terça-feira, 28 de setembro de 2010

M93

Entrar no ônibus parece-me a parte mais difícil embora também seja difícil sair dele. Mas como tudo na vida, pior que o golpe de misericórdia é a tortura diligente e silenciosa que procura amparo psicológico antes do problema físico. Em todo caso, entrei. Contive-me lá dentro como o líquido se contém na garrafa. Não me era possível sair a não ser pelo único lugar que define a saída no distintivo de uma garrafa: o gargalo.

O ônibus andou uns poucos metros e parou diante de um quilométrico engarrafamento e só a partir desse dia me foi possível compreender porque assim o chamam. Estávamos todos enfileirados no trajeto de alguma indústria perversa. A maquinária daquele organismo arrastava, a lentos passos, umas milhares de unidades da produção com destino aos seus respectivos mercados. Continha-nos grossos recipientes feitos de vidro e metal, e tirávam-nos, naquela tormenta de pequenos incômodos, o mais ínfimo nódulo de uma possível individualidade. Tínhamos todos a consistência dos líquidos que são passíveis de conter-se em garrafas. Como refrigerante quente, embora não tão doce, borbulhavamos apenas quando abria-se espaço para o que de nós tornava-se gás. Quão triste era quando essa minha ingênua metáfora ganhava dimensão literal... provável que eu nem devesse tê-la armado, mas, de fato, dentre os incômodos que se poderia listar seria esse o que melhor definiria a ocasião em acordo com a analogia em que pessoas comuns se constituíam da mesma matéria de um quente e pouco agradável refrigerante.

Eu olhava pela janela. Apenas aos olhos o ambiente me tinha em certo conforto. A fumaça negra que se espargia lá fora encatava-me pela soltura e eu, ali, desejava um pouco de dióxido de carbono como um peixe que tem pulmões e espreita no fundo do lago deseja o ar da superfície. Eu só olhava pela janela enquanto o ônibus permanecia parado. Andava, é verdade, mas permanecia parado - assim como a Terra que gira abaixo dos pés, e permanece, também, parada. E Newton não explicaria isso melhor que o senhor ao meu lado, que reclamava de 4 em 4 minutos que iria chegar atrasado ao trabalho.

Uma sirene enlouquecida fazia-se baixa e aos poucos inundava o ambiente. Avolumava-se e preenchia, pelas pequenas frestas, aquele recipiente no qual eu estava contido. Era um som louco de fato. A imagem que suscitava nao podia ser senão a de um demente clínico a gritar pedindo passagem ou anunciando o apocalipse. Aos poucos, conforme aqueles latidos alucinados da sirene ganhavam a imagem inquieta da ambulância, os carros assumiam as personalidades de seus donos e tentavam ajeitar-se para dar passagem ao veículo berrante. Percebi, então, que todos no ônibus olhavam pela janela com semelhante obstinação. Senti-me parte daquela grande massa uniforme que era o líquido que o onibus continha. E pude sentir, com a unidade perene dos sentidos coletivos, o que se passava com toda a gente. Penetravam na ambulância e com diligência insensata mapeavam todas as possibilidades. Descreviam com imaginação cada traço oculto dos habitantes daquela viatura. É claro que alguns deveriam duvidar que houvesse ali um doente - esses preferiam supor a desonestidade do motorista que usava a sirene como medida de por-se mais alto. Mas a grande maioria, aqueles dos quais eu fazia parte, o grosso do líquido por assim dizer, olhavam o sujeito na maca na luta contra uma morte prematura e o invejavam. Senti também essa inveja, mas no surto de minha conspícua racionalidade fiz-me recobrar o panorama da coisa. E daí que ele estivesse confortavelmente deitado, que o seu carro andasse em velocidade superior a todos os outros e que ele, possivelmente, chegasse ao seu destino antes de qualquer um de nós? O seu destino seria, de qualquer forma, a ala de emergência de um mórbido hospital ou um sombrio necrotério – enfim, a morte.

E enquanto um sem rosto ao meu lado se ajeitava e eu sentia o desconforto lancinante daquela garrafa, dissolvia-se a minha racionalidade pretensa e insensível. Transformava-me, então, no quinhão indeciso de um bruto coletivo e novamente pude sentir o torpor palpitante daquele líquido organismo que me envolvia.

A morte. Ah! A morte! E que inveja eu sentia daquele sortudo.

domingo, 12 de setembro de 2010

Enquanto isso, na sala da Justiça...

Entrou na van um garoto segurando um pacote de papel daqueles de uma famosa rede de lanchonetes americana. Sentou-se na primeira fileira, logo quando puxou para fora do pacote uma caixa que abriu, sacando dali um sanduíche gorduroso. Nem precisou dar a primeira mordida e o cheiro já se havia espalhado pelo automóvel – o ar condicionado pedia que as janelas se mantivessem fechadas.

Alguns minutos depois, uma senhora, que se localizava na fileira logo atrás da do rapaz, comentou:

- O senhor não pode comer na van.

Um pouco confuso com a denominação de “senhor” – que se usava ali apenas como medida de formalidade prática, já que o menino não tinha mais que quinze ou dezesseis anos – e ofendido com a repreensão da senhora, devolveu-lhe:

- Como não?! É o que eu estou fazendo agora.- e desferiu uma mordida performática no sanduíche, enquanto puxava uma batata frita de dentro do saco, que iria por na boca ainda em processo de mastigação.

A senhora se articulou cheia de razão, revelando o inconveniente e a ética da questão.

- Isso é um absurdo! O sanduíche é seu, mas o cheiro... O cheiro temos que agüentar nós todos aqui dentro, né? Você não percebe o quanto isso é incômodo?

- É só cheiro de hambúrguer! – retrucou o garoto.

- Ninguém é obrigado a sentir esse cheiro. Estamos dividindo um espaço aqui! – disse a mulher e, não bastasse o litígio que já impregnava o ambiente muito além do cheiro do hambúrguer, o rapaz – fundamentado naquela sentença que diz que “a melhor defesa é o ataque” - resolveu que iria chamar atenção para uma característica física da mulher; e retomando a pauta “divisão do espaço” levantada pela senhora, declinava o processo em favor do acusado, fazendo notar uma nova disputa que até então não se tinha em relevo.

- É, estamos dividindo o espaço. A senhora reclama do meu sanduíche, mas se a senhora hoje ocupa tanto espaço (e, daqui, eu especularia coisa de um lugar e meio no banco da van) é porque já deve ter-se atracado com alguns desses nos últimos anos, pelo menos.

A senhora cerrou os olhos fingindo não acreditar que houvera sido chamada de gorda, ofensa que seria pouco eficaz se ela não o fosse de fato.

Um burburinho especulativo começava a tomar conta do veículo, cujo motorista tentava permanecer imparcial – e nesse caso a imparcialidade era, e somente poderia ser, o silêncio.

- Isso não é justo. – Levantou a voz a senhora, mais uma vez. – Ele me chamou de gorda! Vocês ouviram isso? – Apelava para a opinião pública agora que havia sido deliberadamente ofendida.

O rapaz recuou na ofensa e tentou defender-se com um pouco mais de diplomacia, coisa que se fazia inexistente nas primeiras investidas do menino que advogava em favor de causa que ele próprio parecia considerar banalíssima.

- Minha senhora, estamos dividindo um espaço, isto é certo. Mas o cheiro do meu hambúrguer deveria incomodar tanto quanto uma conversa despretensiosa, já que o cheiro se espalha no ar conforme o som. E se o cheiro nos incomoda aos narizes, do mesmo modo o som nos deveria incomodar aos ouvidos. Vá lá que a senhora não goste muito do cheiro do sanduíche, mas eu poderia, por exemplo, não gostar de ouvir esse casal do meu lado falando de seus planos para o almoço de amanha, mas não vou também criar caso por isso, pois o fato é que se o cheiro de comida incomoda alguém, muito mais que ele, incomoda é essa discussão descabida que acabou com toda a tranqüilidade dos passageiros, e aqui me incluo entre estes.

O rapaz foi bastante preciso na sua argumentação – de se admirar para um garoto de sua idade, cabe dizer -, mas na ânsia de colocar seu ponto-de-vista, acabou por criar desconforto também no senhor ao seu lado, que minutos antes conversava com a esposa sobre o almoço que teria com a família e o chefe no dia seguinte. E nesse pequeno deslize estratégico, também o senhor tomou parte na discussão e ponderou sobre a argumentação do garoto:

- Veja lá, filho: Você está dizendo que cheiro e som são a mesma coisa e que incomodam do mesmo jeito?!

- E não incomodam? – disse o rapaz, respondendo com uma pergunta.

A senhora logo se pôs a bufar, ridicularizando a analogia referenciada pelo garoto: - Veja só querer comparar uma conversa miúda ao cheiro empesteante do hambúrguer...

O senhor, então, tomou fôlego para argumentação e iniciou: - Pra inicio de conversa, o cheiro do sanduíche é orgânico.

- E o que exatamente isso quer dizer? – perguntou cepticamente o rapaz.

- Quer dizer que o cheiro que estamos sentindo e que chega aos nossos narizes é formado de pequenas partículas de substâncias que deixam o sanduíche e penetram nas nossas narinas e, portanto, no nosso corpo. Substâncias que fazem parte e são, de certo modo, o próprio sanduíche. Diferentemente do som, que é uma propriedade do espaço, digamos assim... Ondas que se propagam e são decodificadas pelos nossos ouvidos.

- Certo, então, Einstein! Quer dizer que se eu deixar o meu sanduíche intocado, cheirando ao relento até que todas essas “partículas” se soltem, ele vai desaparecer? Porque se são, mesmo, estas partes integrantes do sanduíche, isso é o que deveria acontecer quando todo o cheiro se dissipasse. E o que você me diz do plástico, da borracha e do metal, todos materiais não orgânicos que, ainda assim, têm cheiro? Não vale pra eles sua teoria?

O senhor deu um leve sorriso levando o braço novamente aos ombros da esposa (“donde nunca deveriam ter saído” – Pensou). Vendo até certa graça na réplica do garoto: leviana Mas lá com alguma presença de espírito; e furtou-se de respondê-lo, sobretudo, por julgar que a discussão era, muito além de imprópria, sem pé nem cabeça.

A senhora, tomada ainda pela dor da ofensa a que fora submetida cinco minutos antes, tratou de avivar o litígio: - Que garoto insolente. Depois de me chamar de gorda, deixar a van toda fedendo, ainda se acha no direito de falar besteiras como esta. – Reclamou ela olhando para aquele senhor que a havia defendido naquele embate, ainda que por mero posicionamento crítico.

Antes que a discussão fosse além, uma voz profunda e temerária se impôs a desavença e ordenou ao motorista: - Pare a van! – No que foi atendido de pronto. Todos se voltaram para o final do veículo, de onde se praticava aquela voz um tanto rouca (mas cheia de subtons complexos e dona de uma autoridade irretorquível), e se deram diante daquela figura austera, sob uma indumentária incomum constituída, em particular, por capa, botas e máscara, e onde no peito se estampava a logomarca do destemido homem-morcego. Como não fosse possível questionar a autoridade que vinha colada à voz, aos trajes e ao rígido semblante do herói, serviram-se todos do imperativo de que devia ser mesmo o Batman.

Após o silêncio seguido à parada do automóvel, o homem-morcego continuou, olhando diretamente para o garoto:

- Em primeiro lugar, você não pode comer dentro da van, especialmente com as janelas fechadas. O cheiro não só incomoda algumas pessoas como pode impregnar suas roupas. – tomou a capa nas mãos, levou-a ao nariz e completou: - Vejo só, o cheiro do hambúrguer entranhou na minha capa. Imagine você se eu estivesse indo diretamente para uma reunião com o comissário ou o prefeito... Seria realmente desagradável entrar na sala com esse cheiro de gordura na minha capa.

O rapaz, que ainda mastigava os últimos pedaços de seu sanduíche, permaneceu por alguns segundos com a boca aberta, por cuja abertura se podia ver, ainda, o bolo alimentar que se formava de forma irregular, quando teve a notícia, por parte do todo poderoso Batman, de que deveria sair do ônibus naquele exato instante.

A senhora, que ouvia tudo com um sorriso que ia de um lado a outra daquela boca experiente não apenas nas reclamações de direitos, como, provavelmente, nas largas refeições que fazia, comentou satisfeita e aliviada:

- Graças a Deus o bom senso venceu... – Mas antes que fechasse a boca, foi interrompida pelo homem-morcego que se dirigiu a ela assim: - A senhora, também, não tem o direito de ocupar tanto espaço. Então, a não ser que pague por duas passagens deverá se retirar agora mesmo junto com o rapaz.

Não se sabe bem se o super-herói sustentou aquela posição por força de um rigoroso senso de justiça em que declarava a senhora, de certa forma, culpada pela condição de sua estrutura corporal (certamente não levando em conta o caso de seu arqui-inimigo Pingüim, que ostentava uma volumosa barriga ainda que submetido, desde tão cedo, a uma dieta a base de peixes), ou se tomou a sentença como forma de amenizar a derrota do menino que, em um dado momento, lembrou-lhe a personalidade juvenil e arrojada de seu pequeno ajudante e afilhado Robin. Mas o caso é que nenhuma palavra, além das necessárias a definição das sentenças, foi dita a mais.

- Que absurdo.. – Sussurrou a senhora um pouco temerosa de uma possível reação do homem encapuzado. Levantou-se, fazendo menção de retirar-se, já que pagar uma segunda passagem seria assumir como culpa a condenação, pedindo passagem ao homem que se colocava entre ela e a saída. Como o corpo da mulher fosse desproporcionalmente grande em relação ao espaço que sobrava como passagem, teve o homem que descer da van para dar chance a senhora de se retirar do veículo sem que para isso fosse necessário passar por cima de alguém.

Curioso mesmo é que quando a van partiu, permaneceram no local não apenas a senhora e o garoto como também esse homem que havia descido para dar passagem a ela. Não se sabe se porque tivera chegado ao seu destino ou por receio do que pudesse fazer o homem-de-preto, tão sinistramente resoluto e imperturbável.

Os três se entreolharam e, assim, terminou a história; sem se ouvir reclamações de nenhuma das partes, do que se pode inferir que, mais uma vez, prevaleceu a justiça. Provável, ainda, que o homem-morcego tenha, antes do seu destino final, dado uma rápida passada na bat-caverna com vistas a trocar o uniforme que cheirava a hambúrguer. Mas certa mesmo foi a desconfiança em que restaram aqueles todos que testemunharam a cena: se era apenas um lunático fantasiado fora de época, ou se era, de fato, um moral e inquestionável Batman, obrigado a fazer as vezes de passageiro de van porque o batmóvel estivesse ainda em conserto.

sábado, 28 de agosto de 2010

Trompe le main

Mulheres lindas. Tudo que se movimenta no cenário urbano sobre duas lindas coxas. Vestidas a caráter, já que é o próprio cenário quem sugere o texto.

Secretárias, executivas, garçonetes...

Também as meninas. Perfeitamente ajustadas em suas roupinhas de colegial.

Desse modo elas se dispõem ao uso. Desse modo meu desejo as contempla: em plena abertura, ainda que em discreta observação.

Vestidas.

Aliás, eu nem nunca soube de caso algum onde o homem haja-se retirado da batalha após o inimigo despido. É de se supor – concluo – que pouco importa como elas são peladas.

Muito mais atento às silhuetas que ao código genético, meu desejo vai muito além de uma mera atribuição evolutiva, como a vontade de procriar. Meu desejo é desejo, antes de ter nome e antes de ser carne.

Mulheres lindas.

Lindamente vestidas.

Entre os ombros e os calcanhares, algum tecido que lhes caia sobre o corpo e que lhes esconda uma faculdade inata qualquer. Belas tetas ou uma bucetinha bem delineada.

Curvas.

E quando no momento da masturbação as realizo em uma imagem semi-sólida que se põe diante de mim, estão ainda vestidas. Despidas as faço apenas na medida do ajuste para uma penetração adequada e bem imaginada.

A imaginação deve seguir os desígnios da boa representação, assim como a pintura antiga. Parraso, por exemplo, fez de sua pintura o próprio embrulho, a própria imagem de que estava a pintura embrulhada. Ora, aquilo que se esconde também na imaginação é porque não há necessidade alguma de ser revelado.

Mas quem melhor pinta um corpo que se quer deflorado é quem sabe que a imagem transborda por todos os lados. E se algum pássaro bicou, de fato, as perfeitas uvas por Zeuxis pintadas, foi porque o espaço a volta se devia ter, também, muito bem representado.

Já eu tenho a imaginação débil. Por isso, sou obrigado a montar esse roteiro em que as moças são conduzidas sob argumentação razoável até o meu banheiro, onde a imagem tecida ao esforço da memória é situada pelo cenário tangível em que posso me satisfazer a portas trancadas.

É mesmo uma pena.

Meu desejo por elas é indissociável da imagem primeira, aquela em que não as tinha. Imagens inacessíveis ao contato do corpo declarado.

Na rua.

No ônibus.

No banheiro feminino, através da janela deixada pela porta entreaberta – E seria essa mesma a moldura desse quadro capturado. Não se poderia roubar a paisagem ao fundo sem que o contexto do desejo também se alterasse. Seria um outro desejo, portanto. Um desejo distinto...

Bem aventurados aqueles que se masturbam em público, pois, ali, a imaginação os toca na origem e na origem ela é também tocada. O meu pudor, no entanto, não me permite esse recurso hábil - embora o testemunho diga o contrário em meus registros escolares.

sábado, 7 de agosto de 2010

O Colosso de Rhodes

Entre julho e agosto daquele ano, qualquer um que circulasse pelos arredores do Castelo, desde o Museu de Belas Artes até o Tribunal da Justiça Eleitoral, teria a desfelicidade de encontrar a velhinha em questão. “Desfelicidade” não porque fosse velha e, certamente, não por desgosto a senhora – que tão mal não fazia a ninguém – mas pelo súbito questionamento ao termo humanidade com o qual se depararia um que fosse, assim,  afeito a questionamentos.

O andar vagaroso acusava a debilidade do corpo, que se mantinha arqueado numa rigidez tão plena que nos fazia imaginar os ossos petrificados na forma de parábola tal que o olhar da mulher não poderia subir acima dos ombros de um que alcançasse pelo menos um metro e setenta de altura. Mas era o aspecto ímprobo das roupas da senhora que dava a tonalidade miserável e a tez anti-social da personagem. De fato, abuso seria até mesmo chamar “roupas” àqueles trajes, que se constituíam de dois pedaços de tecido – possivelmente antigos lençóis, puídos pela usura do tempo – enrolados desde os ombros até a cintura, um de cada lado, de forma que se cruzassem ali na região dos quadris, descendo pelas pernas conforme alguma espécie de saia pouco ajustada. Do improviso oportuno, ainda que o tétrico e o trágico tão prontamente se exprimissem naquela figura – que tão engenhosamente ajustara as “roupas de cama” ao corpo -, sobrava-lhe alguma dose de comicidade e seria permitido até rir da senhora, não fossem os últimos traços de dignidade roubados por um único tablete de balas halls que a velha trazia não mão esquerda estendida, como se o oferecesse em troca de algumas moedas para as quais a mão direita se mostrava em espera, segurando, um pouco abaixo dos ombros, um copo plástico descartável.

Os cabelos brancos, que se podia pensar serem cinzas dado o estado de encardimento em que se encontravam, interrompiam-se nos ombros e pareciam ignorar os pesarosos movimentos da cabeça, petrificados tal como os ossos que sustentavam aquela carcaça. Os olhos baixos escapavam por baixo das pálpebras semi-cerradas e alcançavam timidamente os olhos dos passantes. Haveria o passante, no entanto, de fazer certo esforço e inclinar-se um pouco diante da senhora se pretendesse encará-la, quem sabe, em aceno de humanidade que se pediria acompanhado do gesto de colocar algumas moedas no copo que a mão segurava - e isso, ignorando o tablete de halls que se estendia junto à outra mão, como que oferecido como objeto de troca na transação que se sugeria. Então, a velha sacudiria – não sem alguma dificuldade – o copo em reposta de agradecimento e continuaria sua peregrinação na mesma forma esculpida em que o corpo se apresentava - duro como o mármore -, sem que os braços deixassem a posição do trato, estendidos até quando o caminho era vazio e silencioso – como a própria protagonista da história - numa tarde de domingo no centro do Rio.

O recurso era claro. As esmolas eram parcimoniosamente mendigadas, já que na mão esquerda o tablete de halls, visivelmente amarrotado pelo manuseio constante, se queria afirmar como produto de venda. Não era, e o mais insensível dos homens poderia reconhecer o mecanismo pelo qual a senhora intentava se resguardar de algum acanhamento de cunho moral. Bem, talvez não o mais insensível dos homens...

Certo dia, parou-se diante da velha um rapaz de terno e gravata com o rosto liso, marcado, talvez, apenas pela ingenuidade dos seus vinte e poucos anos, tirou do bolso a moeda de maior valor e depositou no copo da senhora. Mas antes que a cena estivesse terminada, surpreendentemente, o rapaz levou a mão direita ao pacote que se comprimia na mão esquerda da velha e segurou. A fotografia em que velha e rapaz compartilhavam estáticos o mesmo tablete de halls, dividido entre a mão esquerda da senhora e a mão direita do jovem, durou cerca de dois segundos, quando veio, então, seguida de duas ou três tentativas, por parte do jovem, de tomar o pacote da mão da senhora. A velha apertou como nunca aqueles dedos frágeis e inflexíveis e reteve as balas na mão. Foi quando o rapaz se deu conta do mal entendido, largou o pacote em questão e seguiu constrangido o seu trajeto até o escritório em que trabalhava. Constrangido não pela luta que se teve em segundos pelo pacote de balas, mas pela ausência de bom senso que o assaltou naquele momento. Afinal, aquele tablete de halls não era – ou não deveria ser – apenas mais um produto para venda através do qual esmolaria a velha, recebendo ofertas superestimadas por um mísero pacote de balas que não valia, de fato, mais que alguns centavos. Era ele, vertical e ereto como se queria a velha, o próprio símbolo de sua dignidade perdida. Um correlato material não apenas da juventude, que se esvaiu no corpo agora arqueado, mas a estandartização de uma moral empedernida, vazia e sem sentido; pilar de sustentação de um último sopro de consciência da velha, que se não era louca, lúcida tampouco era.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O velho e Omar

Esquentava as mãos sobre o latão na fogueira que se sustentava ao custo de folhas de jornais velhos e dos pedaços de madeira arrancados aos antigos móveis, abandonados bem ali, naquele beco imundo. Permaneci em silêncio até que se aproximou um senhor, cuja branca barba atravessava a linha do pomo-de-adão, dobrando-se ao peito coberto com o grosso tecido de um casaco escuro. Cumprimentou-me com um aceno sutil da cabeça e pôs suas mãos sobre o fogo em compassiva atitude, compartilhando não apenas o calor necessário ao corpo enrijecido pelo frio intenso, como também a desavença com o mundo que mantinha a margem os freqüentadores daquele beco.

- A noite vai ser fria – comentou o senhor dando espaço a um assunto qualquer, como quem admitisse o diálogo antes mesmo da pauta sugesta.

- O dia já está frio – eu retruquei, lógico e agudo.

O velho riu-se, comedidamente, e me perguntou as horas. Puxei a manga do sobretudo, confirmando que já se passavam das 4 da tarde, no que fui imediatamente agradecido por ele, que logo em seguida comentou:

- Nunca te vi por aqui.

- Eu não costumo entrar por esses becos, é que hoje tive uma notícia ruim e resolvi dar uma volta pelo bairro. – respondi certo de que seu comentário implicitava a pergunta qual minhas palavras fizessem saciar.

O senhor permaneceu em silêncio. Mas o silêncio falava por si; tinha os ouvidos abertos e auscultava minha dor com todo coração. Aliás, pedia-me que desabafasse, pois éramos “Irmãos de fogo” e dividíamos juntos o calor, o frio e as dores. Afinal, por baixo de uma barba tão volumosa, devia mesmo haver um espírito nobre e doce, conforme as lendas que nos descrevem esses sábios.

Expus, então, o que me incomodava: - Não existe justiça no mundo?! Não se vestem mais os homens com o mesmo traje. A humanidade que nos devia cobrir deu lugar às fardas e hierarquias da força e da desproporção.

O velho olhou-me nos olhos e consentiu, lacônico: - É... Mundo cão!

Comecei, então, a contar-lhe o caso: - Fui demitido. Sem mais nem menos. Chamaram-me no departamento de recursos humanos e me disseram que os meus serviços não eram mais necessários. Que humanos são esses se os seus recursos são sempre os mais sórdidos? Os meus serviços não são mais necessários?! Ora essa! Nunca precisaram, de fato, de mim. Não é por necessidade que se sustentam relações como a de empregado e empregador. As pessoas precisam trabalhar, ganhar dinheiro, comprar coisas. Assim fazem trabalhos desnecessários produzindo coisas inúteis que serão compradas por outros, que produzem outras inutilidades. Então, um dia alguém chega e diz que a inutilidade daquilo que você produz é ainda mais inútil que todo o resto. Te joga na rua sem a menor culpa.

O senhor permaneceu recluso numa compostura honesta e comedida. Olhava para o fogo e dava-me de esguelha a atenção que minha história pedia. Eu continuei:

- Justiça. Justiça! É isso que falta ao mundo. Se os homens fossem mais justos... Afinal, de quantas coisas precisamos pra viver? É mesmo necessário que todos trabalhem o tempo todo? Claro que não! Bastava um revezamento planejado e trabalharíamos todos no máximo 3 meses por ano, dividindo tudo igualmente entre os homens, todos os homens. Isso sim seria justiça. –

E me excedendo, como que atribuindo necessidade maior que aquela realmente disposta sobre a atenção que o homem me dava, perguntei-lhe: - Justiça! O senhor sabe lá o que é isso?

Virou-se na minha direção e começou uma história: - Li certa vez uma história sobre um antigo reino em que certo ladrão, tendo o olho furado, acidentalmente, por um tear enquanto invadia, na escuridão da noite, uma fábrica de tecidos (por engano, já que queria, de fato, era roubar a loja de um cambista), havia reclamado justiça ao rei, porque cego de um olho não poderia agora cumprir com perfeição seu ofício, o de ladrão. O rei, comovido com a dor do ladrão, mandou que chamassem o tecelão, dono do estabelecimento, e exigiu que lhe furassem um olho para que assim se re-estabelecesse a justiça. O tecelão disse ao rei que precisava dos dois olhos para exercer seu trabalho, já que o trabalho lhe exigia aptidão com as mãos e também com os olhos, mas comentou sobre um seu vizinho que era sapateiro remendão e que, portanto, não tinha necessidade os dois olhos para o cumprimento do seu trabalho. O rei, então, mandou que chamassem o sapateiro e furaram-lhe um dos olhos. E a justiça foi feita, concluía a história – disse o velho.

Demorei um pouco a assimilar esse gênero de “sabedoria” Gibran Khalil que saltava por entre os pelos da barba do homem e, por fim, concluí eu mesmo e comigo em silêncio: “velho de merda”.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O caminho das pedras

Andei pensando. Literalmente.

Não sei o que é, mas me faz sentir bem.

Ignoro o percurso, porque enquanto caminho sou todo cérebro.

Há quem já tenha dito que no andar alguma transcendência toma forma no espírito e é apenas enquanto estamos andando que a existência se mostra a nós por completo. Bom, há também quem diga o contrário.

Os que meditam, por exemplo, dizem do corpo imóvel a urgente possibilidade do encontro com o superior – estado da alma que escapa a esses brutos que por aí se mexem à toa.

Mas se assim fosse, creio que haveria muito mais mérito nas estátuas vivas que o que de costume atribuímos a elas - essas que assombram nossas praças pintadas em pelo, muitas das vezes segurando um livro atilado em um tecido da cor da tinta que trazem no corpo e fechado, como se a leitura ultrapassasse a razão: - “Estátuas não lêem!”, bradam elas em silêncio, com o corpo imóvel e os lábios batidos, mas infladas daquela mesma sabedoria que os monges budistas se valem no exercício da meditação.

Ficar parado? Que merda de sabedoria é essa?! Não me admiraria se o Buda fosse ainda mais gordo que o que se vê naquelas estatuetas, embora isso também não seja tão provável.

Por isso, eu ando. E nem por isso limito a consciência, que trabalha tangente ao corpo em suas próprias demandas. Quarenta minutos à fio, até que cansem as pernas; porque a mente não pára e tem vida longa muito além desses músculos mecânicos, motores; e anda sozinha na periferia do olhar vagabundo, compreendido entre o trajeto do corpo que guia e as não-bordas que à volta se quase enxergam.

Filosofia de vida, eu diria. Andar pensando (ou seria pensar andando?). Ainda que possa dar nota aos modelos que passam, ou parar pra tomar um açaí (caso tenha dinheiro), é o andar quem descreve a atividade.

Rezam, os mais comprometidos com a filosofia, que se deve sempre andar sem destino.

Eu, por acaso, parei na frente desse puteiro. Um dos mais sujos da cidade. Mas o que não tem brilho na face compensa no preço. Agora, as protagonistas são as pernas de terceiras. Verdade que ainda estou sóbrio demais pra encarar uma dessas...

Enquanto isso, escrevo.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Fênix Hotel

Entraram pela porta que, desde a rua, conduzia esses amantes despatriados até o salão principal do hotel. Ele, cabelos grisalhos, pele castigada e abdômen saliente. As marcas ao redor dos olhos sugeriam-lhe a idade de cinqüenta e poucos anos. Vestia-se respeitosamente, desde que os botões daquela camisa de tecido nobre mantivessem-se fechados até a gola. Ela, cabelos cacheados - deliciosamente soltos e leves -, pele branca e de textura suave como a do açúcar que cobre o bolo das noivas. Tinha olhos negros profundos que lhe davam tonalidade misteriosa, embora, ainda assim, não fosse provável julgar, desde uma primeira vista, que já houvesse ela alcançado a maioridade.

Andaram até o balcão, que se dispunha ao centro do salão, e dirigiu o homem a palavra à recepcionista: “Queremos um quarto.” Subiu os olhos até o dono da voz que interrompera seus pensamentos ociosos naquela madrugada de pouco movimento no centro do Rio de Janeiro (e especialmente naquele estabelecimento), e vasculhou com um vagar escrupuloso de olhar - que ia das sombrancelhas cinzas e grossas do respeitável senhor até a sapatilha vermelha da pequena que, timidamente, se recolhia ao seu lado - aquele casal inoportuno que buscava abrigo para uma noite de 4 horas (talvez menos). Não satisfeita com a visão que teve, a mulher ao balcão voltou os olhos abaixo e se reteve por um breve minuto seu (e quem há de negar que mesmo a cronologia mais diligente tem duração distinta para cada indíviduo), adiando a resposta que esperava o casal. A mulher, que se protegia atrás de um uniforme asseado e justo composto por tailleur e blusa de seda, tinha olhos redondos e grandes, boca larga e lábios grossos, e um nariz abatatado que combinava com as bochechas gordas. Gordas como, aliás, eram os braços, o rosto, o pescoço e o busto, ou seja, todas as partes que se punham à vista. A frase que proferiu logo em seguida, no entanto, não era a resposta que esperava o homem, mas uma pergunta que causou constrangimento irrevogável para os dois que estavam de pé: “A menina possui documento de identidade?”

A preocupação era clara. O homem era velho demais para a menina que, provavelmente menor de idade, havia sido arrastada para lá por aquele velho sem coração: perverso, calculista e imoral – sobretudo imoral. Mas o julgamento da moça atrás do balcão logo se viu ameaçado, por conta do movimento que fez a menina. Puxou da bolsa uma carteira da qual tirou um documento verde e com graças de autêntico. A recepcionista alisou o rabo de cavalo com a mão direita - movimento pelo qual se pôde inferir a aspereza do cabelo esticado pela escova - e com a mesma mão tomou o documento da menina e se parou nele com cuidado. Leu o campo que indicava a data de nascimento. Uma, duas, três vezes. A menina havia completado os dezoito anos há coisa de duas semanas atrás. O que não pareceu suficiente para a apreciação discriminativa e “moralmente sólida” da senhora que guardava as chaves e liberava os quartos. Devolveu a identidade à menina e se dirigiu ao homem, pedindo-lhe também o documento. O homem se surpreendeu: “Isso é mesmo necessário?” Do que teve em resposta: “Senhor, é o procedimento padrão. Eu não posso lhe entregar a chave do quarto sem isso.” O homem puxou do bolso, contrariado, a carteira, de onde tirou o documento e entregou à mulher.

A senhora leu com o mesmo atilamento de antes, contou alguma coisa nos dedos da mão direita e devolveu o documento ao senhor com uma posição resoluta e irrevogável: “Senhor, eu não posso liberar um quarto.” O homem avivou o sentimento de espanto que o assaltara há poucos segundos e retrucou já com certa indignação na voz: “Como assim você não pode liberar um quarto? Qual é o problema?” E a mulher: “Senhor, o senhor tem quarenta e sete anos e a menina apenas dezoito. Não posso entregar a chave a vocês. Não seria uma coisa legal da minha parte.” A menina permanecia calada e imóvel, encostada sutilmente ao corpo dele que teve em resposta: “A senhora não sabe o que está falando. A menina tem dezoito anos. É perfeitamente legal que aluguemos um quarto para o fim que seja. Sinceramente, não entendo essa sua cerimônia.”

A essa altura a situação era insuportavelmente constrangedora para a menina, que além da repressão corrente que já sofria “lá fora”, por se haver envolvida com um homem mais velho, sentia-se agora impotente sob os auspícios e o julgamento de uma senhora que nunca antes houvera visto. A mulher detrás do balcão, então, solicitou que os dois se retirassem dali, porque ela não lhes poderia alugar quarto nenhum. Ele, que poderia simplesmente ter tomado o rumo de um outro hotel, não o fez porque não aceitasse estar a mercê do julgamento individual e arbitrário de uma mera recepcionista de hotel. E foi enfático ao dizer à senhora que ficaria ali até que lhe entregasse a chave. A senhora, então, endureceu a voz com que falava ao recalcitrante e disse: “Se o senhor e a menina não se retirarem, vou ser obrigada a chamar a polícia” O homem se riu - ironicamente, e com alguma artificialidade, mas falso que fosse ainda assim era um riso: “Pois a senhora chame a polícia agora, porque isso é um grande absurdo. Com que direito a senhora se põe a julgar sermos dignos ou não de alugar um quarto aqui? Quem você pensa que é?” Foi a primeira vez que ele a teve tratado por você e essa informalidade talvez tenha ofendido mais a mulher que o nervosismo e a agressividade que ele impunha aos termos. Nesse instante ela se levantou, tomou um gole de ar profundo ao peito e discursou com gravidade: “O senhor pode tentar tomar a chave a força ou sair direto pela porta por onde entrou. O caso é que de boa vontade não vai conseguir quarto nenhum. Toda vez que vejo um homem sem escrúpulos como o senhor eu sinto não poder fazer nada para ajudar pobres meninas com essa. Provável que o senhor saia daqui e arrume um quarto em outro lugar em que os funcionários não sejam tão corretos e guiados por virtude moral como a minha, mas quanto a isso, eu nada posso fazer. Mas do que depender de mim, o senhor não vai estragar a vida dessa coitada inocente que veio debaixo das suas asas.”

A coisa, agora, alcançava um ponto sem volta. Não seria possível dizer que a mulher, cheia de vigor de espírito e senso de auto-conduta moral, não estava lá na sua razão. Tinha uma razão bem sua - isso é certo. Mas tão prontamente a desobedecesse, aí sim sua atitude poderia ser tomada por imoral, posto que a moral que tinha não a pudesse ignorar. O homem, cujos quarenta e tantos anos não foram suficientes para blindá-lo dos conseqüentes transtornos causados pela irresolubilidade da situação, não menos errado se poderia julgá-lo. Nada que fizesse ali estaria fora da ordem da legalidade, já que sua companheira chegara àquele local por vontade própria e espontânea, mas isso, e ainda que houvesse sido a menina coagida de alguma forma, quem saberá ao certo? Tanto faz como tanto fez se a sociedade em questão julga seus membros aptos às escolhas tais como fazer sexo ou eleger um presidente a partir dos dados dezoito anos, assim como se declarava nos documentos daquela.

E justo quando a hostilidade insurgente se fazia epigráfica diante das circunstâncias, foi quando a menina puxou pelo braço seu parceiro e disse as suas duas primeiras palavras desde que adentrou ao recinto: “Vamos embora!” E não como nota em defesa do homem, que transgredia talvez algum preceito moral daquela sociedade antiquada, mas é de se questionar se aquela atitude sensata que a sobejou, qual seja a de anunciar retirada diante de disputa tal em que se não pode haver vencedores, não justificava que uma pessoa (assim munida de razão e bom senso) não fosse suficientemente capaz de bem escolher o local, a hora e com quem fazer sexo – ainda que seus escolhidos tivessem já os cabelos desbotados pela ação dos anos...

Mas difícil mesmo é imaginar como seria o evento sexual em questão depois de uma preliminar tão desgastante como aquela.