23:47
- Branco. Maldita cor!
Faz semanas desde a última vez que escrevi algo que não tenha destinado à lixeira ou apagado sem dó. Sei lá que são comuns essas crises de inspiração entre os escritores do gênero, eu mesmo venho passado por crise ou outra sem precisar recorrer ao expediente de uma bala nas têmporas, mas desta vez é diferente. O Sr. Morelli acaba de me ligar do escritório central para lembrar-me que o prazo expira amanhã e ronda-me os nervos a trágica sensação de que nunca mais conseguirei escrever uma história.
A editora é pequena, mas costuma se orgulhar da fama que tem, de que lança novos escritores todo ano. Lancei meu primeiro livro (e único, até então) em agosto do ano passado. Não fosse a iniciativa do Sr. Sálvio Morelli, aquelas páginas soltas ainda estariam atravancando o movimento de papel, aqui, nas minhas prateleiras. O livro não vendeu bem, mas isso já era esperado. O caso é que fiquei comprometido de entregar até a data de amanhã um opúsculo, coisa de cinco mil palavras, para compor uma coletânea que a editora lança todos os anos, exibindo novos trabalhos dos autores que tenham publicado no ano anterior.
Até agora não tenho nada. Comecei inúmeras vezes, mas em nenhuma delas vislumbrei valer a pena continuar. A verdade é que tudo que venho escrevendo já desde há algum tempo me parece terrível. Nem ao menos nos nomes consigo acertar. Soam-me todos falsos ou exageradamente ordinários. Eu mesmo não culparia um gênio como Göethe se os primeiros nomes do jovem Wether fossem, como os seus próprios, Johann Wolfgang; ou, ainda, se houvesse dado o nome de Fausto a todos os seus personagens. Dar nomes, em verdade, sempre me pareceu difícil, mas agora, tampouco, consigo imaginá-los anônimos. Enfim, nomes são sempre nomes. E ainda que os tivesse muito faltaria a constituir uma história. Afinal, nunca um pai deixou de dar nomes aos próprios filhos sob a desculpa patética da falta de inspiração. Os nomes se arranjam, ainda que à força, se arranjam...
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23:49
O Sr. Morelli é um bom homem e lhe sou imensamente grato pelo que tem feito por mim. Mas é, ainda assim, um homem de negócios. Trabalha com resultados. Deve estar se lixando pouco para crises de inspiração, ainda mais as minhas (é sabido que os escritores por profissão só se podem dar ao luxo de uma crise de inspiração após, ao menos, um primeiro best seller). Amanhã mesmo mandará um empregado qualquer tomar-me o texto em mãos. Se não o tiver mandará arrancar-me – à força – as vísceras, o coração e talvez um rim. Não pudesse ser pior, a essa angústia se acaba sempre seguindo uma violenta orgia alcoólica, mas isso é coisa de que eu não quero falar a respeito. Tenho por certo que um rim fará mesmo muita falta. Já as vísceras e o coração não têm serventia há algum tempo.
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9:42
Acordei há pouco. São nove e quarenta da manhã, mas ninguém veio, ainda, à minha porta buscar o maldito texto - texto que não existe, é claro. Estou considerando entregar um relatório das minhas atividades de escritor em crise de inspiração. Algo como: “Enquanto as idéias não vinham esfregava uma lapiseira sobre o papel em branco em uma página de fundo de um livro largado na estante. Acho que era um livro de auto-ajuda, não tenho certeza, já não tinha a menor paciência para letrinhas miúdas àquela altura.” Mas não. O Sr. Morelli não é afeito a experimentalismos. Eu ainda lhe poderia argumentar que este tipo de escrita por encomenda se assemelhava um tanto com o aspecto dos relatórios que profissionais de áreas menos criativas são obrigados a entregar todos os meses, às vezes todas as semanas. Mas o Sr. Morelli não tem sensibilidade para metáforas ou simbolismos, menos ainda um humor requintado. Homens de negócios não costumam ter senso de humor, essa é a verdade. Estou, então, de mãos vazias, como bem se vê.
Já até posso imaginar a minha cara lavada ao abrir a porta ao mandado da editora, dizendo-lhe que espere cinco minutos enquanto procuro uma versão corrigida do dito “trabalho” em meio à nebulosa bagunça que é meu quarto. Ou ainda a vergonha estampada quando revele ao suposto encarregado que nada tenho a lhe entregar, pedindo que volte outro dia, como diz o homem educado quando não tem ou não quer dar uma esmola, ou um pão, a um que lhe bate a porta.
É-me fácil imaginar possíveis futuros nos quais sou o derrotado escritor sem palavras, mas uma simples história, ficçãozinha qualquer, isso não vêm às idéias nem por um decreto. Maldita profissão! Geniozinho bastardo esse seu!
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10:20
O dia se alonga minuto após minuto e como se o tempo já não me fosse raro, tornam-se cada vez mais improdutivas, conforme se estendem as horas. Vejo, assim, que o problema não é o tempo - e não é mesmo. Ora, ora, que alívio – desse modo tenho a vida inteira pra ruminar minha absoluta falta de criatividade ou, então, morro logo em dez minutos como prática de covardia bem executada. O Sr. Morelli não teria a história escrita, mas poderia quiçá escrever uma sobre essa inesperada fatalidade. Não me daria crédito de autor, isso é fato. Mas, certamente, lhe ajudaria vender ao menos alguns exemplares de meu livro, que estão até hoje a ganhar poeira nas prateleiras daquela editora.
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10:33
Senso de humor! Trago ainda algum em meio a essa angustiante espera de minha degola. E uma garrafa de vodka, também. “Devias beber bourbon”, disse-me certa vez um amigo, explicando-me que era essa a “bebida dos grandes escritores”. Não considerei o caso, pois nunca parei, de fato, a tentar descobrir que bebidas embriagam os grandes escritores. Também porque não me apetece Bourbon. Não importa. Isso tampouco me dá uma história. Pois se bastasse apenas Bourbon para erguer grandes escritores, nossos clássicos da literatura seriam tão numerosos quanto às vítimas da cirrose que invadem nossos hospitais todos os dias.
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18:45
Ando de um lado a outro, da sala ao quarto, do quarto ao banheiro. Lavo as mãos obcecadamente por mania ou nervosismo, ou mesmo por superstição, não sei ao certo.
Os olhos me doem e a cabeça. É a ressaca. – Maldita ressaca! – Não tenho muito que fazer agora, senão esperar. - Chegaram! Seja o que Deus quiser!
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19:00
As onze da matina meus olhos latejavam - queriam sair pelas órbitas. Eu não tinha absolutamente nada sobre o papel. Meu tempo estava se esgotando, e eu insistia em acreditar que ainda era possível escrever qualquer coisa. Isso porque me restavam umas poucas horas (supondo que, se eu não sabia ao certo a hora em que viriam, devia dar-me o beneficio da dúvida, atribuindo a este tempo incógnito o lenitivo de “umas poucas horas”) e, ainda que eu escrevesse uma crônica barata, umas poucas páginas seriam o suficiente pra ser eu considerado um escritor indigno, um literato sem criatividade ou, simplesmente, um mero representante da mediocridade que assola nossa época de raros talentos. Mas nunca o trabalhador sem caráter que se poupa ao esforço por comodidade ou indiferença – pois, de fato, esse eu não sou. Também por isso decidi sair à praça.
***
19:01
Um tanto atordoado pelo calor da manhã, vasculhei a praça à vista de um lugar calmo, um banco vazio ou qualquer pedaço de chão que me prometesse a dádiva da inspiração instantânea. Algo como uma fonte de onde as histórias jorrassem e fosse preciso apenas embolsar uma ou outra. Na falta de uma dessas, sentei-me num banco próximo ao jardim principal, donde um grande círculo gramado continha umas quantas arvores e, à volta, um calçado de paralelepípedos oferecia o caminho sereno aos flaneurs de plantão.
Papel e caneta a mão e era isso. Apenas isso. Nada que justificasse a caneta o passeio por sobre a superfície branca. Rabisquei uns desenhos abstratos e dali em meia hora já estava me pondo a desenhar a paisagem num esforço representativo que era quase nulo, visto que se nem desenhista eu era, menos ainda dispunha da calma necessária ao pintor de paisagens que se entrega aquela visão como se ele próprio não existisse. Eu, em todo caso, existia. E era por existir mesmo que todas as minhas preocupações se faziam atuantes. Dissimulei aquele esboço paisagístico rabiscando violentamente com a caneta por cima das arvores tortas que eu desenhara na folha. Botei de lado papel e caneta e me entreguei aquele imenso vazio que eu simbolizava tão bem no texto que tinha até o momento.
Sem que eu percebesse um tipo raro havia sentado ao meu lado naquele banco desconfortável (era mesmo desconfortável, devo dizer) e se punha lendo um livro de páginas amareladas, da capa dura e caindo aos pedaços, mas que eu não pude identificar por conta das letras miúdas (também, eu devo considerar que não enxergo lá essas coisas). Um senhor alto e magro. Bastante magro, mas cuja barba avolumava-se por sob o queixo e fazia compor uma certa excentricidade condizente com os trajes, de uma elegância aristocrática embora surrados e um tanto encardidos, daquele senhor.
Percebendo que o fitava o senhor arrancou os olhos das paginas e os direcionou a mim. Esbocei um sorriso sem graça, amarelo (não como as páginas do livro, um amarelo metafórico, em todo caso, já que eu os escovava todos os dias). E o senhor voltou serenamente as suas páginas secretas como se eu nem mesmo estivesse ali. Pensei, então, no texto que o devia absorver; algo profundamente instigante - devia ser - para tomar-lhe a atenção com tanta eficácia. E tentava novamente reconhecer uma frase ou mesmo desvendar um autor ou um título, procurando por sobre o braço direito do homem alguma palavra que me revelasse aquela obra. O senhor, então, deixou escapar os olhos das páginas amareladas e, mais uma vez, direcionou-os a mim, dessa vez com uma ausente severidade como se me repreendesse a curiosidade, mas ao mesmo tempo indulgente, sem ostentar o papel de uma figura opressora. E tornou os olhos ao livro.
- Lendo?! – perguntei, sem jeito, ao senhor.
A resposta me veio sem uma palavra sequer, precisou apenas consentir com as sobrancelhas ao alto e um leve acenar da cabeça.
Eu o invejava profundamente posto que se largasse tão despreocupadamente a uma história já pronta diante de si, enquanto eu permanecia perdido atrás (ou ao lado) de uma história desconhecida, “inteiramente” incompleta e “possivelmente” inexistente. E murmurei comigo mesmo: “Sorte a sua.” Como em resposta ao aceno com o qual o senhor confirmara laconicamente a obviedade retórica e desnecessária da minha pergunta. Tinha por certo que aquelas palavras não haviam passado de puro pensamento quando o senhor evadiu-se por completo de seu livro e veio a mim com aquela pergunta um tanto jocosa:
Não sabes ler?! – Surpreendeu-me, ali, determinado humor que eu jamais atribuiria ao velho, não tivesse eu mesmo testemunhado. Respondi logo, sem a mesma sutileza do homem:
- Claro que sei! – Eu realmente não tinha a presença de espírito que naquele momento se pedia, mas meu interlocutor sobrava com a sua. Disse-me:
- Então a sorte é sua também. Aliás, sorte de todos aqueles que dispõem de olhos e sabem ler.
- Não é isso. – Ponderei ao velho. - É que me falta tempo. Se o tivesse agora sobrando, estaria, de certo, como o senhor. Debruçado a um livro, possivelmente com as páginas já amareladas como as do seu. – E ele, novamente, exibiu aquele tácito humor, de sutiliza irrepreensível:
- Ora, o velho aqui sou eu. E, ainda assim, tenho tempo para os livros e as praças e toda essa atividade humaníssima que alguns preferem chamar a ócio. Tu que és jovem, então, devias dispor de todo tempo do mundo. Isso se é mesmo que o mundo contém essa quantidade tão significativa de tempo, que valha enunciar com tanto entusiasmo.
Ri, então, com o despojamento do homem. Era mesmo uma criatura formidável. O tom doce da voz era de uma beleza inigualável. O discurso era impecável em execução e conteúdo, e trazia, na forma, o carisma de uma juventude eternizada. No conteúdo, a sabedoria de mil anos vividos. “Absolutamente perfeito”, encantei-me, imediatamente, por aquele ancião. E, ainda sorrindo, prossegui com a conversa:
- É mesmo de se duvidar. Confesso que “todo tempo do mundo” me parece também demasiado abstrato e, a mim também, não me deixa tão desejoso. Me agradaria mesmo se pudéssemos criá-lo. Não acha?! Criasse eu o tempo, como criasse o espaço em perspectiva apenas usando linhas de fuga, ora... Leria todos os livros da terra e ainda mais um pouco. Ainda hoje, me seria muito útil criar um pouco de tempo.
- Se pudesse ser criado, meu caro, aí é que não teria utilidade alguma. – Disse o velho, cheio de sua própria razão. E continuou:
- Veja só. Deus inventou os homens e estes não tem utilidade nenhuma pra ele. Poder-se-ia dizer, de outro modo, que os homens criaram deus. Mas dizem isso apenas aqueles que já não vêem utilidade nenhuma também para esse. Afinal, que utilidade teria mesmo um Deus inventado?! Meu jovem! Criasses tu o tempo, e o tempo te seria tão inútil quanto é a vida para o homem em estado vegetativo. Ficarias perdido em teu infinito particular. Não há tanta beleza nisso, se é mesmo que pensas assim.
Eu não pude contestar o argumento do velho, mas precisei ponderar visto que se tratava da condição mesma de meu ofício como escritor.
- Veja o senhor! Eu, não me posso dar ao luxo desse tipo de pensamento, já que “criar” é todo o sentido de meu trabalho e, devo dizer também, de minha vida. Sou escritor, meu caro, e considero-me escritor não só como honra de ofício. Escrever é a síndrome de minha obstinação nesse mundo. Não fosse isso – criar e recriar – eu consideraria insuportavelmente difícil viver. Como já nos últimos meses tenho considerado. Sei que muitos duvidam que sejam mesmo necessárias as ficções, mas creio nelas e em sua necessidade, porque eu mesmo as tenho como necessárias a minha vida.
- Meu jovem! – intercedeu o velho com uma voz amável e um tom de reprovação. – Não vos disse jamais que as ficções sejam desnecessárias. De modo algum eu vos diria uma coisa destas. Primeiro, porque eu falava de utilidade e, realmente, entendo que, a quem cria, a criatura perde todo valor utilitário. Pois desse mérito, não pode figurar seu valor senão por sua própria condição de objeto criado. Quero dizer, a quem cria vale todo o esforço por criar e isso só é justificativa suficiente para essa sua criatura que nasce. Mais ainda que uma qualquer possível utilidade que a ela se venha supor. E se pudésseis mesmo criar o tempo, que sentido teria para vós esse mundo tão adequado ao tempo de que ele mesmo - o próprio mundo - dispõe? Mas, como escritor que sois, bem entendo que tanto vos deis ao ofício da criação. Aliás, chego mesmo a estranhar que um homem que julga insuficiente o tempo que tem e que se diz tão apaixonado pelo trabalho de escritor, esteja perdido, aqui, nessa praça ociosa, a que se entregam apenas os que se deixam pela vida a passeio.
Com a argumentação digna de um filósofo, o senhor me arrancou daquele dialogo despropositado e me jogou de volta a vida. Aquela vida áspera e angustiante que eu trazia aos ombros, junto com a desculpa trágica de minha falta de inspiração. Lembrei-me, nesse momento que o tempo – esse monumento abstrato ao qual nos referíamos – tinha definições bem mais precisas no mundo prático em que minha desgraça se desenrolava. Vasculhei ao entorno da praça girando o pescoço, procurando um relógio a vista que me pudesse indicar a hora; precisamente, como na prática métrica em que as criaturas de Deus faziam do tempo suas próprias criaturas. E, se aquele tempo específico me era inútil, não era simplesmente por haver sido criado. O caso é que marcavam já quinze minutos para o término do horário comercial - horário que eu supunha limítrofe para entrega do meu improvável trabalho. Improvável, em todo caso, muito menos pelo tempo que escoava que pela falta total de uma idéia sobre a qual escrever.
Levei, então, o rosto às mãos e não consegui esconder o desespero contido de minha existência. Tornei novamente a cabeça ao alto e olhei para aquele sábio senhor que me fizera companhia nesses minutos finais de minha derrota. Disse-lhe:
- Estou arruinado. Não devo mais ter sequer um motivo para esta vida. – O sábio, então, manifestou-se apenas com compaixão aos olhos. Pois se eu ainda parecia sóbrio e calmo, era porque dessa maneira particular é que se manifestava o meu desespero. A fleuma do escritor era a armadura subcutânea que minha doença vestia. Mas soube o velho do que se tratava assim que olhou em meus olhos. Era mesmo uma criatura iluminada. Certamente, também criador de sua própria iluminação. E enquanto eu lamentava por não ser forte ou apto suficiente para essa vida mundana cheia de impedimentos, ele estacionava aquele rosto plácido e inalterado diante de mim e com um leve acenar de cabeça tentava me fazer compreender que se tratava de um tolo lamento.
Estarrecia-me, no entanto, essa equanimidade de alma e conduta que aquele senhor exalava. Logo ele, que, provavelmente, vivera uma vida cheia de privações; ele que (a julgar por seus trajes) soubera como nenhum outro a impiedade do mundo que me inconsolava, mas que a ele parecia perfeito como a morte parece ao coveiro.
E eu, despindo-me da calma, da fleuma e de toda razão de escritor, praguejei. E em troca dos meus pecados ofereci ao deus (que eu mesmo negava) um aceno de reprovação - um gesto obsceno, devo dizer. Mas como último verso, entreguei-lhe mesmo foram essas palavras, que saíram ao ar:
"Foda-se. Eu desisto de tudo. Não há coisa tão dificil como esta, de se viver dia após outro e nunca chegar ao fim, ter sempre o vazio como premissa. Sou já agora uma fruta seca, sem mais nada a oferecer a esse mundo. Estou farto, cansado e é isto. Deu!"
Essas palavras, d'outro modo, não chegaram ao deus imanente ao qual minhas queixas se dirigiam. Não só porque não houvesse um - e, de fato, não havia - mas porque antes disso, aquele probo homem absorveu-as sem hesitação e não deixou que passasse mais uma sequer sem a devida resposta. Sinto mesmo que tomou para si a vergonha do deus omisso, esse que não dava retorno e que a nada dava respostas. Sacudiu a cabeça, um tanto comovido com o meu lamento, mas deixou-se perder na serenidade que seu espírito velava antes de me dizer:
- Não há reprovação tão nobre quanto o silêncio e nem queixa mais orientada que a indiferença. Entendo sua maledicência, filho. Mas estás longe da desistência que anuncias. E, afinal, quão dificil pode ser viver se já está tudo dado de antemão. Pois acredite, e falo isso sem acusar-te de ingratidão, já que também não há a quem ser-te grato. O fato é que não há tarefa mais difícil que a de nascer. A todo resto compra-se o ingresso.
Sombreei seus olhos com espanto renovado. Não pude sorrir posto que estivesse por demais comprometido com aquela cena de homem traído e vítima do circunstancial. Mas dei-lhe em troca um suspiro de concórdia, não simplesmente porque concordasse, mas era também essa a minha maneira de mostrar a admiração em que lhe tinha. Era ele o filósofo, ao meu lado. Enquanto eu oferecia apenas os ouvidos (e a estupidez como contraste, é claro); ele me dava o conforto das sábias palavras, as quais dizia em frases concisas e melodiosas, mas também as que implícitas estavam.
Pois era mesmo nascer a mais difícil tarefa. E ele o anunciava como quem contesta ao nada o valor de potência e atribui a cada partícula incompreendida a capacidade do nascimento. Como se a probabilidade existisse antes mesmo do fato e o nascer de uma criatura encerrasse em si o não-nascer de milhares e incontáveis não-criaturas, veladas pelo simples acaso do não nascimento.
Não me tentava fazer sentir-me homem de sorte, visto que ele também de antemão a negasse. Eu era, pois, sob a conjectura daquele discurso, o valoroso ente que penetrara - por mérito próprio - a obscuridade do nada absoluto e atravessara ileso até alcançar a luz de uma consciência tangível. Um mérito duvidoso, confesso. Mas também nas dúvidas havia esse silencioso remir de uma existência latente. Duvidar significava estar vivo e isso aquele senhor me disse em palavras que, em verdade, nunca chegaram a sair de sua boca. Eram também elas criaturas não-existentes que justo eu – o escritor sem história – fazia-as existir, eu mesmo, a partir de uma economia secreta do discurso do velho.
O ancião, nesse momento, mostrou-se a mim transparente. Sorriu-me como quem antecipa o final ao próximo; como quem dá a vida como presente ao outro e a morte, a si próprio, como trocado. Desfez-se, então, da transparência que ainda o vestia - a que até então o acomodava sob minha vista incrédula -, e desapareceu no ar como desaparecem as sombras ao meio dia. E se ele mesmo já não existia, o fundamento de sua razão ontológica permanecia. Se veio ele, das profundezas do inexistente, comunicar-me o que eu de todo já sabia - ou devia saber - restava-me então um questionamento:
"Se eu penso nele, logo ele existe?"
Pois se eu nunca mais cheguei a considerar a morte ou a desistência como solúvel, após aquilo, foi porque estava agora preso a essa particular existência como jamais estivera. E mesmo que as tantas zilhares de não-criaturas (as que não chegaram a nascer) não me pudessem contar a angústia perene de sua ilimitada inexistência, eu poderia contá-las, a cada qual delas, as agruras da vida pungente, ainda que elas não me pudessem ouvir.
domingo, 24 de janeiro de 2010
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
O Caixeiro
- Estou dentro de uma caixa. – disse-me certa vez um porco-da-índia. Era um daqueles pequenos que se costuma chamar porquinho. - Ora essa, meu caro, tens abrigo, conforto e comida, por que reclamas da vida? - Eu lo disse como quem dá o consolo como argumento.
Depois pensei naquilo e percebi, na lembrança da expressão daquele porquinho, o quão entediante era pra ele aquela vida; o próprio tempo que se declarava naqueles hábitos pueris. E não foi preciso um grande esforço para tocar na grande questão da vida moderna-contemporânea (já que só essa eu conhecia). Vivíamos todos dentro de uma caixa. Andando de dia entre uma caixa e outra, a procura de um espaço que nunca nos era oferecido. Veja lá! Acordava sete horas da manhã e já estava dentro de uma caixa; saia desta e entrava em outra que se locomovia e me levava ao pé de mais outra caixa, na qual entrava e onde permanecia por longas horas. Ao fim do dia, aquele processo se repetia. Eu que pensava que aqueles pequenos furos feitos na caixa eram suficientes para satisfazer a necessidade de oxigênio do pequeno animal. Não eram. Do oxigênio em si, creio eu que aqueles pequenos pulmões se fartavam, mas também os meus pulmões careciam de um sem-número de experiências (fossem elas olor de rosas ou dióxido de carbono) que eu não poderia negar ao pobrezinho, pois, já àquela altura, compreendia o problema do pequeno porco, que não se resumia ao que a biologia me havia ensinado alguns anos antes. Então abri a caixa e o coloquei fora dela. Ele correu pelo chão do meu quarto de lado a outro e, finalmente cansado, parou e adormeceu. Olhei com certo carinho comedido aquele pequeno adormecido e fixei-me bem em seu rosto. Ele tinha cara de Nelson. Talvez eu devesse chamá-lo Nelson. Mas sempre tive o costume de não dar nomes - talvez para não me apegar. Aliás, eu já tinha feito muito por ele lirvando-o daquela minúscula caixa de sapatos. Naquele momento me ocorreu que qualquer que fosse a liberdade experimentada por aquele roedor, ela não duraria muito; apenas o tempo d’ele perceber que se tratava de outra caixa; uma maior, porém não menos restringente.
Eu não era o mesmo no dia seguinte. Um tédio arrogante se impunha sobre todas as minhas observações. E era justamente a única coisa que eu podia fazer ali: observar. Apesar disso, a condição de observador não me concedia nenhum tipo de licença existencial. Minha presença era de fato. Apenas podia observar porque estava ali, porque ali eu era, visto que ser e estar fossem a mesma coisa. Comprei, então, um aquário. Quando chegava em casa, assistia à reprise da minha vida condensada na solidão daqueles animais, como num reality show zoomórfico. Enquanto o porquinho-da-índia sublimava seu tédio conhecendo lugares do quarto, no qual ele agora se sentia livre - talvez por se tratarem de lugares desconhecidos até então (embora eu nunca vá compreender que espécie de liberdade é essa que se baseia em presença num espaço desconhecido)-, 5 peixes nadavam e flutuavam diante dos meus olhos, em um conjunto de hábitos e movimentos que pareciam a mais nítida interpretação de uma peça teatral fora de época, tal era o nível de inexpressividade daqueles seres. Era pior que isso: 5 peixes de cor laranja se misturavam naquela cena e eu não conseguia identificá-los individualmente. Tenho dúvidas, ainda hoje, se eles mesmos conseguiam. Imaginava a confusão mental de cada um deles tentando achar a si próprio entre os outros e o reflexo no vidro.
Em alguns momentos acreditava estar, também eu, sendo observado naquela cadeia metafísica de observadores, que observavam um ao outro, e eram todos observados por um maior. Mas estes eram só os momentos em que eu também acreditava em Deus, que eram poucos e curtos. A maior parte do tempo eu preferia negar, ter dúvidas ou apenas não pensar naquilo. Como eu, pensava que, também aqueles animais, não deviam pensar. Embora muitas vezes eu tenha criado imagens de um grande peixe laranja, criador de todos os mares e de todas as algas, ou d’um gigantesco porco-da-índia que se alimentava de florestas inteiras com a facilidade que abocanhasse pequenos galinhos de mato; e vejo agora, que está escrito, que dessa forma não poderiam ser deuses. Seriam monstros. Delírios agigantados. Mas como os monstros, também os deuses alternam suas façanhas entre criar e destruir, erguer e desmontar. Aliás, acho que somos todos assim; criaturas ou entidades, animais ou deuses, que sejam; nunca um só prédio se ergueu sem que ao menos uma pedra fosse partida.
Pobres animais. Eu os tinha - assim se diz ainda hoje dos animais a que se alimenta e se oferece abrigo. E, a menos que eles também domesticassem pequenas pulgas ou enormes micróbios que habitassem seus corpos, eles não tinham nada. Pensava naquilo e exceto, é claro, pelo fato d’eu ter que acordar todas as manhãs e ir para o trabalho, considerava-me mais sortudo que aquelas criaturas. Bobagem. O que é a sorte? A sorte é a qualidade atribuída ao sorteado, quando este recebe a dádiva da premiação de um sorteio. Mas ali não houve sorteio. Éramos simplesmente 7 criaturas diferentes; um homem, um porco da índia e 5 peixes, mesmo que entre os 5 peixes a diferença fosse menos significativa que a semelhança. Quando aquele meu momento de convívio com os animaizinhos a cada dia terminava, eu, irrefletidamente, voltava para o jogo das caixas. E, para não perder o costume, imaginava quatro mãos gigantes movimentando aquelas caixinhas, que eram minha casa, meu carro e meu escritório, enquanto poderosas vozes sem dono cantavam em uma afinação angelical: “escravos de jó, jogavam caxangá...”Eis, então, a grande coincidência que se revelará nesta história: o tal Zé Pereira trabalhava num escritório bem ao lado do meu. Embora isso seja tão irrelevante quanto desnecessário à história, aquela vizinhança não me era, particularmente, agradável. Esse é o preço que se paga por não se querer pagar preço maior em uma sala de escritório. Talvez eu preferisse caixas de fósforos, se fosse possível conter-me nelas. Mal me continha - com muito esforço - naquela minúscula sala. O que eu podia fazer? Como me livrar daquela prisão tridimensional que eram as caixas? Não bastaria sair de uma pequena para uma maior como acontecera ao ingênuo porco-da-índia.
Eu era a figura domesticada de mim mesmo, dentro do espaço que ninguém criou, embora seja mais fácil atribuir autoria às caixas. Por muitas vezes, cheguei mesmo a acreditar que aquelas caixas eram produto de um desenvolvimento natural do espaço, como eram as cavernas e os oceanos. Mas logo que batia de frente com alguma parede, cuja absoluta arbitrariedade da existência a escondia de meus olhos ingênuos, percebia que se tratava de um instrumento de opressão. Um instrumento de opressão controlado, visto que as portas forneciam passagem e as janelas alguma ilusão de liberdade, pelo menos à vista.
Cheguei em casa mais um dia e, como todos os dias, observava aqueles pequenos quase com a imparcialidade de um Deus. A forma como aqueles peixes estavam imersos numa caixa com água fez-me pensar que, também os humanos, se fossem vistos de fora, por extraterrestres, pareceriam estar imersos em alguma coisa. Respeitando, é claro, a diferença de densidade entre o ar e água, estávamos em situações muito parecidas. Assim também as paredes da caixa deles, como muitas vezes as das nossas, eram invisíveis ao pé de sua ignorância batizada.
Eu os alimentava diversas vezes. Queria ver a expressão de prazer do animal que sacia a sua fome. Era inútil. Eles não tinham expressão. Comiam o vigésimo quinto grão da ração exatamente da mesma forma que comiam o primeiro, e o quadragésimo. Minha mãe costumava dizer, quando eu era pequeno, que se você não parasse de alimentá-los eles comeriam até morrer. Eu ignorava a profecia e do alto de uma visão deveras displicente, pensava: Talvez o significado da vida de um peixe estivesse na quantidade de comida que ele ingerisse; eles estariam, assim, sempre buscando atingir o tal ponto; o nirvana; a chamada overdose. Quando o destino se completava, eles emergiam desfalecidos e seus corpos boiando com a barriga estufada eram a prova cabal da completude de sua existência enquanto peixes. Era uma teoria pouco crítica e um tanto romântica, mas eles não pareciam se incomodar com as enormes quantidades de comida que eu jogava dentro daquele aquário todos os dias. Aos poucos, um a um, aqueles foram morrendo. Ao final da terceira semana restavam apenas dois. E na semana seguinte foi-se o penúltimo. Não tinha importância, aquele último peixinho representava todos os outros. E de fato, eu sempre pensei neles como uma unidade. Como é a colméia: um grande organismo ao redor do qual orbitam todas aquelas partes sem individualidade que são as abelhas.
Na semana seguinte, eu já não me contentava mais com apenas aqueles dois: o peixe e o porco. Comprei uma pequena tartaruga, que o vendedor da loja me vendeu sob a alcunha de jabuti, explicando-me que tartaruga era nome usado de maneira mais correta para aquelas marinhas, enquanto estes eram répteis terrestres. Eu aceitei de pronto, mas ainda assim prefiro chamar “tartaruga” a esses pacientes jabutis. Vim depois saber que cágado era, também, nome dado àquela espécie. Talvez o fato d’aqueles animais possuírem tantas nomeações fosse a razão pela qual eu não dava nome aos meus. Eu preferia que a existência daqueles bichos fosse a mais discreta possível. Pois, não à toa, os animais que eu conhecia que tinham nomes próprios, eram demasiadamente arrogantes, como o era o próprio Zé Pereira, que fazia questão de levantar a cabeça e desviar o olhar toda vez que cruzava comigo no corredor do edifício onde ficavam nossos escritórios.
Fiquei muito decepcionado ao entender que tipo de criatura era aquela tartaruga. Passaram-se aproximadamente duas horas até a primeira mudança de posição daquele jabuti desde que eu o havia colocado no chão de meu quarto. Como os peixes (que agora era apenas um) ela não tinha qualquer expressão. Mas o seu espetáculo era ainda mais monótono. Talvez porque a sua caixa fosse ainda mais restrita. Ao primeiro contato físico que tive com a tartaruga, ela se retraiu inteira para dentro do casco. E apesar da forma irregular deste, aquilo não era senão uma caixa. Mas uma caixa sobre a qual eu não tinha o controle. O jabuti, em muitos aspectos, parecia ser dono de sua própria caixa. E aquilo poderia ser um testemunho de liberdade (do animal que podia se esconder da minha observação predatória em qualquer tempo), a não ser pelo fato d’ele estar preso àquela caixa desde o seu nascimento até sua morte. Verdade essa, muito comum aos apreciadores da sopa de tartaruga, que é servida nos restaurantes mais refinados dentro do próprio casco da dita cuja. Aquele tipo de caixa era, dentro de cada contexto, berço, abrigo, prisão, caixão e prato. Embora eu imaginasse ser muito confortável ali dentro.
Acho que não preciso mencionar que o meu quarto, àquela altura, não cheirava tão bem. Éramos quatro animais e três caixas, já que o porco-da-índia dividia o espaço comigo, agora, sem paredes entre nossos corpos. O cheiro das outras 2 se espalhava sem acanhamento pela grande caixa que era o meu quarto. Mas entendia que esse era o preço a se pagar pelo grande circo selvagem que se tornara meu espaço doméstico. Como eu também percebia que aquela minha obsessão pela domesticação estava em vias de se revelar patológica; e não iria parar por ali. Não tardou nem uma semana e lá estava eu, entrando naquele quarto com uma gaiola e dois periquitos. Era um casal deles. Aqueles animais eram vendidos apenas em casais; pelo menos assim me disseram na loja onde os comprei. Talvez fosse uma compensação pela liberdade que lhes fora tomada. Afinal, estas aves, na natureza, com o alcance e o despojo que permite o vôo, eram animais de largas áreas; áreas percorridas por elas de norte a sul, a procura de alimento e descanso. Ora, alimento elas tinham aqui, todos os dias, na mesma bat hora. Já a liberdade, o vendedor (e, porque não dizer, eu também?) pensou que pudesse substituir pela companhia do sexo oposto. Como acontece perceptivelmente com nós humanos, que, não raras vezes, trocamos certa liberdade da vida solitária pela clausura do matrimônio constituído. Mas, e devo considerar, se aquele pássaro pudesse escolher, tenho cá minhas dúvidas se ele não preteriria a vida estável do casamento engaiolado por obrigação, à livre concorrência da vida selvagem. Talvez tenha sido essa escolha entre os homens que tenha anunciado uma suposta vitória do capitalismo no pós-Guerra Fria, quando o fracasso da experiência soviética pareceu sufocar a convicção idealista de muitos dos socialistas mais otimistas. Embora seja uma analogia muito sem medida, onde eu me incorra do risco de desagradar, por um lado, a todos os outros socialistas. Mesmo afirmando em seqüência que a minha escolha pessoal seria aquela do periquito que prefere o cativeiro como certeza à incerta e relativa liberdade do capital e do homem descomprometido, e, nesse caso, eu estaria escolhendo como inimigos os defensores dos direitos dos animais, já que, para eles, nenhuma justificativa para manter um pobre animal em cativeiro seria tolerável. Estes, entretanto, já devem ter interrompido essa leitura na parte em que eu explicava a situação da morte de meus queridos peixinhos. Que assim seja! Não me arrependo. Aqueles passarinhos cantaram para mim como nenhum outro animal naquele quarto. Em troca, eu os deixei experimentar a espaçosa clausura do meu quarto, a minha caixa. Com as janelas devidamente fechadas, vi aqueles animaizinhos alçarem curtos vôos, rodeando todo aquele grande-pequeno espaço entre aquelas paredes que, como a epiderme de um corpo-cápsula, eram o lado de fora do dentro e o lado de dentro do fora. Recuei logo depois, achando melhor levá-los de volta à gaiola, quando, depois de um descuido no pouso, o pequeno porco-da-índia ameaçou uma mortal investida sobre um dos pequeninos pássaros. O porco-da-índia talvez quisesse dizer que aquele chão era agora o seu território, já que a tartaruga se mantinha acuada em um canto dentro de seu próprio casco e eu, o verdadeiro dono daquele território, não tinha como fazer aquele roedor entender tal hierarquia, pelo menos não com palavras. Embora, com palavras, aquele mesmo porco tenha iniciado toda essa narrativa. Pois mesmo que aquele porco me entendesse em argumento, ele jamais aceitaria o parâmetro na ausência do uso da força bruta. E, ora lá, era um pequeno animal inofensivo, não havia necessidade para tanto. Deixei assim aquele indiano orgulhoso, pregado sobre a altivez em suas quatro patas, achando que era, de fato, o dono do pedaço, que com pedaços eu alimentava todos os dias.
Eram belíssimos animais aqueles periquitos. Diferentemente da rusticidade que marcava o porco-da-índia e a tartaruga, e da indiferença determinante que melhor representava o peixe, esses dois eram, além de belos, deliciosamente exuberantes. Exibiam-se simplesmente. Era a condição de sua existência particular. As asas coloridas se redimiam de sua inutilidade naquela cela. Um deles era azul e branco, com pequenas manchas negras ao longo do corpo. O outro era amarelo e verde, e ligeiramente maior que o primeiro. Eu não sabia distinguir entre macho e fêmea, e cheguei a me questionar se o vendedor não me teria vendido, por falta da heterogenia na disponibilidade, dois machos ou duas fêmeas. Mas logo larguei de mão o questionamento. Não faria, mesmo, diferença alguma pra mim. Por alguns dias, cheguei a esquecer que existiam outros animais naquele recinto, embora o cheiro das fezes não me deixasse esquecer por completo. Eles se mexiam com graça e me encantaram por quatro ou cinco noites. Mas toda aquela pompa, postura, soberania, foi-se revelando como excessiva arrogância. Talvez aqueles pássaros se achassem melhores que os outros animais. Talvez eu achasse que eles achavam isso. O fato é que em algum momento senti na expressão daqueles animais essa declarada e excessiva arrogância. Logo enjoei deles; como antes dos outros. Não que eu não nutrisse nenhuma espécie de carinho por todos, mas não superestimava aquelas presenças, como fossem eles parte de alguma verdade que me pudesse preencher, ou um sentido maior para aquele conjunto de formas sem propósito que era a minha vida. Não era isso. Mas, no final das contas, eram apenas animais que eu domesticava...
Aquilo não estava certo. Aquele uso de meu espaço privado não estava a me libertar de forma alguma. Ao contrário, eu estava cada vez mais preso a cada uma daquelas caixas; a gaiola, o aquário... O dicionário dizia dela - a caixa - entre outras coisas: “Qualquer objeto ou peça que resguarda ou contém outra.” Falava também de uma espécie de papagaio feito de papel, mas no largo daquelas muitas definições que dava, em maior parte referia-se a procedimentos financeiros; referenciava em quantidade a importância que nessa vida se dá ao dinheiro. Ora essa, eu já devia saber que é mesmo o dinheiro a linguagem das caixas. Compram-se e vendem-se, pessoas ou caixas. As segundas dão conta da guarda dos dois (dinheiro e pessoas), as primeiras são responsáveis pela manipulação funcional dessas caixas; abrir, fechar, mover, manter buracos na lateral para evitar o sufocamento... Já, aos papagaios de papel, não se necessitava o engaiolamento. Talvez fosse uma forma de liberdade, o papel. As palavras pareciam contidas ali, naquele dicionário, naquele papel. Mas não estavam. Não se podia dizer daquilo exatamente uma caixa. Logicamente, a sua condição física de palavra ficava restrita àquela tinta impressa, mas a palavra existia independentemente daquela impressão. Por outro lado, a caixa daquelas palavras éramos nós, os homens. Elas diziam todas de nós; de nossos feitos; de nossos conhecimentos; de nossa estupidez. Ainda com o dicionário à mão descobri que “canxangá” era nome dado a uma espécie de crustáceo, vulgarmente conhecido como siri. - Piada! – logo pensei. A vulgaridade ali, pra mim, residia naquele tipo de linguagem que dava a um animal tão ordinário uma distinção tão formal. Logo percebi a espécie de recalque que aquele livro submetia às palavras. Não era o papel em si, mas a institucionalização daquele livro fazia dele não menos que uma pequena caixa de palavras. Eu, então, me corrigi. Era o dicionário, também uma caixa. Estava decidido. Todos, ali, presos a uma classificação. Éramos animais, palavras ou caixas. Estávamos todos ligados de forma a dificultar o reconhecimento de qual desses éramos. Animais, palavras ou caixas são todos palavras, ditas ou escritas por animais, presos como as próprias palavras em caixas, feitas por animais - palavra.
Tudo isso depois se mostrou quase como profecia. Aqueles animaizinhos morreram todos, cada um ao seu tempo. As suas caixas ficaram esquecidas dentro de outras caixas. Das palavras que restaram, falam deles apenas com uma suave nostalgia, que não se chega a fundar em saudade. As grandes caixas permanecem contendo pequenas pessoas, e mesmo as que se acham grandes. Como o Zé Pereira, que não é grande, e muito menos “grande pessoa”. Mas apesar das minhas convicções, de não dar nomes aos meus animais, tenho ainda hoje uma pequena ressalva. Penso com certo arrependimento, se eu não teria devido chamar aquele pequeno porquinho-da-índia de Nelson. Ele tinha uma cara de Nelson...
Depois pensei naquilo e percebi, na lembrança da expressão daquele porquinho, o quão entediante era pra ele aquela vida; o próprio tempo que se declarava naqueles hábitos pueris. E não foi preciso um grande esforço para tocar na grande questão da vida moderna-contemporânea (já que só essa eu conhecia). Vivíamos todos dentro de uma caixa. Andando de dia entre uma caixa e outra, a procura de um espaço que nunca nos era oferecido. Veja lá! Acordava sete horas da manhã e já estava dentro de uma caixa; saia desta e entrava em outra que se locomovia e me levava ao pé de mais outra caixa, na qual entrava e onde permanecia por longas horas. Ao fim do dia, aquele processo se repetia. Eu que pensava que aqueles pequenos furos feitos na caixa eram suficientes para satisfazer a necessidade de oxigênio do pequeno animal. Não eram. Do oxigênio em si, creio eu que aqueles pequenos pulmões se fartavam, mas também os meus pulmões careciam de um sem-número de experiências (fossem elas olor de rosas ou dióxido de carbono) que eu não poderia negar ao pobrezinho, pois, já àquela altura, compreendia o problema do pequeno porco, que não se resumia ao que a biologia me havia ensinado alguns anos antes. Então abri a caixa e o coloquei fora dela. Ele correu pelo chão do meu quarto de lado a outro e, finalmente cansado, parou e adormeceu. Olhei com certo carinho comedido aquele pequeno adormecido e fixei-me bem em seu rosto. Ele tinha cara de Nelson. Talvez eu devesse chamá-lo Nelson. Mas sempre tive o costume de não dar nomes - talvez para não me apegar. Aliás, eu já tinha feito muito por ele lirvando-o daquela minúscula caixa de sapatos. Naquele momento me ocorreu que qualquer que fosse a liberdade experimentada por aquele roedor, ela não duraria muito; apenas o tempo d’ele perceber que se tratava de outra caixa; uma maior, porém não menos restringente.
Eu não era o mesmo no dia seguinte. Um tédio arrogante se impunha sobre todas as minhas observações. E era justamente a única coisa que eu podia fazer ali: observar. Apesar disso, a condição de observador não me concedia nenhum tipo de licença existencial. Minha presença era de fato. Apenas podia observar porque estava ali, porque ali eu era, visto que ser e estar fossem a mesma coisa. Comprei, então, um aquário. Quando chegava em casa, assistia à reprise da minha vida condensada na solidão daqueles animais, como num reality show zoomórfico. Enquanto o porquinho-da-índia sublimava seu tédio conhecendo lugares do quarto, no qual ele agora se sentia livre - talvez por se tratarem de lugares desconhecidos até então (embora eu nunca vá compreender que espécie de liberdade é essa que se baseia em presença num espaço desconhecido)-, 5 peixes nadavam e flutuavam diante dos meus olhos, em um conjunto de hábitos e movimentos que pareciam a mais nítida interpretação de uma peça teatral fora de época, tal era o nível de inexpressividade daqueles seres. Era pior que isso: 5 peixes de cor laranja se misturavam naquela cena e eu não conseguia identificá-los individualmente. Tenho dúvidas, ainda hoje, se eles mesmos conseguiam. Imaginava a confusão mental de cada um deles tentando achar a si próprio entre os outros e o reflexo no vidro.
Em alguns momentos acreditava estar, também eu, sendo observado naquela cadeia metafísica de observadores, que observavam um ao outro, e eram todos observados por um maior. Mas estes eram só os momentos em que eu também acreditava em Deus, que eram poucos e curtos. A maior parte do tempo eu preferia negar, ter dúvidas ou apenas não pensar naquilo. Como eu, pensava que, também aqueles animais, não deviam pensar. Embora muitas vezes eu tenha criado imagens de um grande peixe laranja, criador de todos os mares e de todas as algas, ou d’um gigantesco porco-da-índia que se alimentava de florestas inteiras com a facilidade que abocanhasse pequenos galinhos de mato; e vejo agora, que está escrito, que dessa forma não poderiam ser deuses. Seriam monstros. Delírios agigantados. Mas como os monstros, também os deuses alternam suas façanhas entre criar e destruir, erguer e desmontar. Aliás, acho que somos todos assim; criaturas ou entidades, animais ou deuses, que sejam; nunca um só prédio se ergueu sem que ao menos uma pedra fosse partida.
Pobres animais. Eu os tinha - assim se diz ainda hoje dos animais a que se alimenta e se oferece abrigo. E, a menos que eles também domesticassem pequenas pulgas ou enormes micróbios que habitassem seus corpos, eles não tinham nada. Pensava naquilo e exceto, é claro, pelo fato d’eu ter que acordar todas as manhãs e ir para o trabalho, considerava-me mais sortudo que aquelas criaturas. Bobagem. O que é a sorte? A sorte é a qualidade atribuída ao sorteado, quando este recebe a dádiva da premiação de um sorteio. Mas ali não houve sorteio. Éramos simplesmente 7 criaturas diferentes; um homem, um porco da índia e 5 peixes, mesmo que entre os 5 peixes a diferença fosse menos significativa que a semelhança. Quando aquele meu momento de convívio com os animaizinhos a cada dia terminava, eu, irrefletidamente, voltava para o jogo das caixas. E, para não perder o costume, imaginava quatro mãos gigantes movimentando aquelas caixinhas, que eram minha casa, meu carro e meu escritório, enquanto poderosas vozes sem dono cantavam em uma afinação angelical: “escravos de jó, jogavam caxangá...”Eis, então, a grande coincidência que se revelará nesta história: o tal Zé Pereira trabalhava num escritório bem ao lado do meu. Embora isso seja tão irrelevante quanto desnecessário à história, aquela vizinhança não me era, particularmente, agradável. Esse é o preço que se paga por não se querer pagar preço maior em uma sala de escritório. Talvez eu preferisse caixas de fósforos, se fosse possível conter-me nelas. Mal me continha - com muito esforço - naquela minúscula sala. O que eu podia fazer? Como me livrar daquela prisão tridimensional que eram as caixas? Não bastaria sair de uma pequena para uma maior como acontecera ao ingênuo porco-da-índia.
Eu era a figura domesticada de mim mesmo, dentro do espaço que ninguém criou, embora seja mais fácil atribuir autoria às caixas. Por muitas vezes, cheguei mesmo a acreditar que aquelas caixas eram produto de um desenvolvimento natural do espaço, como eram as cavernas e os oceanos. Mas logo que batia de frente com alguma parede, cuja absoluta arbitrariedade da existência a escondia de meus olhos ingênuos, percebia que se tratava de um instrumento de opressão. Um instrumento de opressão controlado, visto que as portas forneciam passagem e as janelas alguma ilusão de liberdade, pelo menos à vista.
Cheguei em casa mais um dia e, como todos os dias, observava aqueles pequenos quase com a imparcialidade de um Deus. A forma como aqueles peixes estavam imersos numa caixa com água fez-me pensar que, também os humanos, se fossem vistos de fora, por extraterrestres, pareceriam estar imersos em alguma coisa. Respeitando, é claro, a diferença de densidade entre o ar e água, estávamos em situações muito parecidas. Assim também as paredes da caixa deles, como muitas vezes as das nossas, eram invisíveis ao pé de sua ignorância batizada.
Eu os alimentava diversas vezes. Queria ver a expressão de prazer do animal que sacia a sua fome. Era inútil. Eles não tinham expressão. Comiam o vigésimo quinto grão da ração exatamente da mesma forma que comiam o primeiro, e o quadragésimo. Minha mãe costumava dizer, quando eu era pequeno, que se você não parasse de alimentá-los eles comeriam até morrer. Eu ignorava a profecia e do alto de uma visão deveras displicente, pensava: Talvez o significado da vida de um peixe estivesse na quantidade de comida que ele ingerisse; eles estariam, assim, sempre buscando atingir o tal ponto; o nirvana; a chamada overdose. Quando o destino se completava, eles emergiam desfalecidos e seus corpos boiando com a barriga estufada eram a prova cabal da completude de sua existência enquanto peixes. Era uma teoria pouco crítica e um tanto romântica, mas eles não pareciam se incomodar com as enormes quantidades de comida que eu jogava dentro daquele aquário todos os dias. Aos poucos, um a um, aqueles foram morrendo. Ao final da terceira semana restavam apenas dois. E na semana seguinte foi-se o penúltimo. Não tinha importância, aquele último peixinho representava todos os outros. E de fato, eu sempre pensei neles como uma unidade. Como é a colméia: um grande organismo ao redor do qual orbitam todas aquelas partes sem individualidade que são as abelhas.
Na semana seguinte, eu já não me contentava mais com apenas aqueles dois: o peixe e o porco. Comprei uma pequena tartaruga, que o vendedor da loja me vendeu sob a alcunha de jabuti, explicando-me que tartaruga era nome usado de maneira mais correta para aquelas marinhas, enquanto estes eram répteis terrestres. Eu aceitei de pronto, mas ainda assim prefiro chamar “tartaruga” a esses pacientes jabutis. Vim depois saber que cágado era, também, nome dado àquela espécie. Talvez o fato d’aqueles animais possuírem tantas nomeações fosse a razão pela qual eu não dava nome aos meus. Eu preferia que a existência daqueles bichos fosse a mais discreta possível. Pois, não à toa, os animais que eu conhecia que tinham nomes próprios, eram demasiadamente arrogantes, como o era o próprio Zé Pereira, que fazia questão de levantar a cabeça e desviar o olhar toda vez que cruzava comigo no corredor do edifício onde ficavam nossos escritórios.
Fiquei muito decepcionado ao entender que tipo de criatura era aquela tartaruga. Passaram-se aproximadamente duas horas até a primeira mudança de posição daquele jabuti desde que eu o havia colocado no chão de meu quarto. Como os peixes (que agora era apenas um) ela não tinha qualquer expressão. Mas o seu espetáculo era ainda mais monótono. Talvez porque a sua caixa fosse ainda mais restrita. Ao primeiro contato físico que tive com a tartaruga, ela se retraiu inteira para dentro do casco. E apesar da forma irregular deste, aquilo não era senão uma caixa. Mas uma caixa sobre a qual eu não tinha o controle. O jabuti, em muitos aspectos, parecia ser dono de sua própria caixa. E aquilo poderia ser um testemunho de liberdade (do animal que podia se esconder da minha observação predatória em qualquer tempo), a não ser pelo fato d’ele estar preso àquela caixa desde o seu nascimento até sua morte. Verdade essa, muito comum aos apreciadores da sopa de tartaruga, que é servida nos restaurantes mais refinados dentro do próprio casco da dita cuja. Aquele tipo de caixa era, dentro de cada contexto, berço, abrigo, prisão, caixão e prato. Embora eu imaginasse ser muito confortável ali dentro.
Acho que não preciso mencionar que o meu quarto, àquela altura, não cheirava tão bem. Éramos quatro animais e três caixas, já que o porco-da-índia dividia o espaço comigo, agora, sem paredes entre nossos corpos. O cheiro das outras 2 se espalhava sem acanhamento pela grande caixa que era o meu quarto. Mas entendia que esse era o preço a se pagar pelo grande circo selvagem que se tornara meu espaço doméstico. Como eu também percebia que aquela minha obsessão pela domesticação estava em vias de se revelar patológica; e não iria parar por ali. Não tardou nem uma semana e lá estava eu, entrando naquele quarto com uma gaiola e dois periquitos. Era um casal deles. Aqueles animais eram vendidos apenas em casais; pelo menos assim me disseram na loja onde os comprei. Talvez fosse uma compensação pela liberdade que lhes fora tomada. Afinal, estas aves, na natureza, com o alcance e o despojo que permite o vôo, eram animais de largas áreas; áreas percorridas por elas de norte a sul, a procura de alimento e descanso. Ora, alimento elas tinham aqui, todos os dias, na mesma bat hora. Já a liberdade, o vendedor (e, porque não dizer, eu também?) pensou que pudesse substituir pela companhia do sexo oposto. Como acontece perceptivelmente com nós humanos, que, não raras vezes, trocamos certa liberdade da vida solitária pela clausura do matrimônio constituído. Mas, e devo considerar, se aquele pássaro pudesse escolher, tenho cá minhas dúvidas se ele não preteriria a vida estável do casamento engaiolado por obrigação, à livre concorrência da vida selvagem. Talvez tenha sido essa escolha entre os homens que tenha anunciado uma suposta vitória do capitalismo no pós-Guerra Fria, quando o fracasso da experiência soviética pareceu sufocar a convicção idealista de muitos dos socialistas mais otimistas. Embora seja uma analogia muito sem medida, onde eu me incorra do risco de desagradar, por um lado, a todos os outros socialistas. Mesmo afirmando em seqüência que a minha escolha pessoal seria aquela do periquito que prefere o cativeiro como certeza à incerta e relativa liberdade do capital e do homem descomprometido, e, nesse caso, eu estaria escolhendo como inimigos os defensores dos direitos dos animais, já que, para eles, nenhuma justificativa para manter um pobre animal em cativeiro seria tolerável. Estes, entretanto, já devem ter interrompido essa leitura na parte em que eu explicava a situação da morte de meus queridos peixinhos. Que assim seja! Não me arrependo. Aqueles passarinhos cantaram para mim como nenhum outro animal naquele quarto. Em troca, eu os deixei experimentar a espaçosa clausura do meu quarto, a minha caixa. Com as janelas devidamente fechadas, vi aqueles animaizinhos alçarem curtos vôos, rodeando todo aquele grande-pequeno espaço entre aquelas paredes que, como a epiderme de um corpo-cápsula, eram o lado de fora do dentro e o lado de dentro do fora. Recuei logo depois, achando melhor levá-los de volta à gaiola, quando, depois de um descuido no pouso, o pequeno porco-da-índia ameaçou uma mortal investida sobre um dos pequeninos pássaros. O porco-da-índia talvez quisesse dizer que aquele chão era agora o seu território, já que a tartaruga se mantinha acuada em um canto dentro de seu próprio casco e eu, o verdadeiro dono daquele território, não tinha como fazer aquele roedor entender tal hierarquia, pelo menos não com palavras. Embora, com palavras, aquele mesmo porco tenha iniciado toda essa narrativa. Pois mesmo que aquele porco me entendesse em argumento, ele jamais aceitaria o parâmetro na ausência do uso da força bruta. E, ora lá, era um pequeno animal inofensivo, não havia necessidade para tanto. Deixei assim aquele indiano orgulhoso, pregado sobre a altivez em suas quatro patas, achando que era, de fato, o dono do pedaço, que com pedaços eu alimentava todos os dias.
Eram belíssimos animais aqueles periquitos. Diferentemente da rusticidade que marcava o porco-da-índia e a tartaruga, e da indiferença determinante que melhor representava o peixe, esses dois eram, além de belos, deliciosamente exuberantes. Exibiam-se simplesmente. Era a condição de sua existência particular. As asas coloridas se redimiam de sua inutilidade naquela cela. Um deles era azul e branco, com pequenas manchas negras ao longo do corpo. O outro era amarelo e verde, e ligeiramente maior que o primeiro. Eu não sabia distinguir entre macho e fêmea, e cheguei a me questionar se o vendedor não me teria vendido, por falta da heterogenia na disponibilidade, dois machos ou duas fêmeas. Mas logo larguei de mão o questionamento. Não faria, mesmo, diferença alguma pra mim. Por alguns dias, cheguei a esquecer que existiam outros animais naquele recinto, embora o cheiro das fezes não me deixasse esquecer por completo. Eles se mexiam com graça e me encantaram por quatro ou cinco noites. Mas toda aquela pompa, postura, soberania, foi-se revelando como excessiva arrogância. Talvez aqueles pássaros se achassem melhores que os outros animais. Talvez eu achasse que eles achavam isso. O fato é que em algum momento senti na expressão daqueles animais essa declarada e excessiva arrogância. Logo enjoei deles; como antes dos outros. Não que eu não nutrisse nenhuma espécie de carinho por todos, mas não superestimava aquelas presenças, como fossem eles parte de alguma verdade que me pudesse preencher, ou um sentido maior para aquele conjunto de formas sem propósito que era a minha vida. Não era isso. Mas, no final das contas, eram apenas animais que eu domesticava...
Aquilo não estava certo. Aquele uso de meu espaço privado não estava a me libertar de forma alguma. Ao contrário, eu estava cada vez mais preso a cada uma daquelas caixas; a gaiola, o aquário... O dicionário dizia dela - a caixa - entre outras coisas: “Qualquer objeto ou peça que resguarda ou contém outra.” Falava também de uma espécie de papagaio feito de papel, mas no largo daquelas muitas definições que dava, em maior parte referia-se a procedimentos financeiros; referenciava em quantidade a importância que nessa vida se dá ao dinheiro. Ora essa, eu já devia saber que é mesmo o dinheiro a linguagem das caixas. Compram-se e vendem-se, pessoas ou caixas. As segundas dão conta da guarda dos dois (dinheiro e pessoas), as primeiras são responsáveis pela manipulação funcional dessas caixas; abrir, fechar, mover, manter buracos na lateral para evitar o sufocamento... Já, aos papagaios de papel, não se necessitava o engaiolamento. Talvez fosse uma forma de liberdade, o papel. As palavras pareciam contidas ali, naquele dicionário, naquele papel. Mas não estavam. Não se podia dizer daquilo exatamente uma caixa. Logicamente, a sua condição física de palavra ficava restrita àquela tinta impressa, mas a palavra existia independentemente daquela impressão. Por outro lado, a caixa daquelas palavras éramos nós, os homens. Elas diziam todas de nós; de nossos feitos; de nossos conhecimentos; de nossa estupidez. Ainda com o dicionário à mão descobri que “canxangá” era nome dado a uma espécie de crustáceo, vulgarmente conhecido como siri. - Piada! – logo pensei. A vulgaridade ali, pra mim, residia naquele tipo de linguagem que dava a um animal tão ordinário uma distinção tão formal. Logo percebi a espécie de recalque que aquele livro submetia às palavras. Não era o papel em si, mas a institucionalização daquele livro fazia dele não menos que uma pequena caixa de palavras. Eu, então, me corrigi. Era o dicionário, também uma caixa. Estava decidido. Todos, ali, presos a uma classificação. Éramos animais, palavras ou caixas. Estávamos todos ligados de forma a dificultar o reconhecimento de qual desses éramos. Animais, palavras ou caixas são todos palavras, ditas ou escritas por animais, presos como as próprias palavras em caixas, feitas por animais - palavra.
Tudo isso depois se mostrou quase como profecia. Aqueles animaizinhos morreram todos, cada um ao seu tempo. As suas caixas ficaram esquecidas dentro de outras caixas. Das palavras que restaram, falam deles apenas com uma suave nostalgia, que não se chega a fundar em saudade. As grandes caixas permanecem contendo pequenas pessoas, e mesmo as que se acham grandes. Como o Zé Pereira, que não é grande, e muito menos “grande pessoa”. Mas apesar das minhas convicções, de não dar nomes aos meus animais, tenho ainda hoje uma pequena ressalva. Penso com certo arrependimento, se eu não teria devido chamar aquele pequeno porquinho-da-índia de Nelson. Ele tinha uma cara de Nelson...
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Pra que ser perfeito?
A Pergunta parece uma piada, mas eu levo a sério.
Eu quero ser Perfeito.
(Pausa para bebida. O que beber? Qual a bebida tem esse nivel de existencialismo?
Uísque.
Será que eu tenho copo de Uísque em casa? não. o mais próximo é uma xícara. Tem uma barata morta dentro.)
O que é a perfeição?
Besteira essa discussão. Eu sei que não vou ser pefeito. Mas eu quero ser perfeito.
Por onde começar?
(Duas pedras de gelo e uma balançada. um gole longo e seco seguido de uma longa exalada de ar)
Justo. A primeira direção é da justiça.
Independente de ser bom ou ruim, ser justo é o primeiro passo.
O justo não precisa ser bom, mas não pode ser ruim.
O que leva a segunda direção:
(O gole é mais longo. o ar é exalado em menor volume)
- Bondade.
Se você não sabe o que é mal e o que é bom, tudo bem.
Honestidade, você pode até questionar o que é, mas acho que é simplesmente não enganar ninguém propositalmente.
Quem não sabe o que é honestidade, sabe o que é enganação.
Sou justo, sou bom, sou honesto.
E trabalhador.
Cumpridor dos horários e das responsabilidades relacionados á minha fonte primordial de renda.
Raramente fico o doente, pelo menos não o doente o bastante para não trabalhar.
As vezes falho, mas nunca fujo.
Sou leal.
Faço questão de corresponder as expectativas por mim prometidas. Ou pelo menos procura-las ardentemente.
Talves existam perfeições melhores que as minhas. Com certeza tem gente mais perfeita do que eu.
Mas pra que tudo isso?
Da mesma forma me tratam como merda.
Posso até ser perfeito, mas sou um merda.
(Mas uma xícara. "E a barata?". barata?)
Eu nunca tive a preferência pra nada. Eu sou aquele que não atraplha nem ajuda. O perfeito. O merda.
Esse Uísque me deu vontade cagar.
Eu quero ser Perfeito.
(Pausa para bebida. O que beber? Qual a bebida tem esse nivel de existencialismo?
Uísque.
Será que eu tenho copo de Uísque em casa? não. o mais próximo é uma xícara. Tem uma barata morta dentro.)
O que é a perfeição?
Besteira essa discussão. Eu sei que não vou ser pefeito. Mas eu quero ser perfeito.
Por onde começar?
(Duas pedras de gelo e uma balançada. um gole longo e seco seguido de uma longa exalada de ar)
Justo. A primeira direção é da justiça.
Independente de ser bom ou ruim, ser justo é o primeiro passo.
O justo não precisa ser bom, mas não pode ser ruim.
O que leva a segunda direção:
(O gole é mais longo. o ar é exalado em menor volume)
- Bondade.
Se você não sabe o que é mal e o que é bom, tudo bem.
Honestidade, você pode até questionar o que é, mas acho que é simplesmente não enganar ninguém propositalmente.
Quem não sabe o que é honestidade, sabe o que é enganação.
Sou justo, sou bom, sou honesto.
E trabalhador.
Cumpridor dos horários e das responsabilidades relacionados á minha fonte primordial de renda.
Raramente fico o doente, pelo menos não o doente o bastante para não trabalhar.
As vezes falho, mas nunca fujo.
Sou leal.
Faço questão de corresponder as expectativas por mim prometidas. Ou pelo menos procura-las ardentemente.
Talves existam perfeições melhores que as minhas. Com certeza tem gente mais perfeita do que eu.
Mas pra que tudo isso?
Da mesma forma me tratam como merda.
Posso até ser perfeito, mas sou um merda.
(Mas uma xícara. "E a barata?". barata?)
Eu nunca tive a preferência pra nada. Eu sou aquele que não atraplha nem ajuda. O perfeito. O merda.
Esse Uísque me deu vontade cagar.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
...que tudo que a antena captá, meu coração captura...
Semana passada, pus meu televisor no conserto. Isso porque sou dessas criaturas antiquadas que ainda crêem no conserto de certas coisas, embora minha crença não se estenda para muito além dos aparelhos eletrônicos. De qualquer modo, compreendo perfeitamente o protesto que sempre me chega aos ouvidos nessas horas, de que sai “muito mais em conta” comprar logo uma nova. Mas penso isto: - que diabos de ser humano eu seria se não desse à velha tevê uma segunda chance?
Quando cheguei à loja, percebi logo que a clientela do lugar, se sua idade fôsse posta em média, cercaria a casa dos 65 – isso contando com o descenso significativo dos meus quarenta e poucos já contabilizados na média. E porque, então, deveria ser diferente? As novas gerações sempre tão acostumadas aos descartáveis, jamais entenderiam o ofício dêsses trabalhadores manuais, que se já não vislumbram nova profissão, certamente engolem sequiosos a expectativa do desemprego - senão em alguns meses, em poucos anos, com algum otimismo. O caso é êsse: disse-me o rapaz que ficaria pronta em dez ou doze dias. “Uma semana ou duas” – acrescentou como se quisesse me certificar de que “dez ou doze” não tem lá a matemática precisa que computam os da velha guarda que por ali costumam passar. Em tôdo caso, saí satisfeito, já que temia ouvir de sua boca, como a sentença inexpugnável de um médico da família quando diz: “não tem mais jeito!” Ora lá, que são dez ou doze dias - e ainda que sejam catorze, quinze ou dezesseis - quando se tem a solução ao alcance? Quisera eu que essa irretorquível lógica tivesse alguma mínima inteligibilidade para os jovens de hoje.
Passaram-se quatro e cinco dias; seis e sete; e esse oitavo no qual me encontro agora. E se dei toda essa volta para arribar em novo problema, foi porque não poderia ter passado sem o transcurso que se deu, já que faço imperativo que vejam a pessoa esta que sou, para que assim, também, minhas palavras se possam ler com contexto e vizinhança. Fiz-me o prato de acôrdo com a comedela de que dispunha. Nada, porém, de exageros. Dos exageros, basta-me esta abaciada pança que me vale - ainda que eu debique feito passarinho – a fama de esgalamido entre os colegas de trabalho e, também, toda a gente que se põe a julgar meus hábitos alimentares apenas pelo que consegue ver (embora meus 98 quilos não sejam, assim, coisa menor à vista). Mas que diabos! Isso nada tem a ver com a história... Jantava serenamente à mesa depois da senda praticada repetidamente durante o dia, quando inconsulta solidão invadiu-me o ânimo. Soube logo do que se tratava. Jantava todos os dias à frente do televisor e, naquele momento, passava sem essa. Logicamente, não foi uma súbita saudade. Havia sentido sua falta durante a semana, especialmente nas horas de janta, quando me punha sozinho com meus pensamentos, já que o comer me é automático e dispensa a maior parte do intelecto de que gozo. Mas um náufrago qualquer saberá reconhecer que a solidão do oitavo dia é sempre mais inflamada que a do sétimo. E chego aqui porque tenho isto a dizer:
Não raro chega-me aos ouvidos calorosas reclamações ao teor conteudístico das programações televisivas e, geralmente, abstenho-me do questionamento. Penso: “não se aprende mesmo nada com a tevê”. E, no entanto, percebo agora que nada do que faço ou procuro fazer diante do aparelho que tenho em casa está, de fato, relacionado a qualquer forma de aprendizado. Ora, a constância do ruído; as ataviadas figuras dos programas que se repetem; a luz intermitente e as alterações luminosas dadas com as trocas de quadro e, sobretudo, a excessiva leviandade de nossa relação com o suposto conteúdo da praça são, em propósito, o argumento definitivo para que afirmemos dela –a televisão – não um difusor de conteúdos, mas a companhia mundana a qual escolhemos por arbítrio circunstancial, porque nem sempre verdadeira é a máxima do antes só que mal acompanhado. A solidão, pois, que eu ali sentia era aquela mesma proporcionada pela ausência do amigo diário, que viajou e não volta até a próxima semana. E se convém a chancela dessa metáfora, logo, não se deve ter em parâmetros análogos o juízo que dela, a televisão, se faz? Que tipo de criatura avessa é capaz de mal julgar um amigo sob o epíteto de que não tem conteúdo? Aliás, muito comum é o determinado de que as mesmas pessoas que criticam com suma eficiência o conteúdo dos programas que lá passam pela televisão, sejam aquelas que ostentam os mais néscios partidários.
Lembro-me, agora, de uma canção certa feita me vinda aos ouvidos, que culpava a televisão pelo excessivo emburrecimento daquele que a cantava. Mas burro êsse de bom senso, que é capaz de reconhecer-se na completa ignorância; ou, então, tão burro é que não podemos tomar-lhe as palavras ao pé da letra e, nesse caso, deve mesmo é sê-lo de intelecto acima da média – deste modo também versado em paradoxos. Tudo o que sei é isto: que emburrecer é coisa pr’aqueles que têm propensão ao trato e, de qualquer modo, não acredito que venha a ser esta a função do amigo presente, mas outra: a de acalmar com a ternura de sua mais severa inaptidão e, no pior dos possíveis quadros, fazer tornar-nos mais tolerantes a essa.
(Quatro dias depois...)
Liguei para a loja e o rapaz respondeu-me que eu teria que esperar por mais dois ou três dias. Indignado e ignorando as ressalvas em que se teve marcado aquele “uma semana ou duas”, impetrei-o sem dó: “Você não tinha dito ‘dez ou doze’? Não quero saber! Ou essa televisão fica pronta hoje ou eu processo essa bodega por quebra de contrato oral!” – acho que nem preciso dizer, mas essa aprendi foi com a tevê.
Quando cheguei à loja, percebi logo que a clientela do lugar, se sua idade fôsse posta em média, cercaria a casa dos 65 – isso contando com o descenso significativo dos meus quarenta e poucos já contabilizados na média. E porque, então, deveria ser diferente? As novas gerações sempre tão acostumadas aos descartáveis, jamais entenderiam o ofício dêsses trabalhadores manuais, que se já não vislumbram nova profissão, certamente engolem sequiosos a expectativa do desemprego - senão em alguns meses, em poucos anos, com algum otimismo. O caso é êsse: disse-me o rapaz que ficaria pronta em dez ou doze dias. “Uma semana ou duas” – acrescentou como se quisesse me certificar de que “dez ou doze” não tem lá a matemática precisa que computam os da velha guarda que por ali costumam passar. Em tôdo caso, saí satisfeito, já que temia ouvir de sua boca, como a sentença inexpugnável de um médico da família quando diz: “não tem mais jeito!” Ora lá, que são dez ou doze dias - e ainda que sejam catorze, quinze ou dezesseis - quando se tem a solução ao alcance? Quisera eu que essa irretorquível lógica tivesse alguma mínima inteligibilidade para os jovens de hoje.
Passaram-se quatro e cinco dias; seis e sete; e esse oitavo no qual me encontro agora. E se dei toda essa volta para arribar em novo problema, foi porque não poderia ter passado sem o transcurso que se deu, já que faço imperativo que vejam a pessoa esta que sou, para que assim, também, minhas palavras se possam ler com contexto e vizinhança. Fiz-me o prato de acôrdo com a comedela de que dispunha. Nada, porém, de exageros. Dos exageros, basta-me esta abaciada pança que me vale - ainda que eu debique feito passarinho – a fama de esgalamido entre os colegas de trabalho e, também, toda a gente que se põe a julgar meus hábitos alimentares apenas pelo que consegue ver (embora meus 98 quilos não sejam, assim, coisa menor à vista). Mas que diabos! Isso nada tem a ver com a história... Jantava serenamente à mesa depois da senda praticada repetidamente durante o dia, quando inconsulta solidão invadiu-me o ânimo. Soube logo do que se tratava. Jantava todos os dias à frente do televisor e, naquele momento, passava sem essa. Logicamente, não foi uma súbita saudade. Havia sentido sua falta durante a semana, especialmente nas horas de janta, quando me punha sozinho com meus pensamentos, já que o comer me é automático e dispensa a maior parte do intelecto de que gozo. Mas um náufrago qualquer saberá reconhecer que a solidão do oitavo dia é sempre mais inflamada que a do sétimo. E chego aqui porque tenho isto a dizer:
Não raro chega-me aos ouvidos calorosas reclamações ao teor conteudístico das programações televisivas e, geralmente, abstenho-me do questionamento. Penso: “não se aprende mesmo nada com a tevê”. E, no entanto, percebo agora que nada do que faço ou procuro fazer diante do aparelho que tenho em casa está, de fato, relacionado a qualquer forma de aprendizado. Ora, a constância do ruído; as ataviadas figuras dos programas que se repetem; a luz intermitente e as alterações luminosas dadas com as trocas de quadro e, sobretudo, a excessiva leviandade de nossa relação com o suposto conteúdo da praça são, em propósito, o argumento definitivo para que afirmemos dela –a televisão – não um difusor de conteúdos, mas a companhia mundana a qual escolhemos por arbítrio circunstancial, porque nem sempre verdadeira é a máxima do antes só que mal acompanhado. A solidão, pois, que eu ali sentia era aquela mesma proporcionada pela ausência do amigo diário, que viajou e não volta até a próxima semana. E se convém a chancela dessa metáfora, logo, não se deve ter em parâmetros análogos o juízo que dela, a televisão, se faz? Que tipo de criatura avessa é capaz de mal julgar um amigo sob o epíteto de que não tem conteúdo? Aliás, muito comum é o determinado de que as mesmas pessoas que criticam com suma eficiência o conteúdo dos programas que lá passam pela televisão, sejam aquelas que ostentam os mais néscios partidários.
Lembro-me, agora, de uma canção certa feita me vinda aos ouvidos, que culpava a televisão pelo excessivo emburrecimento daquele que a cantava. Mas burro êsse de bom senso, que é capaz de reconhecer-se na completa ignorância; ou, então, tão burro é que não podemos tomar-lhe as palavras ao pé da letra e, nesse caso, deve mesmo é sê-lo de intelecto acima da média – deste modo também versado em paradoxos. Tudo o que sei é isto: que emburrecer é coisa pr’aqueles que têm propensão ao trato e, de qualquer modo, não acredito que venha a ser esta a função do amigo presente, mas outra: a de acalmar com a ternura de sua mais severa inaptidão e, no pior dos possíveis quadros, fazer tornar-nos mais tolerantes a essa.
(Quatro dias depois...)
Liguei para a loja e o rapaz respondeu-me que eu teria que esperar por mais dois ou três dias. Indignado e ignorando as ressalvas em que se teve marcado aquele “uma semana ou duas”, impetrei-o sem dó: “Você não tinha dito ‘dez ou doze’? Não quero saber! Ou essa televisão fica pronta hoje ou eu processo essa bodega por quebra de contrato oral!” – acho que nem preciso dizer, mas essa aprendi foi com a tevê.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Trópico de Capricórnio
Cheguei cedo demais. Vi-me obrigado a sentar num banco e esperar naquela sumptuosa praça onde a magnificência do tamanho e o apelo dos ornamentos pedia que o bairro à volta fosse um nobre baixo. E era. Não importa, que fosse paris, seria ainda assim uma praça fedorenta. Resta esse toque de molesto às praças, a saber, o expedito irrevogável de que as praças fedem. Como haveria de ser diferente? Veja, trata-se de um lugar público. Mas não como um museu ou biblioteca, em cujos portões elevados e olhos vigilantes dos cidadãos mais rigorosos faz-se exigência e coibição à intrusão perniciosa de um indigente que se faça passar por intelectual mendigo enquanto arruma seu colchão em papelão grosseiro em frente a uma delicada obra de arte ou num corredor onde morassem grandes clássicos da literatura medieval, por exemplo. Não, as praças são públicas porque seus bancos dispõe-se de forma indulta e acolhedora tanto aos bem tratados traseiros da gente que ali a volta habita uma impecável residência, quanto aos lençóis sujos e mal cheirosos daqueles que, por falta da cara espécie, fazem dali por tantas noites abrigo. E, não obstante àquela hora eu não pudesse ver os tais desvalidos que a noite ali moravam (dormiam, urinavam, comiam, transavam e, talvez, até defecassem) eu podia sentir o cheiro, como numa nota derradeira sobre o contraste localizado entre a imagem que eu via e o odor que ela encerrava. Isso porque a manhã já trazia os seus raios mais violentos de sol e a um que ali se largasse indefeso e desprotegido, o amargo calor trataria de castigar com severa insistência, fazendo-me crer que os bem aventurados inquilinos daquele espaço a céu aberto, esperariam pela noite a cair para retornar ao leito do qual eram, em todo caso, a quinta-essência, qual seja aquela de que se destila um perfume.
Mas era uma praça, sem dúvida, majestosa. Majestosa era o adjetivo adequado àquele arranjo de paisagem e arquitetura. À frente do banco sobre o qual eu me debruçava em um sóbrio e degenerado Henri Miller, erguia-se um elegante chafariz. E tal qual a acre personalidade daquele que eu tinha em mãos e me fazia lendo, pus-me uma questão que há um momento me sobreveio como o palpitar agudo de um nojo. E tanto menos, naquele momento, o mal cheiro seria o precipitador de meu vômito, caso viesse mesmo a vomitar. Não vomitei, mas explico aqui o porque de tal insinuação. Vá lá que os chafarizes tenham sua beleza tangenciada pela imponência e conjunto que envolvem, o caso é que bem mais provável que isso era o fato de que desde muito tempo os nobres que os construíam haviam esquecido de explicar às novas gerações a serventia e a moral daqueles ataviados cuspidores de água. Mas, ainda que a nova geração - essa que muitas vezes recorria ao apelo às preocupações com os recursos naturais do "planeta" - jamais viesse a entender o orgulho e a necessidade daqueles fidalgos chafarizes, nenhuma retaliação se fazia aparente e nem nunca se fez. É provável que aos olhos dos mais exigentes ativistas, aquele desperdício passasse batido, enquanto, quem sabe, um notável ecologista passeasse desalarmado com seu cachorro Astolfo por entre os jardins refrescantes daquela praça.
Eis a tradição em que se encosta esse pretensioso ornamento, o chafariz: Atávico como um obsoleto instrumento, que agora serve apenas ao uso saudosista e epigráfico dos descedentes de seu antigo senhor, o chafariz faz reverência a dinastia do rei; figura no centro do espaço, como em menção a importância do símbolo que encerra e expõe uma contradição muito patente aos de espírito mais crítico e de coerência mais conservada - que apesar de toda pompa da qual a classe burguesa ainda se cerca, os reis já deviam há muito terem deixado de existir. Ora lá, que as coroas se tenham transformado em cartolas, e os dourados mantos em ternos sofisticados, e talvez o fato de que nunca haveremos de expurgar totalmente o problema das classes, mas nada disso redime aquela cena anacrônica e patética em que se vê o homem sentado em poltrona de ouro maciço ostentanto sobre a caixola o galardão injustificado ornado em ouro e nada menos que alguns diamantes.
E, no entanto, temos notícia de que na Inglaterra, pioneira e propulsora da primeira e mais impactante revolução industrial, ainda se ostenta com vasta arrogância a onerosa superfluidade de uma família real. Sei até que por um breve período, à força de umas quantas poderosas armas teve-se lá o governo republicano daquele tal Oliver Cromwell, mas ao rigor dessa atual em que há uma velha senhora que sai às ruas aclamada e é chamada “rainha” apenas por haver nascido, faço-me obrigado a acreditar que esses ingleses são mesmo uns idiotas. E que me perdoem os Beatles e os Rolling Stones, mas não posso tomar de todo aquele que faz corte a um tal soberano, que não seja esse um completo idiota.
Mas isso não vem ao caso. E até entendo que hajam por aquelas bandas chafarizes desse porte ou mais, afinal, a história tem lá sua ordem de dominados e dominadores, mas ainda repugno certos arcaísmos como aquele que, no centro da praça, fazia menção a um gosto de classe de pelo menos um século passado.
Ao lado da agua cristalina e de virtuosas formas daquela fonte, pessoas sem alguma expressão tragavam um ócio empoeirado junto com aquele cheiro degradante da deliberada praça; que carregava, ainda, no nome, um santo a mais pra sua inegável nobre linhagem. Se me fosse permitido comparar, eu diria que sentar-se num banco naquele lugar e observar os gestos e as frases, dos homens e das fontes - que ali se igualavam -, era como mirar a estampa do mérito de uma inteira história de dominação ardil e à força na face dos imbecis bisnetos dessa gente sem alma que levantara castelos; bisnetos esses que, agora, passados os tempos da guerra em que tiveram alçadas suas riquezas, passeavam pela alameda da praça com seu discurso pastoso e pretensamente humanista em que “liberdade” e “democracia” se distanciavam da prática usurária de seus articuladores e resumiam-se hipocritamente em nomes como “bem comum” e “justiça”. Eu teria cuspido nessa gente se minha saliva já não tivesse secado com o sol quente e a poeira do lugar. Como não cuspi, bastou-me o silêncio para constatar que foi só isso que fiz: pensar. E isso apenas. Bastaria dizer que o ócio que nessas praças nos invade é como a morte que chega com o inverno, acompanhada da eterna melancolia do invalido ou da desgostosa meditação do vagabundo. E No fim das contas, eu mesmo com o livro aberto nada li que não fosse a vida em si mesma, e com a mente desenganda que estava quase perdi a hora. A entrevista era às 2 e o local a 10 minutos dali.
Mas era uma praça, sem dúvida, majestosa. Majestosa era o adjetivo adequado àquele arranjo de paisagem e arquitetura. À frente do banco sobre o qual eu me debruçava em um sóbrio e degenerado Henri Miller, erguia-se um elegante chafariz. E tal qual a acre personalidade daquele que eu tinha em mãos e me fazia lendo, pus-me uma questão que há um momento me sobreveio como o palpitar agudo de um nojo. E tanto menos, naquele momento, o mal cheiro seria o precipitador de meu vômito, caso viesse mesmo a vomitar. Não vomitei, mas explico aqui o porque de tal insinuação. Vá lá que os chafarizes tenham sua beleza tangenciada pela imponência e conjunto que envolvem, o caso é que bem mais provável que isso era o fato de que desde muito tempo os nobres que os construíam haviam esquecido de explicar às novas gerações a serventia e a moral daqueles ataviados cuspidores de água. Mas, ainda que a nova geração - essa que muitas vezes recorria ao apelo às preocupações com os recursos naturais do "planeta" - jamais viesse a entender o orgulho e a necessidade daqueles fidalgos chafarizes, nenhuma retaliação se fazia aparente e nem nunca se fez. É provável que aos olhos dos mais exigentes ativistas, aquele desperdício passasse batido, enquanto, quem sabe, um notável ecologista passeasse desalarmado com seu cachorro Astolfo por entre os jardins refrescantes daquela praça.
Eis a tradição em que se encosta esse pretensioso ornamento, o chafariz: Atávico como um obsoleto instrumento, que agora serve apenas ao uso saudosista e epigráfico dos descedentes de seu antigo senhor, o chafariz faz reverência a dinastia do rei; figura no centro do espaço, como em menção a importância do símbolo que encerra e expõe uma contradição muito patente aos de espírito mais crítico e de coerência mais conservada - que apesar de toda pompa da qual a classe burguesa ainda se cerca, os reis já deviam há muito terem deixado de existir. Ora lá, que as coroas se tenham transformado em cartolas, e os dourados mantos em ternos sofisticados, e talvez o fato de que nunca haveremos de expurgar totalmente o problema das classes, mas nada disso redime aquela cena anacrônica e patética em que se vê o homem sentado em poltrona de ouro maciço ostentanto sobre a caixola o galardão injustificado ornado em ouro e nada menos que alguns diamantes.
E, no entanto, temos notícia de que na Inglaterra, pioneira e propulsora da primeira e mais impactante revolução industrial, ainda se ostenta com vasta arrogância a onerosa superfluidade de uma família real. Sei até que por um breve período, à força de umas quantas poderosas armas teve-se lá o governo republicano daquele tal Oliver Cromwell, mas ao rigor dessa atual em que há uma velha senhora que sai às ruas aclamada e é chamada “rainha” apenas por haver nascido, faço-me obrigado a acreditar que esses ingleses são mesmo uns idiotas. E que me perdoem os Beatles e os Rolling Stones, mas não posso tomar de todo aquele que faz corte a um tal soberano, que não seja esse um completo idiota.
Mas isso não vem ao caso. E até entendo que hajam por aquelas bandas chafarizes desse porte ou mais, afinal, a história tem lá sua ordem de dominados e dominadores, mas ainda repugno certos arcaísmos como aquele que, no centro da praça, fazia menção a um gosto de classe de pelo menos um século passado.
Ao lado da agua cristalina e de virtuosas formas daquela fonte, pessoas sem alguma expressão tragavam um ócio empoeirado junto com aquele cheiro degradante da deliberada praça; que carregava, ainda, no nome, um santo a mais pra sua inegável nobre linhagem. Se me fosse permitido comparar, eu diria que sentar-se num banco naquele lugar e observar os gestos e as frases, dos homens e das fontes - que ali se igualavam -, era como mirar a estampa do mérito de uma inteira história de dominação ardil e à força na face dos imbecis bisnetos dessa gente sem alma que levantara castelos; bisnetos esses que, agora, passados os tempos da guerra em que tiveram alçadas suas riquezas, passeavam pela alameda da praça com seu discurso pastoso e pretensamente humanista em que “liberdade” e “democracia” se distanciavam da prática usurária de seus articuladores e resumiam-se hipocritamente em nomes como “bem comum” e “justiça”. Eu teria cuspido nessa gente se minha saliva já não tivesse secado com o sol quente e a poeira do lugar. Como não cuspi, bastou-me o silêncio para constatar que foi só isso que fiz: pensar. E isso apenas. Bastaria dizer que o ócio que nessas praças nos invade é como a morte que chega com o inverno, acompanhada da eterna melancolia do invalido ou da desgostosa meditação do vagabundo. E No fim das contas, eu mesmo com o livro aberto nada li que não fosse a vida em si mesma, e com a mente desenganda que estava quase perdi a hora. A entrevista era às 2 e o local a 10 minutos dali.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Vinho tinto e vela...com classe.
Faltou luz. – Que merda! – Eu reclamo silenciosamente. Minhas noites já são tão monótonas mesmo com todo aparato tecnológico de que disponho pra me entreter.
Tecnologia de merda! Nada funciona sem energia elétrica.
Pior ainda, a geladeira não funciona sem energia elétrica. Todo aquele lixo de comida congelada que eu comprei ontem vai pro caralho. Foda-se também! Não há lá grande diferença entre essa porcaria estragando no meu estomago ou na geladeira.
Puxo uma garrafa de vinho que já começa a suar na estante inferior da porta do refrigerador. “Carménère” – diz o rótulo. “Uva sofisticada” – eu penso. Dará toque refinado ao bolo fecal que já já vai se embolar no meu intestino – isso se não descer tudo numa rajada. As sobras da janta também me encaram lá do fundo da prateleira de cima, ao centro. Arranco-as do frescor viscoso que a geladeira ainda conserva - Janto de novo e que se foda! Coloco o prato na mesa e fecho a geladeira. Tudo isso com apenas uma das mãos já que a outra se banha na cera endurecida de uma vela que dá visão ao pobre cego entediado que sou.
Debaixo da cera a pele queimada, agora, maneja o garfo que vai ao encontro do macarrão – Penne ao alho e óleo – e volta e meia espeta um engordurado filé de frango à milanesa que vai direto à boca para ser partido pelos incisivos do porco preguiçoso que dispensou à refeição uma faca. Hahauhaha! Gargalho de boca aberta, deixando escapar uma ou outra fagulha da massa. Recupero o fôlego com um gole generoso no vinho que enchia até a borda uma rechonchuda caneca. Rio de mim mesmo, iluminado ao canto pela vela à metade que me queimara a mão de melhor uso, a mão direita. Rio especialmente pela ironia da coisa. A janta que tenho em mãos é resquício de uma primeira refeição que fiz logo no começo da noite. A fome, em todo caso, é protocolar e se lança desavergonhadamente sob a justificativa rasteira de que pouco importa o pecado da gula se a comida iria estragar de qualquer modo. No entanto, é essa refeição porca e grosseira que me tenta arrancar do tédio imperativo dessa noite iluminada por uma só vela.
A vela me olha. Acostumada aos romances de uma casta mais polida que a minha, a chama delicada que se inflama no pavil já carbonizado deve me ver como um glutão. A imagem me incomoda. Molho polegar e indicador na boca suja de comida e os pressiono contra a chama em retaliação ao mal julgamento que fizera de mim. A vela, obviamente, se apaga. A mão larga o garfo no prato e, tateando no escuro, segue instintivamente até a caneca. Um gole daquelas. “Carménère” – relembro. Uva sofisticada. Realça o amargo do alho que a essa altura já me empesteia o hálito.
Hahauhahasg asgha! Me engasgo no meio da gargalhada e uma corredeira de vinho tinto me escorre pelas narinas. Resolvo acender a vela novamente pra ver o estrago. Manchou a cueca. A única peça que ainda me cobria a pele – menos mal. A chama da vela se infla. Vadia orgulhosa! Me olha, dessa vez com despeito, e pisca como se tentasse me diminuir na frente dos meus pensamentos. Mal sabe ela que escrevo tudo em minha cabeça enquanto ela lumeia e cisca conforme as correntes de ar que entram pela janela. E mais, já tenho um final prontinho pra ela.
Esvazio a caneca num gole só. Levo o prato, o garfo e os restos até a pia. A vela acompanha. Carrego-a na mão até o chão do chuveiro. Firmo-a lá com a cera que escorre. E o som chiado da chama se apagando com a violência torrencial de uma boa e certeira mijada me soa como uma canção de ninar.
Essa noite durmo como criança - disso tenho certeza.
Tecnologia de merda! Nada funciona sem energia elétrica.
Pior ainda, a geladeira não funciona sem energia elétrica. Todo aquele lixo de comida congelada que eu comprei ontem vai pro caralho. Foda-se também! Não há lá grande diferença entre essa porcaria estragando no meu estomago ou na geladeira.
Puxo uma garrafa de vinho que já começa a suar na estante inferior da porta do refrigerador. “Carménère” – diz o rótulo. “Uva sofisticada” – eu penso. Dará toque refinado ao bolo fecal que já já vai se embolar no meu intestino – isso se não descer tudo numa rajada. As sobras da janta também me encaram lá do fundo da prateleira de cima, ao centro. Arranco-as do frescor viscoso que a geladeira ainda conserva - Janto de novo e que se foda! Coloco o prato na mesa e fecho a geladeira. Tudo isso com apenas uma das mãos já que a outra se banha na cera endurecida de uma vela que dá visão ao pobre cego entediado que sou.
Debaixo da cera a pele queimada, agora, maneja o garfo que vai ao encontro do macarrão – Penne ao alho e óleo – e volta e meia espeta um engordurado filé de frango à milanesa que vai direto à boca para ser partido pelos incisivos do porco preguiçoso que dispensou à refeição uma faca. Hahauhaha! Gargalho de boca aberta, deixando escapar uma ou outra fagulha da massa. Recupero o fôlego com um gole generoso no vinho que enchia até a borda uma rechonchuda caneca. Rio de mim mesmo, iluminado ao canto pela vela à metade que me queimara a mão de melhor uso, a mão direita. Rio especialmente pela ironia da coisa. A janta que tenho em mãos é resquício de uma primeira refeição que fiz logo no começo da noite. A fome, em todo caso, é protocolar e se lança desavergonhadamente sob a justificativa rasteira de que pouco importa o pecado da gula se a comida iria estragar de qualquer modo. No entanto, é essa refeição porca e grosseira que me tenta arrancar do tédio imperativo dessa noite iluminada por uma só vela.
A vela me olha. Acostumada aos romances de uma casta mais polida que a minha, a chama delicada que se inflama no pavil já carbonizado deve me ver como um glutão. A imagem me incomoda. Molho polegar e indicador na boca suja de comida e os pressiono contra a chama em retaliação ao mal julgamento que fizera de mim. A vela, obviamente, se apaga. A mão larga o garfo no prato e, tateando no escuro, segue instintivamente até a caneca. Um gole daquelas. “Carménère” – relembro. Uva sofisticada. Realça o amargo do alho que a essa altura já me empesteia o hálito.
Hahauhahasg asgha! Me engasgo no meio da gargalhada e uma corredeira de vinho tinto me escorre pelas narinas. Resolvo acender a vela novamente pra ver o estrago. Manchou a cueca. A única peça que ainda me cobria a pele – menos mal. A chama da vela se infla. Vadia orgulhosa! Me olha, dessa vez com despeito, e pisca como se tentasse me diminuir na frente dos meus pensamentos. Mal sabe ela que escrevo tudo em minha cabeça enquanto ela lumeia e cisca conforme as correntes de ar que entram pela janela. E mais, já tenho um final prontinho pra ela.
Esvazio a caneca num gole só. Levo o prato, o garfo e os restos até a pia. A vela acompanha. Carrego-a na mão até o chão do chuveiro. Firmo-a lá com a cera que escorre. E o som chiado da chama se apagando com a violência torrencial de uma boa e certeira mijada me soa como uma canção de ninar.
Essa noite durmo como criança - disso tenho certeza.
sábado, 17 de outubro de 2009
O Grande Gatsby
Saiu extenuado do trabalho. Alienado de seus próprios pensamentos subiu no ônibus que esperava a quase 15 minutos. Sentara-se num banco estrategicamente localizado na parte central do veículo. Cansado da vida que ali trazia no dorso de um paletó surrado, dirigiu enfaticamente os olhares pela janela, por sobre o ombro esquerdo que se escorava na parede lateral do ônibus. O mundo parecia uma coisa distante, mas estava ao alcance uns cinco ou seis metros, na calçada que corria na direção oposta à sua.
O ônibus “vazio” trazia uns poucos passageiros os quais ele ignorava como se nada existisse naquela redoma senão o movimento constante, dirigido de dentro pra fora e de fora pra dentro do ônibus. A catraca estalou mais uma vez e seu pescoço virou-se. Os olhos de indiferença, os mesmos que se afastavam do mundo com um gesto evasivo do olhar compulsivo e inanimado, fixaram-se na louridão dos cabelos da mulher que chegara. Havia acabado de atravessar a catraca e se sentara do lado dele. Era alta e corpulenta, e tinha a pele morena queimada, quase mulata. Provavelmente a cor dos cabelos era o artifício impróprio de algum agente abrasivo; tinta de cabelo ou um descolorante. Algo que dava, com franca beleza, o ar da vulgaridade que também trazia na roupa. A calça – justíssima – dava sentença merecida àquelas ‘senhoras’ coxas, assim como o decote exagerado mostrava a parte superior dos seios como a vitrina que na confeitaria mostra seus doces através de uma placa translúcida.
Teve ele uma ereção. Instintivamente, puxou um livro que havia na pasta; abriu-o e pois os olhos em cima enquanto à esguelha mantinha à vista aquelas coxas e seios. O livro que se abriu, em todo caso, dizia apenas de uma atenção renovada, que agora não mais atravessava a janela. Mas o texto que o livro enredava nem sequer semântica tinha. Eram letras embaralhadas que serviam de corrimão aos olhos lascivos e imorais daquela libido iletrada.
Conforme julgou o desconforto daquele membro ereto na posição que estava, escorreu pelo assento jogando os joelhos pra cima e os apoiando no banco da frente. O pênis deslizou pela virilha e, à força, atravessou o elástico da cueca que o sufocava. Gemeu com os olhos como se algo naquele livro fizesse sentido. Deteve, então, o livro em apenas uma das mãos enquanto a outra, rompendo por entre as pernas levemente erguidas, deslizava até recostar-se no obelisco que se eriçava. Acariciou-o com certo receio, imaginando penetrar a pandora protegida por aquelas coxas salgadas que ao seu lado escondiam-se embaixo de um tecido ordinário. Percebeu, no entanto, que aquelas carícias que ocultava para si, reverberavam num movimento muscular visível também sobre os bíceps. Esperava, por isso, que o ônibus entrasse em movimento para que o despudor dedilhado por sobre o tecido da sua calça fosse confundido com a turbulência do ônibus, que trepidava com a mais sutil arrancada e só repousava quando parava na ponto. A mulher olhava para frente, mas ele imaginava-a olhando a sua performance dissimulada e ela, mordida entre os dentes, tinha nessas imagens o mesmo aspecto sujo e depravado daquela vagina depilada que ele recriava mentalmente envolta de seu pênis.
Volta e meia, esquecia de olhar para o livro e quando se dava conta virava uma página, como se aqueles parágrafos já desgastados tivessem lhe servido os prazeres de uma história contada (e de certa forma serviam). Como não pudesse mais esconder o líquido denso daquela conduta imoral, ejaculou seguidamente - quatro vezes. Gozou tão despreocupadamente que julgou ter a mulher notado o fato. Não importava; ao contrário, isso só tornava mais triunfante aquele excesso.
Coincidentemente ou não, o livro se encontrava aberto em uma ultima página de um capítulo que findava com um pequenino parágrafo. Ele leu:
“Cada um de nós desconfia que possui pelo menos uma das virtudes cardinais – e a minha é esta: sou uma das poucas criaturas honestas que jamais conheci.”
Ele não sabia do que se tratava. Não sabia que livro era. E nem quis saber.
O ônibus “vazio” trazia uns poucos passageiros os quais ele ignorava como se nada existisse naquela redoma senão o movimento constante, dirigido de dentro pra fora e de fora pra dentro do ônibus. A catraca estalou mais uma vez e seu pescoço virou-se. Os olhos de indiferença, os mesmos que se afastavam do mundo com um gesto evasivo do olhar compulsivo e inanimado, fixaram-se na louridão dos cabelos da mulher que chegara. Havia acabado de atravessar a catraca e se sentara do lado dele. Era alta e corpulenta, e tinha a pele morena queimada, quase mulata. Provavelmente a cor dos cabelos era o artifício impróprio de algum agente abrasivo; tinta de cabelo ou um descolorante. Algo que dava, com franca beleza, o ar da vulgaridade que também trazia na roupa. A calça – justíssima – dava sentença merecida àquelas ‘senhoras’ coxas, assim como o decote exagerado mostrava a parte superior dos seios como a vitrina que na confeitaria mostra seus doces através de uma placa translúcida.
Teve ele uma ereção. Instintivamente, puxou um livro que havia na pasta; abriu-o e pois os olhos em cima enquanto à esguelha mantinha à vista aquelas coxas e seios. O livro que se abriu, em todo caso, dizia apenas de uma atenção renovada, que agora não mais atravessava a janela. Mas o texto que o livro enredava nem sequer semântica tinha. Eram letras embaralhadas que serviam de corrimão aos olhos lascivos e imorais daquela libido iletrada.
Conforme julgou o desconforto daquele membro ereto na posição que estava, escorreu pelo assento jogando os joelhos pra cima e os apoiando no banco da frente. O pênis deslizou pela virilha e, à força, atravessou o elástico da cueca que o sufocava. Gemeu com os olhos como se algo naquele livro fizesse sentido. Deteve, então, o livro em apenas uma das mãos enquanto a outra, rompendo por entre as pernas levemente erguidas, deslizava até recostar-se no obelisco que se eriçava. Acariciou-o com certo receio, imaginando penetrar a pandora protegida por aquelas coxas salgadas que ao seu lado escondiam-se embaixo de um tecido ordinário. Percebeu, no entanto, que aquelas carícias que ocultava para si, reverberavam num movimento muscular visível também sobre os bíceps. Esperava, por isso, que o ônibus entrasse em movimento para que o despudor dedilhado por sobre o tecido da sua calça fosse confundido com a turbulência do ônibus, que trepidava com a mais sutil arrancada e só repousava quando parava na ponto. A mulher olhava para frente, mas ele imaginava-a olhando a sua performance dissimulada e ela, mordida entre os dentes, tinha nessas imagens o mesmo aspecto sujo e depravado daquela vagina depilada que ele recriava mentalmente envolta de seu pênis.
Volta e meia, esquecia de olhar para o livro e quando se dava conta virava uma página, como se aqueles parágrafos já desgastados tivessem lhe servido os prazeres de uma história contada (e de certa forma serviam). Como não pudesse mais esconder o líquido denso daquela conduta imoral, ejaculou seguidamente - quatro vezes. Gozou tão despreocupadamente que julgou ter a mulher notado o fato. Não importava; ao contrário, isso só tornava mais triunfante aquele excesso.
Coincidentemente ou não, o livro se encontrava aberto em uma ultima página de um capítulo que findava com um pequenino parágrafo. Ele leu:
“Cada um de nós desconfia que possui pelo menos uma das virtudes cardinais – e a minha é esta: sou uma das poucas criaturas honestas que jamais conheci.”
Ele não sabia do que se tratava. Não sabia que livro era. E nem quis saber.
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