domingo, 27 de maio de 2018

Uma crônica bem humorada






A van pára e a porta se abre, deslizando como um pedaço inerte de matéria sendo movido por um dispositivo autômato qualquer, uma mulher de mãos dadas com uma criança - de, talvez, 6 anos de idade – segura a mochila do filho pela alça, enquanto projeta a criança para dentro da van, oferecendo o impulso necessário para que o pequeno ultrapasse o obstáculo que é a alta soleira do veículo para as suas reduzidas dimensões. Depois de concluída essa ação, pede ao menino que se segure enquanto coloca a mochila também lá dentro. O próximo passo é subir ela mesma, com as dificuldades que seu peso corporal, aparentemente, impõe. Apesar do esforço, ela tem êxito na tarefa e agora procura um lugar para si e para o filho, quando ouve, vindo de trás do veículo, um voz carregada de intimidade se dirigindo a ela:

- Dona Neuza! O que tá fazendo a essa hora na rua?! Fazendo hora extra – Diz o homem, provavelmente, em referência ao horário em questão, algumas poucas horas depois do final do chamado expediente comercial.

A mulher identifica imediatamente um assento e dirige a ele o seu filho, antes mesmo de responder ao senhor que lhe teve a palavra. Ele sentado, ela devolve: “Minha hora extra é essa aqui!” - enquanto sacode levemente o menino pelo pulso, fazendo dele ao mesmo tempo seu protegido e objeto da conversa que tem em mente. Mas o menino é já suficientemente perspicaz para entender do que se trata e reage, sem nem ser convidado na conversa: “Sou hora extra não! Sou filho!”

A mãe ironiza a fala do menor, pouco versado nas paródias sociais da qual ela toma parte: “É filho?! Filho de quem?! Do seu pai?” - o garoto permanece silente, sem resposta, enquanto ela completa – "Só se for filho dele mesmo, porque pra mim você só dá trabalho.”

O menino fecha a cara e faz bico, sem argumentos para defender sua própria condição de produto de uma cadeia familiar específica, enquanto a mulher se desvia dele e retoma a conversa que se havia iniciado com o senhor no fundo.

- Hora extra que nada! O patrão perde os dedos pra não dar hora extra, seu Walter. - se refere ela ao fato do custo de um tal expediente não ser vantajoso para o seu empregador, mas também deixando emergir da sua fala um julgamento da personalidade do homem em questão - ganancioso a tal ponto que entregaria falanges e metacarpos para não se ver estreitado pelas margens nos seus preciosos rendimentos.

- É, dona Neuza... Se não tá fácil pra eles, imagina pra nós. - diz seu Walter, sempre com um toque de irreverência na voz, como quem pratica alguma intencionada política de coleguismo, mas sem deixar de mencionar que existe no enredo um “nós” e um “eles”, porque é, afinal, um senso particular de identidade que media sua relação amena com a mulher em diálogo e, porque, o outro é quase sempre, por alguma razão, aquele que os expõe a uma situação de transporte como aquela, que se não é a pior possível, tampouco é de algum modo agradável.

“Não tá fácil pra eles?!” - ela questiona a fala do homem - “Que isso, seu Walter?! O senhor já ouviu reclamação de patrão? - e completou como quem muito antes já houvesse domesticado a resposta - “Reclamação de patrão é sempre coisa pouca e bobagem.”

E arracou do “velho” umas boas risadas que, de tão honestas, contagiaram a mulher e provocaram sorrisos coadjuvantes à volta. Pois, riram os dois sonoramente e por alguns segundos mais e quando cessaram, foram imediatamente capturados pelo rosto enfurecido do menino que, a um só tempo decidido e atrapalhado em continência do choro iminente, falava alto, gritava quase: “João! João! Meu nome é joão e eu sou filho! Hora extra o caramba!”

Teriam todos gargalhado por horas a fio não fosse o cansaço do dia acumulado e a obrigação de, em algum momento, retirar o dinheiro do bolso e entregá-lo ao motorista.

Dinheiro na mão e um rosto sério e esse é o retrato final. Pois nem dona Neuza, nem seu Walter têm de sobra tempo, nem ânimo pra fazer da história contada uma “crônica bem humorada”, como o seu condutor gostaria.



segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Formigamento




Ah! Os neurônios se agitam
Sentido esse do atraso,
acaso, comunicante acaso
Nervos pálidos, calados
são vítimas eleitas
d’uma pressão momentanea
seja opressão deliberada ou subcutânea

Mas essa paixão é elastica
e do estado compresso retorna
de um borrão expandido uma forma
e novamente um sentido
que o ouvido da mente recorda
antes tão crú não se via
agora arde, dorme e chora

Não tenha medo, membro amigo
levante-se, é só uma parestesia
mexa os dedos e sinta
você é a voz que comanda
a dor é um grito contido,
transborde
pois és da forma um lamento

quarta-feira, 14 de março de 2018

O busto de Hera






Felipe, de 11 anos, pula de cima da cama com um boneco empunhado e alcança uma massa de brinquedos depositada no chão, projetando a figura que tem em mãos como se se dispondo a atacar um inimigo cruel, a quem não se deve conceder abono nem na fantasia mais inocente. Do outro lado do quarto, Luis, prestes a completar se décimo segundo ano de vida, organiza uma fortaleza com caixas de sapato e livros, para servir de base ao exército de plástico que mantém ao seu redor. Silencioso, trabalha diligente naquela organização enquanto, vez por outra, levanta a cabeça para observar a movimentação do amigo.

Trata-se de uma brincadeira em comum, mas em que os dois participantes, em juízo de duas personalidades muito distintas respectivamente, encontram prazer e motivação. Felipe, aos golpes e gritos, encenando situações de combate e, eventualmente, narrando sua própria continuidade. Luis, concentrado, escolhendo posições estratégicas e exercitando seu talento em encontrar soluções arquitetônicas, que deveriam satisfazer tanto aos desígnios da diplomacia entre amigos quanto à guerra fictícia que se anuncia como cenário em vista.

A mãe entra no quarto e interrompe a ação, ordenando indulgentemente às crianças a seguir para a cozinha, onde o lanche se faz à espera. No caminho do quarto à cozinha, encontram-se o pai e a avó de Luis, sentados no sofá, assistindo à Tv, calados. O pai tem consigo um copo de refrigerante, enquanto a avó se entretem à mão com um de Whisky. A sala se estende como um largo corredor entre a porta do quarto e a abertura que inicia a cozinha, mas a resignação dos dois diante do aparelho determina que a única atenção dirigida à cena pelas crianças se direcione aos ruídos que se projetam da televisão para fora, da qual se pode ouvir com clareza apenas a voz do apresentador de um programa de auditório, que tanto reconhece o despropósito do show que se limita a ler as indicações de roteiro no prompt eletrônico, incluindo aqui e ali uma expressão indiomática qualquer para dar cor a uma fala que não enaltece senão o enfado da proposta.

Durante a refeição, Felipe explica a Luis seus planos para o grupo de soldados que se encontram sob seu comando, enquanto Luis, com os olhos e ouvidos atentos ao amigo, mastiga apropriadamente cada pedaço que, com uma ou duas mordidas, arranca do sanduíche. Vez por outra, pergunta sobre uma qualquer irrelevância, mas apenas para garantir ao outro a atenção que, de fato, investe em seu interlocutor.

Ao cair da noite, após muitas idas e voltas, brincadeiras findas e reniniciadas, a mãe de Luis retorna ao quarto e anuncia aos garotos que a hora de deitar se aproxima. Ela explica a Felipe onde ele deve dormir e orienta - em mãos com uma toalha, entregue a ele em seguida – o menino que siga para o banho. Luis, no conforto e intimidade de sua própria casa, cuida de si e esforça-se ao máximo para que o amigo não se sinta deslocado. Por exemplo, quando lhe pede um copo d’água, conduz-o ao armário em que se guardam os copos e lhe apresenta a garrafa com água na porta da geladeira, sem contudo tomá-la consigo, dando a entender ao menino que abra a geladeira e se sirva sempre que desejar.

Já deitados, a luz se apaga. Alguns minutos em silêncio e Felipe chama o amigo: “Você tá acordado ainda?!”

Luis responde: “O que é?” - com economia, mas sem a intenção de ser rude.

Felipe, então, explica que alguma coisa se forma em seu peito, um desconforto sutil, mas suficiente para tirar-lhe o sono. Ao mesmo tempo em que se articula para explicar-se ao amigo, começa a entender do que se trata. Percebe-se, subitamente, “longe de casa”. Longe de toda aquela estrutura que, nos últimos 11 anos, havia sido a sua fortaleza. Pai e mãe - os dois que até ali se afirmaram como a linha de frente sempre disposta a protegê-lo do menos anunciado perigo - lá não estão. Ansiedade e melancolia se misturam. Ele levanta o tronco e se enconsta na cabeceira da cama. Pede a Luis que acenda a luz.

Luis atende, imediatamente. Em seguida, fixa o olhar no rosto do colega por alguns segundos e pergunta, um pouco constrangido, mas com curiosidade genuína: “Você tá chorando?”

Felipe limpa o rosto imediatamente, mas sem efetivamente negar a pergunta, diz que sente falta da mãe.

Luis não sabe o que fazer e acaba batendo na porta do quarto dos pais – a quem pede ajuda. O pai pergunta: “O que a gente faz?” - Transferindo imediatamente à mãe a responsabilidade de tomar uma decisão em ação.

A mãe segue ao quarto, conversa com Felipe tentando acalmá-lo. Ele retém o choro, mas as lágrimas ainda assim escorrem, enquanto ele explica que não está acostumado e dormir fora de casa. Ora, ele mesmo talvez não imaginasse que o cair da noite traria todos aqueles sentimentos à tona; que o entusiasmo do dia se transformaria em medo e insegurança e em todo aquele sussurrar de vozes ausentes pela casa toda vez que a luz se apaga e o silêncio quase absoluto novamente se instaura. Repetem o ritual uma, duas, três vezes. Depois disso, a mãe desiste e decide que a única solução razoável é deixá-lo à própria sorte, pensando, talvez, que o amadurecimento também pede certos sacrifícios. Isso porque, àquela hora, não seria nem prático nem razoável ceder à fraqueza do menino, também porque seus pais morassem a pelo menos 40 minutos de carro dali.

Levantou-se, então, a avó, não sem algum dificuldade. Não porque ao corpo envelhecido faltasse força, mas porque lhe faltava equilíbrio, e o andar cambaleante se justificava à medida que sua passagem espalhava o cheiro de álcool, que lhe evadia do corpo, pelo hálito e pelos poros - pelo hálito, principalmente.

A essa altura, conversavam as crianças com a luz do quarto acesa. Porque Felipe não conseguisse dormir, compreendera Luis que, também ele, não dormiria, oferecendo-se, então, como única opção, e opção mais correta, aquela de oferecer companhia ao colega, ainda que deitado à cama e com lençóis esticados sobre o corpo, dos pés ao peito.

A avó entrou no quarto e, junto com ela, o cheiro de alcool. Ficaram os dois em silêncio, mas os olhos vermelhos e umedecidos de Felipe acusavam o choro que precipitou toda a situação.

“O que tá acontecendo aqui?” - Perguntou a avó, e soluçou uma vez.

Explicou Luis: “O Felipe não consegue dormir.”

“Não consegue dormir por que?” - Retrucou a avó sem muita delicadeza.

Nesse instante, a figura ameaçadora da mulher embreagada e pouco compassiva, pressionava ainda mais o sentimento de insegurança que se acumulava dentro do menino que, antes de uma resposta de Luis em vista, tomou parte no diálogo, não conseguindo, no entanto, evitar as lágrimas e o choro à medida que dizia: “Eu... sinto... falta da minha… da minha mãe. Eu preciso... da minha mãe...”

A senhora engoliu a seco a própria pergunta em espanto. Estava absolutamente surpresa que um rapaz daquela idade ainda se dispusesse a caprichos como aquele. Mas o espanto passou e logo deu lugar a irritação. Ela perguntou uma vez: “Precisa da sua mãe?!” - e repetiu, mudando o rítmo da sentença, impregnando nela um misto de zombaria e despeito: “Precisa da sua mãe, é?!” - acrescentou ainda: “Precisa da sua mãe pra que?! Pra te dar ‘mamá’?!” - já quando a zombaria se tornava tão evidentemente, que sobrava às crianças apenas a atenção e os olhos arregalados. Deixou cair a alça do sutiã, puxou para fora com a mão direta o seio do mesmo lado, que imediatamente murchou e se espalhou sobre a mão enrugada, ao mesmo tempo sustentando e balançando o peito na frente do garoto, enquanto gritava: “Mama aqui, ó! Você quer mamá?! Então mama aqui, seu muleque mimado! Mama!”

Performou durante quase 1 minuto, até retornar a um estado de animo mais ameno e se retirar do quarto, sem dizer mais nada. Com ela, foi-se embora o cheiro de álcool. As crianças apagaram as luzes e fecharam os olhos, não se sabe porque dispostas mesmo a dormir e tentar esquecer por algumas horas a nada ortodoxa cena, ou apenas por medo de que acontecesse mais uma vez, ainda que já naquele instante, no escuro das palpebras, ruminavam os traumas prováveis que naquela noite tiveram origem.

A avó voltou ao seu quarto, apoiando-se pelas paredes. Pensava, quase arrependida: “Será que eu fui muito longe?!” - mas logo se justificativa: “Não se deve dar moleza a uma criança mimada. Hoje chora porque está longe da mãe, amanhã porque não conseguiu a vaga de emprego. O mundo é um lugar dificil...”

Nem trauma, nem disciplina. Para ela, cada um a lidar com suas próprias emoções. As dela, certamente afloradas pela bebida, repercutiam naqueles a sua volta como as deles repercutiam nela. O menino roubou-lhe o sono, teve em resposta o que teve. Cada um conduzindo a si mesmo - e por conta própria – ao que se deve tornar. “O que não nos mata, nos deixa mais fortes”, teria ela pensado se a fraseologia nietzschiana lhe estivesse à disposição. Não estava, ainda que o espírito dionisíaco lhe caísse a caráter.
Deitou a cabeça no travesseiro, virou-se para o lado e começou a roncar.


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Juizo




A realidade é um sentimento ao redor do qual posiciono as coisas que vejo, que ouço e ignoro. Eu sinto o meu corpo, em toda intangibilidade do tato, sinto a cada instante estas células que se comprimem a dar volume a essa forma, que suponho seja como uma linha seguindo por todo e cada um dos pontos dessa epiderme que encontra seu sentido mais diligente no contato com o ar . Exceto pelas solas dos pés, que sentem sobre si o corpo todo, esse emaranhado de células ao mesmo tempo tão estranho e tão íntimo a essa consciência que os reconhece e os dá unidade.

O rúido cumpre, da mesma forma, um desenho sonoro em vista de um objeto que, da ponta dos dedos ao couro cabeludo, também ouve. E elabora a compreender que à imagem que avança a partir de um objeto qualquer fora de si pertence também uma voz. Tal é a conversa silenciosa que a consciência do corpo trava com o mundo. Ao mesmo tempo os conecta e os separa, como a pontuação sintática de um parágrafo cheio de ideias a comunicar.

O corpo é; e assim permite a todos os outros corpos que sejam; e pede gentilmente ao espaço que não seja; ao silêncio que negue; e à ausência que ignore. Encontram todos seu lugar no mundo, esse cômodo tão estreito que contém apenas o que se sente, se ouve e se vê, mas nunca além das bordas desse campo sem dimensões que o corpo lhe empresta. Damos a ela um nome e, prontamente, ela é também. A realidade. Ai de quem duvide!

Ainda assim, nada explica o prazer ou o desgosto. Pois o juizo é uma fantasia absurda. A ele não importa quem seja e quem seja ausência. E o corpo é dele refém, a todo instante que é de si consciente. Sente o frio que congela a pele, mas gosta. Sente o aroma do café ebulindo e, no entanto, detesta. Não importa o que seja a realidade, cabe sempre ao juizo uma nota de aprovação, um valor-sentimento, uma legenda, resumindo tamanha complexidade a um capricho deliberado.

E tudo mais - tempo e espaço e essência - não tem em si outro significado que não o de serem, em dado instante, de um juizo objeto. Diga-me o que quiseres do tempo, eu te direi como me sinto a respeito. Descreva-me o mundo pelas lentes da mais meticulosa ciência e, ainda que eu nada compreenda, terei uma nota de gosto a dar. Porque meu acesso ao mundo não se dá pela pele, pelos olhos ou pelos ouvidos. Também não se dá pela palavra – essa que tão frequentemente nos entorta os sentidos. O mundo é, afinal, a voluntária e inegociável constante de um nele sentir-se como deveras se sente.

O átimo, o íntimo e o étimo, de todo modo, são todos ótimos.



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O coração do mundo




Andava pela rua cabisbaixo, cansado, faminto. A passada em stacatto das pernas articuladas em sincronia com os braços soltos, pendulares, e entre um lance e outro de vista, um pensamento em sincronia com o a fome dos desejos populares - aqueles mesmos do encanto com as imagens em tela.

Na sua frente, um aparelho celular chama sua atenção numa bancada num corredor de barracas enfileiradas, em uma zona de comércio ao ar livre, sem muros. Percebe-o ao mero alcance da mão. Poderia simplesmente pegá-lo, e, afinal, não basta apenas querer? Não, não basta… e retorna ele a olhar para o chão e, com a cabeça baixa, segue seu caminho. A esperaça de um futuro melhor em recompensa pelo comportamento “correto”, mantém a passada em curso - sem desvios ou imprevistos.

beatius est magis dare, quam accipere... A recompensa é a ilusão dos ovinos.


Não que o impulso seja a premissa de toda ordem de uma tal natureza, mas, muitas vezes, é a esperança o grilhão que convém questionar.  

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Tome Nota!





Então, eu havia parado de tomar notas. Percebi-me completamente outra pessoa, pois, aquele de antes, sempre disposto a tomar notas das ideias mais incabíveis era uma criatura sã e consciente de si – uma contradição tão harmoniosa quanto a própria palavra, já que a consciência de si conserva um parentesco inevitável com a loucura. Afinal, a consciência de si é a própria negação da vida, resultado do fluxo incessante no qual o mundo - a envolver-nos com suas coisas de mundo - faz de nós parte dele. Quanto menos conscientes de nós mesmos, mais nos permitimos ser com o mundo, e isto é o resumo próprio da sanidade.

Mas nas ideias que deixamos pra trás, pintam-se retratos de uma realidade que nos apresenta o mundo em singular clareza. Por isso mesmo, a sanidade difere essencialmente da consciência de si, que é lucidez, clareza… a sanidade , por outro lado, é contraste, instável, indeterminada – é encontrar-se no fluxo ininterrupto das ideias sem prender-se a nenhuma delas. Mas ideas, veja você, todos as tem, o tempo todo. Diferem, no entanto, aqueles que tomam notas, alcançando-as – as ideias – fora da água corrente da vida ela mesma. Percebem-se, então, como seres pensantes, porque pensam ideias e, em dado momento, param-se nelas, interrompendo a sequência inabitável dos pensamentos que dão margem a própria vida. Recortam - no mar das coisas pensadas, passadas e presentes – um instante impregnado de um sentido tão particular, que não é possível ter os dois ao mesmo tempo: a vida e o pensamento. Porque a vida é o movimento dos passos que se ultrapassam, e o pensamento é o momento preciso da chegada do pé ao solo.

Foi quando parei de tomar notas que o tempo correu, como quem corre ao supermercado para comprar café, açúcar ou batatas. Nimguém é, de fato, consciente de si enquanto compra batatas e, no entanto, é a sanidade necessária para comprá-las. Mas quando tomo notas, reconheço que as ideias existem em si e por si; eu mesmo existo porque as concebo e as circunscrevo à parte da vida mesma, mas posso deixar-me novamente perder no fluxo incessante que a sanidade me pede, porque tenho naquelas inscrições pontuais um recipiente seguro para esse líquido semitransparente que são as ideias. Tomar notas, alguns dizem, é a atitude dos acumuladores, guardando caixas e partes sem todo, apenas porque esperam que o mundo que agora os rejeita, recorra novamente a eles, num tempo ainda não desdobrado… mas a memória também é acúmulo. Foi, pois, quando parei de tomar notas que me vi sem importância para um eu futuro – um eu que tangencia a consicência do agora, mas que se projeta adiante, como um membro que se alonga para alcançar aquilos que os olhos apenas veem a distância. O homem que se pára diante de um pensamento, reflete a si mesmo, como ali houvesse um espelho, o pensador indisfarçável de uma ideia, mas ao refletir essa imagem, anuncia também uma criatura nova e que se transforma a cada movimento da luz no espaço.

Tomo, assim, mais essa nota – da frustração dirigida de quem há muito não as tomava - a vida vivida sem elas, parecia-me menos sã, ainda que mais salutar... talvez porque me tenha acostumado a pensar-me como alguém que as toma.

Mandarei escrever na minha lápide, tomando a nota em pedra: “Também não há mal algum em comprar batatas, ainda que as batatas nada digam de ti. Pois, somos mesmo, apenas até onde nossa fome nos dá permissão.”


A vida, de qualquer modo, é outra coisa… e não cabe na nota.

sábado, 22 de julho de 2017

O Capuccino

Sentado numa mesa lateral em um café esperando alguém. Vira-se para o garçon e pede um capuccino. Retorna, em seguida, a si, com olhar baixo, e inicia consigo mesmo o diálogo, em silêncio:

Como começar uma conversa com um amigo que não se vê há tempos? Pergunto pela família? Eu soube que ele se divorciou da mulher e, em algum lugar da memória, encontro a vaga menção a um filho doente.. leucemia, caxumba? Não tenho certeza agora. Talvez seja melhor não fazer referência a família e, para não pagar de deseducado, lançar um comentário na iminência da despedida; algo como: “espero que esteja tudo bem com a família”. Assim, evito as complicações do assunto e ao mesmo tempo faço menção a estes outros indeterminados, com boa fé cristã e simpatia moderada - desobrigando-o, de qualquer modo, de uma resposta provavelmente inoportuna. Posso perguntar sobre o trabalho. Não, isso não! Nesses tempos de crise, paira sempre a possibilidade de se estar desempregado. Além disso, estamos em uma idade em que, se não é a crise econômica a nos chicotear, uma crise interna vem nos dizer com frequência da insignificância e inutilidade social daquilo que fazemos no exercício da profissão (certa vez conheci um perfumista: e a lembrança certamente vale para ilustrar o caso). Responder-me-ia com pesar no primeiro caso e provavelmente evasivo no segundo. Ninguém aprecia, de fato, a ideia de desabafar as próprias frustrações e fracassos com o amigo eventual, dos encontros bienais quando muito. Aliás, pra tais frustrações o melhor amigo é o próprio ego, que não nos poupa por comiseração as suas verdades, mas, fazendo-o em silêncio, assegura-nos ao menos a imensa vantagem da discrição. De uma forma ou de outra, perguntar-lhe a essa altura sobre o trabalho teria sido um tiro no pé - e entre um tiro no pé e um na cabeça, difícil escolher o pior. Há quem valorize mais a vida que o orgulho próprio, mas vergonha é uma senda que não se ultrapassa sem algum dano maior permanente. É preciso iniciar a conversa com leveza, sob o risco sempre iminente de tornar-se o diálogo e, por consequência, o encontro, um fardo - tão logo se perceba não haver ali afinidade imediata. Nesse caso, o convite para o café teria sido um equívoco.

Nesse momento, abre-se a porta do café e a atenção do homem foge de seus pensamentos consigo e vaga até o senhor que agora caminha em sua direção. Alto, magro e barbado de uma orelha a outra, vestido casualmente, com calça jeans e camisa de flanela xadrez sobre uma camiseta branca sem estampa. Ele, então, passa pela sua mesa e mais duas, e vai sentar-se junto a um grupo onde dois outros já estavam, em uma cena de pratos e copos quase vazios, a não ser pelo resíduo visível de suas refeições em consumo.

Em sua própria mesa, o garçon acabara de repousar o pires e a xícara. Ele apoia a visão na espuma esbranquiçada sobre o líquido marrom, do qual um faixo estreito de vapor sobe continuamente, dando nota provável em respeito a temperatura da bebida. Ele agradece olhando para o garçon e devolve o olhar à xícara, liberando novamente sua atenção para os seus pensamentos:

Podemos pular já de cara para temas dinâmicos e atuais como política ou economia? Eu li esses dias que o presidente seria indiciado por corrupção passiva. Se ele esta a par da notícia, certamente terá jà formado uma opinião qualquer a respeito – e se há algo que as pessoas dispensam gratuitamente e aparentemente ao menos com algum prazer de uma forma ou de outra declarado são suas opiniões sobre o caráter do outro. Se ele, todavia, a desconhece, talvez sinta-se constrangido pela ignorância presumida sobre os acontecimentos do próprio país. Por isso mesmo, respaldamos os jornais para a função das notícias. De outro modo, pareceria sempre nos querer esfregar na cara o conhecimento antecipado dos fatos um amigo que nos viesse contar dos acontecimentos políticos últimos. Aos jornalistas, em todo caso, colocamos à disposição uma reserva tal sob a justificativa de que são eles pagos exatamente para isso. Afinal, política é um terreno conflituoso que se deve evitar quando se desconhece as posições mais gerais do seu interlocutor e sempre tendo em vista o risco da ignorância política do seu eventual interlocutor emergir como tal. Afinal, quem é mesmo que gosta de ser chamado de ignorante ainda quando da adjetivação apenas insinuada?

Ele alcança um sachê de açúcar no centro da mesa, segura-o na ponta dos dedos indicador e polegar e bate delicadamente com o dedo médio da outra mão, assentando o açúcar na base do envelope e liberando alguns milímetros de espaço no topo, justamente onde ele posiciona os polegares e indicadores das duas mãos, rasgando o recipiente de papel e dando passagem ao granulado, que ele quase imediatamente despeja sobre o café. Repete o gesto mais duas vezes e com uma pequena espátula de plástico, a disposição na mesa, bem ao lado dos sachês, faz circular o café dentro da xícara durante mais ou menos 12 segundos.

Devo evitar iniciar a conversa chamando atenção para a minha pessoa, mas nada me impede de deixar espaço para que ele mesmo inicie a conversa. Mas assim sendo, eu pareceria, talvez, omisso e desinteressado. Fui eu mesmo quem fiz o convite, de todo modo, devo assumir a responsabilidade de dar o pontapé inicial, ao menos. Aliás, seria de bom tom oferecer-me para pagar a conta. Parece que essa é uma implicação instituída do convite, que invariavelmente pesa sobre o... falta-me agora a palavra disponível na língua para nomear aquele que convida. “Convidador” parece morfologicamente adequado, mas soa como uma arbitrariedade sem tamanho. “Convitante” não soa tão mal. Duvido que exista na língua portuguesa, mas talvez funcione em italiano... quem sabe? O caso é que eu preciso articular com algum bom senso um inicio de conversa que ofereça à ocasião alguma possibilidade de desdobramento. Tendo cumprido esta etapa, é provável que a conversa tome seu próprio rumo, como geralmente tomam as conversas. Não sendo o rumo deliberado de uma singularidade vinda de um ou de outro, mas o meio termo entre interesses e opiniões dos envolvidos. E se não interesses e opiniões reais, ao menos de um senso social qualquer que espreita inexplicavelmente nessas criaturas que circulam pela cidade, abordando e sendo abordadas umas pelas outras. Já ouvi chamarem a isso de “presença de espírito”, mas não estou certo de que a expressão valha exatamente para essa capacidade notável de dizer com frequência a coisa certa entre as várias coisas erradas possíveis. Afinal, a cabeça é um universo inteiro de coisas que na linguagem se coagulam, quando justamente abandonam a abstração das sensações, sentimentos e outras imagens disformes – que a própria linguagem encontra dificuldades em designar mesmo que imprecisamente – e se inauguram como possibilidades reais. Cumpre que dentre essas tantas coisas que constituem um tal universo, apenas algumas poucas são as “coisas certas” a dizer em ocasiões determinadas, do que se infere que a estatística deveria estar imensamente a favor das “coisas erradas”, ou ao menos das coisas outras que, não sendo as "erradas", definitivamente também não são as “certas”. Eis que essa capacidade individual se instila no corpo e na mente das criaturas sociais mais diversas, fazendo equilibrar a estatística e tornando possível, talvez mesmo provável, que as pessoas se relacionem umas com as outras. Por isso mesmo, preciso eu iniciar essa conversa de forma apropriada. Sob a mácula de um começo ruim, pode todo o diálogo se perder num abismo interminável de proposições suspeitas ou mesmo enunciações sem propósito. Quando perguntado sobre o simbolismo presente na imagem de um anúncio publicitário, um homem de pouca instrução formal, digamos um pescador, por exemplo, humilde que seja em seu reconhecimento de si num mundo de coisas tão diversas quanto o átomo e uma música de George Michael, ou quanto a teoria da relatividade geral e um espremedor de alho, concluirá de seu interlocutor que, se não é louco, ao menos falta-lhe alguma peça na engrenagem que condiciona atividades sociais em geral. Do mesmo modo que, quando perguntado sobre o preço da gasolina, o filósofo mais habilidoso se encontrará numa situação desgostosa, perturbado e indeciso entre o sentido imediatamente prático da pergunta, direcionada a ele como usuário em potencial de um automóvel e as implicações teóricas do problema do valor abstrato, se deslocando entre noções como as de valor de uso, valor de troca, etc. Talvez, por isso, seja tão comum ouvir-se sobre assuntos como o clima, que independentemente da situação social dos envolvidos num diálogo qualquer, afeta-os diretamente e podem eles dar, senão uma opinião cientificamente fundamentada, ao menos um relato qualquer sobre sua experiência direta com ele. O homem de casaco dirá, provavelmente, que faz frio, enquanto o de camiseta que o tempo é fresco ou que sente algum calor. Pode ser que os dois concordem e por um segundo se identifiquem por meio de uma sensação comum, tremendo debaixo das próprias roupas ou enxugando ininterruptamente o suor que desce da testa, mas o caso é que podem compreender do que se trata e quem sabe até destilar dali alguma empatia mesmo que a opinião do outro seja diametralmente diversa da sua. Certo é que se irá ali encontrar comunicação válida e não precisarão nenhum dos envolvidos especular sobre a sanidade do outro - ou da falta dela. No meu caso, no entanto, o assunto não se justifica. O convite feito ao amigo de longa data, mas com o qual, por circunstância qualquer, não me engajo em diálogo há tempo considerável, requer que haja mais trato no expediente das primeiras palavras.

Ocorre-me agora que eu poderia muito bem ter feito uma pesquisa na rede. Certamente encontraria ali uma lista infindável de assuntos possíveis e apropriados para uma ocasião como esta. É certo que essa ocasião em questão possui suas particularidades, quais sejam as dos dois indivíduos que estão prestes a se engajar em diálogo, cada qual com as singularidades medidas de sua experiência de vida e, além disso, os termos estabelecidos de sua relação um com o outro, que manual algum poderia antecipar. Mas é provável que ao menos um bem intencionado qualquer teórico já se tenha ocupado de analisar, a partir de estudos de caso oportunos e das generalizações consequentes necessárias, conversas e situações sociais análogas, nas diversas esferas da vida moderna e entre elementos ocupantes de posições particulares em situações análogas, considerando questões contextuais como hierarquia, idade, gênero, etc. Mas esse insight agora de pouco me serve. Uma investida metalinguística como essa, colocando em pauta minha própria dificuldade em iniciar a conversa, soaria a ele como uma menção intencional a distância que nos separa, quando o diálogo pede justamente - nos termos de sua própria natureza e propósito - uma conexão em vista. Aquele que inicia uma conversa tem em mente, em geral, uma inclinação a associação com o outro, ou ao menos o apelo a uma reciprocidade qualquer. Não fosse isso, contentar-se-ia com sua fala resultando em uma ofensa ou no estandarte de uma fantasia determinada com a qual se faça identificá-lo com o público a volta, mediante um julgamento imediato sobre as palavras ditas, mas sem a continuidade explicativa do diálogo, como quando um entrevistado dando suas palavras como resposta ao entrevistador, oferece-a ao público sem muito se preocupar com o que irá pensar dela o próprio entrevistador. Nos dois casos, não haveria conversa.

Levantou a xícara, trazendo-a lentamente até a boca. Já não havia vapor aparente. Virou tudo de uma golada só e repousou a xícara novamente na mesa. Catou um guardanapo entre os muitos que se enfileiravam no mesmo recipiente de madeira que mantinha os envelopes de açúcar e as pequenas espátulas de plástico juntos, e esfregou-o nos lábios e ao redor. Dobrou-o em duas partes e repetiu, colocando na mesa o guardanapo sujo após a ação concluída.

Olhou a volta e percebeu que a disposição das pessoas no recinto havia mudado. O grupo que antes ocupava a mesa atrás de duas outras em relação a sua não estava mais lá. No seu lugar, um casal de idosos conversava discretamente, enquanto gesticulavam os dois funcionalmente sobre as xícaras diante de si, cada qual investido em sua relação própria com a bebida que tinha a frente, e a conversa fluía entre a atenção dirigida ao outro e a atenção dirigida a bebida, sem que um ou outro apresentasse empecilho algum ao fenômeno que entre eles se desenrolava.

Retornou a si sem, no entanto, tirar os olhos do casal:

A intimidade torna tudo mais fácil. Relações que, sem ela, de outro modo, improváveis seriam, revestem-se de uma naturalidade análoga àquela dos vegetais que crescem no campo. A intimidade - seja lá o que for que a palavra signifique – não apenas predispõe ao diálogo todos os enredados por essa força incomensurável que paira entre os animais mais diversos, como parece reembaralhar todos os elementos inteligíveis de uma situação de diálogo, redimensionando em proporção vantajosa para ambas as partes as “coisas certas” com relação a todas as outras, isto é, um indivíduo que se encontre em diálogo com alguém de quem é íntimo terá maior probabilidade de que as coisas que diga sejam as “coisas certas”, quaisquer que sejam elas, na medida mesma da sua intimidade com aquele com quem dialoga. Imagino o questionamento feito sobre a sanidade ou a inteligência de seu esposo, quando após 35 anos de uma relação diária e estável, sentados à mesa de jantar, ele diz a ela: “Me bateu uma imensa vontade de lamber o pús da ferida de um cachorro!”. Ainda assim, por mais improvável e mesmo repugnante que sejam as palavras em questão, o choque e a surpresa terão dado lugar ao abandono dos pormenores semânticos em favor da familiaridade com aquela voz. Possível até mesmo, aliás, que possam ficar confortáveis em silêncio um em frente ao outro, desde que a intimidade entre eles seja assim colossal. Numa situação como essa, no entanto, um observador externo terá mesmo dificuldade em precisar se aquilo que testemunha é fruto de intimidade tamanha ou da completa indiferença. E desconfio que seja justamente a intimidade que desenvolvem os homens consigo mesmos que os permite ficar em silêncio com seus próprios pensamentos, porque neles a intimidade com as ideias e os sentimentos que circulam dentro de si não prescreve outra atitude senão a simples e manifesta indiferença para com estes. Provavelmente, a mesma que emerge dentro de nós diante de uma notícia já conhecida ou de uma piada velha. E quem de nós já não se encontrou moderadamente surpreso com os próprios pensamentos? Se me deixo correr a revelia do tema e do propósito, por exemplo, me encontro com toda sorte de pensamentos: Um urso usando chapéu, uma máquina-de-lavar segurando um sorvete de casquinha, um número quase infinito de palavras-imagens enfileiradas em frente a um balcão, aguardando seu momento de estréia... Há, inclusive, quem encontre na intimidade o segredo de todas as coisas. A perpétua lei dos Hindus, a consciência espiritual como intimidade plena com o mundo, a intimidade do ser com todas as coisas, vivas e não vivas, entoada numa só palavra que se repete através da linguagem dos homens, dos ventos, dos rios. É, afinal, a intimidade com certa música que nos projeta a um estado de divertimento irrefletido quando repetimos, palavra por palavra, a letra e a melodia de uma canção conhecida. Ou, na sua forma mais frequentemente descrita, o acolhimento incondicional da família. Muitas vezes me perguntei se o amor em todo canto idealizado entre mãe e filho não seria apenas uma variação particular dos modos de intimidade possível entre duas pessoas.

Mas isso tampouco me ajuda. Intimidade é coisa que com ele não tenho e que, de outro modo, requer uma situação favorável para brotar. Situação essa que eu provavelmente não terei se não dispuser de um começo de conversa ao menos adequado. Talvez se eu evocar um tema da história - tão distante no tempo quanto possível, que retroceda às primeiras dinastias egípcias, ou antes ainda, aos sumérios - eu possa suscitar nele essa familiaridade objetiva, ainda que inexplicável que nos faz reconhecermos homens entre homens mesmo quando diferimos nos mais diversos aspectos da vida. Quem sabe se a distância que nos separa não pareça assim tão relevante desde a perspectiva da história das civilizações? Como se pudéssemos encontrar num tema assim objetivado e de tal modo externo as nossas pequenas aventuras pessoais, o terreno comum onde possam encontrar-se esses dois universos distintos que povoam nossas cabeças, diante de uma possibilidade real de comunicação; como uma pedra de Roseta ou uma inscrição de Behistum dos nossos próprios idioletos... Ou do contrário, se eu mencionar os investimentos em curso para tornar possível a colonização de outros planetas? Se essa perspectiva futura que a cada dia se revela menos improvável, não venha desmentir também, quem sabe, a improbabilidade de nos encontrarmos nós dois, de repente, em meio a uma conversa natural ou mesmo agradável? Se, assim, o preço do combustível para foguetes não seria um tema oportuno como outro qualquer, pedindo ao filósofo dentro de nós a presença de espírito necessária para reconhecer o sentido de cada palavra, objetivo como um comando remotamente enviado. Se o nome Curiosity serviu àquela criatura de poucos antecedentes sobre a superfície de Marte, por que não nos poderíamos servir de um assunto tão genuinamente humano para iniciarmos uma conversa em que a curiosidade seja, afinal, um agente ou um reagente propulsor? Mas e, então, se ele se questionasse sobre a impessoalidade do tema e nossa conversação jamais conseguisse escapar ao âmbito dessas matérias gerais, conquanto universais que sejam, e ele não pudesse evitar a absoluta ausência de empatia, como aquela que experimentamos ao nos relacionarmos com um manual de instruções ou a um dispositivo didático qualquer? Ainda que Carlos e Maurício sejam criaturas absolutamente idiossincráticas, ao discorrerem sobre um tema como este, é possível que os dois reproduzam diálogo, senão idêntico, ao menos possivelmente similar ao diálogo entabulado por Roberto e Elaine sobre o mesmo tema. Aliás, raramente se vê o leitor de um manual qualquer preocupado com a autoria daquele documento. Que diferença faz saber quem é a pessoa que, do outro lado, nos diz que não se deve separar o sujeito do verbo por meio de vírgula, esteja já de antemão a sua autoridade instituída?

Ele emerge novamente de seus pensamentos e estende o pescoço vasculhando ao redor à procura do garçon. Levanta a mão assim que o avista e aponta para xícara a sua frente enquanto articula a expressão “mais um” com a boca, sem emitir sequer um som. O garçon acena positivamente enquanto se dirige a uma outra mesa. Ele o observa fixamente. Nesse momento sua cabeça está vazia, limita-se a registrar a experiência visual para a qual se direcionam seus olhos. O garçon se inclina diante da mesa onde duas mulheres na faixa de seus quarenta anos descrevem a ele os seus pedidos. O garçon toma nota e assim que retorna à cozinha, escapando ao seu campo intencional de visão, ele baixa novamente a cabeça e aquele mundo interior cheio de dúvidas novamente se abre:

E se eu perguntar simplesmente “como vai a vida” ?! Deixo ao seu critério o que é ou não de interesse dele expor a minha pessoa, evitando assim colocá-lo em uma situação de constrangimento.
Mas e se ele reconhece da questão formulada não o interesse genuíno nos aspectos gerais dessa situação, de todo modo indeterminada, a que damos o nome de vida, mas a proposição fática, simplesmente? Provável até que me responda com um daqueles artifícios genéricos de redundância verbal, como o já conhecido “vai indo”, e a imagem da vida que vai uma vez mais e contínua, ininterruptamente, lançar-me-á num desfiladeiro sem fim de questionamentos sobre essa vida que vai: Tem ela um nome? Uma cor favorita? Prefere jazz ou samba? É a vida dele, afinal. Um outro modo de descrevê-la seria, então, a coleção absoluta das suas experiências de vida, dos seus impulsos biológicos e da sua consciência imanente. Ainda que ele entenda a pergunta, nem saberia por onde começar. Eu mesmo deveria questionar-me o interesse diante do movimento de vida de pessoa tão ordinária.

“Com licença!” - interfere o garçon: “Aqui seu capuccino” - e, com todo cuidado, apoia pires e xícara na mesa e recolhe os já vazios. Ele permanece estático, seu olhar não faz menção em ir ao encontro do rapaz, que após 3 segundos de constrangimento se retira, sem ouvir sequer um “obrigado”.

Pessoa ordinária... Tantos questionamentos e não tenho a perspectiva de encontrar nada além de uma pessoa ordinária, isto é, uma pessoa quase como todas as outras, ainda que das suas particularidades inalienáveis. Não somos todos, afinal, pessoas ordinárias? Ou justifica-se mesmo essa autoridade inexplicável das mídias públicas, que nos projetam a imagem de um e outro, impondo a nós a ideia de que sejam estes privilegiados pessoas inigualavelmente especiais. Ora, quão ordinário seja ele, interessa é que eu o tenha convidado para um café. Tendo convidado a ele especificamente, e não esperando neste momento nenhuma outra pessoa que não seja o convidado, há que se reconhecer ao menos um desvio circunstancial na ordinariedade que obnubila a personalidade de figura alguma indeterminada.

Nesse instante, um barulho contínuo, agudo e grave ao mesmo tempo, ressoa e ganha volume; as janelas do estabelecimento tremem; a vibração se intensifica a cada centésimo de segundo e, então, a atenção de todos ali parece voltada para uma resolução iminente: As paredes começam, em seguida, a tremer também - e o barulho, a essa altura, é já ensurdecedor; pequenos pedaços do teto se desprendem e caem quase ao mesmo tempo em que se pode reconhecer o som de um objeto gigantesco de metal impactando na estrutura do edifício. O homem se levanta e vê, como que em câmera lenta, o bico de um jato atravessando o teto e vir varrendo tudo à sua frente. O pequeno aeroplano cruza toda a extensão da loja, deixando um canal de desolamento entre a mesa do homem e a cozinha do lugar, agora abertamente exposta ao público, com paredes tombadas e o balcão a frente delas tendo sido carregado pelo avião. Curiosamente, apesar de algumas janelas rachadas, a estrutura atrás dele permanece de pé e, com ela, a porta de entrada, por onde agora entra um homem baixo, calvo e casualmente vestido, com jaqueta jeans e calça preta, e uma camiseta na qual a estampa chama menos atenção que a marca de uma barriga saliente pressionando para frente o tecido. Ele reconhece o amigo e acena. O homem à espera, que já estava de pé, dá um passo a frente para receber o amigo e estende-lhe a mão, oferecendo-a em aperto.

Tudo bem?

Tudo bem. E contigo?

Tudo bem.

Cessam, então, o aperto de mão e, enquanto um se prepara para voltar a seu assento, o outro, recém-chegado, põe as duas mãos na cintura e olha para o cenário. Cerra os olhos, esforçando-se para reconhecer em detalhes a imagem que tem em vista. Suspira. Olha para o chão, de um lado ao outro, e levanta novamente a cabeça, retornando o olhar frontal que parece se escorar no interior da cozinha à sua frente. Retornando, em seguida, o olhar para o amigo:

Vamos a outro lugar? Eu pretendia comer algo, mas fiquei um pouco frustrado com o que vejo dessa cozinha.

Os dois saem pela porta. O segundo capuccino permanece na mesa... intocado. Ao redor daquelas tantas ideias sobre mutualidade e a natureza associativa do diálogo, a conta não paga parece apenas detalhe que não deveria valer nem a pena mencionar.


O jato era um Citation Mustang 510 da CESSNA. Não havia passageiros a bordo, mas é provável que o piloto tenha morrido.