sábado, 22 de julho de 2017

O Capuccino

Sentado numa mesa lateral em um café esperando alguém. Vira-se para o garçon e pede um capuccino. Retorna, em seguida, a si, com olhar baixo, e inicia consigo mesmo o diálogo, em silêncio:

Como começar uma conversa com um amigo que não se vê há tempos? Pergunto pela família? Eu soube que ele se divorciou da mulher e, em algum lugar da memória, encontro a vaga menção a um filho doente.. leucemia, caxumba? Não tenho certeza agora. Talvez seja melhor não fazer referência a família e, para não pagar de deseducado, lançar um comentário na iminência da despedida; algo como: “espero que esteja tudo bem com a família”. Assim, evito as complicações do assunto e ao mesmo tempo faço menção a estes outros indeterminados, com boa fé cristã e simpatia moderada - desobrigando-o, de qualquer modo, de uma resposta provavelmente inoportuna. Posso perguntar sobre o trabalho. Não, isso não! Nesses tempos de crise, paira sempre a possibilidade de se estar desempregado. Além disso, estamos em uma idade em que, se não é a crise econômica a nos chicotear, uma crise interna vem nos dizer com frequência da insignificância e inutilidade social daquilo que fazemos no exercício da profissão (certa vez conheci um perfumista: e a lembrança certamente vale para ilustrar o caso). Responder-me-ia com pesar no primeiro caso e provavelmente evasivo no segundo. Ninguém aprecia, de fato, a ideia de desabafar as próprias frustrações e fracassos com o amigo eventual, dos encontros bienais quando muito. Aliás, pra tais frustrações o melhor amigo é o próprio ego, que não nos poupa por comiseração as suas verdades, mas, fazendo-o em silêncio, assegura-nos ao menos a imensa vantagem da discrição. De uma forma ou de outra, perguntar-lhe a essa altura sobre o trabalho teria sido um tiro no pé - e entre um tiro no pé e um na cabeça, difícil escolher o pior. Há quem valorize mais a vida que o orgulho próprio, mas vergonha é uma senda que não se ultrapassa sem algum dano maior permanente. É preciso iniciar a conversa com leveza, sob o risco sempre iminente de tornar-se o diálogo e, por consequência, o encontro, um fardo - tão logo se perceba não haver ali afinidade imediata. Nesse caso, o convite para o café teria sido um equívoco.

Nesse momento, abre-se a porta do café e a atenção do homem foge de seus pensamentos consigo e vaga até o senhor que agora caminha em sua direção. Alto, magro e barbado de uma orelha a outra, vestido casualmente, com calça jeans e camisa de flanela xadrez sobre uma camiseta branca sem estampa. Ele, então, passa pela sua mesa e mais duas, e vai sentar-se junto a um grupo onde dois outros já estavam, em uma cena de pratos e copos quase vazios, a não ser pelo resíduo visível de suas refeições em consumo.

Em sua própria mesa, o garçon acabara de repousar o pires e a xícara. Ele apoia a visão na espuma esbranquiçada sobre o líquido marrom, do qual um faixo estreito de vapor sobe continuamente, dando nota provável em respeito a temperatura da bebida. Ele agradece olhando para o garçon e devolve o olhar à xícara, liberando novamente sua atenção para os seus pensamentos:

Podemos pular já de cara para temas dinâmicos e atuais como política ou economia? Eu li esses dias que o presidente seria indiciado por corrupção passiva. Se ele esta a par da notícia, certamente terá jà formado uma opinião qualquer a respeito – e se há algo que as pessoas dispensam gratuitamente e aparentemente ao menos com algum prazer de uma forma ou de outra declarado são suas opiniões sobre o caráter do outro. Se ele, todavia, a desconhece, talvez sinta-se constrangido pela ignorância presumida sobre os acontecimentos do próprio país. Por isso mesmo, respaldamos os jornais para a função das notícias. De outro modo, pareceria sempre nos querer esfregar na cara o conhecimento antecipado dos fatos um amigo que nos viesse contar dos acontecimentos políticos últimos. Aos jornalistas, em todo caso, colocamos à disposição uma reserva tal sob a justificativa de que são eles pagos exatamente para isso. Afinal, política é um terreno conflituoso que se deve evitar quando se desconhece as posições mais gerais do seu interlocutor e sempre tendo em vista o risco da ignorância política do seu eventual interlocutor emergir como tal. Afinal, quem é mesmo que gosta de ser chamado de ignorante ainda quando da adjetivação apenas insinuada?

Ele alcança um sachê de açúcar no centro da mesa, segura-o na ponta dos dedos indicador e polegar e bate delicadamente com o dedo médio da outra mão, assentando o açúcar na base do envelope e liberando alguns milímetros de espaço no topo, justamente onde ele posiciona os polegares e indicadores das duas mãos, rasgando o recipiente de papel e dando passagem ao granulado, que ele quase imediatamente despeja sobre o café. Repete o gesto mais duas vezes e com uma pequena espátula de plástico, a disposição na mesa, bem ao lado dos sachês, faz circular o café dentro da xícara durante mais ou menos 12 segundos.

Devo evitar iniciar a conversa chamando atenção para a minha pessoa, mas nada me impede de deixar espaço para que ele mesmo inicie a conversa. Mas assim sendo, eu pareceria, talvez, omisso e desinteressado. Fui eu mesmo quem fiz o convite, de todo modo, devo assumir a responsabilidade de dar o pontapé inicial, ao menos. Aliás, seria de bom tom oferecer-me para pagar a conta. Parece que essa é uma implicação instituída do convite, que invariavelmente pesa sobre o... falta-me agora a palavra disponível na língua para nomear aquele que convida. “Convidador” parece morfologicamente adequado, mas soa como uma arbitrariedade sem tamanho. “Convitante” não soa tão mal. Duvido que exista na língua portuguesa, mas talvez funcione em italiano... quem sabe? O caso é que eu preciso articular com algum bom senso um inicio de conversa que ofereça à ocasião alguma possibilidade de desdobramento. Tendo cumprido esta etapa, é provável que a conversa tome seu próprio rumo, como geralmente tomam as conversas. Não sendo o rumo deliberado de uma singularidade vinda de um ou de outro, mas o meio termo entre interesses e opiniões dos envolvidos. E se não interesses e opiniões reais, ao menos de um senso social qualquer que espreita inexplicavelmente nessas criaturas que circulam pela cidade, abordando e sendo abordadas umas pelas outras. Já ouvi chamarem a isso de “presença de espírito”, mas não estou certo de que a expressão valha exatamente para essa capacidade notável de dizer com frequência a coisa certa entre as várias coisas erradas possíveis. Afinal, a cabeça é um universo inteiro de coisas que na linguagem se coagulam, quando justamente abandonam a abstração das sensações, sentimentos e outras imagens disformes – que a própria linguagem encontra dificuldades em designar mesmo que imprecisamente – e se inauguram como possibilidades reais. Cumpre que dentre essas tantas coisas que constituem um tal universo, apenas algumas poucas são as “coisas certas” a dizer em ocasiões determinadas, do que se infere que a estatística deveria estar imensamente a favor das “coisas erradas”, ou ao menos das coisas outras que, não sendo as "erradas", definitivamente também não são as “certas”. Eis que essa capacidade individual se instila no corpo e na mente das criaturas sociais mais diversas, fazendo equilibrar a estatística e tornando possível, talvez mesmo provável, que as pessoas se relacionem umas com as outras. Por isso mesmo, preciso eu iniciar essa conversa de forma apropriada. Sob a mácula de um começo ruim, pode todo o diálogo se perder num abismo interminável de proposições suspeitas ou mesmo enunciações sem propósito. Quando perguntado sobre o simbolismo presente na imagem de um anúncio publicitário, um homem de pouca instrução formal, digamos um pescador, por exemplo, humilde que seja em seu reconhecimento de si num mundo de coisas tão diversas quanto o átomo e uma música de George Michael, ou quanto a teoria da relatividade geral e um espremedor de alho, concluirá de seu interlocutor que, se não é louco, ao menos falta-lhe alguma peça na engrenagem que condiciona atividades sociais em geral. Do mesmo modo que, quando perguntado sobre o preço da gasolina, o filósofo mais habilidoso se encontrará numa situação desgostosa, perturbado e indeciso entre o sentido imediatamente prático da pergunta, direcionada a ele como usuário em potencial de um automóvel e as implicações teóricas do problema do valor abstrato, se deslocando entre noções como as de valor de uso, valor de troca, etc. Talvez, por isso, seja tão comum ouvir-se sobre assuntos como o clima, que independentemente da situação social dos envolvidos num diálogo qualquer, afeta-os diretamente e podem eles dar, senão uma opinião cientificamente fundamentada, ao menos um relato qualquer sobre sua experiência direta com ele. O homem de casaco dirá, provavelmente, que faz frio, enquanto o de camiseta que o tempo é fresco ou que sente algum calor. Pode ser que os dois concordem e por um segundo se identifiquem por meio de uma sensação comum, tremendo debaixo das próprias roupas ou enxugando ininterruptamente o suor que desce da testa, mas o caso é que podem compreender do que se trata e quem sabe até destilar dali alguma empatia mesmo que a opinião do outro seja diametralmente diversa da sua. Certo é que se irá ali encontrar comunicação válida e não precisarão nenhum dos envolvidos especular sobre a sanidade do outro - ou da falta dela. No meu caso, no entanto, o assunto não se justifica. O convite feito ao amigo de longa data, mas com o qual, por circunstância qualquer, não me engajo em diálogo há tempo considerável, requer que haja mais trato no expediente das primeiras palavras.

Ocorre-me agora que eu poderia muito bem ter feito uma pesquisa na rede. Certamente encontraria ali uma lista infindável de assuntos possíveis e apropriados para uma ocasião como esta. É certo que essa ocasião em questão possui suas particularidades, quais sejam as dos dois indivíduos que estão prestes a se engajar em diálogo, cada qual com as singularidades medidas de sua experiência de vida e, além disso, os termos estabelecidos de sua relação um com o outro, que manual algum poderia antecipar. Mas é provável que ao menos um bem intencionado qualquer teórico já se tenha ocupado de analisar, a partir de estudos de caso oportunos e das generalizações consequentes necessárias, conversas e situações sociais análogas, nas diversas esferas da vida moderna e entre elementos ocupantes de posições particulares em situações análogas, considerando questões contextuais como hierarquia, idade, gênero, etc. Mas esse insight agora de pouco me serve. Uma investida metalinguística como essa, colocando em pauta minha própria dificuldade em iniciar a conversa, soaria a ele como uma menção intencional a distância que nos separa, quando o diálogo pede justamente - nos termos de sua própria natureza e propósito - uma conexão em vista. Aquele que inicia uma conversa tem em mente, em geral, uma inclinação a associação com o outro, ou ao menos o apelo a uma reciprocidade qualquer. Não fosse isso, contentar-se-ia com sua fala resultando em uma ofensa ou no estandarte de uma fantasia determinada com a qual se faça identificá-lo com o público a volta, mediante um julgamento imediato sobre as palavras ditas, mas sem a continuidade explicativa do diálogo, como quando um entrevistado dando suas palavras como resposta ao entrevistador, oferece-a ao público sem muito se preocupar com o que irá pensar dela o próprio entrevistador. Nos dois casos, não haveria conversa.

Levantou a xícara, trazendo-a lentamente até a boca. Já não havia vapor aparente. Virou tudo de uma golada só e repousou a xícara novamente na mesa. Catou um guardanapo entre os muitos que se enfileiravam no mesmo recipiente de madeira que mantinha os envelopes de açúcar e as pequenas espátulas de plástico juntos, e esfregou-o nos lábios e ao redor. Dobrou-o em duas partes e repetiu, colocando na mesa o guardanapo sujo após a ação concluída.

Olhou a volta e percebeu que a disposição das pessoas no recinto havia mudado. O grupo que antes ocupava a mesa atrás de duas outras em relação a sua não estava mais lá. No seu lugar, um casal de idosos conversava discretamente, enquanto gesticulavam os dois funcionalmente sobre as xícaras diante de si, cada qual investido em sua relação própria com a bebida que tinha a frente, e a conversa fluía entre a atenção dirigida ao outro e a atenção dirigida a bebida, sem que um ou outro apresentasse empecilho algum ao fenômeno que entre eles se desenrolava.

Retornou a si sem, no entanto, tirar os olhos do casal:

A intimidade torna tudo mais fácil. Relações que, sem ela, de outro modo, improváveis seriam, revestem-se de uma naturalidade análoga àquela dos vegetais que crescem no campo. A intimidade - seja lá o que for que a palavra signifique – não apenas predispõe ao diálogo todos os enredados por essa força incomensurável que paira entre os animais mais diversos, como parece reembaralhar todos os elementos inteligíveis de uma situação de diálogo, redimensionando em proporção vantajosa para ambas as partes as “coisas certas” com relação a todas as outras, isto é, um indivíduo que se encontre em diálogo com alguém de quem é íntimo terá maior probabilidade de que as coisas que diga sejam as “coisas certas”, quaisquer que sejam elas, na medida mesma da sua intimidade com aquele com quem dialoga. Imagino o questionamento feito sobre a sanidade ou a inteligência de seu esposo, quando após 35 anos de uma relação diária e estável, sentados à mesa de jantar, ele diz a ela: “Me bateu uma imensa vontade de lamber o pús da ferida de um cachorro!”. Ainda assim, por mais improvável e mesmo repugnante que sejam as palavras em questão, o choque e a surpresa terão dado lugar ao abandono dos pormenores semânticos em favor da familiaridade com aquela voz. Possível até mesmo, aliás, que possam ficar confortáveis em silêncio um em frente ao outro, desde que a intimidade entre eles seja assim colossal. Numa situação como essa, no entanto, um observador externo terá mesmo dificuldade em precisar se aquilo que testemunha é fruto de intimidade tamanha ou da completa indiferença. E desconfio que seja justamente a intimidade que desenvolvem os homens consigo mesmos que os permite ficar em silêncio com seus próprios pensamentos, porque neles a intimidade com as ideias e os sentimentos que circulam dentro de si não prescreve outra atitude senão a simples e manifesta indiferença para com estes. Provavelmente, a mesma que emerge dentro de nós diante de uma notícia já conhecida ou de uma piada velha. E quem de nós já não se encontrou moderadamente surpreso com os próprios pensamentos? Se me deixo correr a revelia do tema e do propósito, por exemplo, me encontro com toda sorte de pensamentos: Um urso usando chapéu, uma máquina-de-lavar segurando um sorvete de casquinha, um número quase infinito de palavras-imagens enfileiradas em frente a um balcão, aguardando seu momento de estréia... Há, inclusive, quem encontre na intimidade o segredo de todas as coisas. A perpétua lei dos Hindus, a consciência espiritual como intimidade plena com o mundo, a intimidade do ser com todas as coisas, vivas e não vivas, entoada numa só palavra que se repete através da linguagem dos homens, dos ventos, dos rios. É, afinal, a intimidade com certa música que nos projeta a um estado de divertimento irrefletido quando repetimos, palavra por palavra, a letra e a melodia de uma canção conhecida. Ou, na sua forma mais frequentemente descrita, o acolhimento incondicional da família. Muitas vezes me perguntei se o amor em todo canto idealizado entre mãe e filho não seria apenas uma variação particular dos modos de intimidade possível entre duas pessoas.

Mas isso tampouco me ajuda. Intimidade é coisa que com ele não tenho e que, de outro modo, requer uma situação favorável para brotar. Situação essa que eu provavelmente não terei se não dispuser de um começo de conversa ao menos adequado. Talvez se eu evocar um tema da história - tão distante no tempo quanto possível, que retroceda às primeiras dinastias egípcias, ou antes ainda, aos sumérios - eu possa suscitar nele essa familiaridade objetiva, ainda que inexplicável que nos faz reconhecermos homens entre homens mesmo quando diferimos nos mais diversos aspectos da vida. Quem sabe se a distância que nos separa não pareça assim tão relevante desde a perspectiva da história das civilizações? Como se pudéssemos encontrar num tema assim objetivado e de tal modo externo as nossas pequenas aventuras pessoais, o terreno comum onde possam encontrar-se esses dois universos distintos que povoam nossas cabeças, diante de uma possibilidade real de comunicação; como uma pedra de Roseta ou uma inscrição de Behistum dos nossos próprios idioletos... Ou do contrário, se eu mencionar os investimentos em curso para tornar possível a colonização de outros planetas? Se essa perspectiva futura que a cada dia se revela menos improvável, não venha desmentir também, quem sabe, a improbabilidade de nos encontrarmos nós dois, de repente, em meio a uma conversa natural ou mesmo agradável? Se, assim, o preço do combustível para foguetes não seria um tema oportuno como outro qualquer, pedindo ao filósofo dentro de nós a presença de espírito necessária para reconhecer o sentido de cada palavra, objetivo como um comando remotamente enviado. Se o nome Curiosity serviu àquela criatura de poucos antecedentes sobre a superfície de Marte, por que não nos poderíamos servir de um assunto tão genuinamente humano para iniciarmos uma conversa em que a curiosidade seja, afinal, um agente ou um reagente propulsor? Mas e, então, se ele se questionasse sobre a impessoalidade do tema e nossa conversação jamais conseguisse escapar ao âmbito dessas matérias gerais, conquanto universais que sejam, e ele não pudesse evitar a absoluta ausência de empatia, como aquela que experimentamos ao nos relacionarmos com um manual de instruções ou a um dispositivo didático qualquer? Ainda que Carlos e Maurício sejam criaturas absolutamente idiossincráticas, ao discorrerem sobre um tema como este, é possível que os dois reproduzam diálogo, senão idêntico, ao menos possivelmente similar ao diálogo entabulado por Roberto e Elaine sobre o mesmo tema. Aliás, raramente se vê o leitor de um manual qualquer preocupado com a autoria daquele documento. Que diferença faz saber quem é a pessoa que, do outro lado, nos diz que não se deve separar o sujeito do verbo por meio de vírgula, esteja já de antemão a sua autoridade instituída?

Ele emerge novamente de seus pensamentos e estende o pescoço vasculhando ao redor à procura do garçon. Levanta a mão assim que o avista e aponta para xícara a sua frente enquanto articula a expressão “mais um” com a boca, sem emitir sequer um som. O garçon acena positivamente enquanto se dirige a uma outra mesa. Ele o observa fixamente. Nesse momento sua cabeça está vazia, limita-se a registrar a experiência visual para a qual se direcionam seus olhos. O garçon se inclina diante da mesa onde duas mulheres na faixa de seus quarenta anos descrevem a ele os seus pedidos. O garçon toma nota e assim que retorna à cozinha, escapando ao seu campo intencional de visão, ele baixa novamente a cabeça e aquele mundo interior cheio de dúvidas novamente se abre:

E se eu perguntar simplesmente “como vai a vida” ?! Deixo ao seu critério o que é ou não de interesse dele expor a minha pessoa, evitando assim colocá-lo em uma situação de constrangimento.
Mas e se ele reconhece da questão formulada não o interesse genuíno nos aspectos gerais dessa situação, de todo modo indeterminada, a que damos o nome de vida, mas a proposição fática, simplesmente? Provável até que me responda com um daqueles artifícios genéricos de redundância verbal, como o já conhecido “vai indo”, e a imagem da vida que vai uma vez mais e contínua, ininterruptamente, lançar-me-á num desfiladeiro sem fim de questionamentos sobre essa vida que vai: Tem ela um nome? Uma cor favorita? Prefere jazz ou samba? É a vida dele, afinal. Um outro modo de descrevê-la seria, então, a coleção absoluta das suas experiências de vida, dos seus impulsos biológicos e da sua consciência imanente. Ainda que ele entenda a pergunta, nem saberia por onde começar. Eu mesmo deveria questionar-me o interesse diante do movimento de vida de pessoa tão ordinária.

“Com licença!” - interfere o garçon: “Aqui seu capuccino” - e, com todo cuidado, apoia pires e xícara na mesa e recolhe os já vazios. Ele permanece estático, seu olhar não faz menção em ir ao encontro do rapaz, que após 3 segundos de constrangimento se retira, sem ouvir sequer um “obrigado”.

Pessoa ordinária... Tantos questionamentos e não tenho a perspectiva de encontrar nada além de uma pessoa ordinária, isto é, uma pessoa quase como todas as outras, ainda que das suas particularidades inalienáveis. Não somos todos, afinal, pessoas ordinárias? Ou justifica-se mesmo essa autoridade inexplicável das mídias públicas, que nos projetam a imagem de um e outro, impondo a nós a ideia de que sejam estes privilegiados pessoas inigualavelmente especiais. Ora, quão ordinário seja ele, interessa é que eu o tenha convidado para um café. Tendo convidado a ele especificamente, e não esperando neste momento nenhuma outra pessoa que não seja o convidado, há que se reconhecer ao menos um desvio circunstancial na ordinariedade que obnubila a personalidade de figura alguma indeterminada.

Nesse instante, um barulho contínuo, agudo e grave ao mesmo tempo, ressoa e ganha volume; as janelas do estabelecimento tremem; a vibração se intensifica a cada centésimo de segundo e, então, a atenção de todos ali parece voltada para uma resolução iminente: As paredes começam, em seguida, a tremer também - e o barulho, a essa altura, é já ensurdecedor; pequenos pedaços do teto se desprendem e caem quase ao mesmo tempo em que se pode reconhecer o som de um objeto gigantesco de metal impactando na estrutura do edifício. O homem se levanta e vê, como que em câmera lenta, o bico de um jato atravessando o teto e vir varrendo tudo à sua frente. O pequeno aeroplano cruza toda a extensão da loja, deixando um canal de desolamento entre a mesa do homem e a cozinha do lugar, agora abertamente exposta ao público, com paredes tombadas e o balcão a frente delas tendo sido carregado pelo avião. Curiosamente, apesar de algumas janelas rachadas, a estrutura atrás dele permanece de pé e, com ela, a porta de entrada, por onde agora entra um homem baixo, calvo e casualmente vestido, com jaqueta jeans e calça preta, e uma camiseta na qual a estampa chama menos atenção que a marca de uma barriga saliente pressionando para frente o tecido. Ele reconhece o amigo e acena. O homem à espera, que já estava de pé, dá um passo a frente para receber o amigo e estende-lhe a mão, oferecendo-a em aperto.

Tudo bem?

Tudo bem. E contigo?

Tudo bem.

Cessam, então, o aperto de mão e, enquanto um se prepara para voltar a seu assento, o outro, recém-chegado, põe as duas mãos na cintura e olha para o cenário. Cerra os olhos, esforçando-se para reconhecer em detalhes a imagem que tem em vista. Suspira. Olha para o chão, de um lado ao outro, e levanta novamente a cabeça, retornando o olhar frontal que parece se escorar no interior da cozinha à sua frente. Retornando, em seguida, o olhar para o amigo:

Vamos a outro lugar? Eu pretendia comer algo, mas fiquei um pouco frustrado com o que vejo dessa cozinha.

Os dois saem pela porta. O segundo capuccino permanece na mesa... intocado. Ao redor daquelas tantas ideias sobre mutualidade e a natureza associativa do diálogo, a conta não paga parece apenas detalhe que não deveria valer nem a pena mencionar.


O jato era um Citation Mustang 510 da CESSNA. Não havia passageiros a bordo, mas é provável que o piloto tenha morrido.    

sábado, 22 de abril de 2017

On Urban Ontology




The observer walks on paving stones and cracked concrete; broken glass and cigarette butts; around with buildings and windows and gates and lampposts and lights and written or silent walls and posters and outdoors and bus stops and trees and cars and bicicles and people and dogs, but, mainly, people; food and full or empty bottles and cigarettes and smoke and various smells and gestures and laughings and agressiveness and indifference and ostentation and misery; there are almost no flowers except for those printed on the girls' dresses; however, so many things are blooming there - beuatiful and terrible, red, grey, dangerous and harmless, natural, non-natural, reasonable and incomprehensible - that, even if they dont delight the eyes, one must adress them with regards and giving them names.






The city is a garden of things.

terça-feira, 18 de abril de 2017

O Silêncio dos Cordeiros



O rapaz entrou no ônibus e se dirigiu diretamente a última fileira, avistando lugar ao lado de um senhor de idade, de cabelos ralos e brancos e pele escura, que conversava com uma mulher negra sentada num banco imediatamente a frente. Pediu licença, conforme tomava em mãos a mochila – volumosa o suficiente para incomodar caso viesse ali presa as costas - e sentou-se, olhando para moça que mantinha o rosto virado para trás, uma vez engajada que estava no diálogo com o homem já descrito.

A mulher, então, olhou nos olhos do rapaz com tal profundidade, que capturou seu olhar a medida que entregava a ele também um sorriso. Ele sentiu-se como se não pudesse mais desvia-lo; sentiu-se deselegante com a simples ideia de ignorar a atenção que a moça dirigia ao seu rosto, mesmo que naquele momento as palavras dela ainda tivessem como ouvinte o senhor ao seu lado. Além do que, tratava-se de um sorriso verdadeiramente cativante. A medida que as luzes do sol invadiam o ônibus – por volta das 16 horas, numa tarde ensolarada – alcançavam a superfície branca dos dentes engenhosamente enfileirados na parte de dentro da boca da mulher, e eram imediatamente refletidas aos olhos de qualquer um que se dispusesse a dar testemunho ao sorriso da moça, cuja beleza tampouco era de se ignorar.

O olhar dela, então, voltou ao senhor a quem ela dizia: “Ele sabe de tudo que acontece e tudo o que acontece, acontece porque ele quer”. Concordava o homem com um aceno enfático de cabeça, e ela prosseguia: “Não há quem esconda nada dele, porque ele tudo sabe e tudo vê”. E o homem mais uma vez confirmava em acordo com a sentença da moça, repetindo laconicamente o enredo: “Ele vê tudo!”. A mulher se alongava naquele poema, que agora parecia requisitar dela uma expressão mais intensa do corpo, que se mexia energicamente conforme ela subia também o tom de voz: “Ele que tudo pode e que tudo faz, nada faz que não seja para o bem, e nada quer que não seja o nosso bem!”. O homem acompanhava como se suas linhas servissem agora de contraponto as melodias que já se ensaiavam na voz dela: “Ele tudo pode!”.

Nesse instante, o olhar da mulher vagava um a um os passageiros do ônibus, encarava aqueles que se atreviam a olhar pra ela, e se insinuava para aqueles que a ignoravam. As mãos gesticulavam com o dedo em riste, dando gravidade às sentenças que proferia e, já ali, se havia perdido a discreção antes recolhida no diálogo com o senhor. Ela encontrava agora no ônibus quase cheio uma platéia em potencial.

“A vida é ele quem dá e é ele quem tira!” - Dizia ela, seguida pelo comentário abafado do senhor atrás de si: “Ele tudo sabe!”.

Levantou-se, então, de sobressalto e agregou àqueles versos uma melodia já então formalizada. Seguiu pelo corredor do ônibus, cantando – e, agora, mal se ouvia o senhor de idade, que fazia de tudo para que a sua parte, apesar do baixo volume, mantivesse para com a voz da novissa uma afinação coerente.

“Ele tudo saaaaabe, ele tuuudo vêee! Ele tudo poooode e tuuuudo faaaaz......”

Terminou a performance alogando a nota entoada com a última vogal e fazendo tremer a voz, vibrando controladamente as cordas vocais. Sem voltar a sentar-se, esperou pela próxima parada e desceu do ônibus.

O senhor permaneceu, bem ao lado do jovem com a mochila no colo. Olharam-se por um breve instante e um silêncio sem jeito tomou forma entre os dois, sentados lado ao lado, enquanto lá fora, ecoava o ronco barulhento dos carros e a paranóia ininterrupta da cidade.

Aos poucos, o impacto deixado pela lírica envagelizadora da mulher se dissolvia nas conversas amenas que nasciam da composição humana daquele ônibus, com as pessoas dispostas lado a lado, de uma ponta a outra.

O ônibus parou novamente e, dessa vez, entrou um homem carregando uma grande sacola, constituida de numerosas sacolas menores, todas presas a um cabo que se prendia, no topo, a um gancho. Apoiou a sacola pelo gancho no corrimão preso ao teto do ônibus e disse: “Senhoras e senhores, estou aqui para lhes oferecer essa excelente oferta. Cada saquinho desse contém 10 balinhas de côco: macias e açucaradas, para entreter a vossa viagem. Mas isso não é tudo” - e fez uma pausa, certo de que o que tinha a dizer a seguir justificava o drama acrescido - “São balinhas de jesus! Cada balinha dessa foi abençoada por Deus-meu senhor-Jesus Cristo. E cada um de vocês que comprar e chupar uma balinha dessas, será também abençoado por ele! Isso tudo pela mísera quantia de 2 reais. Dois reais pelo doce e também pela benção de nosso senhor Jesus Cristo.”

Tirou a sacola do gancho e atravessou o corredor do ônibus, recolhendo o dinheiro e entregando as balas às dezenas de passageiros que lhe estendiam as mãos. Chegou até o fundo do ônibus, onde estavam o senhor e o rapaz com a mochila no colo. Olhou desconfiado e fundo nos olhos do rapaz com a mochila e, sem recolher o olhar, puxou um pacotinho de balas e ofereceu ao senhor ao lado, que estendeu a mão e aceitou sem haver tirado do bolso uma moedinha sequer. Virou-se lentamente, e seguiu, descendo do carro no ponto seguinte.

O velho, lentamente, abriu o saquinho e levou à boca uma bala. Sem dizer uma palavra, virou-se para aquele ao seu lado e ofereceu do saquinho que tinha em mãos. O outro fez que não e agradeceu. Guardou ele, então, o saquinho no bolso e cruzou os braços. Seguiram os dois lado a lado, ainda em silêncio. Ao rapaz restava a superfície áspera da mochila a pesar em seu colo e os seus pecados todos, incautos, a pesarem na consciência. Ao senhor, apenas o doce gosto do açúcar e do côco, e o balanço do ônibus, ritmado...



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O Meio é a Mensagem ou Hermes Pede Passagem

Caminho sobre a calçada numa rua que segue à minha frente: reta até o último centímetro de concreto que, contra as solas emborrachadas dos meus sapatos gastos, confessa-me a dureza inegociável da sua matéria.

No final dela, à distância, vindo lentamente em minha direção, uma senhora negra de idade avança apenas um pouco mais que absolutamente normal. Cabelo, calça e sandálias reiteram as convenções mais normativas de gênero, idade e classe social possíveis; e em todas elas, fragilidade é a nota comum em destaque. Na camiseta, no entanto, apesar do tecido e recorte ordinários, uma mensagem em relevo perturba o enredo que querem contar outros detalhes: “Strong is sexy”.

Ela segue o caminho e está prestes a passar por mim. Meus olhos vagam da leitura inesperada até seus olhos serenos, que me fitam. Sorrimos um para o outro em sincronia tão justa que é difícil identificar quem primeiro desatou estes nós invisíveis que impedem os gestos da face na ordem da brutalidade e frieza da máquina social.

Mas ainda que eu lhes possa confessar – sem orgulho algum – que o meu sorriso, então, nascia da contradição em vista e de seu potencial desdobramento literário, do sorriso dela posso apenas especular - Afinal, desconfiava ela da dimensão semântica do meu? Ou a camiseta sobre o seu torso era a ela indiferente como era a sua pele em relação aos fonemas ali grafados?

Olhei para trás uma última vez - a decifração de um enigma pede ao pescoço alguma flexibilidade. Nas costas que a agora se via, sensivelmente curvadas, nenhuma palavra à vista. Mas no andar vagaroso, passo a passo, uma constância robusta e cheia de significado. A rua era a linha que dava a senhora a magnitude de uma sentença, como a linha imaginária que dava àquelas letras de antes contexto e sentido. Porque a verdade não habita a mensagem; e se nasce na voz do mensageiro investido, revela-se apenas na consciência de um destinatário. Strong is sexy, e nunca houve razão alguma pra se duvidar.  

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O Guarani

O barulho do ar que escapa - como resultado da descompressão que regula o funcionamento do ônibus quando este pára e abre as portas – chama atenção do pedestre que segue distraído. Entram os últimos e o veículo fecha as portas enquanto o ônibus permanece parado devido ao engarrafamento que enfileira dezenas de automóveis naquela Rua do Passeio, já quase em frente a Escola de Música da UFRJ.

Uma panorâmica: da calçada, é possível ver toda a extensão lateral do veículo, com suas janelas dispostas de modo a convidar diálogos soturnos entre os passageiros que habitam tais posições e os outros que esperam no ponto. O olhar fixo de um garoto na parte de trás do ônibus chama atenção: ele recai sobre a figura de uma senhora que, com os braços cruzados, mantém firme a bolsa pendurada em um deles. A mulher ignora a presença do menino que se faz sentir cada vez mais a medida que a atenção do espectador delineia a cena. O menor, preto e em cujos trajes (ainda que em relação apenas àquilo que se dispunha a vista) se identifica uma condição social definida, encara uma mulher na idade de seus, talvez, 50 anos, vestida como que atenta ao escrutínio social que a cerca. Não se pode dar a ela, precisamente, um contorno de classe, e o fato de que ela espera em um ponto de ônibus redimensiona a desconfiança do avaliador, que a primeira vista identificaria naquelas roupas dela o traço residual de um privilégio, ainda que relativo.

Num primeiro momento, entende-se que se trata de um olhar de intimidação pelo simples fato de que o olhar que ele dirige a ela não cessa e não quer cessar. A natureza intencional do gesto, em todo caso, se torna mais clara a medida que o rapaz começa a cantar; primeiro, baixinho e em crescendo até que ganhem definição os significados que ali se veiculam:

“Eu sou ladrão! Eu sou ladrão! E você não pode nada!” - A melodia remete inequivocamente ao gênero de funk associado, em grande medida, às favelas da cidade - “Se eu quisesse eu ia aí e pegava a tua bolsa! - sem rima ou estrutura definida, apenas melodia e palavra como se quisesse com aquilo configurar uma indefinição estratégica entre o canto e o discurso objetivo. E retornava e prosseguia, até que um ritmo particular começasse a tomar forma na repetição induzida à maneira de um leitmotiv: - “Eu sou ladrão! Eu sou ladrão!...”

A mulher, já consciente da presença daquele que antes não era senão um fantasma, tensionou os braços cruzados, fincando as mãos por entre as axilas, de modo a certificar-se da segurança com que matinha a bolsa presa, pelas alças - ao redor de um dos ante-braços. De uma ingenuidade obtusa, no entanto. O ladrão de fato, não é aquele que anuncia sua presença, declarando com palavras – do contrário - a ausência da intenção para o roubo. Da contradição evidente, então, desenrolava-se uma ficção bastante original; marcadamente irônica e carregada de um simbolismo o qual apenas o contexto poderia fazer tornar-se inteligível.

A imagem da bolsa protegida se dirigia ao pobre passageiro como uma declaração sub-reptícia e, em última instância, uma ofensa. Assim como o olhar dele, fixo e intimidador, se desprendia em resposta como num jogo de significados em que nada era em ato, mas, ao contrário, tudo era sugestão. Na exegese do rapaz, a precaução da mulher fazia menção a si ou, pelo menos, ao lugar por ele ocupado naquele cenário indistinto; do mesmo modo como interpretava ela sua própria segurança a partir da tensão acumulada entre os braços e em defesa da bolsa. Mas porque não houvesse seu olhar chamado atenção da moça – e apesar de toda a intensidade em que culminavam aqueles olhos ocupados, o silêncio é justamente aquilo que faz do olhar uma voz a espreita – viu-se impelido a tornar audíveis as palavras que até então não estavam senão implícitas. Assim procedendo, no entanto, inaugurava o garoto um novo regime para o discurso, forçando o diálogo como um cantor de ópera que se impõe a seu público a plenos pulmões. E como na ópera, comprometia-se menos com a realidade que com a forma com a qual tratava seu tema - uma receita comum a quase todos os fenômenos que se inauguram em um regime estético.

Mas nem por isso, se podia dizer que não houvesse ali um interprete preocupado em compensar a fragilidade diegética da performance, com o apelo humanizado de quem incorpora os sentimentos que deseja expressar em uma segunda camada não tanto involuntária quanto intencional, ou seja, não como aquele que sente, mas como aquele que inventa e faz, por isso, do sentimento uma razão inequívoca, notável era o tom ameaçador com que sua música seguia a melodia pouco prodigiosa em curso. O volume induzido, portanto, era apenas aquele necessário para fazer-se ouvido pela mulher e mais um ou dois transeuntes atentos a volta, como aquele que testemunhava a encenação.

Para a mulher, a quem parecia importar menos a forma que o conteúdo explicitamente evocado, o terror tornava-se nota em destaque, porque sob a nódoa da ficção escondia-se então uma realidade em potência, em que se fazia vibrar dos sentimentos a espera antes o medo que um regozijo qualquer diante da beleza dos traços originais de uma peça como aquela.

A quem, no entanto, observava a distância os detalhes e casuais ornamentos como signos da obra em processo - reconhecendo não apenas o drama em relevo como a interpretação acabada, que sonora e expressivamente ressaltavam do artista a marca de uma kunstwollen feita evidente, enxergando não somente a técnica, mas principalmente a inteligência com a qual o autor se tornava o veículo de uma poderosa crítica a sociedade em questão – , e porque não houvesse aparato institucional algum dando contexto ao dispêndio de gritos de louvor e aplausos, restava apenas o elogio interiorizado da contemplação em retorno.


A arte é a forma magistral pela qual, ao atentarem uns aos outros os indivíduos de um mesmo contexto, assumem-se na ignorância mútua de suas razões profundas no momento mesmo em se desfazem dos julgamentos precipitados em nome de uma consideração segunda, para finalmente perceberem que o significado pleno da ação está na simples atenção que se dirige a ela.





sexta-feira, 25 de março de 2016

A Compensação



Tomei de volta as palavras

do poema que escrevi para ti.

Desculpe-me.

Deixo-te estas: que sou um babaca egocentrico.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Quarta-feira de um tom mais escuro

Depois da tempestade, o precipício.

Assim descrevia o sentimento que o ocupava logo após cessarem os entusiasmos que o haviam impulsionado durante todo o carnaval. Quando aquela alegria incontornável, catártica, desproporcionada, não habitava mais seu peito e no lugar deixava apenas espaço; uma cavidade profunda que pedia tão somente ocupação imediata.

Perguntava-se sobre si mesmo, sobre a natureza do gozo carnavalesco que se dispunha pulsante em seu corpo minutos antes, e que ainda agora pulsava em outros corpos, os quais podia ele nesse momento observar, não sem alguma inveja, mas, sobretudo, com a indiferença de quem olha fixo um retrato e sabe que não se trata de nenhum espelho. Os primeiros raios de luz do dia, no entanto, ofereciam clareza e um brilho singular ao cenário do qual se retirava ele agora, e era justamente entre a indiferença e a inveja que se alternavam um movimento decidido de evasão e um reflexo auto-projetado de si na imagem da qual ele já não devia mais fazer parte. Quando cessava o brilho, porque não incidisse a luz num certo instante diretamente, restava apenas a clareza diurna através da qual se revelavam as imperfeições das máscaras customizadas, as costuras expostas das fantasias mais minuciosamente fabricadas, o desajuste dos elaboradíssimos chapéus nas cabeças cambaleantes por folga ou estreiteza da sua abertura em relação a cabeça que a vestia, o cansaço ardente no rosto da menina ainda impregnada pela festa, pela dança e pelos desejos seus ocultos – quaisquer que fossem.
Pois na exposição tão crua dos artifícios e ficções que imantavam aquela festa de um ar característico de fábula é que nascia a percepção de seu fim - já quando fim e percepção do fim eram uma e a mesma sentença. E como todas as coisas que são, apenas quando e conforme são, também o carnaval se presta a essa dinâmica particular em que toda a descrição é fantasia, porque quando se descreve, já não é; e quando chega de fato ao final é já outra coisa – e antes dela apenas um campo de possibilidades que a memória articula como quem maneja um álbum de fotografias.

Precisou afastar-se daquela gente, pois da diáfana compreensão de que já não fazia parte do instante. Quis mesmo acreditar que seu caminho seguiria, a partir dali, sua vontade e tão somente a sua vontade, mas não podia ignorar a sensação de que fora deixado de lado, excluído quando prontamente deixara de ser um deles para tornar-se outra coisa. A agitação dos corpos em sincronia deu lugar à marcha individual, e onde se contorcia o desejo incontrolável de mexer-se, refração do contágio festivo a que dá nome o carnaval, insinuava-se agora apenas o aspecto funcional do movimento pendular que leva de um lugar ao outro por mera necessidade e ocasião.

Pelo caminho, no entanto, a memória seguia ativa e capturava com participação diligente cada figura que iria compor esse retrato do encerramento. O encantamento residual de uma mágica que depende das proezas do corpo – "o corpo que agora falha", dizia a legenda.

Havia aqueles ainda excitados, mas nesse momento estes serviam já apenas de moldura para a pintura que descreviam os ânimos em declínio. Afinal, não se tratava de uma descrição pictórica qualquer do carnaval, mas sobre o seu fim. E quanto mais afastavam-se o som dos surdos e das caixas, das vozes e dos metais, mais protagonizavam o espaço vazio e os dejetos de orgias sem nome; e conforme os resquícios da festa em movimento desapareciam no silêncio da rua, a melancolia do trajeto dava lugar ao desespero e a ansiedade pela chegada ao destino. Sentia-se, o ex-folião, cada vez mais abandonado por aquelas milhares de pessoas à quem havia ele dado o melhor de si durante as últimas horas da sua vida, mas sobre cujo pertencimento dizia respeito apenas à sua memória e não às delas, provavelmente. Não havia uma sequer alma ouvindo o apelo cantado em versos de marchas sem rima daquele um que agora carregava sobre os ombros apenas sua própria consciência - morada de uma personalidade irremediavelmente sóbria e solitária.

No chão, gradualmente, apareciam os despejos casuais da massa e, de repente, despejos menos casuais: Corpos humanos. Um, depois outro e mais outro. Cada um deles carregava consigo o aspecto geral de uma condição que era para a consciência que os reconhecia inconciliável com a ideia do que deveriam ser corpos humanos, posto que o termo, para esta, deveria descrever um contexto absolutamente diverso daquele exposto. Assim, não se pôde reconhecer, num primeiro instante, em nenhum deles, e ainda que o cansaço lhe subisse pelo pescoço e lhe quisesse roubar todo o movimento do corpo, não seria possível que fosse ele e seu corpo no chão, porque nele perdurava, sem ressalvas, aquela estrutura construída ao longo de seus alguns anos sob a alcunha de alguma dignidade, que exercia não apenas com o corpo, mas com todo o arranjo dos gestos possíveis; que se exibia não apenas nos olhos abertos, mas nas roupas, no cabelo e nas unhas cortadas. Algum tratamento especialíssimo, percebia agora, o havia dotado de um sentido e um patrimônio de si que pareciam de todo ausentes naquelas figuras ali largadas; deitadas sobre o concreto das calçadas ou mesmo entre o meio fio e a rua, como se a pele acostumada estivesse a dureza particular daquele solo, como se conforto fosse uma palavra sem ordem e de sentido perdido nas ilusões de algum mercado que lhes era, sobretudo, alheio.

Mas os corpos em exaustão ressaltavam uma nota particular em razão: eram seres humanos e, aquela, a consequência dos seus excessos. Mas e os excessos daquele que observava, por que levavam tão criteriosamente a consequências diversas? Perguntou-se, finalmente, pois a honestidade era também parte daquela estrutura chamada dignidade: “O que nos diferencia?” E a resposta saltava-lhe aos olhos. Apenas entre o tecido das roupas e a pele que estas cobriam, uma dezena de características separavam aos olhos atentos os corpos estendidos ao chão daquele que caminhava judicioso. A partir da pele e adentro, no entanto, muito pouco devia-se encontrar que os diferenciasse - o sangue devia ser úmido e vermelho como o dele, os órgãos cumpriam, provavelmente, funções similares às dos seus e os ossos deles mediam-se por dureza análoga a dos ossos que o mantinham naquele instante de pé. Seria, então, a química artificial que incendiara aqueles corpos horas antes muito diversa da que nele ainda corria, querendo se extinguir sobre um colchão macio em ambiente silencioso e controlado ou da que corria no sangue dos outros que, ainda, atrás de si festejavam? Provavelmente. Como as vestes sobre o corpo e o corte de cabelo, também por dentro um tratamento mais cuidadoso e sofisticado, como as alegorias sobre a cabeça e penduradas ao redor do pescoço, resultava o encerramento da festa de modo diverso para aqueles e para aqueles outros ou para si. Assim, reconhecia-se no meio do caminho entre os corpos estirados e os corpos ainda em festa, mas sem poder identificar-se completamente nem com estes, nem com aqueles.

Quis ele, então, por um instante, voltar a ser apenas mais um entre os que festejavam. Mas para isso, seria necessário que deixasse de lado a consciência que agora determinava seu curso. Talvez fosse apenas uma questão da circunstância ou da falta de apelo. Quem sabe uma ocasião distinta não pudesse transpô-lo daquele quadro desesperançoso de humanidade em questionamento e projetá-lo novamente ao reino encantado dos foliões? Era certamente o corpo em esvanecimento, contudo, que dava lugar a consciência criteriosa e que também o alertava para o caso de que é terrivelmente fácil julgar uma multidão, dizer-se um “eu” entre os “eles”, sem ter acesso ao enredo individual e aos pensamentos, ainda que de lucidez residual, que balançam com aqueles corpos em ecstase. Se lhe fosse permitido invadir a consciência privada de cada um deles, certamente encontraria em um e outro disposição mais aguerrida a reclamar contra aqueles privilégios, pois é também um direito a eles garantido – e privilégio maior entre os privilégios – reconhecer e questionar a dinâmica da história que produzia um tal contraste e desumanizava os corpos outros que agora pendiam pelas sujas ruas. Mas como o seu acesso se limitava aquilo que lhe proporcionavam seus olhos e ouvidos, podia apenas reconhecer a alienação geral a tudo que não tinha o aspecto sumptuoso da alegria e do prazer.

A sua consciência, no entanto, pedia tão somente que terminasse a festa – e se explicava: a grande e mais cruel capacidade humana é a de suportar que haja corpos aos quais se entrega tamanho apreço, e outros que se confundam no lixo dos resíduos carnavalescos. Porque são corpos como esses os que se emprestam a função de cadáver quando ao invés do carnaval traça-se um retrato medido da guerra.

O ex-folião se preparava, assim, para uma nova festa, enquanto colhia o cenário a volta entre adjetivos descolados e frases de efeito. A fantasia mais desatinada - costurava o estilo como num golpe coreografado de acomodada autocrítica - é ser aquele que escreve; o que julga e condena, de um lado, e aproveita, do outro, os deleites da posição que ora ocupa. E essa máscara ostentosa que o narrador veste sobre seu rosto enquanto seus olhos vasculham pela memória as cenas possíveis de uma crônica ensaiada - e cheia das suas assertivas morais – disfarça tão bem seu caráter sob um entulho de virtudes humanas quaisquer, que faz da história contada seu próprio carnaval.