Disse um vermelho pleno de si e consciente da própria unidade que sustentava sua forma. E, então, de ombros dados a um vermelho vizinho, um tanto mais escuro que ele mesmo, refaria a declaração numa dúvida direcionada ao caro semelhante (completamente outro na homogeneidade estendida da forma, mas repleto de uma natureza similar que o próprio vermelho reconhecia, reconhecendo no outro a presença daquele mesmo vermelho que era ele mesmo em pureza) : - Sou mesmo? – Mas esse outro, que ladeava toda aquela forma central – cujo formato, nunca antes definido numa língua conhecida em apenas uma palavra, é aqui indescritível – em um contorno que parecia repetir, em tamanho ampliado, a forma daquele em seu centro, não lhe deu resposta e se limitou a divagar em uma sentença retórica: - Ah, a dúvida! A eterna dúvida.- A locução se propagou daquelas duas criaturas para as que se dispunham ao redor, alcançando outras manchas ao centro de outras em outros cantos da imagem. Verdade que a cada cor-criatura só era dado ouvir àquela imediatamente ao seu lado, e não fosse por essa razão em um determinado momento seria possível ouvir um burburinho que se inflamava desde aquela primeira questão até derivadas outras que assumiam complexidade em contexto, do mesmo modo como as cores que se movimentavam e davam vida a uma imagem confusa e sem fundo. - Sei que há algo antes de mim e, provavelmente, algo também depois. Não posso ver, tocar, ou ouvir, mas alguma natureza dedutiva de meu intelecto é capaz de supor que se há algo de lado meu e há algo também do outro, deve haver também lados aos lados desses que me ladeiam. – Disse um lilás que formava um anel ao redor de azul estático que se punha dele ao centro em forma elíptica. Enganava-se, pois, uma vez que tal azul que o lilás tomava ser, por razão de um pensamento indutivo (e não dedutivo como ele mesmo pensava), também o lado de fora de um outro dentro estava preso aquele perímetro e ouvia somente a voz de seu amistoso vizinho. E logo se pôs a argüir o azul: - Lado?! Do que se trata? – Nesse momento, o paciente lilás tentou sumariamente explicar àquela ingênua criatura, sem ter acesso ao conhecimento da topologia indivisível daquela elipse: - Quando digo lado me refiro a uma idéia tal como a de posição em que as coisas participam com as outras de uma maneira espacialmente distinta, tal como há uma posição determinada a você aqui e uma outra determinada a outro em posição também outra.- Mas o azul incompreendeu aquela fala uma vez que, não haver tido a experiência de uma situação tal como a que enfrentava naquele momento o lilás, o impossibilitava de dar aqueles termos significantes, significados condizentes com os pretendidos pela subjetividade da cor sua parceira única em uma existência visível e limitada. Ao mesmo tempo que o lilás, não havendo experimentado a posição central daquele azul que estabelecia para esse uma topologia monolítica, era incapaz de conceber tal centralidade e, por isso, incapaz de reconhecer tal realidade mesmo que em palavras a criatura elíptica houvesse vindo a ela dizer. De quando em quando, o movimento das cores se encontrava em uma imagem que fazia lembrar aquela cena primeira em que o aspecto ali visível ganhava materialidade ao dispor de uma substância plasmática que parecia conter aquelas tantas cores, e novamente era possível reencontrar as duas formas distintas em massas sem forma definida que pareciam se movimentar em destaque, fazendo de todo o resto apenas espaço, cenário, paisagem. E também a essas formas seria possível atribuir um diálogo se os ouvidos a espreita deixassem-se imergir no silêncio profundo que se afogava naquele plasma, pois ouviriam não conforme esses modelos emitissem som algum, mas porque seriam ouvidos imersos no absoluto de uma consciência que se desprendia visível, porquer seria uma consciência própria da imagem visível. Diria, então, uma das massas a qual parecia circular ao redor da outra (essa em movimento mais lento): - Comprei um aspirador de pó da Electrolux e uma semana depois o filha da puta já não funcionava mais. Acredita? – No que a massa mais vagarosa respondeu enquanto parecia girar entorno de si mesma – Foda-se! Eu lá quero saber do seu aspirador de pó?! Vai contar essa história pras suas piranhas! Nesse momento, as formas e cores ganharam distância e reconheci-me eu mesmo em posse de visão embaçada e sem definição. Depois de alguns segundos, a imagem ganhou foco e percebi que se tratava da cidade iluminada por sobre um pequeno muro na subida da Rua Joaquim Murtinho em Santa Teresa. Dois homens ganhavam distância subindo a rua e eu, ainda um pouco atordoado, me iniciava num juízo bastante indiscriminado sobre aquela vista, como quem pensasse que um admirar tal como aquele em que eu me investia a uma vista da cidade do Rio de Janeiro à noite fosse mérito particular de uma consciência individualmente determinada e repleta de uma capacidade de juízo singular a que nenhuma outra consciência teria acesso e que, por isso, ao invés do elogio declarado que parecia iminente, deveria eu dar razão ali apenas ao silêncio.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Dois críticos debatem teoria literária.

O primeiro, sentado de frente para o apoio de costas da cadeira, onde ele apoia um dos braços enquanto o outro gesticula conforme a sua argumentação: - O texto politiza uma cena ordinária através de uma representação animalizada da luta de classes. A adolescente faz as vezes de uma burguesia tirânica, mas ao mesmo tempo lacônica, sem voz. Os cabelos coloridos enumeram as cores da superficialidade dessa classe, o consumo vazio, letreiros iluminados anunciando produtos sem razão ou significado. Os cachorros, no entanto, falam. Como na revolução de George Orwell, eles tomam consciência da linguagem através de uma investigação aproximada do mundo. É a mancha que lhes chama a atenção e os incita ao diálogo, mas não a mancha porque é visível, como a mancha porque tem cheiro. Trata-se de uma busca por essências e a revolução virá conforme esses animais perceberem que a mostarda, símbolo do capitalismo em voga, não os alimenta e o seu cheiro não é senão uma forma em sinestesia da conhecida visualidade superficialista dessa sociedade de consumo.

O segundo crítico, sentado a frente do primeiro, com as penas cruzadas delicadamente, repousa uma das mãos sobre o joelho enquanto na outra ele maneja um cigarro que leva a boca regularmente em um movimento carregado de expressão e efeminado: - Devo discordar de você, meu caro! A representação não tem em vista alguma revolução, muito pelo contrário. Não é a luta de classes que se lê nessas linhas, senão a própria rigidez de uma estrutura engessada concebida no âmbito de uma religião monoteísta. Os cachorros são conduzidos, ainda que em nenhum momento essas amarras da condução estejam explícitas; não se fala de coleiras ou correias, perceba você. No entanto, a adolescente, que é descrita secundariamente como fosse coadjuvante no enredo, tem papel central nessa estrutura; ela conduz. Os cachorros tem o dom da palavra e conversam entre si, mas o diálogo não chega aos ouvidos da adolescente que permanece alheia na narrativa. Ela é a própria metafísica, e a maneira como é representada sob a face de uma adolescente rebelde dignifica uma ironia sutil no interior do texto: a metafísica, não sendo acessível pelos sentidos (pela visão dos cachorros ou pelo olfato, que seja, que permanece recluso ao dispor insignificante de uma mancha de mostarda) deve ser imaginada tal qual um personagem, uma alegoria. Trata-se de uma adolescente de cabelos coloridos, mas poderia ser um mergulhador trajando um escafandro ou um homem em trajes antigos com barba e longos cabelos.

Por aí, a discussão se estende.

Mais tarde, entra em cena, uma ovelha. Ela cumprimenta os senhores críticos com um gesto positivo que faz com a cabeça e se senta no chão, sobre as patas traseiras. Inicia assim seu discurso: - Não pude deixar de notar que os senhores falavam a respeito de um texto em que dois animais ensejam um diálogo súbito e que parece dar margem as mais diversas teorias prevendo símbolos e alegorias que, talvez, e os senhores hão de convir que isso é uma hipótese razoável, não estivessem lá pensadas originalmente. Mas eu não vim aqui para cotejar uma declaração sobre as intenções iniciais do autor, nem para dizer-lhes equivocados em respeito as suas teorias, de outro modo, tomo o lugar apenas para encetar a minha própria teoria. Penso nos cachorros como a celebração do instinto. O autor, tivesse ou não em mente esse caráter impulsivo e natural da escrita, escreveu, simplesmente. Deu margem as imagens que o assaltaram em criação inoculada dentro de uma imaginação selvagem e escreveu. – Nesse momento, a ovelha faz uma pausa para se coçar; coça-se na altura das costelas com uma das patas traseiras, e continua – Ora, não é curioso que também a menina que se forma em sua imaginação tenha aparência incomum? A verossimilhança, quando confrontada com a imaginação mais bruta parece sempre referida por um aspecto significativo dessa brutalidade da linguagem, que deposita sobre as imagens uma sonoridade vulgar e conforma um quadro familiar e compreensível com seu interlocutor ainda quando das imagens originadas no absurdo. Mas a natureza dessas imagens é indiscutivelmente selvagem: o moicano sobre a cabeça da moça, os cachorros em diálogo, a mostarda, ah, a mostarda! Esse tempero tão ordinariamente ácido e indigesto. Devemos lembrar, que em qualquer das hipóteses, trata-se de um animal empunhando as palavras...

Antes que a ovelha terminasse seu discurso, um senhor idoso trajando uma fantasia de Super-homem invade a sala, interrompendo a locução da ovelha e pergunta diante do grupo: - Aqui é que acontecem as aulas de defesa pessoal contra insetos e aracnídeos? – O cavalheiro com o cigarro na mão, já quase a queimar-lhe os dedos, respondeu ao senhor: - Não meu senhor. Aqui estamos debatendo teoria literária conforme o título do texto indica. Apenas essa ovelha intrometida é que não tem razão de ser, e agora o senhor, é claro. De todo modo, as aulas de defesa pessoal contra insetos e aracnídeos acontecem na sala 403, logo no fim do corredor. – O senhor pede desculpas e se retira. O efeminado então atira ao chão o cigarro, que a essa altura constava apenas do filtro, e desviando o olhar do senhor a ovelha, sugere a retomada: - Você dizia...?

A ovelha olha para um lado e para o outro e em tom de fofoca, indaga ao cavalheiro que acabara de lhe dirigir a atenção: - Querida!! Quem é essa criatura esquisita que acabou de cair de para-quedas?!? – E o senhor, já excitado e totalmente entregue aos trejeitos que o particularizavam desde o inicio da cena: - Meu amor, isso aqui é assim todo dia! Uns bofes esquisitíssimos aparecem toda semana para essa aula de defesa pessoal contra insetos e aracnídeos. As vezes você esbarra com um com tentáculos pelo corredor, as vezes uma senhorinha quase batendo as botas com um par de óculos tãaaoooo démodé! Mas querida – e nesse momento o crítico olhou firme nos olhos da ovelha e fez as vezes de quem lhe daria um conselho: - A aula é ótima! Acho, inclusive, que você deveria se inscrever pra ver como é. Vi você aí se coçando e você sabe que pulga é aracnídeo, num sabe?

Nesse momento, a ovelha deu as costas ao cavalheiro erguendo ao alto o pescoço como que ofendida com a insinuação do crítico e saiu da sala sem nem ao menos um “bééé”. Os críticos se entreolharam e como que não entendessem a reação do animal, se levantaram, juntaram seus papéis e caminharam juntos até o elevador do prédio. Pelo corredor, esbarraram ainda com dois caquéticos senhores: um índio e um policial. E tiveram ainda o desprazer de testemunhar a nudez do homem obeso que, fantasiado de Adão, não tinha suficiente proteção para quantidade absurda de carne e pele que transbordava de seus ossos. Já no elevador, e antes que se despedissem, um disse ao outro: - Essa gente é horrível! – O outro respondeu logo em seguida: - Definitivamente uma gente horrível!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu

Dois cachorros, conduzidos por uma adolescente sustentando um moicano colorido sobre a cabeça, pararam-se diante de uma mancha no chão da calçada e se puseram a cheirar com intensa curiosidade. Então, um disse ao outro: - É mostarda!

O outro, imediatamente retrucou: - Com certeza é mostarda!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Humanista demasiado humanista

Brincadeira de criança. Profunda poesia pro tipo de inocente alma que se redime no encanto de imediatia com o outro. Bela figura desenhada por dentro das molduras tortas de um quadro de madeira pendurado sem planejamento na parede da sala. Mas as crianças conservam a mesma crueldade implícita ao instinto que vemos na labuta das Hienas sobre uma carniça tomada a força a outro carnívoro. E nem mesmo o mais insensível humanista será capaz de dizer que não há beleza na visão, de luta e sangue, estampada em uma tela de TV de 40 polegadas, do documentário referente sobre savanas africanas. Também o humanismo tem os seus limites. Ele acaba no ponto justo em que nos exige certa tolerância com as diferenças, certo relativismo de teor cultural, etário, ou inter-espécie. Porque o humanista, quando concede ao leão devorar outro animal sob o rechaço da tolêrencia, ele deve assim proceder: dizer do leão não-humano. Da mesma forma precisa admitir que um paquistanês que submete sua mulher, não estendendo a ela a liberdade que ele próprio garante a si, deve ser visto por certa lente de desumanidade para que não se impute a ele essa condenação que o humanista deve fazer a tudo que, entre os homens, não é humano. Ora, também uma criança aos 5 anos de idade é perdoada pelo tratamento injusto, vexativo e desproporcional de um semelhante sob a máxima tão difundida do "é apenas uma criança", como quem diz na verdade, "ela não é humana, ainda." Mas o perdão é uma virtude cristã e não uma ferramenta humanista. A tolerância por outro lado é o recurso mais a mão para um dessa classe e, no entanto, é fulcro de uma hipocrisia marcada no centro desse culto. O humanista não é tolerante porque é humano, mas porque priva o outro - em seu sentimento de alteridade - desse humanismo que ele mesmo assume ser algo como uma verdade fundamental: o outro, em sua visão, é digno pela falta de humanidade: é digno porque, apesar da indgnidade, não se pode pedir a todos que estejam a par desse conceito difuso e inconstante que é a verdade, que ele mesmo precisa duvidar por força de uma natureza humanista maior que traz ainda em seu bojo uma simpatia acentuada com relativismo. É, então, que o humanismo se perde. Não pode ser humanista se, em seu discurso, o paquistanês e a criança não são tão humanos quanto ele mesmo, insuspeito e incorruptível. Não pode ser humanista se o flerte com certo relativismo o induz a duvidar da verdade que é, todavia, pilar de toda sua razão: todos os humanos são iguais. Torna-se, assim, um demagogo. E ainda hoje as fronteiras que deveriam separar um e outro não são diáfanas e a imposição de um julgamento não pode ser feita com a mesma clareza e infalibilidade com que julgamos e condenamos o autoritário "humanismo" católico durante a idade média.

Pois quanto mais cedo os humanistas perceberem o risco corrente que sua ideologia enfrenta sob a suposta vernaculidade do relativismo em que se deixam confortar-se, serão forçados a tomar partido. Mas que partido será esse? Eis o problema que enfrentarão ainda que tenham ciência das suas limitações. Poderão comprometer-se com o risco do erro, sabendo que sua tolerância é tão parcial quanto uma medida extrema? Resta saber se será capaz de condenar e de que natureza será a condenação. Pois se o humanismo é o que se prega - e se deve pregar - entre os homens, o que será feito daquele que entre esses não é, assim, tão humano? Terá ele liberdade dos predadores na savana africana, ou a restrição de alguns dos mamíferos num zoológico urbano.

Não é a moral que deve conduzir esses homens, mas menos ainda será a falta dela a lhes trazer liberdade.