Dois cachorros, conduzidos por uma adolescente sustentando um moicano colorido sobre a cabeça, pararam-se diante de uma mancha no chão da calçada e se puseram a cheirar com intensa curiosidade. Então, um disse ao outro: - É mostarda!
O outro, imediatamente retrucou: - Com certeza é mostarda!
quinta-feira, 12 de abril de 2012
quinta-feira, 22 de março de 2012
Humanista demasiado humanista
Brincadeira de criança. Profunda poesia pro tipo de inocente alma que se redime no encanto de imediatia com o outro. Bela figura desenhada por dentro das molduras tortas de um quadro de madeira pendurado sem planejamento na parede da sala. Mas as crianças conservam a mesma crueldade implícita ao instinto que vemos na labuta das Hienas sobre uma carniça tomada a força a outro carnívoro. E nem mesmo o mais insensível humanista será capaz de dizer que não há beleza na visão, de luta e sangue, estampada em uma tela de TV de 40 polegadas, do documentário referente sobre savanas africanas. Também o humanismo tem os seus limites. Ele acaba no ponto justo em que nos exige certa tolerância com as diferenças, certo relativismo de teor cultural, etário, ou inter-espécie. Porque o humanista, quando concede ao leão devorar outro animal sob o rechaço da tolêrencia, ele deve assim proceder: dizer do leão não-humano. Da mesma forma precisa admitir que um paquistanês que submete sua mulher, não estendendo a ela a liberdade que ele próprio garante a si, deve ser visto por certa lente de desumanidade para que não se impute a ele essa condenação que o humanista deve fazer a tudo que, entre os homens, não é humano. Ora, também uma criança aos 5 anos de idade é perdoada pelo tratamento injusto, vexativo e desproporcional de um semelhante sob a máxima tão difundida do "é apenas uma criança", como quem diz na verdade, "ela não é humana, ainda." Mas o perdão é uma virtude cristã e não uma ferramenta humanista. A tolerância por outro lado é o recurso mais a mão para um dessa classe e, no entanto, é fulcro de uma hipocrisia marcada no centro desse culto. O humanista não é tolerante porque é humano, mas porque priva o outro - em seu sentimento de alteridade - desse humanismo que ele mesmo assume ser algo como uma verdade fundamental: o outro, em sua visão, é digno pela falta de humanidade: é digno porque, apesar da indgnidade, não se pode pedir a todos que estejam a par desse conceito difuso e inconstante que é a verdade, que ele mesmo precisa duvidar por força de uma natureza humanista maior que traz ainda em seu bojo uma simpatia acentuada com relativismo. É, então, que o humanismo se perde. Não pode ser humanista se, em seu discurso, o paquistanês e a criança não são tão humanos quanto ele mesmo, insuspeito e incorruptível. Não pode ser humanista se o flerte com certo relativismo o induz a duvidar da verdade que é, todavia, pilar de toda sua razão: todos os humanos são iguais. Torna-se, assim, um demagogo. E ainda hoje as fronteiras que deveriam separar um e outro não são diáfanas e a imposição de um julgamento não pode ser feita com a mesma clareza e infalibilidade com que julgamos e condenamos o autoritário "humanismo" católico durante a idade média.
Pois quanto mais cedo os humanistas perceberem o risco corrente que sua ideologia enfrenta sob a suposta vernaculidade do relativismo em que se deixam confortar-se, serão forçados a tomar partido. Mas que partido será esse? Eis o problema que enfrentarão ainda que tenham ciência das suas limitações. Poderão comprometer-se com o risco do erro, sabendo que sua tolerância é tão parcial quanto uma medida extrema? Resta saber se será capaz de condenar e de que natureza será a condenação. Pois se o humanismo é o que se prega - e se deve pregar - entre os homens, o que será feito daquele que entre esses não é, assim, tão humano? Terá ele liberdade dos predadores na savana africana, ou a restrição de alguns dos mamíferos num zoológico urbano.
Não é a moral que deve conduzir esses homens, mas menos ainda será a falta dela a lhes trazer liberdade.
Pois quanto mais cedo os humanistas perceberem o risco corrente que sua ideologia enfrenta sob a suposta vernaculidade do relativismo em que se deixam confortar-se, serão forçados a tomar partido. Mas que partido será esse? Eis o problema que enfrentarão ainda que tenham ciência das suas limitações. Poderão comprometer-se com o risco do erro, sabendo que sua tolerância é tão parcial quanto uma medida extrema? Resta saber se será capaz de condenar e de que natureza será a condenação. Pois se o humanismo é o que se prega - e se deve pregar - entre os homens, o que será feito daquele que entre esses não é, assim, tão humano? Terá ele liberdade dos predadores na savana africana, ou a restrição de alguns dos mamíferos num zoológico urbano.
Não é a moral que deve conduzir esses homens, mas menos ainda será a falta dela a lhes trazer liberdade.
sábado, 17 de março de 2012
"...e mais uma vez o suburbano pós-adolescente de quase 30 se aventura num centro cultural da Zona Sul..."
E completa uma cena de quadrinhos: Eu, sentado na mesa de um café, esperando um filme começar, tomando um café e escrevendo no meu bloco manchado de tinta de esferográfica estourada.
Minhas roupas de trabalho de loja de departamento estranham o entorno. Eu? já nem tanto. Os outros talvez. Mas quem não me estranha?
Como sempre, assim que cheguei no tal "complexo de arte" fui direto a livraria:"Até os livros de bolso tão caros demais aqui, e eu reclamando das bancas..." e Viva os Sebos!
Por entre prateleiras vejo um par de borboletas logo após o fim das pernas de um surrado e justo short jeans feminino. Me posiciono melhor pra ver a obra completa. Além do par de borboletas na parte de trás das coxas, dois piercings nos lábios.
Lésbica. Um pouco ao lado vejo sua amiga. Cabelos vermelhos, tatuagens, piercings, short jens apertados e surrados. Lésbicas. Ou seja lá qual seja a moda sexual de adolescentes esquisitas da Zona Sul.
"Não existe mulher virgem tatuada".
A máxima que ouvi algumas vezes de um amigo veio à minha mente. Com certeza aquelas borboletas recebem muito mais lambidas femininas que minha pica. O que não é grande coisa: a lista de coisas que recebem mais lambidas que minha pica é infinita.
Uso meu olhar mais sensual, aquele que diz sem palavras: - Te estupro, depois arranco tua pele faço uma buceta artificial e vou fuder todo dia, mesmo depois que apodrecer.
Não funciona.
Essas coisas só dão certo nos contos do Bukowski.
Sento.
Peço um expresso.
Tento ler.
Bukowski.
Continuo pensando nas meninas lésbicas.
Peço outro expresso.
Fecha o ciclo na cena inicial dessa merda.
Tomara que o filme seja bom, já coloquei 9 reais na conta da familia Moreira Salles.
Filhos da Puta.
Minhas roupas de trabalho de loja de departamento estranham o entorno. Eu? já nem tanto. Os outros talvez. Mas quem não me estranha?
Como sempre, assim que cheguei no tal "complexo de arte" fui direto a livraria:"Até os livros de bolso tão caros demais aqui, e eu reclamando das bancas..." e Viva os Sebos!
Por entre prateleiras vejo um par de borboletas logo após o fim das pernas de um surrado e justo short jeans feminino. Me posiciono melhor pra ver a obra completa. Além do par de borboletas na parte de trás das coxas, dois piercings nos lábios.
Lésbica. Um pouco ao lado vejo sua amiga. Cabelos vermelhos, tatuagens, piercings, short jens apertados e surrados. Lésbicas. Ou seja lá qual seja a moda sexual de adolescentes esquisitas da Zona Sul.
"Não existe mulher virgem tatuada".
A máxima que ouvi algumas vezes de um amigo veio à minha mente. Com certeza aquelas borboletas recebem muito mais lambidas femininas que minha pica. O que não é grande coisa: a lista de coisas que recebem mais lambidas que minha pica é infinita.
Uso meu olhar mais sensual, aquele que diz sem palavras: - Te estupro, depois arranco tua pele faço uma buceta artificial e vou fuder todo dia, mesmo depois que apodrecer.
Não funciona.
Essas coisas só dão certo nos contos do Bukowski.
Sento.
Peço um expresso.
Tento ler.
Bukowski.
Continuo pensando nas meninas lésbicas.
Peço outro expresso.
Fecha o ciclo na cena inicial dessa merda.
Tomara que o filme seja bom, já coloquei 9 reais na conta da familia Moreira Salles.
Filhos da Puta.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Boa praça é praça pública! - Dizia ele.
Certa vez conheci um senhor, bastante respeitável, que atendia pela alcunha de Nogueira. Grande Nogueira! Era assim que eu o cumprimentava nas vezes que ele chegava ao banco da praça onde eu me recostava dia após dia, pois não tinha nada mais o que fazer.
O senhor Nogueira era um homem bastante sério, mas, acima de tudo, era um homem sensato ao extremo. Tão sensato era que eu não pude recusar a concórdia quando ele proferiu numa manhã nebulosa, a sua teoria pragmática sobre a sua sociedade de justiça. Começava assim seu discurso:
- Meu Caro Antunes! Temos que reduzir a sociedade apenas ao necessário, o básico do básico por assim dizer! Falava ele gesticulando grosseiramente como se mo quisesse impor a argumentação a força. Veja só, Antunes! Quantos bares a nossa volta, vendendo salgados e sucos que de tão parecidos não seria possível precisar a procedência se eu vos trouxesse aqui. E pra que tudo isso? Hã?! Por uma variação mínima de preço e de localização, por uma simples questão de mercado. Ande lá! Ao final do dia, são toneladas e toneladas de salgados jogados fora porque a relação de demanda e oferta não pode coincidir. Há sempre o excedente ou a recessão! E não bastasse isso, tem-se essa maldita exigência de alcançar níveis cada vez maiores de oferta e também demanda. É tudo um grande absurdo. -
Eu, do baixo de uma ingenuidade que não me permitiria prever o sopetão da resposta daquele nobre parlamentar, perguntei: - Escuta aqui Nogueira, o que exatamente você está sugerindo?! Que se extinguissem os bares? E onde esse povo todo iria comer os seus salgados engordurados e os turvos sucos que ali se serve?! Acho exagero seu, esse número de tonelada dado ao desperdício que se tem ao fim do dia. Afinal, são apenas alguns bares, seis ou sete, não mais do que oito certamente.
Então, Nogueira arregalou os olhos e eu pude prever a algaravia que me atropelaria por aquele canal. Ele olhou pro céu abrindo os braços como se perguntasse a Deus de onde vinha tamanha estupidez e olhando novamente na altura de meus olhos inseguros, disse-me: - Donde tirastes tamanha estapafúrdia meu jovem? Pensas assim pois tens os olhos fechados para as macro dimensões dessa enorme cadeia a que chamamos sociedade. Temos, por certo, apenas sete ou oito desses bares por aqui, mas ao final do próximo quarteirão somam-se vinte, e mais outro quarteirão quarenta, logo seria possível encher a Lagoa Rodrigo de Freitas apenas com um tipo desses salgados que sobram ao fim do expediente. Que seja um "joelho", digamos, seria uma enorme piscina de massa, queijo e presunto, e a tal tonelada que eu havia cantado te pareceria mingua de um pobre sovina comparada a isso. E quanto a proposta de extinção dos bares, não era exatamente isso que eu tinha em mente. É um fato que as pessoas precisam comer, mas que comam a mesma coisa, no mesmo lugar, e pelos mesmos preços. Ora, o que é bom o bastante para o estômago de um pobre coitado, deve ser bom o bastante para as entranhas de um executivo engravatado. Ou não somos mesmo feitos da mesma matéria? Bastava, então, que existisse por essas bandas um único bar. Melhor, que fosse o tipo do lugar onde se come e bebe, e fosse apenas uma pequena variedade de comidas e bebidas, respeitando assim as variantes alérgicas dos organismos a que se queiram dirigir. Chamar-lho-íamos refeitório, e vá lá! -
Ouvia-o admirado. Quanta eloqüência ele demolhava por entre os pontos e as vírgulas; era, sem dúvida, um orador de boca parruda. Tinha até mesmo a minúcia de salvaguardar os alérgicos em seu projeto. Havia-me, ainda, detalhado seus calculados sistemas de organização responsáveis pelo mínimo de desperdício e o máximo de eficiência. Um pragmatismo admirável para um senhor que trazia sobre o torso um "vistoso" terno que dava, à guisa de um par exagerado de ombreiras, um aspecto um tanto patético a um homem que dizia trazer a próspera solução para um mundo melhor. Mas não um mundo ideal, veja bem! Ele ratificava sempre que podia sua descrença nos modos utópicos que por outras bandas se impregnavam de um discurso batido e ultrapassado sobre mercado livre ou mesmo uma declaração acintosamente cínica sobre as liberdades de escolha em um socialismo como aquele. Sabia dos estorvos de uma sociedade sem tantas variedades, que talvez não fosse possível por lá ouvir Hermeto Pascoal enquanto comesse uma boa rosquinha sabor chocolate, mas que se substituísse a rosquinha por cream cracker e o Hermeto Pascoal desse lugar a uma velha senhora tocando minuetos de Bach ao violino na praça, o que não se poderia admitir era o desperdício e a fome - tudo menos isso.
A sua metodologia não era a torto e a direito como diziam as línguas mais ásperas naquela praça pública. Tinha o encanto particular dos detalhes mais diligentes de sabedoria econômica e social. E resumia-se numa simples assertiva: "Temos que reduzir a sociedade apenas ao necessário, o básico do básico por assim dizer!"
Que belo praça teríamos no comando se o elegêssemos presidente da república.
O senhor Nogueira era um homem bastante sério, mas, acima de tudo, era um homem sensato ao extremo. Tão sensato era que eu não pude recusar a concórdia quando ele proferiu numa manhã nebulosa, a sua teoria pragmática sobre a sua sociedade de justiça. Começava assim seu discurso:
- Meu Caro Antunes! Temos que reduzir a sociedade apenas ao necessário, o básico do básico por assim dizer! Falava ele gesticulando grosseiramente como se mo quisesse impor a argumentação a força. Veja só, Antunes! Quantos bares a nossa volta, vendendo salgados e sucos que de tão parecidos não seria possível precisar a procedência se eu vos trouxesse aqui. E pra que tudo isso? Hã?! Por uma variação mínima de preço e de localização, por uma simples questão de mercado. Ande lá! Ao final do dia, são toneladas e toneladas de salgados jogados fora porque a relação de demanda e oferta não pode coincidir. Há sempre o excedente ou a recessão! E não bastasse isso, tem-se essa maldita exigência de alcançar níveis cada vez maiores de oferta e também demanda. É tudo um grande absurdo. -
Eu, do baixo de uma ingenuidade que não me permitiria prever o sopetão da resposta daquele nobre parlamentar, perguntei: - Escuta aqui Nogueira, o que exatamente você está sugerindo?! Que se extinguissem os bares? E onde esse povo todo iria comer os seus salgados engordurados e os turvos sucos que ali se serve?! Acho exagero seu, esse número de tonelada dado ao desperdício que se tem ao fim do dia. Afinal, são apenas alguns bares, seis ou sete, não mais do que oito certamente.
Então, Nogueira arregalou os olhos e eu pude prever a algaravia que me atropelaria por aquele canal. Ele olhou pro céu abrindo os braços como se perguntasse a Deus de onde vinha tamanha estupidez e olhando novamente na altura de meus olhos inseguros, disse-me: - Donde tirastes tamanha estapafúrdia meu jovem? Pensas assim pois tens os olhos fechados para as macro dimensões dessa enorme cadeia a que chamamos sociedade. Temos, por certo, apenas sete ou oito desses bares por aqui, mas ao final do próximo quarteirão somam-se vinte, e mais outro quarteirão quarenta, logo seria possível encher a Lagoa Rodrigo de Freitas apenas com um tipo desses salgados que sobram ao fim do expediente. Que seja um "joelho", digamos, seria uma enorme piscina de massa, queijo e presunto, e a tal tonelada que eu havia cantado te pareceria mingua de um pobre sovina comparada a isso. E quanto a proposta de extinção dos bares, não era exatamente isso que eu tinha em mente. É um fato que as pessoas precisam comer, mas que comam a mesma coisa, no mesmo lugar, e pelos mesmos preços. Ora, o que é bom o bastante para o estômago de um pobre coitado, deve ser bom o bastante para as entranhas de um executivo engravatado. Ou não somos mesmo feitos da mesma matéria? Bastava, então, que existisse por essas bandas um único bar. Melhor, que fosse o tipo do lugar onde se come e bebe, e fosse apenas uma pequena variedade de comidas e bebidas, respeitando assim as variantes alérgicas dos organismos a que se queiram dirigir. Chamar-lho-íamos refeitório, e vá lá! -
Ouvia-o admirado. Quanta eloqüência ele demolhava por entre os pontos e as vírgulas; era, sem dúvida, um orador de boca parruda. Tinha até mesmo a minúcia de salvaguardar os alérgicos em seu projeto. Havia-me, ainda, detalhado seus calculados sistemas de organização responsáveis pelo mínimo de desperdício e o máximo de eficiência. Um pragmatismo admirável para um senhor que trazia sobre o torso um "vistoso" terno que dava, à guisa de um par exagerado de ombreiras, um aspecto um tanto patético a um homem que dizia trazer a próspera solução para um mundo melhor. Mas não um mundo ideal, veja bem! Ele ratificava sempre que podia sua descrença nos modos utópicos que por outras bandas se impregnavam de um discurso batido e ultrapassado sobre mercado livre ou mesmo uma declaração acintosamente cínica sobre as liberdades de escolha em um socialismo como aquele. Sabia dos estorvos de uma sociedade sem tantas variedades, que talvez não fosse possível por lá ouvir Hermeto Pascoal enquanto comesse uma boa rosquinha sabor chocolate, mas que se substituísse a rosquinha por cream cracker e o Hermeto Pascoal desse lugar a uma velha senhora tocando minuetos de Bach ao violino na praça, o que não se poderia admitir era o desperdício e a fome - tudo menos isso.
A sua metodologia não era a torto e a direito como diziam as línguas mais ásperas naquela praça pública. Tinha o encanto particular dos detalhes mais diligentes de sabedoria econômica e social. E resumia-se numa simples assertiva: "Temos que reduzir a sociedade apenas ao necessário, o básico do básico por assim dizer!"
Que belo praça teríamos no comando se o elegêssemos presidente da república.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Um breve Romance chamado Poema
Sua mão corria pelo papel, enquanto a cabeça vagueava por algum estranho mundo (A bem da verdade, não havia ali papel, Mas era o mesmo mundo possível entre um movimento primitivo de lápis e o percutir barulhento do teclado de que dispunha).
Essa alma que sibila noturna
é a mesma que de dia se cala
pois no afã a poesia é inoportuna
tanto quanto no silêncio gala
"Doce sonoridade essa que me toca. Doce é a semântica confusa dessa arte de arautos, dessa prosa em métrica. Doce a poesia me descreve e descreve-me os sentimentos como nem o mais naturalista. Doce é o doce dessa tese." - Pensava ele. Pensava alto, pois gostava de ouvir seus próprios pensamentos retornados sonoramente das paredes que o cercava. E continuava a escrever, aos poucos, pois lançava cada verso como impusesse ao mundo um grande fardo e, ao mesmo tempo, o salvasse a cada rima.
Conto as palavras que conto
numerosas como no altar as velas
Não apenas as do feito, as do pronto
conto-as todas, cada uma delas
E ele realmente as contava. Não que tivesse algum apego particular a uma métrica severamente inútil, mas porque se permitia "criar" o próprio processo. Considerava os versos e as sílabas cortadas como considerasse os filhos mortos em guerra. E os pensamentos que passavam ao largo eram como abortos, chorados a cada partida, pois não os podia salvar. Não a todos.
E se essa arte pulcra engana a vista
é pelo que declara e não pelo que descreve
pois antes que o leitor cansado possa e desista
ela, a que evita e comede, é - enfim - quem mais se atreve
Segurou os olhos com minúcia exagerada naquela ultima sentença - a que acabara de escrever. Havia-a lido em voz alta e não parecia tão extensa quanto fazia saltar naquela tela que enfrentava agora, diante de si, repleta das palavras. Contou-as, novamente, as do último verso e constatou enfastiado aquele excesso. "Muitas palavras! Isso não deve estar certo. Exacto. Perfeito. Não deve estar! Recto. Conciso. Preciso. Não está, certamente não está!" Repetia-se ele, pois não tinha para com a autocrítica em pensamento a mesma temperança dos versos que esculpia no branco da folha. Refez-se do influxo genioso de artista que era e voltou a tempo da sintaxe decisiva.
...antes que o leitor cansado possa e desista...
E, novamente, vinha-lhe a cabeça aquela tese desmedida que antes se formara no enredo. "'ela, a que evita e comede, é - enfim...' Enfim?! Não deve existir palavra mais sem propósito que essa! Ora, 'a que evita e comede'...mas que graça!" Ria-se de uma ironia que ali se fazia em relevo, não obstante o riso fosse, em verdade, o lamento amargurado daquele que incompreendia a própria obra. Percebeu que o termo "enfim" e a passagem "a que evita e comede" não poderiam coexistir naquela peça sob a mácula de tornar-se o próprio poema insuportável para ele mesmo (e quem há de negar que os poetas escrevem para si e não para o mundo? Que são vítimas do claustro da própria personalidade e não o quinhão envaidecido de uma academia de letras?).
Reescreveu mais uma vez, e outra, e mais uma. E entre os cortes e as voltas, entre substituições e enxertos percebeu que não poderia arrancar dali o "enfim" sem que isso lhe custasse todo o amor que trazia pelo texto, pois era do "enfim" que sentiria mais falta, se lho ordenasse sumir. Também a passagem que o contradizia não poderia afastar-se, já que era - com o acento caprichoso de uma pausa (entre vírgulas) - o predicado enunciado de toda a questão, de todo o poema.
Pois, dessa razão destilou um novo sentido e, sem mudar a extensão precisa de seu trajeto, que era espaço antes de ser edifício, que era lacuna antes de ser coluna, retraçou - palavra a palavra - o mais belo e coeso trabalho que já havia escrito e que, assim, terminara:
...antes que o leitor cansado possa e desista
ela, a que evita e excede, é - enfim - quem mais se atreve
Essa alma que sibila noturna
é a mesma que de dia se cala
pois no afã a poesia é inoportuna
tanto quanto no silêncio gala
"Doce sonoridade essa que me toca. Doce é a semântica confusa dessa arte de arautos, dessa prosa em métrica. Doce a poesia me descreve e descreve-me os sentimentos como nem o mais naturalista. Doce é o doce dessa tese." - Pensava ele. Pensava alto, pois gostava de ouvir seus próprios pensamentos retornados sonoramente das paredes que o cercava. E continuava a escrever, aos poucos, pois lançava cada verso como impusesse ao mundo um grande fardo e, ao mesmo tempo, o salvasse a cada rima.
Conto as palavras que conto
numerosas como no altar as velas
Não apenas as do feito, as do pronto
conto-as todas, cada uma delas
E ele realmente as contava. Não que tivesse algum apego particular a uma métrica severamente inútil, mas porque se permitia "criar" o próprio processo. Considerava os versos e as sílabas cortadas como considerasse os filhos mortos em guerra. E os pensamentos que passavam ao largo eram como abortos, chorados a cada partida, pois não os podia salvar. Não a todos.
E se essa arte pulcra engana a vista
é pelo que declara e não pelo que descreve
pois antes que o leitor cansado possa e desista
ela, a que evita e comede, é - enfim - quem mais se atreve
Segurou os olhos com minúcia exagerada naquela ultima sentença - a que acabara de escrever. Havia-a lido em voz alta e não parecia tão extensa quanto fazia saltar naquela tela que enfrentava agora, diante de si, repleta das palavras. Contou-as, novamente, as do último verso e constatou enfastiado aquele excesso. "Muitas palavras! Isso não deve estar certo. Exacto. Perfeito. Não deve estar! Recto. Conciso. Preciso. Não está, certamente não está!" Repetia-se ele, pois não tinha para com a autocrítica em pensamento a mesma temperança dos versos que esculpia no branco da folha. Refez-se do influxo genioso de artista que era e voltou a tempo da sintaxe decisiva.
...antes que o leitor cansado possa e desista...
E, novamente, vinha-lhe a cabeça aquela tese desmedida que antes se formara no enredo. "'ela, a que evita e comede, é - enfim...' Enfim?! Não deve existir palavra mais sem propósito que essa! Ora, 'a que evita e comede'...mas que graça!" Ria-se de uma ironia que ali se fazia em relevo, não obstante o riso fosse, em verdade, o lamento amargurado daquele que incompreendia a própria obra. Percebeu que o termo "enfim" e a passagem "a que evita e comede" não poderiam coexistir naquela peça sob a mácula de tornar-se o próprio poema insuportável para ele mesmo (e quem há de negar que os poetas escrevem para si e não para o mundo? Que são vítimas do claustro da própria personalidade e não o quinhão envaidecido de uma academia de letras?).
Reescreveu mais uma vez, e outra, e mais uma. E entre os cortes e as voltas, entre substituições e enxertos percebeu que não poderia arrancar dali o "enfim" sem que isso lhe custasse todo o amor que trazia pelo texto, pois era do "enfim" que sentiria mais falta, se lho ordenasse sumir. Também a passagem que o contradizia não poderia afastar-se, já que era - com o acento caprichoso de uma pausa (entre vírgulas) - o predicado enunciado de toda a questão, de todo o poema.
Pois, dessa razão destilou um novo sentido e, sem mudar a extensão precisa de seu trajeto, que era espaço antes de ser edifício, que era lacuna antes de ser coluna, retraçou - palavra a palavra - o mais belo e coeso trabalho que já havia escrito e que, assim, terminara:
...antes que o leitor cansado possa e desista
ela, a que evita e excede, é - enfim - quem mais se atreve
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
A fístula
Havia um fantasma rondando sua cabeça. Dizia-lhe o que escrever, como escrever e escrevia, ele mesmo o fantasma, assumindo os dedos e os punhos do senhor ao seu alcance. Assim, costumava descrever ele suas crises de ansiedade que eram frequentemente seguidas de alguma repetição sem sentido apenas porque um homem assim possuído demanda ocupação menos ofensiva que seus próprios pensamentos.
A mínima sugestão de que alguma verdade exalava de suas palavras dava-lhe conforto maior ao abdômen, enquanto as pernas convulsas se rebatiam numa velocidade cada vez menor, conforme a calma se restabelecia findo mais um parágrafo a espera do próximo espasmo, que resultaria em outra descrição aparentemente inútil de sua condição doentia.
Era, no entanto, um fremir intermitente na boca do estômago que lhe parecia roubar de si seu comando. Aquela sensação indeterminada, cuja manifestação eminentemente física o faria contestar qualquer diagnóstico que lhe desse como origem um pensamento, o fazia perder o direito sobre aquelas palavras as quais ele tentava, inutilmente, dar o sentido de uma história. Imaginava, sempre frustrado por um condicionamento particular de sua doença, dar início a uma narrativa concisa onde todo aquele vigor nascido das contrações musculares e de distúrbios nervosos tomariam lugar em uma história cheia de vida e pulsante.
Pulsavam, em todo caso, apenas os dedos diante das teclas.
A frágil existência de um corpo, esse que se deixava evidente nas indeterminações de sua vontade, não era suficiente para que aqueles pensamentos que lhe assaltavam em imagens e vozes tivessem forma de discurso ou expressassem mais do que os devaneios de uma ansiedade transbordante e sem centro. Podia apenas impressionar-se com uma capacidade absolutamente inconsciente de utilizar a linguagem de forma minimamente inteligível, mas logo depois a impressão lhe fugia e precisava ele se perguntar se fazia aquilo algum sentido. Especulava a atenção de um leitor tão doente quanto ele mesmo, que reconheceria naqueles termos sua própria doença e, então, sentia-se inundado por uma vaidade lasciva que o dilacerava as entranhas por meio de um julgamento impróprio: Deveria mesmo um homem naquele estado ocupar-se com os pensamentos de um possível leitor?
Após mais um parágrafo, olhava ao relógio e percebia que o tempo não lhe estava a favor. O sono, a calma, ou qualquer condição que o pudesse ausentar daquele movimento quase ininterrupto das vísceras, dos ossos e de tudo mais que tivesse lugar dentro do corpo, não estavam lá. A história prometida, onde um provável personagem se fizesse de motivações cabíveis em uma ação que justificasse qualquer atenção de um leitor qualquer, muito menos.
As vezes tinha a impressão de que as palavras que fugiam aos dedos irriquietos das mãos poderiam também vir dos dedos dos pés, que se mexiam na mesma proporção e velocidade. E nesse momento percebia que a doença se manifestava em palavras, repercutiam aqueles espasmos como uma reação cutânea que tem lugar num tecido infectado. As palavras eram o próprio pus que o corpo expelia conforme a ansiedade se debatia com aqueles membros sem dono, órfãos de um comando mais digno ou um comando qualquer.
Razão é placebo; homeopatia leviana que se esvai na mesma proporção que o adocicado que a acompanha no paladar.
O coitado seguiria perdendo o controle das suas ações mesmo quando os dedos largassem a faina obcecada dos períodos e tempos verbais, e a ansiedade se refletiria em alguma outra atividade de objetivo oculto. Faria a barba dezenas de vezes, até que pequenos cortes evidenciassem o absurdo e a destemperança que o levariam em seguida até o chuveiro, e depois mais dezoito vezes quando findaria também o terceiro e último sabonete a disposição; devoraria tudo quanto fosse comestível na despensa; cortando as unhas dos pés e das mãos se sentiria pequeno porquanto apenas vinte dedos se fizessem a disposição: eles pareciam tão mais numerosos diante das teclas – pensava ele; contaria todos os azulejos da cozinha, do banheiro e depois da área de serviço e, inutilmente, se faria perder nesses números que esqueceria logo em seguida conforme esquecia também... Pois quando o esperado sono finalmente o alcançasse ele já estaria tão longe daqui que nenhuma palavra se poderia fazer ecoar - senão o silêncio.
A mínima sugestão de que alguma verdade exalava de suas palavras dava-lhe conforto maior ao abdômen, enquanto as pernas convulsas se rebatiam numa velocidade cada vez menor, conforme a calma se restabelecia findo mais um parágrafo a espera do próximo espasmo, que resultaria em outra descrição aparentemente inútil de sua condição doentia.
Era, no entanto, um fremir intermitente na boca do estômago que lhe parecia roubar de si seu comando. Aquela sensação indeterminada, cuja manifestação eminentemente física o faria contestar qualquer diagnóstico que lhe desse como origem um pensamento, o fazia perder o direito sobre aquelas palavras as quais ele tentava, inutilmente, dar o sentido de uma história. Imaginava, sempre frustrado por um condicionamento particular de sua doença, dar início a uma narrativa concisa onde todo aquele vigor nascido das contrações musculares e de distúrbios nervosos tomariam lugar em uma história cheia de vida e pulsante.
Pulsavam, em todo caso, apenas os dedos diante das teclas.
A frágil existência de um corpo, esse que se deixava evidente nas indeterminações de sua vontade, não era suficiente para que aqueles pensamentos que lhe assaltavam em imagens e vozes tivessem forma de discurso ou expressassem mais do que os devaneios de uma ansiedade transbordante e sem centro. Podia apenas impressionar-se com uma capacidade absolutamente inconsciente de utilizar a linguagem de forma minimamente inteligível, mas logo depois a impressão lhe fugia e precisava ele se perguntar se fazia aquilo algum sentido. Especulava a atenção de um leitor tão doente quanto ele mesmo, que reconheceria naqueles termos sua própria doença e, então, sentia-se inundado por uma vaidade lasciva que o dilacerava as entranhas por meio de um julgamento impróprio: Deveria mesmo um homem naquele estado ocupar-se com os pensamentos de um possível leitor?
Após mais um parágrafo, olhava ao relógio e percebia que o tempo não lhe estava a favor. O sono, a calma, ou qualquer condição que o pudesse ausentar daquele movimento quase ininterrupto das vísceras, dos ossos e de tudo mais que tivesse lugar dentro do corpo, não estavam lá. A história prometida, onde um provável personagem se fizesse de motivações cabíveis em uma ação que justificasse qualquer atenção de um leitor qualquer, muito menos.
As vezes tinha a impressão de que as palavras que fugiam aos dedos irriquietos das mãos poderiam também vir dos dedos dos pés, que se mexiam na mesma proporção e velocidade. E nesse momento percebia que a doença se manifestava em palavras, repercutiam aqueles espasmos como uma reação cutânea que tem lugar num tecido infectado. As palavras eram o próprio pus que o corpo expelia conforme a ansiedade se debatia com aqueles membros sem dono, órfãos de um comando mais digno ou um comando qualquer.
Razão é placebo; homeopatia leviana que se esvai na mesma proporção que o adocicado que a acompanha no paladar.
O coitado seguiria perdendo o controle das suas ações mesmo quando os dedos largassem a faina obcecada dos períodos e tempos verbais, e a ansiedade se refletiria em alguma outra atividade de objetivo oculto. Faria a barba dezenas de vezes, até que pequenos cortes evidenciassem o absurdo e a destemperança que o levariam em seguida até o chuveiro, e depois mais dezoito vezes quando findaria também o terceiro e último sabonete a disposição; devoraria tudo quanto fosse comestível na despensa; cortando as unhas dos pés e das mãos se sentiria pequeno porquanto apenas vinte dedos se fizessem a disposição: eles pareciam tão mais numerosos diante das teclas – pensava ele; contaria todos os azulejos da cozinha, do banheiro e depois da área de serviço e, inutilmente, se faria perder nesses números que esqueceria logo em seguida conforme esquecia também... Pois quando o esperado sono finalmente o alcançasse ele já estaria tão longe daqui que nenhuma palavra se poderia fazer ecoar - senão o silêncio.
sábado, 14 de janeiro de 2012
O herói de papel
Aquele era Bruce Wayne de frente para sua escrivaninha excessivamente ornada no melhor estilo Luis XV, e é de se imaginar que tenha pertencido ao próprio, uma vez que o atual dono, homem cuja fortuna só não era maior que a vaidade, não teria razão nenhuma para tê-la – a escrivaninha – não fosse de fato uma peça rara e de valor histórico.
Acima da “pequena mesa” um computador reluzia em contraste evidente com a antiguidade que o suportava e se mantinha ao alcance da vista do homem, que lia com atenção modesta as páginas policiais do principal jornal de Gotham quando Alfred, seu mordomo e conselheiro, bateu a porta delicadamente três vezes. Bruce fez dizer que entrasse e tão logo o senhor alcançou com a perna direita o piso do aposento, perguntou-lhe o patrão o que lhe queria dizer ou mostrar. Nesse instante, o mordomo tirou do bolso da calça um pequeníssimo pendrive preto, que combinava propositadamente com seu uniforme de serviço, encaixou-o no computador e de lá extraiu um arquivo de extensão .BTE (BatText Editor), isso porque esse figurão das indústrias Wayne era demasiadamente orgulhoso de sua influência e poder para dispor de uma ferramenta popular como o Microsoft Office. Aliás, fazia alguns anos que uma disputa particular se acirrava entre a Microsoft e as Indústrias Wayne, que brigavam pela hegemonia do mercado de softwares da cidade de Gotham.
Bom, abrindo os arquivos, Wayne se deparou com dois links (http://www.elephantiase.blogspot.com/2009/09/saga-do-homem-morcego-no-1.html e http://www.elephantiase.blogspot.com/2011/05/saga-do-homem-morcego-no-2.html ) que quando explorados levaram ele ao pouco conhecido blog de um jovem escritor brasileiro. Com alguma dificuldade o milionário venceu o português que se apresentava nos textos, mas identificando logo a primeira vista os títulos, que pareciam indicar que o enredo ali tinha como razão ele mesmo, o multimilionário que à noite, em nome da justiça (de alguma justiça), se travestia de homem-morcego. Seguindo a leitura, uma primeira risada escapou-lhe por entre os dentes. Não fora, todavia, um riso de graça. Um ecoar um tanto macabro, em verdade, dava aquela risada ares de uma legítima reprovação, mas também porque o pé direito alto, como era o da mansão de Bruce Wayne, favorecia aquela sonoridade em particular.
O texto, afinal, dizia desse mesmo Batman, cujos olhos agora ausentes da moldura de uma máscara enfrentavam aquelas inventivas palavras a respeito de um super-herói burguês mal contextualizado nos arredores da Central do Brasil. Teria ignorado completamente a menção ao lugar se sua memória não houvesse encontrado a lembrança de filme homônimo, que alguns anos antes havia sido recomendado a ele por Alfred, esse sim um profundo conhecedor da cultura brasileira, do que se justifica, aliás, que tais textos tenham chegado ao conhecimento do oportuno mordomo.Finda a leitura, delegou ao seu prestigiado funcionário: “Prepare minha Bat-Nave!”
Ora, o sagacíssimo autor havia sugerido, a certa altura do texto, que os maiores vilões (maiores mesmo que seu arqui-inimigo Pingüim) eram aqueles que circulavam pelos arredores da Cinelândia. Não querendo crer nisso e na intenção de provar que aqueles eram criminosos ordinários, fez dirigir-se para lá o poderoso Batman, afim de derrotar esses oponentes em vista - apenas utilizando seus braços e pernas. Julgou, com efeito, que não seriam necessárias nem ao menos as ferramentas de seu famoso cinto de utilidades, mas levou-o, assim mesmo, posto que além das estimadíssimas ferramentas que se dispunham naquele cinto, tinha ele a função, comum a quase todos os cintos, de segurar-lhe as calças. E como todo bom super-herói sabia que nenhum outro meio digno há para manter no homem (Super-homem que seja!) as calças no lugar onde devem ficar, ainda quando as cuecas lhe forram por cima. Lembrou-se, então, novamente de seu eterno adversário Pingüim que recorria ao expediente de suspensórios para manter-lhe as vestes junto à cintura, e pensou: “Tais suspensórios só não lhe são a maior perversão porque o delinqüente carrega e manuseia um guarda-chuvas mesmo quando o clima árido anuncia completa impossibilidade de precipitação.”
Vestido à caráter, chegou Batman ao local. Desceu da nave e andou até o centro da praça na Cinelândia e esperou que os inimigos se anunciassem com seus caracteres apodrecidos e suas vis intenções. Não precisou esperar muito, pois logo apareceram três “senhores” mal encarados e não fizeram nem mesmo menção a anúncio formal de seus nomes e seus talentos, partiram sem piedade pra cima do homem-morcego que foi brutalmente espancado; roubaram-lhe a carteira (que dessa vez viera no bolso junto com as chaves da Bat-Nave) e rasgaram-lhe todo o uniforme. Demorou a entender como anti-heróis como aqueles, sem elaborada alcunha, frases mirabolantes acompanhando seus ágeis ataques, poderes ou armas de digno refinamento conseguiram-lhe vencer em tão grosseira investida. E como ele, o caro leitor deve agora se estar espantado não apenas com o resultado da peleja, mas, sobretudo, com a facilidade da resolução.
Eis, pois, a razão das coisas conforme esse honestíssimo autor lhos anuncia: aquele não era Batman, e por baixo daquelas vestes o homem não se chamava Bruce, nem tinha Wayne por sobrenome. Atendia pela alcunha de Dudu na agência bancária em que trabalhava e se, naquele instante, vestia-se conforme um Batman no centro de uma Cinelândia escura e quase deserta era porque comprara na semana anterior a fantasia e fora levado até ali por um táxi desde o Rio Comprido onde morava, e quando o próprio taxista se houve espantado com o traje de seu passageiro, teve por bom e inocente julgamento concluído que o homem se encaminhava para nenhum lugar que não uma festa a fantasia. Mas a verdade é que o bancário, elegendo-se como homem da justiça e tomado por surto que o fizera identificar-se com o temido e autoritário Batman, tinha em mente razão mais nobre, ainda que cômica ou patética, que aquela previsível de uma mera festa a fantasia.
E embora dois de seus agressores prescindissem de todas aquelas qualidades que fazem dos vilões homens de aparência tão singular, o terceiro deles matinha para com os preceitos do “bom vilanismo” o hábito indumentário, pois aquele homem usava uniforme. Irônico é que o uniforme fosse do Sport Club Corinthians, também cantado por seus torcedores como “Coringão”, que faria lembrar a um verdadeiro Batman da alcunha de seu célebre oponente nos desenhos ou histórias em quadrinho. Mas menos que a derrota do bem sob a astúcia do mal, o que incomodava ao homem era a ocasião de, em pleno Rio de Janeiro, um meliante qualquer circular como um local com a camisa de um time paulista. Daí, encerrando quaisquer dúvidas sobre a procedência desse homem-morcego em questão. Das semelhanças que pudéssemos ver nele para além da vestimenta trajada (agora em frangalhos) fica, na melhor das hipóteses, sua predileção pela noite que o fazia, quando não trabalhasse cedo na manhã seguinte, ficar até tarde acordado.
Acima da “pequena mesa” um computador reluzia em contraste evidente com a antiguidade que o suportava e se mantinha ao alcance da vista do homem, que lia com atenção modesta as páginas policiais do principal jornal de Gotham quando Alfred, seu mordomo e conselheiro, bateu a porta delicadamente três vezes. Bruce fez dizer que entrasse e tão logo o senhor alcançou com a perna direita o piso do aposento, perguntou-lhe o patrão o que lhe queria dizer ou mostrar. Nesse instante, o mordomo tirou do bolso da calça um pequeníssimo pendrive preto, que combinava propositadamente com seu uniforme de serviço, encaixou-o no computador e de lá extraiu um arquivo de extensão .BTE (BatText Editor), isso porque esse figurão das indústrias Wayne era demasiadamente orgulhoso de sua influência e poder para dispor de uma ferramenta popular como o Microsoft Office. Aliás, fazia alguns anos que uma disputa particular se acirrava entre a Microsoft e as Indústrias Wayne, que brigavam pela hegemonia do mercado de softwares da cidade de Gotham.
Bom, abrindo os arquivos, Wayne se deparou com dois links (http://www.elephantiase.blogspot.com/2009/09/saga-do-homem-morcego-no-1.html e http://www.elephantiase.blogspot.com/2011/05/saga-do-homem-morcego-no-2.html ) que quando explorados levaram ele ao pouco conhecido blog de um jovem escritor brasileiro. Com alguma dificuldade o milionário venceu o português que se apresentava nos textos, mas identificando logo a primeira vista os títulos, que pareciam indicar que o enredo ali tinha como razão ele mesmo, o multimilionário que à noite, em nome da justiça (de alguma justiça), se travestia de homem-morcego. Seguindo a leitura, uma primeira risada escapou-lhe por entre os dentes. Não fora, todavia, um riso de graça. Um ecoar um tanto macabro, em verdade, dava aquela risada ares de uma legítima reprovação, mas também porque o pé direito alto, como era o da mansão de Bruce Wayne, favorecia aquela sonoridade em particular.
O texto, afinal, dizia desse mesmo Batman, cujos olhos agora ausentes da moldura de uma máscara enfrentavam aquelas inventivas palavras a respeito de um super-herói burguês mal contextualizado nos arredores da Central do Brasil. Teria ignorado completamente a menção ao lugar se sua memória não houvesse encontrado a lembrança de filme homônimo, que alguns anos antes havia sido recomendado a ele por Alfred, esse sim um profundo conhecedor da cultura brasileira, do que se justifica, aliás, que tais textos tenham chegado ao conhecimento do oportuno mordomo.Finda a leitura, delegou ao seu prestigiado funcionário: “Prepare minha Bat-Nave!”
Ora, o sagacíssimo autor havia sugerido, a certa altura do texto, que os maiores vilões (maiores mesmo que seu arqui-inimigo Pingüim) eram aqueles que circulavam pelos arredores da Cinelândia. Não querendo crer nisso e na intenção de provar que aqueles eram criminosos ordinários, fez dirigir-se para lá o poderoso Batman, afim de derrotar esses oponentes em vista - apenas utilizando seus braços e pernas. Julgou, com efeito, que não seriam necessárias nem ao menos as ferramentas de seu famoso cinto de utilidades, mas levou-o, assim mesmo, posto que além das estimadíssimas ferramentas que se dispunham naquele cinto, tinha ele a função, comum a quase todos os cintos, de segurar-lhe as calças. E como todo bom super-herói sabia que nenhum outro meio digno há para manter no homem (Super-homem que seja!) as calças no lugar onde devem ficar, ainda quando as cuecas lhe forram por cima. Lembrou-se, então, novamente de seu eterno adversário Pingüim que recorria ao expediente de suspensórios para manter-lhe as vestes junto à cintura, e pensou: “Tais suspensórios só não lhe são a maior perversão porque o delinqüente carrega e manuseia um guarda-chuvas mesmo quando o clima árido anuncia completa impossibilidade de precipitação.”
Vestido à caráter, chegou Batman ao local. Desceu da nave e andou até o centro da praça na Cinelândia e esperou que os inimigos se anunciassem com seus caracteres apodrecidos e suas vis intenções. Não precisou esperar muito, pois logo apareceram três “senhores” mal encarados e não fizeram nem mesmo menção a anúncio formal de seus nomes e seus talentos, partiram sem piedade pra cima do homem-morcego que foi brutalmente espancado; roubaram-lhe a carteira (que dessa vez viera no bolso junto com as chaves da Bat-Nave) e rasgaram-lhe todo o uniforme. Demorou a entender como anti-heróis como aqueles, sem elaborada alcunha, frases mirabolantes acompanhando seus ágeis ataques, poderes ou armas de digno refinamento conseguiram-lhe vencer em tão grosseira investida. E como ele, o caro leitor deve agora se estar espantado não apenas com o resultado da peleja, mas, sobretudo, com a facilidade da resolução.
Eis, pois, a razão das coisas conforme esse honestíssimo autor lhos anuncia: aquele não era Batman, e por baixo daquelas vestes o homem não se chamava Bruce, nem tinha Wayne por sobrenome. Atendia pela alcunha de Dudu na agência bancária em que trabalhava e se, naquele instante, vestia-se conforme um Batman no centro de uma Cinelândia escura e quase deserta era porque comprara na semana anterior a fantasia e fora levado até ali por um táxi desde o Rio Comprido onde morava, e quando o próprio taxista se houve espantado com o traje de seu passageiro, teve por bom e inocente julgamento concluído que o homem se encaminhava para nenhum lugar que não uma festa a fantasia. Mas a verdade é que o bancário, elegendo-se como homem da justiça e tomado por surto que o fizera identificar-se com o temido e autoritário Batman, tinha em mente razão mais nobre, ainda que cômica ou patética, que aquela previsível de uma mera festa a fantasia.
E embora dois de seus agressores prescindissem de todas aquelas qualidades que fazem dos vilões homens de aparência tão singular, o terceiro deles matinha para com os preceitos do “bom vilanismo” o hábito indumentário, pois aquele homem usava uniforme. Irônico é que o uniforme fosse do Sport Club Corinthians, também cantado por seus torcedores como “Coringão”, que faria lembrar a um verdadeiro Batman da alcunha de seu célebre oponente nos desenhos ou histórias em quadrinho. Mas menos que a derrota do bem sob a astúcia do mal, o que incomodava ao homem era a ocasião de, em pleno Rio de Janeiro, um meliante qualquer circular como um local com a camisa de um time paulista. Daí, encerrando quaisquer dúvidas sobre a procedência desse homem-morcego em questão. Das semelhanças que pudéssemos ver nele para além da vestimenta trajada (agora em frangalhos) fica, na melhor das hipóteses, sua predileção pela noite que o fazia, quando não trabalhasse cedo na manhã seguinte, ficar até tarde acordado.
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