Certa vez conheci um senhor, bastante respeitável, que atendia pela alcunha de Nogueira. Grande Nogueira! Era assim que eu o cumprimentava nas vezes que ele chegava ao banco da praça onde eu me recostava dia após dia, pois não tinha nada mais o que fazer.
O senhor Nogueira era um homem bastante sério, mas, acima de tudo, era um homem sensato ao extremo. Tão sensato era que eu não pude recusar a concórdia quando ele proferiu numa manhã nebulosa, a sua teoria pragmática sobre a sua sociedade de justiça. Começava assim seu discurso:
- Meu Caro Antunes! Temos que reduzir a sociedade apenas ao necessário, o básico do básico por assim dizer! Falava ele gesticulando grosseiramente como se mo quisesse impor a argumentação a força. Veja só, Antunes! Quantos bares a nossa volta, vendendo salgados e sucos que de tão parecidos não seria possível precisar a procedência se eu vos trouxesse aqui. E pra que tudo isso? Hã?! Por uma variação mínima de preço e de localização, por uma simples questão de mercado. Ande lá! Ao final do dia, são toneladas e toneladas de salgados jogados fora porque a relação de demanda e oferta não pode coincidir. Há sempre o excedente ou a recessão! E não bastasse isso, tem-se essa maldita exigência de alcançar níveis cada vez maiores de oferta e também demanda. É tudo um grande absurdo. -
Eu, do baixo de uma ingenuidade que não me permitiria prever o sopetão da resposta daquele nobre parlamentar, perguntei: - Escuta aqui Nogueira, o que exatamente você está sugerindo?! Que se extinguissem os bares? E onde esse povo todo iria comer os seus salgados engordurados e os turvos sucos que ali se serve?! Acho exagero seu, esse número de tonelada dado ao desperdício que se tem ao fim do dia. Afinal, são apenas alguns bares, seis ou sete, não mais do que oito certamente.
Então, Nogueira arregalou os olhos e eu pude prever a algaravia que me atropelaria por aquele canal. Ele olhou pro céu abrindo os braços como se perguntasse a Deus de onde vinha tamanha estupidez e olhando novamente na altura de meus olhos inseguros, disse-me: - Donde tirastes tamanha estapafúrdia meu jovem? Pensas assim pois tens os olhos fechados para as macro dimensões dessa enorme cadeia a que chamamos sociedade. Temos, por certo, apenas sete ou oito desses bares por aqui, mas ao final do próximo quarteirão somam-se vinte, e mais outro quarteirão quarenta, logo seria possível encher a Lagoa Rodrigo de Freitas apenas com um tipo desses salgados que sobram ao fim do expediente. Que seja um "joelho", digamos, seria uma enorme piscina de massa, queijo e presunto, e a tal tonelada que eu havia cantado te pareceria mingua de um pobre sovina comparada a isso. E quanto a proposta de extinção dos bares, não era exatamente isso que eu tinha em mente. É um fato que as pessoas precisam comer, mas que comam a mesma coisa, no mesmo lugar, e pelos mesmos preços. Ora, o que é bom o bastante para o estômago de um pobre coitado, deve ser bom o bastante para as entranhas de um executivo engravatado. Ou não somos mesmo feitos da mesma matéria? Bastava, então, que existisse por essas bandas um único bar. Melhor, que fosse o tipo do lugar onde se come e bebe, e fosse apenas uma pequena variedade de comidas e bebidas, respeitando assim as variantes alérgicas dos organismos a que se queiram dirigir. Chamar-lho-íamos refeitório, e vá lá! -
Ouvia-o admirado. Quanta eloqüência ele demolhava por entre os pontos e as vírgulas; era, sem dúvida, um orador de boca parruda. Tinha até mesmo a minúcia de salvaguardar os alérgicos em seu projeto. Havia-me, ainda, detalhado seus calculados sistemas de organização responsáveis pelo mínimo de desperdício e o máximo de eficiência. Um pragmatismo admirável para um senhor que trazia sobre o torso um "vistoso" terno que dava, à guisa de um par exagerado de ombreiras, um aspecto um tanto patético a um homem que dizia trazer a próspera solução para um mundo melhor. Mas não um mundo ideal, veja bem! Ele ratificava sempre que podia sua descrença nos modos utópicos que por outras bandas se impregnavam de um discurso batido e ultrapassado sobre mercado livre ou mesmo uma declaração acintosamente cínica sobre as liberdades de escolha em um socialismo como aquele. Sabia dos estorvos de uma sociedade sem tantas variedades, que talvez não fosse possível por lá ouvir Hermeto Pascoal enquanto comesse uma boa rosquinha sabor chocolate, mas que se substituísse a rosquinha por cream cracker e o Hermeto Pascoal desse lugar a uma velha senhora tocando minuetos de Bach ao violino na praça, o que não se poderia admitir era o desperdício e a fome - tudo menos isso.
A sua metodologia não era a torto e a direito como diziam as línguas mais ásperas naquela praça pública. Tinha o encanto particular dos detalhes mais diligentes de sabedoria econômica e social. E resumia-se numa simples assertiva: "Temos que reduzir a sociedade apenas ao necessário, o básico do básico por assim dizer!"
Que belo praça teríamos no comando se o elegêssemos presidente da república.
sexta-feira, 2 de março de 2012
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Um breve Romance chamado Poema
Sua mão corria pelo papel, enquanto a cabeça vagueava por algum estranho mundo (A bem da verdade, não havia ali papel, Mas era o mesmo mundo possível entre um movimento primitivo de lápis e o percutir barulhento do teclado de que dispunha).
Essa alma que sibila noturna
é a mesma que de dia se cala
pois no afã a poesia é inoportuna
tanto quanto no silêncio gala
"Doce sonoridade essa que me toca. Doce é a semântica confusa dessa arte de arautos, dessa prosa em métrica. Doce a poesia me descreve e descreve-me os sentimentos como nem o mais naturalista. Doce é o doce dessa tese." - Pensava ele. Pensava alto, pois gostava de ouvir seus próprios pensamentos retornados sonoramente das paredes que o cercava. E continuava a escrever, aos poucos, pois lançava cada verso como impusesse ao mundo um grande fardo e, ao mesmo tempo, o salvasse a cada rima.
Conto as palavras que conto
numerosas como no altar as velas
Não apenas as do feito, as do pronto
conto-as todas, cada uma delas
E ele realmente as contava. Não que tivesse algum apego particular a uma métrica severamente inútil, mas porque se permitia "criar" o próprio processo. Considerava os versos e as sílabas cortadas como considerasse os filhos mortos em guerra. E os pensamentos que passavam ao largo eram como abortos, chorados a cada partida, pois não os podia salvar. Não a todos.
E se essa arte pulcra engana a vista
é pelo que declara e não pelo que descreve
pois antes que o leitor cansado possa e desista
ela, a que evita e comede, é - enfim - quem mais se atreve
Segurou os olhos com minúcia exagerada naquela ultima sentença - a que acabara de escrever. Havia-a lido em voz alta e não parecia tão extensa quanto fazia saltar naquela tela que enfrentava agora, diante de si, repleta das palavras. Contou-as, novamente, as do último verso e constatou enfastiado aquele excesso. "Muitas palavras! Isso não deve estar certo. Exacto. Perfeito. Não deve estar! Recto. Conciso. Preciso. Não está, certamente não está!" Repetia-se ele, pois não tinha para com a autocrítica em pensamento a mesma temperança dos versos que esculpia no branco da folha. Refez-se do influxo genioso de artista que era e voltou a tempo da sintaxe decisiva.
...antes que o leitor cansado possa e desista...
E, novamente, vinha-lhe a cabeça aquela tese desmedida que antes se formara no enredo. "'ela, a que evita e comede, é - enfim...' Enfim?! Não deve existir palavra mais sem propósito que essa! Ora, 'a que evita e comede'...mas que graça!" Ria-se de uma ironia que ali se fazia em relevo, não obstante o riso fosse, em verdade, o lamento amargurado daquele que incompreendia a própria obra. Percebeu que o termo "enfim" e a passagem "a que evita e comede" não poderiam coexistir naquela peça sob a mácula de tornar-se o próprio poema insuportável para ele mesmo (e quem há de negar que os poetas escrevem para si e não para o mundo? Que são vítimas do claustro da própria personalidade e não o quinhão envaidecido de uma academia de letras?).
Reescreveu mais uma vez, e outra, e mais uma. E entre os cortes e as voltas, entre substituições e enxertos percebeu que não poderia arrancar dali o "enfim" sem que isso lhe custasse todo o amor que trazia pelo texto, pois era do "enfim" que sentiria mais falta, se lho ordenasse sumir. Também a passagem que o contradizia não poderia afastar-se, já que era - com o acento caprichoso de uma pausa (entre vírgulas) - o predicado enunciado de toda a questão, de todo o poema.
Pois, dessa razão destilou um novo sentido e, sem mudar a extensão precisa de seu trajeto, que era espaço antes de ser edifício, que era lacuna antes de ser coluna, retraçou - palavra a palavra - o mais belo e coeso trabalho que já havia escrito e que, assim, terminara:
...antes que o leitor cansado possa e desista
ela, a que evita e excede, é - enfim - quem mais se atreve
Essa alma que sibila noturna
é a mesma que de dia se cala
pois no afã a poesia é inoportuna
tanto quanto no silêncio gala
"Doce sonoridade essa que me toca. Doce é a semântica confusa dessa arte de arautos, dessa prosa em métrica. Doce a poesia me descreve e descreve-me os sentimentos como nem o mais naturalista. Doce é o doce dessa tese." - Pensava ele. Pensava alto, pois gostava de ouvir seus próprios pensamentos retornados sonoramente das paredes que o cercava. E continuava a escrever, aos poucos, pois lançava cada verso como impusesse ao mundo um grande fardo e, ao mesmo tempo, o salvasse a cada rima.
Conto as palavras que conto
numerosas como no altar as velas
Não apenas as do feito, as do pronto
conto-as todas, cada uma delas
E ele realmente as contava. Não que tivesse algum apego particular a uma métrica severamente inútil, mas porque se permitia "criar" o próprio processo. Considerava os versos e as sílabas cortadas como considerasse os filhos mortos em guerra. E os pensamentos que passavam ao largo eram como abortos, chorados a cada partida, pois não os podia salvar. Não a todos.
E se essa arte pulcra engana a vista
é pelo que declara e não pelo que descreve
pois antes que o leitor cansado possa e desista
ela, a que evita e comede, é - enfim - quem mais se atreve
Segurou os olhos com minúcia exagerada naquela ultima sentença - a que acabara de escrever. Havia-a lido em voz alta e não parecia tão extensa quanto fazia saltar naquela tela que enfrentava agora, diante de si, repleta das palavras. Contou-as, novamente, as do último verso e constatou enfastiado aquele excesso. "Muitas palavras! Isso não deve estar certo. Exacto. Perfeito. Não deve estar! Recto. Conciso. Preciso. Não está, certamente não está!" Repetia-se ele, pois não tinha para com a autocrítica em pensamento a mesma temperança dos versos que esculpia no branco da folha. Refez-se do influxo genioso de artista que era e voltou a tempo da sintaxe decisiva.
...antes que o leitor cansado possa e desista...
E, novamente, vinha-lhe a cabeça aquela tese desmedida que antes se formara no enredo. "'ela, a que evita e comede, é - enfim...' Enfim?! Não deve existir palavra mais sem propósito que essa! Ora, 'a que evita e comede'...mas que graça!" Ria-se de uma ironia que ali se fazia em relevo, não obstante o riso fosse, em verdade, o lamento amargurado daquele que incompreendia a própria obra. Percebeu que o termo "enfim" e a passagem "a que evita e comede" não poderiam coexistir naquela peça sob a mácula de tornar-se o próprio poema insuportável para ele mesmo (e quem há de negar que os poetas escrevem para si e não para o mundo? Que são vítimas do claustro da própria personalidade e não o quinhão envaidecido de uma academia de letras?).
Reescreveu mais uma vez, e outra, e mais uma. E entre os cortes e as voltas, entre substituições e enxertos percebeu que não poderia arrancar dali o "enfim" sem que isso lhe custasse todo o amor que trazia pelo texto, pois era do "enfim" que sentiria mais falta, se lho ordenasse sumir. Também a passagem que o contradizia não poderia afastar-se, já que era - com o acento caprichoso de uma pausa (entre vírgulas) - o predicado enunciado de toda a questão, de todo o poema.
Pois, dessa razão destilou um novo sentido e, sem mudar a extensão precisa de seu trajeto, que era espaço antes de ser edifício, que era lacuna antes de ser coluna, retraçou - palavra a palavra - o mais belo e coeso trabalho que já havia escrito e que, assim, terminara:
...antes que o leitor cansado possa e desista
ela, a que evita e excede, é - enfim - quem mais se atreve
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
A fístula
Havia um fantasma rondando sua cabeça. Dizia-lhe o que escrever, como escrever e escrevia, ele mesmo o fantasma, assumindo os dedos e os punhos do senhor ao seu alcance. Assim, costumava descrever ele suas crises de ansiedade que eram frequentemente seguidas de alguma repetição sem sentido apenas porque um homem assim possuído demanda ocupação menos ofensiva que seus próprios pensamentos.
A mínima sugestão de que alguma verdade exalava de suas palavras dava-lhe conforto maior ao abdômen, enquanto as pernas convulsas se rebatiam numa velocidade cada vez menor, conforme a calma se restabelecia findo mais um parágrafo a espera do próximo espasmo, que resultaria em outra descrição aparentemente inútil de sua condição doentia.
Era, no entanto, um fremir intermitente na boca do estômago que lhe parecia roubar de si seu comando. Aquela sensação indeterminada, cuja manifestação eminentemente física o faria contestar qualquer diagnóstico que lhe desse como origem um pensamento, o fazia perder o direito sobre aquelas palavras as quais ele tentava, inutilmente, dar o sentido de uma história. Imaginava, sempre frustrado por um condicionamento particular de sua doença, dar início a uma narrativa concisa onde todo aquele vigor nascido das contrações musculares e de distúrbios nervosos tomariam lugar em uma história cheia de vida e pulsante.
Pulsavam, em todo caso, apenas os dedos diante das teclas.
A frágil existência de um corpo, esse que se deixava evidente nas indeterminações de sua vontade, não era suficiente para que aqueles pensamentos que lhe assaltavam em imagens e vozes tivessem forma de discurso ou expressassem mais do que os devaneios de uma ansiedade transbordante e sem centro. Podia apenas impressionar-se com uma capacidade absolutamente inconsciente de utilizar a linguagem de forma minimamente inteligível, mas logo depois a impressão lhe fugia e precisava ele se perguntar se fazia aquilo algum sentido. Especulava a atenção de um leitor tão doente quanto ele mesmo, que reconheceria naqueles termos sua própria doença e, então, sentia-se inundado por uma vaidade lasciva que o dilacerava as entranhas por meio de um julgamento impróprio: Deveria mesmo um homem naquele estado ocupar-se com os pensamentos de um possível leitor?
Após mais um parágrafo, olhava ao relógio e percebia que o tempo não lhe estava a favor. O sono, a calma, ou qualquer condição que o pudesse ausentar daquele movimento quase ininterrupto das vísceras, dos ossos e de tudo mais que tivesse lugar dentro do corpo, não estavam lá. A história prometida, onde um provável personagem se fizesse de motivações cabíveis em uma ação que justificasse qualquer atenção de um leitor qualquer, muito menos.
As vezes tinha a impressão de que as palavras que fugiam aos dedos irriquietos das mãos poderiam também vir dos dedos dos pés, que se mexiam na mesma proporção e velocidade. E nesse momento percebia que a doença se manifestava em palavras, repercutiam aqueles espasmos como uma reação cutânea que tem lugar num tecido infectado. As palavras eram o próprio pus que o corpo expelia conforme a ansiedade se debatia com aqueles membros sem dono, órfãos de um comando mais digno ou um comando qualquer.
Razão é placebo; homeopatia leviana que se esvai na mesma proporção que o adocicado que a acompanha no paladar.
O coitado seguiria perdendo o controle das suas ações mesmo quando os dedos largassem a faina obcecada dos períodos e tempos verbais, e a ansiedade se refletiria em alguma outra atividade de objetivo oculto. Faria a barba dezenas de vezes, até que pequenos cortes evidenciassem o absurdo e a destemperança que o levariam em seguida até o chuveiro, e depois mais dezoito vezes quando findaria também o terceiro e último sabonete a disposição; devoraria tudo quanto fosse comestível na despensa; cortando as unhas dos pés e das mãos se sentiria pequeno porquanto apenas vinte dedos se fizessem a disposição: eles pareciam tão mais numerosos diante das teclas – pensava ele; contaria todos os azulejos da cozinha, do banheiro e depois da área de serviço e, inutilmente, se faria perder nesses números que esqueceria logo em seguida conforme esquecia também... Pois quando o esperado sono finalmente o alcançasse ele já estaria tão longe daqui que nenhuma palavra se poderia fazer ecoar - senão o silêncio.
A mínima sugestão de que alguma verdade exalava de suas palavras dava-lhe conforto maior ao abdômen, enquanto as pernas convulsas se rebatiam numa velocidade cada vez menor, conforme a calma se restabelecia findo mais um parágrafo a espera do próximo espasmo, que resultaria em outra descrição aparentemente inútil de sua condição doentia.
Era, no entanto, um fremir intermitente na boca do estômago que lhe parecia roubar de si seu comando. Aquela sensação indeterminada, cuja manifestação eminentemente física o faria contestar qualquer diagnóstico que lhe desse como origem um pensamento, o fazia perder o direito sobre aquelas palavras as quais ele tentava, inutilmente, dar o sentido de uma história. Imaginava, sempre frustrado por um condicionamento particular de sua doença, dar início a uma narrativa concisa onde todo aquele vigor nascido das contrações musculares e de distúrbios nervosos tomariam lugar em uma história cheia de vida e pulsante.
Pulsavam, em todo caso, apenas os dedos diante das teclas.
A frágil existência de um corpo, esse que se deixava evidente nas indeterminações de sua vontade, não era suficiente para que aqueles pensamentos que lhe assaltavam em imagens e vozes tivessem forma de discurso ou expressassem mais do que os devaneios de uma ansiedade transbordante e sem centro. Podia apenas impressionar-se com uma capacidade absolutamente inconsciente de utilizar a linguagem de forma minimamente inteligível, mas logo depois a impressão lhe fugia e precisava ele se perguntar se fazia aquilo algum sentido. Especulava a atenção de um leitor tão doente quanto ele mesmo, que reconheceria naqueles termos sua própria doença e, então, sentia-se inundado por uma vaidade lasciva que o dilacerava as entranhas por meio de um julgamento impróprio: Deveria mesmo um homem naquele estado ocupar-se com os pensamentos de um possível leitor?
Após mais um parágrafo, olhava ao relógio e percebia que o tempo não lhe estava a favor. O sono, a calma, ou qualquer condição que o pudesse ausentar daquele movimento quase ininterrupto das vísceras, dos ossos e de tudo mais que tivesse lugar dentro do corpo, não estavam lá. A história prometida, onde um provável personagem se fizesse de motivações cabíveis em uma ação que justificasse qualquer atenção de um leitor qualquer, muito menos.
As vezes tinha a impressão de que as palavras que fugiam aos dedos irriquietos das mãos poderiam também vir dos dedos dos pés, que se mexiam na mesma proporção e velocidade. E nesse momento percebia que a doença se manifestava em palavras, repercutiam aqueles espasmos como uma reação cutânea que tem lugar num tecido infectado. As palavras eram o próprio pus que o corpo expelia conforme a ansiedade se debatia com aqueles membros sem dono, órfãos de um comando mais digno ou um comando qualquer.
Razão é placebo; homeopatia leviana que se esvai na mesma proporção que o adocicado que a acompanha no paladar.
O coitado seguiria perdendo o controle das suas ações mesmo quando os dedos largassem a faina obcecada dos períodos e tempos verbais, e a ansiedade se refletiria em alguma outra atividade de objetivo oculto. Faria a barba dezenas de vezes, até que pequenos cortes evidenciassem o absurdo e a destemperança que o levariam em seguida até o chuveiro, e depois mais dezoito vezes quando findaria também o terceiro e último sabonete a disposição; devoraria tudo quanto fosse comestível na despensa; cortando as unhas dos pés e das mãos se sentiria pequeno porquanto apenas vinte dedos se fizessem a disposição: eles pareciam tão mais numerosos diante das teclas – pensava ele; contaria todos os azulejos da cozinha, do banheiro e depois da área de serviço e, inutilmente, se faria perder nesses números que esqueceria logo em seguida conforme esquecia também... Pois quando o esperado sono finalmente o alcançasse ele já estaria tão longe daqui que nenhuma palavra se poderia fazer ecoar - senão o silêncio.
sábado, 14 de janeiro de 2012
O herói de papel
Aquele era Bruce Wayne de frente para sua escrivaninha excessivamente ornada no melhor estilo Luis XV, e é de se imaginar que tenha pertencido ao próprio, uma vez que o atual dono, homem cuja fortuna só não era maior que a vaidade, não teria razão nenhuma para tê-la – a escrivaninha – não fosse de fato uma peça rara e de valor histórico.
Acima da “pequena mesa” um computador reluzia em contraste evidente com a antiguidade que o suportava e se mantinha ao alcance da vista do homem, que lia com atenção modesta as páginas policiais do principal jornal de Gotham quando Alfred, seu mordomo e conselheiro, bateu a porta delicadamente três vezes. Bruce fez dizer que entrasse e tão logo o senhor alcançou com a perna direita o piso do aposento, perguntou-lhe o patrão o que lhe queria dizer ou mostrar. Nesse instante, o mordomo tirou do bolso da calça um pequeníssimo pendrive preto, que combinava propositadamente com seu uniforme de serviço, encaixou-o no computador e de lá extraiu um arquivo de extensão .BTE (BatText Editor), isso porque esse figurão das indústrias Wayne era demasiadamente orgulhoso de sua influência e poder para dispor de uma ferramenta popular como o Microsoft Office. Aliás, fazia alguns anos que uma disputa particular se acirrava entre a Microsoft e as Indústrias Wayne, que brigavam pela hegemonia do mercado de softwares da cidade de Gotham.
Bom, abrindo os arquivos, Wayne se deparou com dois links (http://www.elephantiase.blogspot.com/2009/09/saga-do-homem-morcego-no-1.html e http://www.elephantiase.blogspot.com/2011/05/saga-do-homem-morcego-no-2.html ) que quando explorados levaram ele ao pouco conhecido blog de um jovem escritor brasileiro. Com alguma dificuldade o milionário venceu o português que se apresentava nos textos, mas identificando logo a primeira vista os títulos, que pareciam indicar que o enredo ali tinha como razão ele mesmo, o multimilionário que à noite, em nome da justiça (de alguma justiça), se travestia de homem-morcego. Seguindo a leitura, uma primeira risada escapou-lhe por entre os dentes. Não fora, todavia, um riso de graça. Um ecoar um tanto macabro, em verdade, dava aquela risada ares de uma legítima reprovação, mas também porque o pé direito alto, como era o da mansão de Bruce Wayne, favorecia aquela sonoridade em particular.
O texto, afinal, dizia desse mesmo Batman, cujos olhos agora ausentes da moldura de uma máscara enfrentavam aquelas inventivas palavras a respeito de um super-herói burguês mal contextualizado nos arredores da Central do Brasil. Teria ignorado completamente a menção ao lugar se sua memória não houvesse encontrado a lembrança de filme homônimo, que alguns anos antes havia sido recomendado a ele por Alfred, esse sim um profundo conhecedor da cultura brasileira, do que se justifica, aliás, que tais textos tenham chegado ao conhecimento do oportuno mordomo.Finda a leitura, delegou ao seu prestigiado funcionário: “Prepare minha Bat-Nave!”
Ora, o sagacíssimo autor havia sugerido, a certa altura do texto, que os maiores vilões (maiores mesmo que seu arqui-inimigo Pingüim) eram aqueles que circulavam pelos arredores da Cinelândia. Não querendo crer nisso e na intenção de provar que aqueles eram criminosos ordinários, fez dirigir-se para lá o poderoso Batman, afim de derrotar esses oponentes em vista - apenas utilizando seus braços e pernas. Julgou, com efeito, que não seriam necessárias nem ao menos as ferramentas de seu famoso cinto de utilidades, mas levou-o, assim mesmo, posto que além das estimadíssimas ferramentas que se dispunham naquele cinto, tinha ele a função, comum a quase todos os cintos, de segurar-lhe as calças. E como todo bom super-herói sabia que nenhum outro meio digno há para manter no homem (Super-homem que seja!) as calças no lugar onde devem ficar, ainda quando as cuecas lhe forram por cima. Lembrou-se, então, novamente de seu eterno adversário Pingüim que recorria ao expediente de suspensórios para manter-lhe as vestes junto à cintura, e pensou: “Tais suspensórios só não lhe são a maior perversão porque o delinqüente carrega e manuseia um guarda-chuvas mesmo quando o clima árido anuncia completa impossibilidade de precipitação.”
Vestido à caráter, chegou Batman ao local. Desceu da nave e andou até o centro da praça na Cinelândia e esperou que os inimigos se anunciassem com seus caracteres apodrecidos e suas vis intenções. Não precisou esperar muito, pois logo apareceram três “senhores” mal encarados e não fizeram nem mesmo menção a anúncio formal de seus nomes e seus talentos, partiram sem piedade pra cima do homem-morcego que foi brutalmente espancado; roubaram-lhe a carteira (que dessa vez viera no bolso junto com as chaves da Bat-Nave) e rasgaram-lhe todo o uniforme. Demorou a entender como anti-heróis como aqueles, sem elaborada alcunha, frases mirabolantes acompanhando seus ágeis ataques, poderes ou armas de digno refinamento conseguiram-lhe vencer em tão grosseira investida. E como ele, o caro leitor deve agora se estar espantado não apenas com o resultado da peleja, mas, sobretudo, com a facilidade da resolução.
Eis, pois, a razão das coisas conforme esse honestíssimo autor lhos anuncia: aquele não era Batman, e por baixo daquelas vestes o homem não se chamava Bruce, nem tinha Wayne por sobrenome. Atendia pela alcunha de Dudu na agência bancária em que trabalhava e se, naquele instante, vestia-se conforme um Batman no centro de uma Cinelândia escura e quase deserta era porque comprara na semana anterior a fantasia e fora levado até ali por um táxi desde o Rio Comprido onde morava, e quando o próprio taxista se houve espantado com o traje de seu passageiro, teve por bom e inocente julgamento concluído que o homem se encaminhava para nenhum lugar que não uma festa a fantasia. Mas a verdade é que o bancário, elegendo-se como homem da justiça e tomado por surto que o fizera identificar-se com o temido e autoritário Batman, tinha em mente razão mais nobre, ainda que cômica ou patética, que aquela previsível de uma mera festa a fantasia.
E embora dois de seus agressores prescindissem de todas aquelas qualidades que fazem dos vilões homens de aparência tão singular, o terceiro deles matinha para com os preceitos do “bom vilanismo” o hábito indumentário, pois aquele homem usava uniforme. Irônico é que o uniforme fosse do Sport Club Corinthians, também cantado por seus torcedores como “Coringão”, que faria lembrar a um verdadeiro Batman da alcunha de seu célebre oponente nos desenhos ou histórias em quadrinho. Mas menos que a derrota do bem sob a astúcia do mal, o que incomodava ao homem era a ocasião de, em pleno Rio de Janeiro, um meliante qualquer circular como um local com a camisa de um time paulista. Daí, encerrando quaisquer dúvidas sobre a procedência desse homem-morcego em questão. Das semelhanças que pudéssemos ver nele para além da vestimenta trajada (agora em frangalhos) fica, na melhor das hipóteses, sua predileção pela noite que o fazia, quando não trabalhasse cedo na manhã seguinte, ficar até tarde acordado.
Acima da “pequena mesa” um computador reluzia em contraste evidente com a antiguidade que o suportava e se mantinha ao alcance da vista do homem, que lia com atenção modesta as páginas policiais do principal jornal de Gotham quando Alfred, seu mordomo e conselheiro, bateu a porta delicadamente três vezes. Bruce fez dizer que entrasse e tão logo o senhor alcançou com a perna direita o piso do aposento, perguntou-lhe o patrão o que lhe queria dizer ou mostrar. Nesse instante, o mordomo tirou do bolso da calça um pequeníssimo pendrive preto, que combinava propositadamente com seu uniforme de serviço, encaixou-o no computador e de lá extraiu um arquivo de extensão .BTE (BatText Editor), isso porque esse figurão das indústrias Wayne era demasiadamente orgulhoso de sua influência e poder para dispor de uma ferramenta popular como o Microsoft Office. Aliás, fazia alguns anos que uma disputa particular se acirrava entre a Microsoft e as Indústrias Wayne, que brigavam pela hegemonia do mercado de softwares da cidade de Gotham.
Bom, abrindo os arquivos, Wayne se deparou com dois links (http://www.elephantiase.blogspot.com/2009/09/saga-do-homem-morcego-no-1.html e http://www.elephantiase.blogspot.com/2011/05/saga-do-homem-morcego-no-2.html ) que quando explorados levaram ele ao pouco conhecido blog de um jovem escritor brasileiro. Com alguma dificuldade o milionário venceu o português que se apresentava nos textos, mas identificando logo a primeira vista os títulos, que pareciam indicar que o enredo ali tinha como razão ele mesmo, o multimilionário que à noite, em nome da justiça (de alguma justiça), se travestia de homem-morcego. Seguindo a leitura, uma primeira risada escapou-lhe por entre os dentes. Não fora, todavia, um riso de graça. Um ecoar um tanto macabro, em verdade, dava aquela risada ares de uma legítima reprovação, mas também porque o pé direito alto, como era o da mansão de Bruce Wayne, favorecia aquela sonoridade em particular.
O texto, afinal, dizia desse mesmo Batman, cujos olhos agora ausentes da moldura de uma máscara enfrentavam aquelas inventivas palavras a respeito de um super-herói burguês mal contextualizado nos arredores da Central do Brasil. Teria ignorado completamente a menção ao lugar se sua memória não houvesse encontrado a lembrança de filme homônimo, que alguns anos antes havia sido recomendado a ele por Alfred, esse sim um profundo conhecedor da cultura brasileira, do que se justifica, aliás, que tais textos tenham chegado ao conhecimento do oportuno mordomo.Finda a leitura, delegou ao seu prestigiado funcionário: “Prepare minha Bat-Nave!”
Ora, o sagacíssimo autor havia sugerido, a certa altura do texto, que os maiores vilões (maiores mesmo que seu arqui-inimigo Pingüim) eram aqueles que circulavam pelos arredores da Cinelândia. Não querendo crer nisso e na intenção de provar que aqueles eram criminosos ordinários, fez dirigir-se para lá o poderoso Batman, afim de derrotar esses oponentes em vista - apenas utilizando seus braços e pernas. Julgou, com efeito, que não seriam necessárias nem ao menos as ferramentas de seu famoso cinto de utilidades, mas levou-o, assim mesmo, posto que além das estimadíssimas ferramentas que se dispunham naquele cinto, tinha ele a função, comum a quase todos os cintos, de segurar-lhe as calças. E como todo bom super-herói sabia que nenhum outro meio digno há para manter no homem (Super-homem que seja!) as calças no lugar onde devem ficar, ainda quando as cuecas lhe forram por cima. Lembrou-se, então, novamente de seu eterno adversário Pingüim que recorria ao expediente de suspensórios para manter-lhe as vestes junto à cintura, e pensou: “Tais suspensórios só não lhe são a maior perversão porque o delinqüente carrega e manuseia um guarda-chuvas mesmo quando o clima árido anuncia completa impossibilidade de precipitação.”
Vestido à caráter, chegou Batman ao local. Desceu da nave e andou até o centro da praça na Cinelândia e esperou que os inimigos se anunciassem com seus caracteres apodrecidos e suas vis intenções. Não precisou esperar muito, pois logo apareceram três “senhores” mal encarados e não fizeram nem mesmo menção a anúncio formal de seus nomes e seus talentos, partiram sem piedade pra cima do homem-morcego que foi brutalmente espancado; roubaram-lhe a carteira (que dessa vez viera no bolso junto com as chaves da Bat-Nave) e rasgaram-lhe todo o uniforme. Demorou a entender como anti-heróis como aqueles, sem elaborada alcunha, frases mirabolantes acompanhando seus ágeis ataques, poderes ou armas de digno refinamento conseguiram-lhe vencer em tão grosseira investida. E como ele, o caro leitor deve agora se estar espantado não apenas com o resultado da peleja, mas, sobretudo, com a facilidade da resolução.
Eis, pois, a razão das coisas conforme esse honestíssimo autor lhos anuncia: aquele não era Batman, e por baixo daquelas vestes o homem não se chamava Bruce, nem tinha Wayne por sobrenome. Atendia pela alcunha de Dudu na agência bancária em que trabalhava e se, naquele instante, vestia-se conforme um Batman no centro de uma Cinelândia escura e quase deserta era porque comprara na semana anterior a fantasia e fora levado até ali por um táxi desde o Rio Comprido onde morava, e quando o próprio taxista se houve espantado com o traje de seu passageiro, teve por bom e inocente julgamento concluído que o homem se encaminhava para nenhum lugar que não uma festa a fantasia. Mas a verdade é que o bancário, elegendo-se como homem da justiça e tomado por surto que o fizera identificar-se com o temido e autoritário Batman, tinha em mente razão mais nobre, ainda que cômica ou patética, que aquela previsível de uma mera festa a fantasia.
E embora dois de seus agressores prescindissem de todas aquelas qualidades que fazem dos vilões homens de aparência tão singular, o terceiro deles matinha para com os preceitos do “bom vilanismo” o hábito indumentário, pois aquele homem usava uniforme. Irônico é que o uniforme fosse do Sport Club Corinthians, também cantado por seus torcedores como “Coringão”, que faria lembrar a um verdadeiro Batman da alcunha de seu célebre oponente nos desenhos ou histórias em quadrinho. Mas menos que a derrota do bem sob a astúcia do mal, o que incomodava ao homem era a ocasião de, em pleno Rio de Janeiro, um meliante qualquer circular como um local com a camisa de um time paulista. Daí, encerrando quaisquer dúvidas sobre a procedência desse homem-morcego em questão. Das semelhanças que pudéssemos ver nele para além da vestimenta trajada (agora em frangalhos) fica, na melhor das hipóteses, sua predileção pela noite que o fazia, quando não trabalhasse cedo na manhã seguinte, ficar até tarde acordado.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Chega de bandido pra prender (Eu tenho uma idéia!)
O garoto de óculos carrega sua câmera enquanto procura um ângulo privilegiado para fotografar o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na Cinelândia. A pele excessivamente branca e o olhar de estranhamento para com seu entorno acusam a procedência do menino: trata-se de um estrangeiro. Com todas essas características que o distinguem da maior parte das pessoas que circulam a sua volta, o rapaz parece um alvo em destaque para um marginal oportunista que o observa há uns 6 ou 7 metros de distância, sentado num banco quase em frente a um restaurante sobre o qual se estende um grande prédio amarelo – o “amarelinho”.
O garoto, apesar da tenra juventude estampada na pele e nas roupas, não é tão jovem quanto se supõe e os auspícios de uma percepção que se molda sobre seus sentidos, bastante acima da média, parece indicar a ele que o marginal o irá abordar em alguns segundos. Não há nada a temer - pensa o rapaz. Na mão uma câmera profissional que se apoia sobre o pescoço com o artifício de uma fita, talvez seu maior patrimônio naquele contexto; na carteira, algumas dezenas de dólares se misturam a três notas de 50 reais, dinheiro pouco importante para ele que vê a vida muito além dos luxos e prazeres proporcionados pelo dinheiro; e no bolso, bem ao lado da carteira, um passaporte onde se atesta seu mais distintivo caractere – seu nome. Parker, conforme ele o apresentou mais cedo ao recepcionista do hotel onde está hospedado em Copacabana, - Peter Parker!
Ora, já quando o marginal o alcançava com olhar imperturbável há uns 3 metros de distância, se dirigindo para uma abordagem seca e intimidatória, o jovem com a câmera antecipava cada passo seu e considerava 72 maneiras distintas de imobilizar o algoz, cada qual acompanhada de uma frase jocosa ou uma tirada bem humorada, marca registrada dessa virtuosa criatura que vivia sob a identidade de um jovem fotógrafo, embora nem tão jovem e bem menos virtuoso no emprego que oficiava com máquina que na chancela de um herói popular e de humor característico que era quando do uso de uniforme e máscara.
- O uniforme e a máscara! - Pensou consigo contrariado. Não os havia trazido e qualquer manobra que tivesse em combate de seu iminente inimigo o faria sucumbir a uma exposição imprópria e indesejada. O marginal se parou ao seu lado e mandou essa: - Ôh gringo! Passa a carteira e os dólar! – e como seu interlocutor houvesse demorado em menção a entregar-lhe, repetiu com ares de bandoleiro poliglota: - Vamo logo senão te furo todo! Give the wallet playboy!
Sentia-se agora impotente mesmo sabendo-se capaz de levantar aquele criminoso com uma das mãos, pular sobre sua cabeça e puxar-lhe por trás a cueca (fazendo dela uma algema ou uma camisa-de-força) ou imobilizá-lo quase instantaneamente com uma de suas teias projetadas a partir dos punhos apenas com um posicionar estratégico dos dedos e da palma. Como o bandido não lho requisitasse a câmera, e tomando por medida a insignificância do dinheiro que recheava o objeto em demanda, puxou do bolso a carteira e entregou àquele sujeito mal vestido, sujo e com a barba por fazer já há pelo menos 6 meses. Ali não se demorou o meliante que, ignorando a câmera que agora pendia do pescoço do gringo, partiu em retirada numa passada calma e irreverente (a “ginga brasileira” como lhe diria mais tarde um policial para o qual relatasse a ocorrência nosso herói reticente).
Os 15 minutos que se seguiram àquele roubo foram os piores da vida recente de Peter Parker, que se sentindo impossibilitado de exercer seus domínios e talentos na prática da justiça, conforme entendia ele assegurando a necessidade de restituir à vítima os bens perdidos e entregar os infratores à punição e ao trato policial, teve vontade de correr atrás do ladrão e espancá-lo até que suas mãos brancas sem uniforme cobrissem-se do vermelho do sangue do homem, como um tecido vivo que se lhe moldasse na forma exata das mãos. Entretanto, no instante em que esse pensamento lhe tomou em assalto, logo lhe veio à cabeça a imagem de Venom e Carnifícinia (dois antagonistas seus que tinham por traço justamente essa flexibilidade como de uma vestimenta de lycra ou helanca que tomasse com perfeição a forma do corpo fosse este o de um esbelto guri ou de um mórbido obeso a segurar um hambúrguer em cada uma das mãos) e seu ódio logo deu lugar a um sentimento mais brando, resignado. Tomou em orientação relativista os problemas sociais que afligem aquele país e, por certo, justificavam violência daquela natureza.
Mas o consolo maior e, talvez, o único pensamento que lhe possibilitou abandonar aquele rancor e a frustração que pouco antes se fizera conforme neblina sobre o seu próprio caráter foi a idéia de que, se Peter Parker se dera ao despojamento de uma ou duas semanas ausente das funções e da rotina que o submetiam a empenho e preocupação constantes em sua cidade de origem, seria impendente e indispensável que também o homem-aranha tirasse alguns dias de férias.
O garoto, apesar da tenra juventude estampada na pele e nas roupas, não é tão jovem quanto se supõe e os auspícios de uma percepção que se molda sobre seus sentidos, bastante acima da média, parece indicar a ele que o marginal o irá abordar em alguns segundos. Não há nada a temer - pensa o rapaz. Na mão uma câmera profissional que se apoia sobre o pescoço com o artifício de uma fita, talvez seu maior patrimônio naquele contexto; na carteira, algumas dezenas de dólares se misturam a três notas de 50 reais, dinheiro pouco importante para ele que vê a vida muito além dos luxos e prazeres proporcionados pelo dinheiro; e no bolso, bem ao lado da carteira, um passaporte onde se atesta seu mais distintivo caractere – seu nome. Parker, conforme ele o apresentou mais cedo ao recepcionista do hotel onde está hospedado em Copacabana, - Peter Parker!
Ora, já quando o marginal o alcançava com olhar imperturbável há uns 3 metros de distância, se dirigindo para uma abordagem seca e intimidatória, o jovem com a câmera antecipava cada passo seu e considerava 72 maneiras distintas de imobilizar o algoz, cada qual acompanhada de uma frase jocosa ou uma tirada bem humorada, marca registrada dessa virtuosa criatura que vivia sob a identidade de um jovem fotógrafo, embora nem tão jovem e bem menos virtuoso no emprego que oficiava com máquina que na chancela de um herói popular e de humor característico que era quando do uso de uniforme e máscara.
- O uniforme e a máscara! - Pensou consigo contrariado. Não os havia trazido e qualquer manobra que tivesse em combate de seu iminente inimigo o faria sucumbir a uma exposição imprópria e indesejada. O marginal se parou ao seu lado e mandou essa: - Ôh gringo! Passa a carteira e os dólar! – e como seu interlocutor houvesse demorado em menção a entregar-lhe, repetiu com ares de bandoleiro poliglota: - Vamo logo senão te furo todo! Give the wallet playboy!
Sentia-se agora impotente mesmo sabendo-se capaz de levantar aquele criminoso com uma das mãos, pular sobre sua cabeça e puxar-lhe por trás a cueca (fazendo dela uma algema ou uma camisa-de-força) ou imobilizá-lo quase instantaneamente com uma de suas teias projetadas a partir dos punhos apenas com um posicionar estratégico dos dedos e da palma. Como o bandido não lho requisitasse a câmera, e tomando por medida a insignificância do dinheiro que recheava o objeto em demanda, puxou do bolso a carteira e entregou àquele sujeito mal vestido, sujo e com a barba por fazer já há pelo menos 6 meses. Ali não se demorou o meliante que, ignorando a câmera que agora pendia do pescoço do gringo, partiu em retirada numa passada calma e irreverente (a “ginga brasileira” como lhe diria mais tarde um policial para o qual relatasse a ocorrência nosso herói reticente).
Os 15 minutos que se seguiram àquele roubo foram os piores da vida recente de Peter Parker, que se sentindo impossibilitado de exercer seus domínios e talentos na prática da justiça, conforme entendia ele assegurando a necessidade de restituir à vítima os bens perdidos e entregar os infratores à punição e ao trato policial, teve vontade de correr atrás do ladrão e espancá-lo até que suas mãos brancas sem uniforme cobrissem-se do vermelho do sangue do homem, como um tecido vivo que se lhe moldasse na forma exata das mãos. Entretanto, no instante em que esse pensamento lhe tomou em assalto, logo lhe veio à cabeça a imagem de Venom e Carnifícinia (dois antagonistas seus que tinham por traço justamente essa flexibilidade como de uma vestimenta de lycra ou helanca que tomasse com perfeição a forma do corpo fosse este o de um esbelto guri ou de um mórbido obeso a segurar um hambúrguer em cada uma das mãos) e seu ódio logo deu lugar a um sentimento mais brando, resignado. Tomou em orientação relativista os problemas sociais que afligem aquele país e, por certo, justificavam violência daquela natureza.
Mas o consolo maior e, talvez, o único pensamento que lhe possibilitou abandonar aquele rancor e a frustração que pouco antes se fizera conforme neblina sobre o seu próprio caráter foi a idéia de que, se Peter Parker se dera ao despojamento de uma ou duas semanas ausente das funções e da rotina que o submetiam a empenho e preocupação constantes em sua cidade de origem, seria impendente e indispensável que também o homem-aranha tirasse alguns dias de férias.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
O beijo
- Você é a garota mais bonita que eu já conheci – o rapaz disse encabulado, já que a timidez que o fazia comprimir os ombros estava em pé de igualdade para com o desejo que o impelia a fala. A menina sorriu e hesitou responder. Ao mesmo tempo que via como fraqueza a insegurança do rapaz, sentia o lisonjeiro encanto porque houvesse vindo tão cândida criatura lhe dizer aquilo. Timidamente também ela respondeu – Obrigada. Note-se, todavia, que a sua timidez era charme e nada mais.
O rapaz, do outro lado, inflou-se de uma segurança súbita como um botão de rosas que subitamente desabrocha diante das pedras, da terra e de algumas árvores dessas que conservam com o mundo uma percepção estendida pelas décadas e séculos, e levou suas mãos até as mãos da menina, tomando-as aos olhos e, retomando o olhar novamente ao rosto dela, disse-lhe: - Queria poder olhar pra você todo dia, o tempo todo. – a pausa que fez antes de continuar não fez senão dar eco e profundidade às palavras que se iriam seguir – teu sorriso me faz lembrar como podem vir mais belas coisas de uma boca do que palavras.
Não é que a poesia seja para as mulheres, especialmente para as mais jovens como aquela, afrodisíaco mais poderoso que o corpo e os hormônios, mas a vaidade que modula o comportamento feminino mais filistino pede que do outro lado também haja mais composição no trato que o expediente de um beijo tomado à força ou em surpresa. E como os olhos dela agora já eram todos para os dele, o sorriso – que um segundo antes havia sido a tônica e a graça de um encômio insuspeito – dissolveu-se num comprimir de lábios que pedia ao rapaz que avançasse e tomasse em ação a razão de toda aquela empatia. Conforme seu rosto lentamente se aproximava, também o dela fez menção de ir-lhe ao encontro, quando escaparam da boca dele, orgulhoso e impaciente por narrar o momento, as seguintes palavras: “É agora ou nunca”.
No mesmo instante que as palavras vieram ao ar, a menina – de acordo com uma simetria irrepreensível que dava proporção cabível ao demérito do último verso – estendeu às mãos ao peito do garoto interrompendo-lhe o trajeto e inquiriu: - O que você disse? – mas como não fosse necessária a resposta, uma vez que os ouvidos que ouviram com tamanha estupefação aquela sentença eram os mesmos e atenciosos que antes se haviam deleitado com os gracejos e os gabos, declarou sua indignação balançando a cabeça e repetindo duas ou três vezes procurando a entonação adequada – Eu não acredito!
Pois, antes que o menino se pudesse explicar, corrigir ou manobrar sua conduta diante daquele insucesso tão iminente, deu-lhe ela as costas e apenas mais uma palavra – Nunca!
Na poesia, como na prosa, segue que cada palavra – por mais inocente que seja - submete a antecedente; e a frase que se lê ou se ouve num instante deixa para trás no tempo e na memória aquela que lhe precede. Como um cão que farejasse a procura de determinado animal, sentiria seu cheiro mais evidente e presente quanto mais recente fosse ali a passagem do bicho, assim é que um poeta deve encarar seu leitor. Para o caso do cão ser aquele em posse de pena e papel, cumpre que o rastro seja o cheiro que exala do seu próprio rabo e nada mais.
O rapaz, do outro lado, inflou-se de uma segurança súbita como um botão de rosas que subitamente desabrocha diante das pedras, da terra e de algumas árvores dessas que conservam com o mundo uma percepção estendida pelas décadas e séculos, e levou suas mãos até as mãos da menina, tomando-as aos olhos e, retomando o olhar novamente ao rosto dela, disse-lhe: - Queria poder olhar pra você todo dia, o tempo todo. – a pausa que fez antes de continuar não fez senão dar eco e profundidade às palavras que se iriam seguir – teu sorriso me faz lembrar como podem vir mais belas coisas de uma boca do que palavras.
Não é que a poesia seja para as mulheres, especialmente para as mais jovens como aquela, afrodisíaco mais poderoso que o corpo e os hormônios, mas a vaidade que modula o comportamento feminino mais filistino pede que do outro lado também haja mais composição no trato que o expediente de um beijo tomado à força ou em surpresa. E como os olhos dela agora já eram todos para os dele, o sorriso – que um segundo antes havia sido a tônica e a graça de um encômio insuspeito – dissolveu-se num comprimir de lábios que pedia ao rapaz que avançasse e tomasse em ação a razão de toda aquela empatia. Conforme seu rosto lentamente se aproximava, também o dela fez menção de ir-lhe ao encontro, quando escaparam da boca dele, orgulhoso e impaciente por narrar o momento, as seguintes palavras: “É agora ou nunca”.
No mesmo instante que as palavras vieram ao ar, a menina – de acordo com uma simetria irrepreensível que dava proporção cabível ao demérito do último verso – estendeu às mãos ao peito do garoto interrompendo-lhe o trajeto e inquiriu: - O que você disse? – mas como não fosse necessária a resposta, uma vez que os ouvidos que ouviram com tamanha estupefação aquela sentença eram os mesmos e atenciosos que antes se haviam deleitado com os gracejos e os gabos, declarou sua indignação balançando a cabeça e repetindo duas ou três vezes procurando a entonação adequada – Eu não acredito!
Pois, antes que o menino se pudesse explicar, corrigir ou manobrar sua conduta diante daquele insucesso tão iminente, deu-lhe ela as costas e apenas mais uma palavra – Nunca!
Na poesia, como na prosa, segue que cada palavra – por mais inocente que seja - submete a antecedente; e a frase que se lê ou se ouve num instante deixa para trás no tempo e na memória aquela que lhe precede. Como um cão que farejasse a procura de determinado animal, sentiria seu cheiro mais evidente e presente quanto mais recente fosse ali a passagem do bicho, assim é que um poeta deve encarar seu leitor. Para o caso do cão ser aquele em posse de pena e papel, cumpre que o rastro seja o cheiro que exala do seu próprio rabo e nada mais.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Retrato de Corte
Consta n’algum livro de autoria desconhecida incumbido de narrar a história, já há algum tempo incélebre, de um ilustre membro da corte inglesa durante o século XVII, que o tal cavalheiro contratara um renomado mestre da pintura flandrina para compor-lhe um retrato. E, porque fosse muito feio, pediu-lhe o contratante que retratasse a imagem de sua glória, a despeito das imperfeições que o tempo havia cunhado ou que a genética lho tivesse imposto, corrigindo sobre a tela as marcas de sua fealdade, de modo que na representação cumprida figurasse a aparência de um belo homem.
Aliás, não há muito algum espirituoso autor houve publicado um artigo, menos de valor histórico que anedótico – justiça seja feita -, onde se refere a esta mesma história do livro aqui em nota como fosse a primeira cirurgia plástica narrada e de alguma forma documentada pela pintura. E cita esta passagem em que declara o aristocrata da história: “Que Deus tenha-me atado a este fardo, que me tenha esculpido em mármore tão áspero, não apenas ignorando a expressão de sua imagem e semelhança, mas fazendo-me do outro lado à imagem e semelhança de um pobre diabo, nada poderá contra o poder que teve ele próprio investido às mãos sagradas desse pintor. E, se em vida hei degustado o sabor amargo da feiúra, tornar-me-ei belo, d’outra forma, após a morte que me espera - como triunfo último de minha tão eloqüente vaidade.”
Mas também há notas nos escritos que se detiveram em catalogar a errância da obra pintada, que após passar às mãos de seu segundo dono e deparar-se subitamente com a vista de uma bela princesa, esta teve em medida um longo suspiro ao qual se sucedeu a seguinte passagem, também descrita por anônimo literato: “Mas que belo, belíssimo! Irrepreensível é o amor divino que propositado com a beleza dos céus, dotou as mãos singelas de um pintor assim delicado com tamanho talento.” E ignorando o título que conferia nome e nobreza ao rosto ali retratado, tratou de tomar nota do nome que assinava.
Assim, devemos supor que mais resiste ao tempo a beleza da mão que pinta, que a autoridade severa daquela que paga.
Aliás, não há muito algum espirituoso autor houve publicado um artigo, menos de valor histórico que anedótico – justiça seja feita -, onde se refere a esta mesma história do livro aqui em nota como fosse a primeira cirurgia plástica narrada e de alguma forma documentada pela pintura. E cita esta passagem em que declara o aristocrata da história: “Que Deus tenha-me atado a este fardo, que me tenha esculpido em mármore tão áspero, não apenas ignorando a expressão de sua imagem e semelhança, mas fazendo-me do outro lado à imagem e semelhança de um pobre diabo, nada poderá contra o poder que teve ele próprio investido às mãos sagradas desse pintor. E, se em vida hei degustado o sabor amargo da feiúra, tornar-me-ei belo, d’outra forma, após a morte que me espera - como triunfo último de minha tão eloqüente vaidade.”
Mas também há notas nos escritos que se detiveram em catalogar a errância da obra pintada, que após passar às mãos de seu segundo dono e deparar-se subitamente com a vista de uma bela princesa, esta teve em medida um longo suspiro ao qual se sucedeu a seguinte passagem, também descrita por anônimo literato: “Mas que belo, belíssimo! Irrepreensível é o amor divino que propositado com a beleza dos céus, dotou as mãos singelas de um pintor assim delicado com tamanho talento.” E ignorando o título que conferia nome e nobreza ao rosto ali retratado, tratou de tomar nota do nome que assinava.
Assim, devemos supor que mais resiste ao tempo a beleza da mão que pinta, que a autoridade severa daquela que paga.
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