Mulheres lindas. Tudo que se movimenta no cenário urbano sobre duas lindas coxas. Vestidas a caráter, já que é o próprio cenário quem sugere o texto.
Secretárias, executivas, garçonetes...
Também as meninas. Perfeitamente ajustadas em suas roupinhas de colegial.
Desse modo elas se dispõem ao uso. Desse modo meu desejo as contempla: em plena abertura, ainda que em discreta observação.
Vestidas.
Aliás, eu nem nunca soube de caso algum onde o homem haja-se retirado da batalha após o inimigo despido. É de se supor – concluo – que pouco importa como elas são peladas.
Muito mais atento às silhuetas que ao código genético, meu desejo vai muito além de uma mera atribuição evolutiva, como a vontade de procriar. Meu desejo é desejo, antes de ter nome e antes de ser carne.
Mulheres lindas.
Lindamente vestidas.
Entre os ombros e os calcanhares, algum tecido que lhes caia sobre o corpo e que lhes esconda uma faculdade inata qualquer. Belas tetas ou uma bucetinha bem delineada.
Curvas.
E quando no momento da masturbação as realizo em uma imagem semi-sólida que se põe diante de mim, estão ainda vestidas. Despidas as faço apenas na medida do ajuste para uma penetração adequada e bem imaginada.
A imaginação deve seguir os desígnios da boa representação, assim como a pintura antiga. Parraso, por exemplo, fez de sua pintura o próprio embrulho, a própria imagem de que estava a pintura embrulhada. Ora, aquilo que se esconde também na imaginação é porque não há necessidade alguma de ser revelado.
Mas quem melhor pinta um corpo que se quer deflorado é quem sabe que a imagem transborda por todos os lados. E se algum pássaro bicou, de fato, as perfeitas uvas por Zeuxis pintadas, foi porque o espaço a volta se devia ter, também, muito bem representado.
Já eu tenho a imaginação débil. Por isso, sou obrigado a montar esse roteiro em que as moças são conduzidas sob argumentação razoável até o meu banheiro, onde a imagem tecida ao esforço da memória é situada pelo cenário tangível em que posso me satisfazer a portas trancadas.
É mesmo uma pena.
Meu desejo por elas é indissociável da imagem primeira, aquela em que não as tinha. Imagens inacessíveis ao contato do corpo declarado.
Na rua.
No ônibus.
No banheiro feminino, através da janela deixada pela porta entreaberta – E seria essa mesma a moldura desse quadro capturado. Não se poderia roubar a paisagem ao fundo sem que o contexto do desejo também se alterasse. Seria um outro desejo, portanto. Um desejo distinto...
Bem aventurados aqueles que se masturbam em público, pois, ali, a imaginação os toca na origem e na origem ela é também tocada. O meu pudor, no entanto, não me permite esse recurso hábil - embora o testemunho diga o contrário em meus registros escolares.
sábado, 28 de agosto de 2010
sábado, 7 de agosto de 2010
O Colosso de Rhodes
Entre julho e agosto daquele ano, qualquer um que circulasse pelos arredores do Castelo, desde o Museu de Belas Artes até o Tribunal da Justiça Eleitoral, teria a desfelicidade de encontrar a velhinha em questão. “Desfelicidade” não porque fosse velha e, certamente, não por desgosto a senhora – que tão mal não fazia a ninguém – mas pelo súbito questionamento ao termo humanidade com o qual se depararia um que fosse, assim, afeito a questionamentos.
O andar vagaroso acusava a debilidade do corpo, que se mantinha arqueado numa rigidez tão plena que nos fazia imaginar os ossos petrificados na forma de parábola tal que o olhar da mulher não poderia subir acima dos ombros de um que alcançasse pelo menos um metro e setenta de altura. Mas era o aspecto ímprobo das roupas da senhora que dava a tonalidade miserável e a tez anti-social da personagem. De fato, abuso seria até mesmo chamar “roupas” àqueles trajes, que se constituíam de dois pedaços de tecido – possivelmente antigos lençóis, puídos pela usura do tempo – enrolados desde os ombros até a cintura, um de cada lado, de forma que se cruzassem ali na região dos quadris, descendo pelas pernas conforme alguma espécie de saia pouco ajustada. Do improviso oportuno, ainda que o tétrico e o trágico tão prontamente se exprimissem naquela figura – que tão engenhosamente ajustara as “roupas de cama” ao corpo -, sobrava-lhe alguma dose de comicidade e seria permitido até rir da senhora, não fossem os últimos traços de dignidade roubados por um único tablete de balas halls que a velha trazia não mão esquerda estendida, como se o oferecesse em troca de algumas moedas para as quais a mão direita se mostrava em espera, segurando, um pouco abaixo dos ombros, um copo plástico descartável.
Os cabelos brancos, que se podia pensar serem cinzas dado o estado de encardimento em que se encontravam, interrompiam-se nos ombros e pareciam ignorar os pesarosos movimentos da cabeça, petrificados tal como os ossos que sustentavam aquela carcaça. Os olhos baixos escapavam por baixo das pálpebras semi-cerradas e alcançavam timidamente os olhos dos passantes. Haveria o passante, no entanto, de fazer certo esforço e inclinar-se um pouco diante da senhora se pretendesse encará-la, quem sabe, em aceno de humanidade que se pediria acompanhado do gesto de colocar algumas moedas no copo que a mão segurava - e isso, ignorando o tablete de halls que se estendia junto à outra mão, como que oferecido como objeto de troca na transação que se sugeria. Então, a velha sacudiria – não sem alguma dificuldade – o copo em reposta de agradecimento e continuaria sua peregrinação na mesma forma esculpida em que o corpo se apresentava - duro como o mármore -, sem que os braços deixassem a posição do trato, estendidos até quando o caminho era vazio e silencioso – como a própria protagonista da história - numa tarde de domingo no centro do Rio.
O recurso era claro. As esmolas eram parcimoniosamente mendigadas, já que na mão esquerda o tablete de halls, visivelmente amarrotado pelo manuseio constante, se queria afirmar como produto de venda. Não era, e o mais insensível dos homens poderia reconhecer o mecanismo pelo qual a senhora intentava se resguardar de algum acanhamento de cunho moral. Bem, talvez não o mais insensível dos homens...
Certo dia, parou-se diante da velha um rapaz de terno e gravata com o rosto liso, marcado, talvez, apenas pela ingenuidade dos seus vinte e poucos anos, tirou do bolso a moeda de maior valor e depositou no copo da senhora. Mas antes que a cena estivesse terminada, surpreendentemente, o rapaz levou a mão direita ao pacote que se comprimia na mão esquerda da velha e segurou. A fotografia em que velha e rapaz compartilhavam estáticos o mesmo tablete de halls, dividido entre a mão esquerda da senhora e a mão direita do jovem, durou cerca de dois segundos, quando veio, então, seguida de duas ou três tentativas, por parte do jovem, de tomar o pacote da mão da senhora. A velha apertou como nunca aqueles dedos frágeis e inflexíveis e reteve as balas na mão. Foi quando o rapaz se deu conta do mal entendido, largou o pacote em questão e seguiu constrangido o seu trajeto até o escritório em que trabalhava. Constrangido não pela luta que se teve em segundos pelo pacote de balas, mas pela ausência de bom senso que o assaltou naquele momento. Afinal, aquele tablete de halls não era – ou não deveria ser – apenas mais um produto para venda através do qual esmolaria a velha, recebendo ofertas superestimadas por um mísero pacote de balas que não valia, de fato, mais que alguns centavos. Era ele, vertical e ereto como se queria a velha, o próprio símbolo de sua dignidade perdida. Um correlato material não apenas da juventude, que se esvaiu no corpo agora arqueado, mas a estandartização de uma moral empedernida, vazia e sem sentido; pilar de sustentação de um último sopro de consciência da velha, que se não era louca, lúcida tampouco era.
O andar vagaroso acusava a debilidade do corpo, que se mantinha arqueado numa rigidez tão plena que nos fazia imaginar os ossos petrificados na forma de parábola tal que o olhar da mulher não poderia subir acima dos ombros de um que alcançasse pelo menos um metro e setenta de altura. Mas era o aspecto ímprobo das roupas da senhora que dava a tonalidade miserável e a tez anti-social da personagem. De fato, abuso seria até mesmo chamar “roupas” àqueles trajes, que se constituíam de dois pedaços de tecido – possivelmente antigos lençóis, puídos pela usura do tempo – enrolados desde os ombros até a cintura, um de cada lado, de forma que se cruzassem ali na região dos quadris, descendo pelas pernas conforme alguma espécie de saia pouco ajustada. Do improviso oportuno, ainda que o tétrico e o trágico tão prontamente se exprimissem naquela figura – que tão engenhosamente ajustara as “roupas de cama” ao corpo -, sobrava-lhe alguma dose de comicidade e seria permitido até rir da senhora, não fossem os últimos traços de dignidade roubados por um único tablete de balas halls que a velha trazia não mão esquerda estendida, como se o oferecesse em troca de algumas moedas para as quais a mão direita se mostrava em espera, segurando, um pouco abaixo dos ombros, um copo plástico descartável.
Os cabelos brancos, que se podia pensar serem cinzas dado o estado de encardimento em que se encontravam, interrompiam-se nos ombros e pareciam ignorar os pesarosos movimentos da cabeça, petrificados tal como os ossos que sustentavam aquela carcaça. Os olhos baixos escapavam por baixo das pálpebras semi-cerradas e alcançavam timidamente os olhos dos passantes. Haveria o passante, no entanto, de fazer certo esforço e inclinar-se um pouco diante da senhora se pretendesse encará-la, quem sabe, em aceno de humanidade que se pediria acompanhado do gesto de colocar algumas moedas no copo que a mão segurava - e isso, ignorando o tablete de halls que se estendia junto à outra mão, como que oferecido como objeto de troca na transação que se sugeria. Então, a velha sacudiria – não sem alguma dificuldade – o copo em reposta de agradecimento e continuaria sua peregrinação na mesma forma esculpida em que o corpo se apresentava - duro como o mármore -, sem que os braços deixassem a posição do trato, estendidos até quando o caminho era vazio e silencioso – como a própria protagonista da história - numa tarde de domingo no centro do Rio.
O recurso era claro. As esmolas eram parcimoniosamente mendigadas, já que na mão esquerda o tablete de halls, visivelmente amarrotado pelo manuseio constante, se queria afirmar como produto de venda. Não era, e o mais insensível dos homens poderia reconhecer o mecanismo pelo qual a senhora intentava se resguardar de algum acanhamento de cunho moral. Bem, talvez não o mais insensível dos homens...
Certo dia, parou-se diante da velha um rapaz de terno e gravata com o rosto liso, marcado, talvez, apenas pela ingenuidade dos seus vinte e poucos anos, tirou do bolso a moeda de maior valor e depositou no copo da senhora. Mas antes que a cena estivesse terminada, surpreendentemente, o rapaz levou a mão direita ao pacote que se comprimia na mão esquerda da velha e segurou. A fotografia em que velha e rapaz compartilhavam estáticos o mesmo tablete de halls, dividido entre a mão esquerda da senhora e a mão direita do jovem, durou cerca de dois segundos, quando veio, então, seguida de duas ou três tentativas, por parte do jovem, de tomar o pacote da mão da senhora. A velha apertou como nunca aqueles dedos frágeis e inflexíveis e reteve as balas na mão. Foi quando o rapaz se deu conta do mal entendido, largou o pacote em questão e seguiu constrangido o seu trajeto até o escritório em que trabalhava. Constrangido não pela luta que se teve em segundos pelo pacote de balas, mas pela ausência de bom senso que o assaltou naquele momento. Afinal, aquele tablete de halls não era – ou não deveria ser – apenas mais um produto para venda através do qual esmolaria a velha, recebendo ofertas superestimadas por um mísero pacote de balas que não valia, de fato, mais que alguns centavos. Era ele, vertical e ereto como se queria a velha, o próprio símbolo de sua dignidade perdida. Um correlato material não apenas da juventude, que se esvaiu no corpo agora arqueado, mas a estandartização de uma moral empedernida, vazia e sem sentido; pilar de sustentação de um último sopro de consciência da velha, que se não era louca, lúcida tampouco era.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
O velho e Omar
Esquentava as mãos sobre o latão na fogueira que se sustentava ao custo de folhas de jornais velhos e dos pedaços de madeira arrancados aos antigos móveis, abandonados bem ali, naquele beco imundo. Permaneci em silêncio até que se aproximou um senhor, cuja branca barba atravessava a linha do pomo-de-adão, dobrando-se ao peito coberto com o grosso tecido de um casaco escuro. Cumprimentou-me com um aceno sutil da cabeça e pôs suas mãos sobre o fogo em compassiva atitude, compartilhando não apenas o calor necessário ao corpo enrijecido pelo frio intenso, como também a desavença com o mundo que mantinha a margem os freqüentadores daquele beco.
- A noite vai ser fria – comentou o senhor dando espaço a um assunto qualquer, como quem admitisse o diálogo antes mesmo da pauta sugesta.
- O dia já está frio – eu retruquei, lógico e agudo.
O velho riu-se, comedidamente, e me perguntou as horas. Puxei a manga do sobretudo, confirmando que já se passavam das 4 da tarde, no que fui imediatamente agradecido por ele, que logo em seguida comentou:
- Nunca te vi por aqui.
- Eu não costumo entrar por esses becos, é que hoje tive uma notícia ruim e resolvi dar uma volta pelo bairro. – respondi certo de que seu comentário implicitava a pergunta qual minhas palavras fizessem saciar.
O senhor permaneceu em silêncio. Mas o silêncio falava por si; tinha os ouvidos abertos e auscultava minha dor com todo coração. Aliás, pedia-me que desabafasse, pois éramos “Irmãos de fogo” e dividíamos juntos o calor, o frio e as dores. Afinal, por baixo de uma barba tão volumosa, devia mesmo haver um espírito nobre e doce, conforme as lendas que nos descrevem esses sábios.
Expus, então, o que me incomodava: - Não existe justiça no mundo?! Não se vestem mais os homens com o mesmo traje. A humanidade que nos devia cobrir deu lugar às fardas e hierarquias da força e da desproporção.
O velho olhou-me nos olhos e consentiu, lacônico: - É... Mundo cão!
Comecei, então, a contar-lhe o caso: - Fui demitido. Sem mais nem menos. Chamaram-me no departamento de recursos humanos e me disseram que os meus serviços não eram mais necessários. Que humanos são esses se os seus recursos são sempre os mais sórdidos? Os meus serviços não são mais necessários?! Ora essa! Nunca precisaram, de fato, de mim. Não é por necessidade que se sustentam relações como a de empregado e empregador. As pessoas precisam trabalhar, ganhar dinheiro, comprar coisas. Assim fazem trabalhos desnecessários produzindo coisas inúteis que serão compradas por outros, que produzem outras inutilidades. Então, um dia alguém chega e diz que a inutilidade daquilo que você produz é ainda mais inútil que todo o resto. Te joga na rua sem a menor culpa.
O senhor permaneceu recluso numa compostura honesta e comedida. Olhava para o fogo e dava-me de esguelha a atenção que minha história pedia. Eu continuei:
- Justiça. Justiça! É isso que falta ao mundo. Se os homens fossem mais justos... Afinal, de quantas coisas precisamos pra viver? É mesmo necessário que todos trabalhem o tempo todo? Claro que não! Bastava um revezamento planejado e trabalharíamos todos no máximo 3 meses por ano, dividindo tudo igualmente entre os homens, todos os homens. Isso sim seria justiça. –
E me excedendo, como que atribuindo necessidade maior que aquela realmente disposta sobre a atenção que o homem me dava, perguntei-lhe: - Justiça! O senhor sabe lá o que é isso?
Virou-se na minha direção e começou uma história: - Li certa vez uma história sobre um antigo reino em que certo ladrão, tendo o olho furado, acidentalmente, por um tear enquanto invadia, na escuridão da noite, uma fábrica de tecidos (por engano, já que queria, de fato, era roubar a loja de um cambista), havia reclamado justiça ao rei, porque cego de um olho não poderia agora cumprir com perfeição seu ofício, o de ladrão. O rei, comovido com a dor do ladrão, mandou que chamassem o tecelão, dono do estabelecimento, e exigiu que lhe furassem um olho para que assim se re-estabelecesse a justiça. O tecelão disse ao rei que precisava dos dois olhos para exercer seu trabalho, já que o trabalho lhe exigia aptidão com as mãos e também com os olhos, mas comentou sobre um seu vizinho que era sapateiro remendão e que, portanto, não tinha necessidade os dois olhos para o cumprimento do seu trabalho. O rei, então, mandou que chamassem o sapateiro e furaram-lhe um dos olhos. E a justiça foi feita, concluía a história – disse o velho.
Demorei um pouco a assimilar esse gênero de “sabedoria” Gibran Khalil que saltava por entre os pelos da barba do homem e, por fim, concluí eu mesmo e comigo em silêncio: “velho de merda”.
- A noite vai ser fria – comentou o senhor dando espaço a um assunto qualquer, como quem admitisse o diálogo antes mesmo da pauta sugesta.
- O dia já está frio – eu retruquei, lógico e agudo.
O velho riu-se, comedidamente, e me perguntou as horas. Puxei a manga do sobretudo, confirmando que já se passavam das 4 da tarde, no que fui imediatamente agradecido por ele, que logo em seguida comentou:
- Nunca te vi por aqui.
- Eu não costumo entrar por esses becos, é que hoje tive uma notícia ruim e resolvi dar uma volta pelo bairro. – respondi certo de que seu comentário implicitava a pergunta qual minhas palavras fizessem saciar.
O senhor permaneceu em silêncio. Mas o silêncio falava por si; tinha os ouvidos abertos e auscultava minha dor com todo coração. Aliás, pedia-me que desabafasse, pois éramos “Irmãos de fogo” e dividíamos juntos o calor, o frio e as dores. Afinal, por baixo de uma barba tão volumosa, devia mesmo haver um espírito nobre e doce, conforme as lendas que nos descrevem esses sábios.
Expus, então, o que me incomodava: - Não existe justiça no mundo?! Não se vestem mais os homens com o mesmo traje. A humanidade que nos devia cobrir deu lugar às fardas e hierarquias da força e da desproporção.
O velho olhou-me nos olhos e consentiu, lacônico: - É... Mundo cão!
Comecei, então, a contar-lhe o caso: - Fui demitido. Sem mais nem menos. Chamaram-me no departamento de recursos humanos e me disseram que os meus serviços não eram mais necessários. Que humanos são esses se os seus recursos são sempre os mais sórdidos? Os meus serviços não são mais necessários?! Ora essa! Nunca precisaram, de fato, de mim. Não é por necessidade que se sustentam relações como a de empregado e empregador. As pessoas precisam trabalhar, ganhar dinheiro, comprar coisas. Assim fazem trabalhos desnecessários produzindo coisas inúteis que serão compradas por outros, que produzem outras inutilidades. Então, um dia alguém chega e diz que a inutilidade daquilo que você produz é ainda mais inútil que todo o resto. Te joga na rua sem a menor culpa.
O senhor permaneceu recluso numa compostura honesta e comedida. Olhava para o fogo e dava-me de esguelha a atenção que minha história pedia. Eu continuei:
- Justiça. Justiça! É isso que falta ao mundo. Se os homens fossem mais justos... Afinal, de quantas coisas precisamos pra viver? É mesmo necessário que todos trabalhem o tempo todo? Claro que não! Bastava um revezamento planejado e trabalharíamos todos no máximo 3 meses por ano, dividindo tudo igualmente entre os homens, todos os homens. Isso sim seria justiça. –
E me excedendo, como que atribuindo necessidade maior que aquela realmente disposta sobre a atenção que o homem me dava, perguntei-lhe: - Justiça! O senhor sabe lá o que é isso?
Virou-se na minha direção e começou uma história: - Li certa vez uma história sobre um antigo reino em que certo ladrão, tendo o olho furado, acidentalmente, por um tear enquanto invadia, na escuridão da noite, uma fábrica de tecidos (por engano, já que queria, de fato, era roubar a loja de um cambista), havia reclamado justiça ao rei, porque cego de um olho não poderia agora cumprir com perfeição seu ofício, o de ladrão. O rei, comovido com a dor do ladrão, mandou que chamassem o tecelão, dono do estabelecimento, e exigiu que lhe furassem um olho para que assim se re-estabelecesse a justiça. O tecelão disse ao rei que precisava dos dois olhos para exercer seu trabalho, já que o trabalho lhe exigia aptidão com as mãos e também com os olhos, mas comentou sobre um seu vizinho que era sapateiro remendão e que, portanto, não tinha necessidade os dois olhos para o cumprimento do seu trabalho. O rei, então, mandou que chamassem o sapateiro e furaram-lhe um dos olhos. E a justiça foi feita, concluía a história – disse o velho.
Demorei um pouco a assimilar esse gênero de “sabedoria” Gibran Khalil que saltava por entre os pelos da barba do homem e, por fim, concluí eu mesmo e comigo em silêncio: “velho de merda”.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
O caminho das pedras
Andei pensando. Literalmente.
Não sei o que é, mas me faz sentir bem.
Ignoro o percurso, porque enquanto caminho sou todo cérebro.
Há quem já tenha dito que no andar alguma transcendência toma forma no espírito e é apenas enquanto estamos andando que a existência se mostra a nós por completo. Bom, há também quem diga o contrário.
Os que meditam, por exemplo, dizem do corpo imóvel a urgente possibilidade do encontro com o superior – estado da alma que escapa a esses brutos que por aí se mexem à toa.
Mas se assim fosse, creio que haveria muito mais mérito nas estátuas vivas que o que de costume atribuímos a elas - essas que assombram nossas praças pintadas em pelo, muitas das vezes segurando um livro atilado em um tecido da cor da tinta que trazem no corpo e fechado, como se a leitura ultrapassasse a razão: - “Estátuas não lêem!”, bradam elas em silêncio, com o corpo imóvel e os lábios batidos, mas infladas daquela mesma sabedoria que os monges budistas se valem no exercício da meditação.
Ficar parado? Que merda de sabedoria é essa?! Não me admiraria se o Buda fosse ainda mais gordo que o que se vê naquelas estatuetas, embora isso também não seja tão provável.
Por isso, eu ando. E nem por isso limito a consciência, que trabalha tangente ao corpo em suas próprias demandas. Quarenta minutos à fio, até que cansem as pernas; porque a mente não pára e tem vida longa muito além desses músculos mecânicos, motores; e anda sozinha na periferia do olhar vagabundo, compreendido entre o trajeto do corpo que guia e as não-bordas que à volta se quase enxergam.
Filosofia de vida, eu diria. Andar pensando (ou seria pensar andando?). Ainda que possa dar nota aos modelos que passam, ou parar pra tomar um açaí (caso tenha dinheiro), é o andar quem descreve a atividade.
Rezam, os mais comprometidos com a filosofia, que se deve sempre andar sem destino.
Eu, por acaso, parei na frente desse puteiro. Um dos mais sujos da cidade. Mas o que não tem brilho na face compensa no preço. Agora, as protagonistas são as pernas de terceiras. Verdade que ainda estou sóbrio demais pra encarar uma dessas...
Enquanto isso, escrevo.
Não sei o que é, mas me faz sentir bem.
Ignoro o percurso, porque enquanto caminho sou todo cérebro.
Há quem já tenha dito que no andar alguma transcendência toma forma no espírito e é apenas enquanto estamos andando que a existência se mostra a nós por completo. Bom, há também quem diga o contrário.
Os que meditam, por exemplo, dizem do corpo imóvel a urgente possibilidade do encontro com o superior – estado da alma que escapa a esses brutos que por aí se mexem à toa.
Mas se assim fosse, creio que haveria muito mais mérito nas estátuas vivas que o que de costume atribuímos a elas - essas que assombram nossas praças pintadas em pelo, muitas das vezes segurando um livro atilado em um tecido da cor da tinta que trazem no corpo e fechado, como se a leitura ultrapassasse a razão: - “Estátuas não lêem!”, bradam elas em silêncio, com o corpo imóvel e os lábios batidos, mas infladas daquela mesma sabedoria que os monges budistas se valem no exercício da meditação.
Ficar parado? Que merda de sabedoria é essa?! Não me admiraria se o Buda fosse ainda mais gordo que o que se vê naquelas estatuetas, embora isso também não seja tão provável.
Por isso, eu ando. E nem por isso limito a consciência, que trabalha tangente ao corpo em suas próprias demandas. Quarenta minutos à fio, até que cansem as pernas; porque a mente não pára e tem vida longa muito além desses músculos mecânicos, motores; e anda sozinha na periferia do olhar vagabundo, compreendido entre o trajeto do corpo que guia e as não-bordas que à volta se quase enxergam.
Filosofia de vida, eu diria. Andar pensando (ou seria pensar andando?). Ainda que possa dar nota aos modelos que passam, ou parar pra tomar um açaí (caso tenha dinheiro), é o andar quem descreve a atividade.
Rezam, os mais comprometidos com a filosofia, que se deve sempre andar sem destino.
Eu, por acaso, parei na frente desse puteiro. Um dos mais sujos da cidade. Mas o que não tem brilho na face compensa no preço. Agora, as protagonistas são as pernas de terceiras. Verdade que ainda estou sóbrio demais pra encarar uma dessas...
Enquanto isso, escrevo.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Fênix Hotel
Entraram pela porta que, desde a rua, conduzia esses amantes despatriados até o salão principal do hotel. Ele, cabelos grisalhos, pele castigada e abdômen saliente. As marcas ao redor dos olhos sugeriam-lhe a idade de cinqüenta e poucos anos. Vestia-se respeitosamente, desde que os botões daquela camisa de tecido nobre mantivessem-se fechados até a gola. Ela, cabelos cacheados - deliciosamente soltos e leves -, pele branca e de textura suave como a do açúcar que cobre o bolo das noivas. Tinha olhos negros profundos que lhe davam tonalidade misteriosa, embora, ainda assim, não fosse provável julgar, desde uma primeira vista, que já houvesse ela alcançado a maioridade.
Andaram até o balcão, que se dispunha ao centro do salão, e dirigiu o homem a palavra à recepcionista: “Queremos um quarto.” Subiu os olhos até o dono da voz que interrompera seus pensamentos ociosos naquela madrugada de pouco movimento no centro do Rio de Janeiro (e especialmente naquele estabelecimento), e vasculhou com um vagar escrupuloso de olhar - que ia das sombrancelhas cinzas e grossas do respeitável senhor até a sapatilha vermelha da pequena que, timidamente, se recolhia ao seu lado - aquele casal inoportuno que buscava abrigo para uma noite de 4 horas (talvez menos). Não satisfeita com a visão que teve, a mulher ao balcão voltou os olhos abaixo e se reteve por um breve minuto seu (e quem há de negar que mesmo a cronologia mais diligente tem duração distinta para cada indíviduo), adiando a resposta que esperava o casal. A mulher, que se protegia atrás de um uniforme asseado e justo composto por tailleur e blusa de seda, tinha olhos redondos e grandes, boca larga e lábios grossos, e um nariz abatatado que combinava com as bochechas gordas. Gordas como, aliás, eram os braços, o rosto, o pescoço e o busto, ou seja, todas as partes que se punham à vista. A frase que proferiu logo em seguida, no entanto, não era a resposta que esperava o homem, mas uma pergunta que causou constrangimento irrevogável para os dois que estavam de pé: “A menina possui documento de identidade?”
A preocupação era clara. O homem era velho demais para a menina que, provavelmente menor de idade, havia sido arrastada para lá por aquele velho sem coração: perverso, calculista e imoral – sobretudo imoral. Mas o julgamento da moça atrás do balcão logo se viu ameaçado, por conta do movimento que fez a menina. Puxou da bolsa uma carteira da qual tirou um documento verde e com graças de autêntico. A recepcionista alisou o rabo de cavalo com a mão direita - movimento pelo qual se pôde inferir a aspereza do cabelo esticado pela escova - e com a mesma mão tomou o documento da menina e se parou nele com cuidado. Leu o campo que indicava a data de nascimento. Uma, duas, três vezes. A menina havia completado os dezoito anos há coisa de duas semanas atrás. O que não pareceu suficiente para a apreciação discriminativa e “moralmente sólida” da senhora que guardava as chaves e liberava os quartos. Devolveu a identidade à menina e se dirigiu ao homem, pedindo-lhe também o documento. O homem se surpreendeu: “Isso é mesmo necessário?” Do que teve em resposta: “Senhor, é o procedimento padrão. Eu não posso lhe entregar a chave do quarto sem isso.” O homem puxou do bolso, contrariado, a carteira, de onde tirou o documento e entregou à mulher.
A senhora leu com o mesmo atilamento de antes, contou alguma coisa nos dedos da mão direita e devolveu o documento ao senhor com uma posição resoluta e irrevogável: “Senhor, eu não posso liberar um quarto.” O homem avivou o sentimento de espanto que o assaltara há poucos segundos e retrucou já com certa indignação na voz: “Como assim você não pode liberar um quarto? Qual é o problema?” E a mulher: “Senhor, o senhor tem quarenta e sete anos e a menina apenas dezoito. Não posso entregar a chave a vocês. Não seria uma coisa legal da minha parte.” A menina permanecia calada e imóvel, encostada sutilmente ao corpo dele que teve em resposta: “A senhora não sabe o que está falando. A menina tem dezoito anos. É perfeitamente legal que aluguemos um quarto para o fim que seja. Sinceramente, não entendo essa sua cerimônia.”
A essa altura a situação era insuportavelmente constrangedora para a menina, que além da repressão corrente que já sofria “lá fora”, por se haver envolvida com um homem mais velho, sentia-se agora impotente sob os auspícios e o julgamento de uma senhora que nunca antes houvera visto. A mulher detrás do balcão, então, solicitou que os dois se retirassem dali, porque ela não lhes poderia alugar quarto nenhum. Ele, que poderia simplesmente ter tomado o rumo de um outro hotel, não o fez porque não aceitasse estar a mercê do julgamento individual e arbitrário de uma mera recepcionista de hotel. E foi enfático ao dizer à senhora que ficaria ali até que lhe entregasse a chave. A senhora, então, endureceu a voz com que falava ao recalcitrante e disse: “Se o senhor e a menina não se retirarem, vou ser obrigada a chamar a polícia” O homem se riu - ironicamente, e com alguma artificialidade, mas falso que fosse ainda assim era um riso: “Pois a senhora chame a polícia agora, porque isso é um grande absurdo. Com que direito a senhora se põe a julgar sermos dignos ou não de alugar um quarto aqui? Quem você pensa que é?” Foi a primeira vez que ele a teve tratado por você e essa informalidade talvez tenha ofendido mais a mulher que o nervosismo e a agressividade que ele impunha aos termos. Nesse instante ela se levantou, tomou um gole de ar profundo ao peito e discursou com gravidade: “O senhor pode tentar tomar a chave a força ou sair direto pela porta por onde entrou. O caso é que de boa vontade não vai conseguir quarto nenhum. Toda vez que vejo um homem sem escrúpulos como o senhor eu sinto não poder fazer nada para ajudar pobres meninas com essa. Provável que o senhor saia daqui e arrume um quarto em outro lugar em que os funcionários não sejam tão corretos e guiados por virtude moral como a minha, mas quanto a isso, eu nada posso fazer. Mas do que depender de mim, o senhor não vai estragar a vida dessa coitada inocente que veio debaixo das suas asas.”
A coisa, agora, alcançava um ponto sem volta. Não seria possível dizer que a mulher, cheia de vigor de espírito e senso de auto-conduta moral, não estava lá na sua razão. Tinha uma razão bem sua - isso é certo. Mas tão prontamente a desobedecesse, aí sim sua atitude poderia ser tomada por imoral, posto que a moral que tinha não a pudesse ignorar. O homem, cujos quarenta e tantos anos não foram suficientes para blindá-lo dos conseqüentes transtornos causados pela irresolubilidade da situação, não menos errado se poderia julgá-lo. Nada que fizesse ali estaria fora da ordem da legalidade, já que sua companheira chegara àquele local por vontade própria e espontânea, mas isso, e ainda que houvesse sido a menina coagida de alguma forma, quem saberá ao certo? Tanto faz como tanto fez se a sociedade em questão julga seus membros aptos às escolhas tais como fazer sexo ou eleger um presidente a partir dos dados dezoito anos, assim como se declarava nos documentos daquela.
E justo quando a hostilidade insurgente se fazia epigráfica diante das circunstâncias, foi quando a menina puxou pelo braço seu parceiro e disse as suas duas primeiras palavras desde que adentrou ao recinto: “Vamos embora!” E não como nota em defesa do homem, que transgredia talvez algum preceito moral daquela sociedade antiquada, mas é de se questionar se aquela atitude sensata que a sobejou, qual seja a de anunciar retirada diante de disputa tal em que se não pode haver vencedores, não justificava que uma pessoa (assim munida de razão e bom senso) não fosse suficientemente capaz de bem escolher o local, a hora e com quem fazer sexo – ainda que seus escolhidos tivessem já os cabelos desbotados pela ação dos anos...
Mas difícil mesmo é imaginar como seria o evento sexual em questão depois de uma preliminar tão desgastante como aquela.
Andaram até o balcão, que se dispunha ao centro do salão, e dirigiu o homem a palavra à recepcionista: “Queremos um quarto.” Subiu os olhos até o dono da voz que interrompera seus pensamentos ociosos naquela madrugada de pouco movimento no centro do Rio de Janeiro (e especialmente naquele estabelecimento), e vasculhou com um vagar escrupuloso de olhar - que ia das sombrancelhas cinzas e grossas do respeitável senhor até a sapatilha vermelha da pequena que, timidamente, se recolhia ao seu lado - aquele casal inoportuno que buscava abrigo para uma noite de 4 horas (talvez menos). Não satisfeita com a visão que teve, a mulher ao balcão voltou os olhos abaixo e se reteve por um breve minuto seu (e quem há de negar que mesmo a cronologia mais diligente tem duração distinta para cada indíviduo), adiando a resposta que esperava o casal. A mulher, que se protegia atrás de um uniforme asseado e justo composto por tailleur e blusa de seda, tinha olhos redondos e grandes, boca larga e lábios grossos, e um nariz abatatado que combinava com as bochechas gordas. Gordas como, aliás, eram os braços, o rosto, o pescoço e o busto, ou seja, todas as partes que se punham à vista. A frase que proferiu logo em seguida, no entanto, não era a resposta que esperava o homem, mas uma pergunta que causou constrangimento irrevogável para os dois que estavam de pé: “A menina possui documento de identidade?”
A preocupação era clara. O homem era velho demais para a menina que, provavelmente menor de idade, havia sido arrastada para lá por aquele velho sem coração: perverso, calculista e imoral – sobretudo imoral. Mas o julgamento da moça atrás do balcão logo se viu ameaçado, por conta do movimento que fez a menina. Puxou da bolsa uma carteira da qual tirou um documento verde e com graças de autêntico. A recepcionista alisou o rabo de cavalo com a mão direita - movimento pelo qual se pôde inferir a aspereza do cabelo esticado pela escova - e com a mesma mão tomou o documento da menina e se parou nele com cuidado. Leu o campo que indicava a data de nascimento. Uma, duas, três vezes. A menina havia completado os dezoito anos há coisa de duas semanas atrás. O que não pareceu suficiente para a apreciação discriminativa e “moralmente sólida” da senhora que guardava as chaves e liberava os quartos. Devolveu a identidade à menina e se dirigiu ao homem, pedindo-lhe também o documento. O homem se surpreendeu: “Isso é mesmo necessário?” Do que teve em resposta: “Senhor, é o procedimento padrão. Eu não posso lhe entregar a chave do quarto sem isso.” O homem puxou do bolso, contrariado, a carteira, de onde tirou o documento e entregou à mulher.
A senhora leu com o mesmo atilamento de antes, contou alguma coisa nos dedos da mão direita e devolveu o documento ao senhor com uma posição resoluta e irrevogável: “Senhor, eu não posso liberar um quarto.” O homem avivou o sentimento de espanto que o assaltara há poucos segundos e retrucou já com certa indignação na voz: “Como assim você não pode liberar um quarto? Qual é o problema?” E a mulher: “Senhor, o senhor tem quarenta e sete anos e a menina apenas dezoito. Não posso entregar a chave a vocês. Não seria uma coisa legal da minha parte.” A menina permanecia calada e imóvel, encostada sutilmente ao corpo dele que teve em resposta: “A senhora não sabe o que está falando. A menina tem dezoito anos. É perfeitamente legal que aluguemos um quarto para o fim que seja. Sinceramente, não entendo essa sua cerimônia.”
A essa altura a situação era insuportavelmente constrangedora para a menina, que além da repressão corrente que já sofria “lá fora”, por se haver envolvida com um homem mais velho, sentia-se agora impotente sob os auspícios e o julgamento de uma senhora que nunca antes houvera visto. A mulher detrás do balcão, então, solicitou que os dois se retirassem dali, porque ela não lhes poderia alugar quarto nenhum. Ele, que poderia simplesmente ter tomado o rumo de um outro hotel, não o fez porque não aceitasse estar a mercê do julgamento individual e arbitrário de uma mera recepcionista de hotel. E foi enfático ao dizer à senhora que ficaria ali até que lhe entregasse a chave. A senhora, então, endureceu a voz com que falava ao recalcitrante e disse: “Se o senhor e a menina não se retirarem, vou ser obrigada a chamar a polícia” O homem se riu - ironicamente, e com alguma artificialidade, mas falso que fosse ainda assim era um riso: “Pois a senhora chame a polícia agora, porque isso é um grande absurdo. Com que direito a senhora se põe a julgar sermos dignos ou não de alugar um quarto aqui? Quem você pensa que é?” Foi a primeira vez que ele a teve tratado por você e essa informalidade talvez tenha ofendido mais a mulher que o nervosismo e a agressividade que ele impunha aos termos. Nesse instante ela se levantou, tomou um gole de ar profundo ao peito e discursou com gravidade: “O senhor pode tentar tomar a chave a força ou sair direto pela porta por onde entrou. O caso é que de boa vontade não vai conseguir quarto nenhum. Toda vez que vejo um homem sem escrúpulos como o senhor eu sinto não poder fazer nada para ajudar pobres meninas com essa. Provável que o senhor saia daqui e arrume um quarto em outro lugar em que os funcionários não sejam tão corretos e guiados por virtude moral como a minha, mas quanto a isso, eu nada posso fazer. Mas do que depender de mim, o senhor não vai estragar a vida dessa coitada inocente que veio debaixo das suas asas.”
A coisa, agora, alcançava um ponto sem volta. Não seria possível dizer que a mulher, cheia de vigor de espírito e senso de auto-conduta moral, não estava lá na sua razão. Tinha uma razão bem sua - isso é certo. Mas tão prontamente a desobedecesse, aí sim sua atitude poderia ser tomada por imoral, posto que a moral que tinha não a pudesse ignorar. O homem, cujos quarenta e tantos anos não foram suficientes para blindá-lo dos conseqüentes transtornos causados pela irresolubilidade da situação, não menos errado se poderia julgá-lo. Nada que fizesse ali estaria fora da ordem da legalidade, já que sua companheira chegara àquele local por vontade própria e espontânea, mas isso, e ainda que houvesse sido a menina coagida de alguma forma, quem saberá ao certo? Tanto faz como tanto fez se a sociedade em questão julga seus membros aptos às escolhas tais como fazer sexo ou eleger um presidente a partir dos dados dezoito anos, assim como se declarava nos documentos daquela.
E justo quando a hostilidade insurgente se fazia epigráfica diante das circunstâncias, foi quando a menina puxou pelo braço seu parceiro e disse as suas duas primeiras palavras desde que adentrou ao recinto: “Vamos embora!” E não como nota em defesa do homem, que transgredia talvez algum preceito moral daquela sociedade antiquada, mas é de se questionar se aquela atitude sensata que a sobejou, qual seja a de anunciar retirada diante de disputa tal em que se não pode haver vencedores, não justificava que uma pessoa (assim munida de razão e bom senso) não fosse suficientemente capaz de bem escolher o local, a hora e com quem fazer sexo – ainda que seus escolhidos tivessem já os cabelos desbotados pela ação dos anos...
Mas difícil mesmo é imaginar como seria o evento sexual em questão depois de uma preliminar tão desgastante como aquela.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
A existência limita
- Me fala mais sobre você.
- O que você quer saber?
- Tudo... quer dizer, qualquer coisa.
- Sou atriz.
- Sério?
- Não, tive vontade de dizer isso agora.
Na verdade sou um pote de biscoitos.
- Sim, que você é um pote de biscoitos eu sei.
Posso ver. Mas quero saber mais; o que te desafia?
o que você tem dentro?
- Teria biscoitos se você não os tivesse comido.
- Eu não falo disso. Quero saber o que você tem dentro do
dentro; a sua essência. (Adomais, aqueles biscoitos
estavam velhos).
- Desculpa, mas como pote de biscoitos eu costumo rejeitar
questões existenciais. Mas você pode dizer que além
de guardar biscoitos sou uma obra de arte.
- Uma obra de arte? E porque você acha que eu poderia dizer
uma coisa dessas?
- Eu sou uma obra, e isso é fato. A parte da arte, você pode julgar, pois, sou vísivel; tenho apelo estético. Embora todo esse engajamento para com o belo esteja voltado para o banal de guardar biscoitos, há que se querer minha presença. Senão os biscoitos poderiam perfeitamente permanecer em seus pacotes, como produtos consumíveis que são. (E se estavam velhos você não os devia ter comido. E, além de tudo, "do cavalo dado não se olha os dentes")
- Essa é a sua motivação? “Há que se querer sua presença”? “Ser” pelo simples desígnio de “ser visto” te basta?
- Não, se existe motivação aí deve ser invenção sua. A minha deve se apenas guardar biscoitos. Melhor que isso, eu não tenho motivação, sou um objeto desmotivado, que guarda biscoitos por ofício e não por motivo.
- E isso te incomoda? vc queria ser outro, outra coisa? Atriz?
- Eu não queria nada, não tenho nem motivos pra querer. Talvez, se eu atriz fosse, minha maior motivação fosse interpretar um pote de biscoitos; captar, em um único momento vivo, toda a morbida desmotivção de ser um pote; ou não ser nada. Sendo atriz ou pote de biscoitos, não há porque querer ser outro. E se a atriz interpreta o pote ela só o pode fazer sendo atriz. Já eu, como pote que sou, não interpreto, me foge essa capacidade. Tampouco desejo ser outra coisa; talvez seja essa uma característica inerente aos potes (e falo apenas pelos de biscoitos, já que só posso falar pelo que sei), somos independentemente de desejos, vontades e afins. Mas e você?
- O que tem eu?
- Qual o seu “dentro”, sua “essência”?
- Eu costumo dizer que sou um dragão.
(Apesar do seu tom irônico)
- Metaforicamente?
(A ironia fica por sua conta. Como pote de biscoitos que sou, a ironia também me foge, como a paciência parece também muitas vezes querer fazer)
- Não. Sou um dragão de verdade. Cuspo fogo pelas narinas e aterrorizo vilarejos em filmes e fantasias. Não sou uma metáfora porque existo. Talvez eu seja um símbolo, ou uma alegoria, mas eu existo mesmo que como dragão de fantasias e isso ninguém pode tirar de mim.
- E se você não fosse um dragão... o que gostaria de ser?
- Uma palavra. Fico sempre encantado com a abstração que se sucede ao grafismo ou ao fonema. Todo esse jogo de significar, que antecede a você enquanto pote de biscoitos ou a mim enquanto dragão. Embora eu, como bom dragão que sou, sou dragão antes mesmo da palavra que me diz: “dragão”.
- Pois eu não sou pote de biscoito antes da palavra me dizer? "Pote de biscoitos"?
- Certamente que não. Antes da palavra você é vidro. Recipiente, no máximo. Isso se entedermos essa palavra na acepção moderna da tentativa científica de submeter à palavra sua função. Mas pote de biscoitos você só é depois que a palavra biscoitos é apresentada e o jogo semiótico te agrega o valor de comando, de uso.
- Pois te digo que sou pote de biscoitos antes disso. Na motivação originária de meu artesão ou meu projetador. Em sua busca inegavelmente pré-racional pela concepção da arte ou por anseio ao lucro. Que não tivesse ele escrito em meu corpo, que não tivesse colocado nem um sequer cream cracker dentro de mim, ainda assim eu seria um pote de biscoitos. E todos somos capazes de diferenciar um “balde” de uma “lata de lixo”, ainda que lhes faltem os nomes e que estejam ambos vazios; e um que coloque seus biscoitos em um deles, ao invés de coloca-los num como eu mesmo, fardará seus biscoitos ao total desperdício. E você, como “bom dragão” que é, deveria se conter aos graves e sonoros grunhidos de sua classe e a destruir seus indefesos vilarejos nas fantasias e filmes, e não se meter a filosofo, que esses já vão muito mal com as limitações todas dos seres humanos, que dirá fossem, como você, répteis agigantados e falastrões.
- E, afinal, que diferença essencial mesmo é essa entre o balde e a lata de lixo? Não poderia, de qualquer modo, o balde fazer as vezes do pote de biscoitos ou de lata de lixo? Que postulado absurdo advindo de um pote de biscoitos é mesmo esse que me impede de ser dragão e filosofo a um só tempo?
- É justo a mesma diferença (ou uma diferença de mesma natureza, em todo caso) que existe entre a atriz que interpreta o pote de biscoitos e o pote. A diferença entre o balde, a lata de lixo e o pote de biscoitos é inquestionável, ainda que um porco como você se ponha a comer biscoitos da lata de lixo. Que um dragão filosofe nas fantasias dos outros, isso é coisa que eu não vou questionar. Mas na minha própria (e, sim, se um dragão me dirige a palavra é apenas porque eu, humilde “pote de biscoitos”, rumino também as minhas próprias fantasias), a conversa termina quando eu bem quero e o dragão que se cale ou procure objeto mais obtuso que ele próprio pra problematizar sua existência.(Recomendaria-lhe a colher de pau, não fosse ela, além do apetrecho que é para as cozinhas pacíficas, uma arma de empunhadura dolorosa e certeira contra aqueles que falam demais). Pois antes de importunar outros que, como eu mesmo, estão no mundo apenas por um capricho de uma natureza humana, fique sabendo disso: A condição é uma condição. Não porque a palavra significa, mas porque a existência limita.
- O que você quer saber?
- Tudo... quer dizer, qualquer coisa.
- Sou atriz.
- Sério?
- Não, tive vontade de dizer isso agora.
Na verdade sou um pote de biscoitos.
- Sim, que você é um pote de biscoitos eu sei.
Posso ver. Mas quero saber mais; o que te desafia?
o que você tem dentro?
- Teria biscoitos se você não os tivesse comido.
- Eu não falo disso. Quero saber o que você tem dentro do
dentro; a sua essência. (Adomais, aqueles biscoitos
estavam velhos).
- Desculpa, mas como pote de biscoitos eu costumo rejeitar
questões existenciais. Mas você pode dizer que além
de guardar biscoitos sou uma obra de arte.
- Uma obra de arte? E porque você acha que eu poderia dizer
uma coisa dessas?
- Eu sou uma obra, e isso é fato. A parte da arte, você pode julgar, pois, sou vísivel; tenho apelo estético. Embora todo esse engajamento para com o belo esteja voltado para o banal de guardar biscoitos, há que se querer minha presença. Senão os biscoitos poderiam perfeitamente permanecer em seus pacotes, como produtos consumíveis que são. (E se estavam velhos você não os devia ter comido. E, além de tudo, "do cavalo dado não se olha os dentes")
- Essa é a sua motivação? “Há que se querer sua presença”? “Ser” pelo simples desígnio de “ser visto” te basta?
- Não, se existe motivação aí deve ser invenção sua. A minha deve se apenas guardar biscoitos. Melhor que isso, eu não tenho motivação, sou um objeto desmotivado, que guarda biscoitos por ofício e não por motivo.
- E isso te incomoda? vc queria ser outro, outra coisa? Atriz?
- Eu não queria nada, não tenho nem motivos pra querer. Talvez, se eu atriz fosse, minha maior motivação fosse interpretar um pote de biscoitos; captar, em um único momento vivo, toda a morbida desmotivção de ser um pote; ou não ser nada. Sendo atriz ou pote de biscoitos, não há porque querer ser outro. E se a atriz interpreta o pote ela só o pode fazer sendo atriz. Já eu, como pote que sou, não interpreto, me foge essa capacidade. Tampouco desejo ser outra coisa; talvez seja essa uma característica inerente aos potes (e falo apenas pelos de biscoitos, já que só posso falar pelo que sei), somos independentemente de desejos, vontades e afins. Mas e você?
- O que tem eu?
- Qual o seu “dentro”, sua “essência”?
- Eu costumo dizer que sou um dragão.
(Apesar do seu tom irônico)
- Metaforicamente?
(A ironia fica por sua conta. Como pote de biscoitos que sou, a ironia também me foge, como a paciência parece também muitas vezes querer fazer)
- Não. Sou um dragão de verdade. Cuspo fogo pelas narinas e aterrorizo vilarejos em filmes e fantasias. Não sou uma metáfora porque existo. Talvez eu seja um símbolo, ou uma alegoria, mas eu existo mesmo que como dragão de fantasias e isso ninguém pode tirar de mim.
- E se você não fosse um dragão... o que gostaria de ser?
- Uma palavra. Fico sempre encantado com a abstração que se sucede ao grafismo ou ao fonema. Todo esse jogo de significar, que antecede a você enquanto pote de biscoitos ou a mim enquanto dragão. Embora eu, como bom dragão que sou, sou dragão antes mesmo da palavra que me diz: “dragão”.
- Pois eu não sou pote de biscoito antes da palavra me dizer? "Pote de biscoitos"?
- Certamente que não. Antes da palavra você é vidro. Recipiente, no máximo. Isso se entedermos essa palavra na acepção moderna da tentativa científica de submeter à palavra sua função. Mas pote de biscoitos você só é depois que a palavra biscoitos é apresentada e o jogo semiótico te agrega o valor de comando, de uso.
- Pois te digo que sou pote de biscoitos antes disso. Na motivação originária de meu artesão ou meu projetador. Em sua busca inegavelmente pré-racional pela concepção da arte ou por anseio ao lucro. Que não tivesse ele escrito em meu corpo, que não tivesse colocado nem um sequer cream cracker dentro de mim, ainda assim eu seria um pote de biscoitos. E todos somos capazes de diferenciar um “balde” de uma “lata de lixo”, ainda que lhes faltem os nomes e que estejam ambos vazios; e um que coloque seus biscoitos em um deles, ao invés de coloca-los num como eu mesmo, fardará seus biscoitos ao total desperdício. E você, como “bom dragão” que é, deveria se conter aos graves e sonoros grunhidos de sua classe e a destruir seus indefesos vilarejos nas fantasias e filmes, e não se meter a filosofo, que esses já vão muito mal com as limitações todas dos seres humanos, que dirá fossem, como você, répteis agigantados e falastrões.
- E, afinal, que diferença essencial mesmo é essa entre o balde e a lata de lixo? Não poderia, de qualquer modo, o balde fazer as vezes do pote de biscoitos ou de lata de lixo? Que postulado absurdo advindo de um pote de biscoitos é mesmo esse que me impede de ser dragão e filosofo a um só tempo?
- É justo a mesma diferença (ou uma diferença de mesma natureza, em todo caso) que existe entre a atriz que interpreta o pote de biscoitos e o pote. A diferença entre o balde, a lata de lixo e o pote de biscoitos é inquestionável, ainda que um porco como você se ponha a comer biscoitos da lata de lixo. Que um dragão filosofe nas fantasias dos outros, isso é coisa que eu não vou questionar. Mas na minha própria (e, sim, se um dragão me dirige a palavra é apenas porque eu, humilde “pote de biscoitos”, rumino também as minhas próprias fantasias), a conversa termina quando eu bem quero e o dragão que se cale ou procure objeto mais obtuso que ele próprio pra problematizar sua existência.(Recomendaria-lhe a colher de pau, não fosse ela, além do apetrecho que é para as cozinhas pacíficas, uma arma de empunhadura dolorosa e certeira contra aqueles que falam demais). Pois antes de importunar outros que, como eu mesmo, estão no mundo apenas por um capricho de uma natureza humana, fique sabendo disso: A condição é uma condição. Não porque a palavra significa, mas porque a existência limita.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Bebo, logo existo.
Sem inspiraçao ou um problema epistemológico perfeitamente a mao, resolvi por em prática o metodo das últimas noites: uma bebida e um tema.
Poucos percebem que a bebida, por si só, é já um tema. No entanto, não deveriam se perguntar, aqueles que o percebem, sobre a probabilidade de serem ou não alcoolatras? De qualquer modo, hoje a coisa nao me parece lá muito afiada. Vou de Domecq: Se o resultado nao valer um suspiro interessado de minha catatônica intelectualidade, ou ao menos umas risadas, pelo menos nao doeu no bolso.
A consciência se move um pouco antes da marretada que irá levar: Domecq puro? Um limaozinho daria pra quebrar um cadinho o tino de "alcoolatra inveterado".
Não tem limao.
Gelo?
Nem pensar. Pior que a sina do bêbado imundo é Domecq aguado.
E o tema chega logo depois, como natural consequência da vida que levo e que insiste em tomar forma nas minhas consideraçoes filosòficas. Minha casa fede. É o mesmo cheiro que associaria a minha vida se eu pudesse colocar nestes termos o problema da existência. Minha vida fede. O cheiro do Domecq é o melhor cheiro que me passou pelas narinas o dia todo.
A bem da verdade, o nariz me é táo inutil quanto um abridor de latas para um aborigene na selva. Nunca deixei de cumer uma sequer empada por julgar o cheiro desagradàvel. Tomo banho apenas pra arrancar do corpo os pedaços de comida que vão ficando presos em mim com o passar da semana. Me serve menos ainda que o pau, esse nariz torto e exibido que trago na cara. Se não o tivesse, respirava pela boca. Não faria a menor diferença.
(Como um experiente somelier e ao contradito das minhas palavras, dou uma boa inalada no copo. Segue-se o gole. E o Domecq está onde deveria. Desce mais uma dose! Grito pro barman... que sou eu mesmo)
Quem leva a sério um existencialista servido a Domecq? Pois digo isto: há tanta dignidade ali quanto em qualquer Uísque de 8 anos pra baixo.
(O vômito quase se antecipa a minha sobranceira conclusão, mas ficou parado no exôfago e voltou pro bucho)
Não é a bebida, tenho andado mal do estomago nessa ultima semana. A bebida, ao contrario, só ajuda. Foi o que disse o meu mèdico... que também sou eu mesmo e segura um copo atè a metade com Domecq em uma das mãos.
Viro mais uma dose. Depois da terceira o organismo assenta. E o vômito vai ter que esperar o sono. So vai aparecer quando eu já estiver dormindo. Dormir me concede alguma especie de licença existencial, quase como quando estou bêbado por completo. Não me envergonho de nada que não possa me lembrar. Menos ainda do que se teve apenas em sonho, onde posso estuprar uma freira, espancar um velho com dificuldades de locomoção e me cagar todo. Se quando eu acordo a merda aparece como que pra dizer que a cagada do sonho foi real, foda-se. Se a policia aparece na minha casa com uma freira aos prantos, aí sim eu começo a me preocupar.
Enquanto isso, o Domecq me serve de aviso. Vai a terceira dose e a cadeira jà começa a balançar. Me vem a cabeça um problema fenomenologico: é a cadeira que balança ou é a minha percepçao que impõe movimento á cadeira? A resposta vem com o tombo e a dor que depois vai ficar nos quadris: era a cadeira que balançava. Mas não foi uma só gota da bebida ao chao. O copo tava vazio. Existe lá alguma coordenaçao entre as idéias e esse corpo surrado que as contem. Pra confirmar o equilibrio, encho o copo e viro mais uma dose. Uma constataçao: o copo vai sempre direto à boca, nunca erra. O importante é nao prolongar o tempo que o Domecq fica no copo - logo depois de ter saido da garrafa e antes de entrar pela goela. Coordenaçao é ritmo.
Na quinta dose o primeiro sinal de fraqueza. Ao me perguntar sobre o problema da unidade do ser - como posso ser ao mesmo tempo minha cabeça e meu braço sem que meu braço e minha cabeça nao sejam individualmente? - um vacilo no manejo e a bebida escapa pelas bordas e molha o chão. É o sono chegando. Existência com as horas contadas. Pelo menos ate amanha de manha. O corpo reclama: quer deitar.
Vou dar uma cagada antes... pra não acontecer como na ultima noite.
Poucos percebem que a bebida, por si só, é já um tema. No entanto, não deveriam se perguntar, aqueles que o percebem, sobre a probabilidade de serem ou não alcoolatras? De qualquer modo, hoje a coisa nao me parece lá muito afiada. Vou de Domecq: Se o resultado nao valer um suspiro interessado de minha catatônica intelectualidade, ou ao menos umas risadas, pelo menos nao doeu no bolso.
A consciência se move um pouco antes da marretada que irá levar: Domecq puro? Um limaozinho daria pra quebrar um cadinho o tino de "alcoolatra inveterado".
Não tem limao.
Gelo?
Nem pensar. Pior que a sina do bêbado imundo é Domecq aguado.
E o tema chega logo depois, como natural consequência da vida que levo e que insiste em tomar forma nas minhas consideraçoes filosòficas. Minha casa fede. É o mesmo cheiro que associaria a minha vida se eu pudesse colocar nestes termos o problema da existência. Minha vida fede. O cheiro do Domecq é o melhor cheiro que me passou pelas narinas o dia todo.
A bem da verdade, o nariz me é táo inutil quanto um abridor de latas para um aborigene na selva. Nunca deixei de cumer uma sequer empada por julgar o cheiro desagradàvel. Tomo banho apenas pra arrancar do corpo os pedaços de comida que vão ficando presos em mim com o passar da semana. Me serve menos ainda que o pau, esse nariz torto e exibido que trago na cara. Se não o tivesse, respirava pela boca. Não faria a menor diferença.
(Como um experiente somelier e ao contradito das minhas palavras, dou uma boa inalada no copo. Segue-se o gole. E o Domecq está onde deveria. Desce mais uma dose! Grito pro barman... que sou eu mesmo)
Quem leva a sério um existencialista servido a Domecq? Pois digo isto: há tanta dignidade ali quanto em qualquer Uísque de 8 anos pra baixo.
(O vômito quase se antecipa a minha sobranceira conclusão, mas ficou parado no exôfago e voltou pro bucho)
Não é a bebida, tenho andado mal do estomago nessa ultima semana. A bebida, ao contrario, só ajuda. Foi o que disse o meu mèdico... que também sou eu mesmo e segura um copo atè a metade com Domecq em uma das mãos.
Viro mais uma dose. Depois da terceira o organismo assenta. E o vômito vai ter que esperar o sono. So vai aparecer quando eu já estiver dormindo. Dormir me concede alguma especie de licença existencial, quase como quando estou bêbado por completo. Não me envergonho de nada que não possa me lembrar. Menos ainda do que se teve apenas em sonho, onde posso estuprar uma freira, espancar um velho com dificuldades de locomoção e me cagar todo. Se quando eu acordo a merda aparece como que pra dizer que a cagada do sonho foi real, foda-se. Se a policia aparece na minha casa com uma freira aos prantos, aí sim eu começo a me preocupar.
Enquanto isso, o Domecq me serve de aviso. Vai a terceira dose e a cadeira jà começa a balançar. Me vem a cabeça um problema fenomenologico: é a cadeira que balança ou é a minha percepçao que impõe movimento á cadeira? A resposta vem com o tombo e a dor que depois vai ficar nos quadris: era a cadeira que balançava. Mas não foi uma só gota da bebida ao chao. O copo tava vazio. Existe lá alguma coordenaçao entre as idéias e esse corpo surrado que as contem. Pra confirmar o equilibrio, encho o copo e viro mais uma dose. Uma constataçao: o copo vai sempre direto à boca, nunca erra. O importante é nao prolongar o tempo que o Domecq fica no copo - logo depois de ter saido da garrafa e antes de entrar pela goela. Coordenaçao é ritmo.
Na quinta dose o primeiro sinal de fraqueza. Ao me perguntar sobre o problema da unidade do ser - como posso ser ao mesmo tempo minha cabeça e meu braço sem que meu braço e minha cabeça nao sejam individualmente? - um vacilo no manejo e a bebida escapa pelas bordas e molha o chão. É o sono chegando. Existência com as horas contadas. Pelo menos ate amanha de manha. O corpo reclama: quer deitar.
Vou dar uma cagada antes... pra não acontecer como na ultima noite.
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