The observer walks on paving stones and cracked concrete; broken glass and cigarette butts; around with buildings and windows and gates and lampposts and lights and written or silent walls and posters and outdoors and bus stops and trees and cars and bicicles and people and dogs, but, mainly, people; food and full or empty bottles and cigarettes and smoke and various smells and gestures and laughings and agressiveness and indifference and ostentation and misery; there are almost no flowers except for those printed on the girls' dresses; however, so many things are blooming there - beuatiful and terrible, red, grey, dangerous and harmless, natural, non-natural, reasonable and incomprehensible - that, even if they dont delight the eyes, one must adress them with regards and giving them names.
sábado, 22 de abril de 2017
terça-feira, 18 de abril de 2017
O Silêncio dos Cordeiros
O rapaz entrou no
ônibus e se dirigiu diretamente a última fileira, avistando lugar
ao lado de um senhor de idade, de cabelos ralos e brancos e pele
escura, que conversava com uma mulher negra sentada num banco
imediatamente a frente. Pediu licença, conforme tomava em mãos a
mochila – volumosa o suficiente para incomodar caso viesse ali
presa as costas - e sentou-se, olhando para moça que mantinha o
rosto virado para trás, uma vez engajada que estava no diálogo com
o homem já descrito.
A mulher, então, olhou
nos olhos do rapaz com tal profundidade, que capturou seu olhar a
medida que entregava a ele também um sorriso. Ele sentiu-se como se
não pudesse mais desvia-lo; sentiu-se deselegante com a simples
ideia de ignorar a atenção que a moça dirigia ao seu rosto, mesmo
que naquele momento as palavras dela ainda tivessem como ouvinte o
senhor ao seu lado. Além do que, tratava-se de um sorriso
verdadeiramente cativante. A medida que as luzes do sol invadiam o
ônibus – por volta das 16 horas, numa tarde ensolarada –
alcançavam a superfície branca dos dentes engenhosamente
enfileirados na parte de dentro da boca da mulher, e eram
imediatamente refletidas aos olhos de qualquer um que se dispusesse a
dar testemunho ao sorriso da moça, cuja beleza tampouco era de se
ignorar.
O olhar dela, então,
voltou ao senhor a quem ela dizia: “Ele sabe de tudo que acontece e
tudo o que acontece, acontece porque ele quer”. Concordava o homem
com um aceno enfático de cabeça, e ela prosseguia: “Não há quem
esconda nada dele, porque ele tudo sabe e tudo vê”. E o homem mais
uma vez confirmava em acordo com a sentença da moça, repetindo
laconicamente o enredo: “Ele vê tudo!”. A mulher se alongava
naquele poema, que agora parecia requisitar dela uma expressão mais
intensa do corpo, que se mexia energicamente conforme ela subia
também o tom de voz: “Ele que tudo pode e que tudo faz, nada faz
que não seja para o bem, e nada quer que não seja o nosso bem!”.
O homem acompanhava como se suas linhas servissem agora de
contraponto as melodias que já se ensaiavam na voz dela: “Ele tudo
pode!”.
Nesse instante, o olhar
da mulher vagava um a um os passageiros do ônibus, encarava aqueles
que se atreviam a olhar pra ela, e se insinuava para aqueles que a
ignoravam. As mãos gesticulavam com o dedo em riste, dando gravidade
às sentenças que proferia e, já ali, se havia perdido a discreção
antes recolhida no diálogo com o senhor. Ela encontrava agora no
ônibus quase cheio uma platéia em potencial.
“A vida é ele quem
dá e é ele quem tira!” - Dizia ela, seguida pelo comentário
abafado do senhor atrás de si: “Ele tudo sabe!”.
Levantou-se, então, de
sobressalto e agregou àqueles versos uma melodia já então
formalizada. Seguiu pelo corredor do ônibus, cantando – e, agora,
mal se ouvia o senhor de idade, que fazia de tudo para que a sua
parte, apesar do baixo volume, mantivesse para com a voz da novissa
uma afinação coerente.
“Ele tudo saaaaabe,
ele tuuudo vêee! Ele tudo poooode e tuuuudo faaaaz......”
Terminou a performance
alogando a nota entoada com a última vogal e fazendo tremer a voz,
vibrando controladamente as cordas vocais. Sem voltar a sentar-se,
esperou pela próxima parada e desceu do ônibus.
O senhor permaneceu,
bem ao lado do jovem com a mochila no colo. Olharam-se por um breve
instante e um silêncio sem jeito tomou forma entre os dois, sentados
lado ao lado, enquanto lá fora, ecoava o ronco barulhento dos carros
e a paranóia ininterrupta da cidade.
Aos poucos, o impacto
deixado pela lírica envagelizadora da mulher se dissolvia nas
conversas amenas que nasciam da composição humana daquele ônibus,
com as pessoas dispostas lado a lado, de uma ponta a outra.
O ônibus parou
novamente e, dessa vez, entrou um homem carregando uma grande sacola,
constituida de numerosas sacolas menores, todas presas a um cabo que
se prendia, no topo, a um gancho. Apoiou a sacola pelo gancho no
corrimão preso ao teto do ônibus e disse: “Senhoras e senhores,
estou aqui para lhes oferecer essa excelente oferta. Cada saquinho
desse contém 10 balinhas de côco: macias e açucaradas, para
entreter a vossa viagem. Mas isso não é tudo” - e fez uma pausa,
certo de que o que tinha a dizer a seguir justificava o drama
acrescido - “São balinhas de jesus! Cada balinha dessa foi
abençoada por Deus-meu senhor-Jesus Cristo. E cada um de vocês que
comprar e chupar uma balinha dessas, será também abençoado por
ele! Isso tudo pela mísera quantia de 2 reais. Dois reais pelo doce
e também pela benção de nosso senhor Jesus Cristo.”
Tirou a sacola do
gancho e atravessou o corredor do ônibus, recolhendo o dinheiro e
entregando as balas às dezenas de passageiros que lhe estendiam as
mãos. Chegou até o fundo do ônibus, onde estavam o senhor e o
rapaz com a mochila no colo. Olhou desconfiado e fundo nos olhos do
rapaz com a mochila e, sem recolher o olhar, puxou um pacotinho de
balas e ofereceu ao senhor ao lado, que estendeu a mão e aceitou sem
haver tirado do bolso uma moedinha sequer. Virou-se lentamente, e
seguiu, descendo do carro no ponto seguinte.
O velho, lentamente,
abriu o saquinho e levou à boca uma bala. Sem dizer uma palavra,
virou-se para aquele ao seu lado e ofereceu do saquinho que tinha em
mãos. O outro fez que não e agradeceu. Guardou ele, então, o
saquinho no bolso e cruzou os braços. Seguiram os dois lado a lado,
ainda em silêncio. Ao rapaz restava a superfície áspera da mochila
a pesar em seu colo e os seus pecados todos, incautos, a pesarem na
consciência. Ao senhor, apenas o doce gosto do açúcar e do côco,
e o balanço do ônibus, ritmado...
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
O Meio é a Mensagem ou Hermes Pede Passagem
Caminho sobre a calçada numa rua que segue à minha frente: reta até o último centímetro de concreto que, contra as solas emborrachadas dos meus sapatos gastos, confessa-me a dureza inegociável da sua matéria.
No final dela, à distância, vindo lentamente em minha direção, uma senhora negra de idade avança apenas um pouco mais que absolutamente normal. Cabelo, calça e sandálias reiteram as convenções mais normativas de gênero, idade e classe social possíveis; e em todas elas, fragilidade é a nota comum em destaque. Na camiseta, no entanto, apesar do tecido e recorte ordinários, uma mensagem em relevo perturba o enredo que querem contar outros detalhes: “Strong is sexy”.
Ela segue o caminho e está prestes a passar por mim. Meus olhos vagam da leitura inesperada até seus olhos serenos, que me fitam. Sorrimos um para o outro em sincronia tão justa que é difícil identificar quem primeiro desatou estes nós invisíveis que impedem os gestos da face na ordem da brutalidade e frieza da máquina social.
Mas ainda que eu lhes possa confessar – sem orgulho algum – que o meu sorriso, então, nascia da contradição em vista e de seu potencial desdobramento literário, do sorriso dela posso apenas especular - Afinal, desconfiava ela da dimensão semântica do meu? Ou a camiseta sobre o seu torso era a ela indiferente como era a sua pele em relação aos fonemas ali grafados?
Olhei para trás uma última vez - a decifração de um enigma pede ao pescoço alguma flexibilidade. Nas costas que a agora se via, sensivelmente curvadas, nenhuma palavra à vista. Mas no andar vagaroso, passo a passo, uma constância robusta e cheia de significado. A rua era a linha que dava a senhora a magnitude de uma sentença, como a linha imaginária que dava àquelas letras de antes contexto e sentido. Porque a verdade não habita a mensagem; e se nasce na voz do mensageiro investido, revela-se apenas na consciência de um destinatário. Strong is sexy, e nunca houve razão alguma pra se duvidar.
sexta-feira, 27 de maio de 2016
O Guarani
O barulho do ar que
escapa - como resultado da descompressão que regula o funcionamento
do ônibus quando este pára e abre as portas – chama atenção do
pedestre que segue distraído. Entram os últimos e o veículo fecha
as portas enquanto o ônibus permanece parado devido ao
engarrafamento que enfileira dezenas de automóveis naquela Rua do
Passeio, já quase em frente a Escola de Música da UFRJ.
Uma panorâmica: da
calçada, é possível ver toda a extensão lateral do veículo, com
suas janelas dispostas de modo a convidar diálogos soturnos entre os
passageiros que habitam tais posições e os outros que esperam no
ponto. O olhar fixo de um garoto na parte de trás do ônibus chama
atenção: ele recai sobre a figura de uma senhora que, com os braços
cruzados, mantém firme a bolsa pendurada em um deles. A mulher
ignora a presença do menino que se faz sentir cada vez mais a medida
que a atenção do espectador delineia a cena. O menor, preto e em
cujos trajes (ainda que em relação apenas àquilo que se dispunha a
vista) se identifica uma condição social definida, encara uma
mulher na idade de seus, talvez, 50 anos, vestida como que atenta ao
escrutínio social que a cerca. Não se pode dar a ela, precisamente,
um contorno de classe, e o fato de que ela espera em um ponto de
ônibus redimensiona a desconfiança do avaliador, que a primeira
vista identificaria naquelas roupas dela o traço residual de um
privilégio, ainda que relativo.
Num primeiro momento,
entende-se que se trata de um olhar de intimidação pelo simples
fato de que o olhar que ele dirige a ela não cessa e não quer
cessar. A natureza intencional do gesto, em todo caso, se torna mais
clara a medida que o rapaz começa a cantar; primeiro, baixinho e em
crescendo até que ganhem definição os significados que ali
se veiculam:
“Eu sou ladrão! Eu
sou ladrão! E você não pode nada!” - A melodia remete
inequivocamente ao gênero de funk associado, em grande medida, às
favelas da cidade - “Se eu quisesse eu ia aí e pegava a tua bolsa!
- sem rima ou estrutura definida, apenas melodia e palavra como se
quisesse com aquilo configurar uma indefinição estratégica entre
o canto e o discurso objetivo. E retornava e prosseguia, até que um
ritmo particular começasse a tomar forma na repetição induzida à
maneira de um leitmotiv: - “Eu sou ladrão! Eu sou
ladrão!...”
A mulher, já
consciente da presença daquele que antes não era senão um
fantasma, tensionou os braços cruzados, fincando as mãos por entre
as axilas, de modo a certificar-se da segurança com que matinha a
bolsa presa, pelas alças - ao redor de um dos ante-braços. De uma
ingenuidade obtusa, no entanto. O ladrão de fato, não é aquele que
anuncia sua presença, declarando com palavras – do contrário - a
ausência da intenção para o roubo. Da contradição evidente,
então, desenrolava-se uma ficção bastante original; marcadamente
irônica e carregada de um simbolismo o qual apenas o contexto
poderia fazer tornar-se inteligível.
A imagem da bolsa
protegida se dirigia ao pobre passageiro como uma declaração
sub-reptícia e, em última instância, uma ofensa. Assim como o olhar
dele, fixo e intimidador, se desprendia em resposta como num jogo de
significados em que nada era em ato, mas, ao contrário, tudo era
sugestão. Na exegese do rapaz, a precaução da mulher fazia menção
a si ou, pelo menos, ao lugar por ele ocupado naquele cenário
indistinto; do mesmo modo como interpretava ela sua própria
segurança a partir da tensão acumulada entre os braços e em defesa
da bolsa. Mas porque não houvesse seu olhar chamado atenção da
moça – e apesar de toda a intensidade em que culminavam aqueles
olhos ocupados, o silêncio é justamente aquilo que faz do olhar uma
voz a espreita – viu-se impelido a tornar audíveis as palavras que
até então não estavam senão implícitas. Assim procedendo, no
entanto, inaugurava o garoto um novo regime para o discurso, forçando
o diálogo como um cantor de ópera que se impõe a seu público a
plenos pulmões. E como na ópera, comprometia-se menos com a
realidade que com a forma com a qual tratava seu tema - uma receita
comum a quase todos os fenômenos que se inauguram em um regime
estético.
Mas nem por isso, se
podia dizer que não houvesse ali um interprete preocupado em
compensar a fragilidade diegética da performance, com o apelo
humanizado de quem incorpora os sentimentos que deseja expressar em
uma segunda camada não tanto involuntária quanto intencional, ou
seja, não como aquele que sente, mas como aquele que inventa e faz,
por isso, do sentimento uma razão inequívoca, notável era o tom
ameaçador com que sua música seguia a melodia pouco prodigiosa em
curso. O volume induzido, portanto, era apenas aquele necessário
para fazer-se ouvido pela mulher e mais um ou dois transeuntes
atentos a volta, como aquele que testemunhava a encenação.
Para a mulher, a quem
parecia importar menos a forma que o conteúdo explicitamente
evocado, o terror tornava-se nota em destaque, porque sob a nódoa da
ficção escondia-se então uma realidade em potência, em que se
fazia vibrar dos sentimentos a espera antes o medo que um regozijo
qualquer diante da beleza dos traços originais de uma peça como
aquela.
A quem, no entanto,
observava a distância os detalhes e casuais ornamentos como signos
da obra em processo - reconhecendo não apenas o drama em relevo como
a interpretação acabada, que sonora e expressivamente ressaltavam do
artista a marca de uma kunstwollen feita evidente, enxergando
não somente a técnica, mas principalmente a inteligência com a
qual o autor se tornava o veículo de uma poderosa crítica a
sociedade em questão – , e porque não houvesse aparato
institucional algum dando contexto ao dispêndio de gritos de louvor e
aplausos, restava apenas o elogio interiorizado da
contemplação em retorno.
A arte é a forma
magistral pela qual, ao atentarem uns aos outros os indivíduos de um
mesmo contexto, assumem-se na ignorância mútua de suas razões
profundas no momento mesmo em se desfazem dos julgamentos
precipitados em nome de uma consideração segunda, para finalmente
perceberem que o significado pleno da ação está na simples atenção
que se dirige a ela.
sexta-feira, 25 de março de 2016
A Compensação
Tomei de volta as palavras
do poema que escrevi para ti.
Desculpe-me.
Deixo-te estas: que sou um babaca egocentrico.
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Quarta-feira de um tom mais escuro
Depois da tempestade, o
precipício.
Assim descrevia o
sentimento que o ocupava logo após cessarem os entusiasmos que o
haviam impulsionado durante todo o carnaval. Quando aquela alegria
incontornável, catártica, desproporcionada, não habitava mais seu
peito e no lugar deixava apenas espaço; uma cavidade profunda que
pedia tão somente ocupação imediata.
Perguntava-se sobre si
mesmo, sobre a natureza do gozo carnavalesco que se dispunha pulsante em seu corpo
minutos antes, e que ainda agora pulsava em outros corpos, os quais podia ele nesse momento observar, não sem alguma inveja, mas, sobretudo, com a indiferença de quem olha fixo um retrato e sabe que não se trata de nenhum espelho. Os primeiros raios de luz do dia, no entanto, ofereciam clareza e um brilho singular ao cenário do qual se retirava ele agora, e era justamente entre a indiferença e a inveja que se alternavam um movimento decidido de evasão e um reflexo auto-projetado de si na imagem da qual ele já não devia mais fazer parte. Quando cessava o brilho, porque não incidisse a luz num certo instante diretamente, restava apenas a clareza diurna através da qual se revelavam as imperfeições das máscaras
customizadas, as costuras expostas das fantasias mais minuciosamente
fabricadas, o desajuste dos elaboradíssimos chapéus nas cabeças cambaleantes por folga ou estreiteza da sua abertura em relação a cabeça que a vestia, o cansaço ardente no rosto da menina ainda impregnada
pela festa, pela dança e pelos desejos seus ocultos – quaisquer
que fossem.
Pois na exposição tão crua dos artifícios e ficções que imantavam aquela festa de um ar característico de fábula é que nascia a percepção de seu fim - já quando fim e percepção do fim eram uma e a mesma sentença. E como todas as coisas que são, apenas quando e conforme são, também o carnaval se presta a essa dinâmica particular em que toda a descrição é fantasia, porque quando se descreve, já não é; e quando chega de fato ao final é já outra coisa – e antes dela apenas um campo de possibilidades que a memória articula como quem maneja um álbum de fotografias.
Pois na exposição tão crua dos artifícios e ficções que imantavam aquela festa de um ar característico de fábula é que nascia a percepção de seu fim - já quando fim e percepção do fim eram uma e a mesma sentença. E como todas as coisas que são, apenas quando e conforme são, também o carnaval se presta a essa dinâmica particular em que toda a descrição é fantasia, porque quando se descreve, já não é; e quando chega de fato ao final é já outra coisa – e antes dela apenas um campo de possibilidades que a memória articula como quem maneja um álbum de fotografias.
Precisou afastar-se
daquela gente, pois da diáfana compreensão de que já não fazia
parte do instante. Quis mesmo acreditar que seu caminho seguiria, a partir dali, sua vontade e tão somente a sua vontade, mas não podia ignorar
a sensação de que fora deixado de lado, excluído quando
prontamente deixara de ser um deles para tornar-se outra coisa. A
agitação dos corpos em sincronia deu lugar à marcha individual, e
onde se contorcia o desejo incontrolável de mexer-se, refração do
contágio festivo a que dá nome o carnaval, insinuava-se agora
apenas o aspecto funcional do movimento pendular que leva de um lugar
ao outro por mera necessidade e ocasião.
Pelo caminho, no
entanto, a memória seguia ativa e capturava com participação
diligente cada figura que iria compor esse retrato do encerramento.
O encantamento residual de uma mágica que depende das proezas do
corpo – "o corpo que agora falha", dizia a legenda.
Havia aqueles ainda
excitados, mas nesse momento estes serviam já apenas de moldura para
a pintura que descreviam os ânimos em declínio. Afinal, não se
tratava de uma descrição pictórica qualquer do carnaval, mas sobre
o seu fim. E quanto mais afastavam-se o som dos surdos e das caixas,
das vozes e dos metais, mais protagonizavam o espaço vazio e os
dejetos de orgias sem nome; e conforme os resquícios da festa em
movimento desapareciam no silêncio da rua, a melancolia do trajeto
dava lugar ao desespero e a ansiedade pela chegada ao destino.
Sentia-se, o ex-folião, cada vez mais abandonado por aquelas
milhares de pessoas à quem havia ele dado o melhor de si durante as
últimas horas da sua vida, mas sobre cujo pertencimento dizia
respeito apenas à sua memória e não às delas, provavelmente. Não
havia uma sequer alma ouvindo o apelo cantado em versos de marchas
sem rima daquele um que agora carregava sobre os ombros apenas sua
própria consciência - morada de uma personalidade irremediavelmente sóbria e solitária.
No chão, gradualmente,
apareciam os despejos casuais da massa e, de repente, despejos menos casuais:
Corpos humanos. Um, depois outro e mais outro. Cada um
deles carregava consigo o aspecto geral de uma condição que era para a consciência que os reconhecia inconciliável com a ideia do que deveriam ser corpos
humanos, posto que o termo, para esta, deveria descrever um contexto absolutamente diverso daquele exposto. Assim, não se pôde reconhecer, num primeiro instante, em nenhum deles, e ainda que o
cansaço lhe subisse pelo pescoço e lhe quisesse roubar todo o
movimento do corpo, não seria possível que fosse ele e seu corpo no
chão, porque nele perdurava, sem ressalvas, aquela estrutura construída ao longo de
seus alguns anos sob a alcunha de alguma dignidade, que exercia não
apenas com o corpo, mas com todo o arranjo dos gestos possíveis; que
se exibia não apenas nos olhos abertos, mas nas roupas, no cabelo e
nas unhas cortadas. Algum tratamento especialíssimo, percebia agora,
o havia dotado de um sentido e um patrimônio de si que pareciam de
todo ausentes naquelas figuras ali largadas; deitadas sobre o concreto
das calçadas ou mesmo entre o meio fio e a rua, como se a pele
acostumada estivesse a dureza particular daquele solo, como se
conforto fosse uma palavra sem ordem e de sentido perdido nas ilusões
de algum mercado que lhes era, sobretudo, alheio.
Mas os corpos em
exaustão ressaltavam uma nota particular em razão: eram seres humanos e,
aquela, a consequência dos seus excessos. Mas e os excessos daquele
que observava, por que levavam tão criteriosamente a consequências
diversas? Perguntou-se, finalmente, pois a honestidade era também
parte daquela estrutura chamada dignidade: “O que nos diferencia?”
E a resposta saltava-lhe aos olhos. Apenas entre o tecido das roupas
e a pele que estas cobriam, uma dezena de características separavam
aos olhos atentos os corpos estendidos ao chão daquele que caminhava
judicioso. A partir da pele e adentro, no entanto, muito pouco
devia-se encontrar que os diferenciasse - o sangue devia ser úmido e
vermelho como o dele, os órgãos cumpriam, provavelmente, funções similares às dos seus e os ossos deles mediam-se por dureza análoga a dos ossos que o mantinham naquele instante de pé. Seria, então, a química artificial que
incendiara aqueles corpos horas antes muito diversa da que nele ainda
corria, querendo se extinguir sobre um colchão macio em ambiente
silencioso e controlado ou da que corria no sangue dos outros que, ainda, atrás de si festejavam? Provavelmente. Como as vestes sobre o corpo
e o corte de cabelo, também por dentro um tratamento mais cuidadoso
e sofisticado, como as alegorias sobre a cabeça e penduradas ao
redor do pescoço, resultava o encerramento da festa de modo diverso
para aqueles e para aqueles outros ou para si. Assim, reconhecia-se no meio do
caminho entre os corpos estirados e os corpos ainda em festa, mas sem
poder identificar-se completamente nem com estes, nem com aqueles.
Quis ele, então, por
um instante, voltar a ser apenas mais um entre os que festejavam. Mas para isso, seria necessário
que deixasse de lado a consciência que agora determinava seu curso.
Talvez fosse apenas uma questão da circunstância ou da falta de
apelo. Quem sabe uma ocasião distinta não pudesse transpô-lo
daquele quadro desesperançoso de humanidade em questionamento e
projetá-lo novamente ao reino encantado dos foliões? Era certamente
o corpo em esvanecimento, contudo, que dava lugar a consciência
criteriosa e que também o alertava para o caso de que é
terrivelmente fácil julgar uma multidão, dizer-se um “eu” entre
os “eles”, sem ter acesso ao enredo individual e aos pensamentos,
ainda que de lucidez residual, que balançam com aqueles corpos em ecstase. Se lhe fosse permitido invadir a consciência privada de
cada um deles, certamente encontraria em um e outro disposição mais
aguerrida a reclamar contra aqueles privilégios, pois é também um
direito a eles garantido – e privilégio maior entre os privilégios
– reconhecer e questionar a dinâmica da história que produzia um tal contraste e desumanizava os corpos outros que agora pendiam
pelas sujas ruas. Mas como o seu acesso se limitava aquilo que lhe
proporcionavam seus olhos e ouvidos, podia apenas reconhecer a
alienação geral a tudo que não tinha o aspecto sumptuoso da
alegria e do prazer.
A sua consciência, no
entanto, pedia tão somente que terminasse a festa – e se
explicava: a grande e mais cruel capacidade humana é a de suportar
que haja corpos aos quais se entrega tamanho apreço, e outros que se
confundam no lixo dos resíduos carnavalescos. Porque são corpos
como esses os que se emprestam a função de cadáver quando ao invés
do carnaval traça-se um retrato medido da guerra.
O ex-folião se preparava, assim, para uma nova
festa, enquanto colhia o cenário a volta entre adjetivos descolados e
frases de efeito. A fantasia mais desatinada - costurava o estilo como num golpe coreografado de acomodada autocrítica - é ser
aquele que escreve; o que julga e condena, de um lado, e aproveita,
do outro, os deleites da posição que ora ocupa. E essa máscara
ostentosa que o narrador veste sobre seu rosto enquanto seus olhos
vasculham pela memória as cenas possíveis de uma crônica ensaiada
- e cheia das suas assertivas morais – disfarça tão bem seu
caráter sob um entulho de virtudes humanas quaisquer, que faz da
história contada seu próprio carnaval.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Aquele era um escritor
cansado da poesia. Cansado dos lirismos e da música que invadiam as
letras e faziam o leitor desarmado esquecer que era a vida real
aquilo que lia; que era seca, amargurante a notícia e que, repleta
das futilidades, faziam-no uma vez mais virar os olhos para o sem
importância ou o insignificante. Aliás, quando foi que a poesia
descreveu tão bem a realidade, que fosse possível vê-las ao mesmo
tempo, uma na outra, poesia e realidade? Seguindo essa pergunta sem
resposta, ele definia agora, para ele mesmo, que nenhuma outra forma
de escrita estaria justificada que não o grafismo da literalidade
que o impendia no peito e nos olhos, diante de si no mundo; assim
também seria no papel a sua frente, pois tudo o que, a partir dali,
escrevesse, seria como os gritos de um animal em sacrifício, falando
sua dor diretamente aos ouvidos presentes, pedindo clemência ao seu
executor; ou como fotografias frontais de rosto em 3 por 4 dando como
prova de existência de um rosto nada mais do que aquilo essencial;
ou, ainda, como as pinturas de Lascaux, representações tão reais
que o homem moderno não pôde enxergar nelas o computo de um
pensamento inventivo ou a falácia de ficção mitológica alguma.
Sua primeira noticia
estava ali, diante de si, crua como deveria ser a sua própria
linguagem e assim ele seguia dando nota ao caso de um acidente que
deixara orfã uma menina de 9 anos, quando a mãe, de quem dependia
seu sustento e criação, morreu tragicamente eletrecutada por um
cabo de alta tensão partido e mergulhado numa poça d´água no
caminho da pobre mulher.
Teria continuado a
descrição da notícia e concluído a nota de falecimento se não
houvesse entrado em êcstase após ler aquelas duas palavras que
apareceram em seu texto, retumbantes; ao mesmo tempo infâmes e
plenas de vigor estético. A história que seguia curso nos fatos não
tinha, para ele, ali, o sabor e a medida, inconciliáveis, daquela
expressão de costume: “morreu tragicamente”. Haveria se sentido
culpado por se prestar a uma experiência estética tal como aquela,
não fosse a contradição tão absurda das palavras, que deveriam
dar o tom brutal de terror, serem justamente aquelas que davam beleza
mais viva ao texto.
Percebeu que seria um
jornalista desumano se desse destaque aquelas duas palavras, deixando
como pano de fundo o desamparo da menina cuja mãe havia acabado de
falecer. Mas ao esteta, a notícia era em si apenas um adorno
protocolar, um melisma costumeiro, pois era o efeito sonoro daquela
expressão que fazia seu texto ecoar por trás dos olhos de quem lia.
Concluiu sua obra,
então, com um título que dava novo sentido aquele texto conciso
que ele recortou delicadamente da notícia lançada, agora, à gaveta
– e assim ficou eternizada sua obra, na forma de uma crônica
melancólica ou poesia incisiva, conforme a disposição e a
psicologia particular de quem lesse:
“Vítima de um
encanto fatídico: Morreu tragicamente.”
Assinar:
Postagens (Atom)