domingo, 21 de fevereiro de 2016

Quarta-feira de um tom mais escuro

Depois da tempestade, o precipício.

Assim descrevia o sentimento que o ocupava logo após cessarem os entusiasmos que o haviam impulsionado durante todo o carnaval. Quando aquela alegria incontornável, catártica, desproporcionada, não habitava mais seu peito e no lugar deixava apenas espaço; uma cavidade profunda que pedia tão somente ocupação imediata.

Perguntava-se sobre si mesmo, sobre a natureza do gozo carnavalesco que se dispunha pulsante em seu corpo minutos antes, e que ainda agora pulsava em outros corpos, os quais podia ele nesse momento observar, não sem alguma inveja, mas, sobretudo, com a indiferença de quem olha fixo um retrato e sabe que não se trata de nenhum espelho. Os primeiros raios de luz do dia, no entanto, ofereciam clareza e um brilho singular ao cenário do qual se retirava ele agora, e era justamente entre a indiferença e a inveja que se alternavam um movimento decidido de evasão e um reflexo auto-projetado de si na imagem da qual ele já não devia mais fazer parte. Quando cessava o brilho, porque não incidisse a luz num certo instante diretamente, restava apenas a clareza diurna através da qual se revelavam as imperfeições das máscaras customizadas, as costuras expostas das fantasias mais minuciosamente fabricadas, o desajuste dos elaboradíssimos chapéus nas cabeças cambaleantes por folga ou estreiteza da sua abertura em relação a cabeça que a vestia, o cansaço ardente no rosto da menina ainda impregnada pela festa, pela dança e pelos desejos seus ocultos – quaisquer que fossem.
Pois na exposição tão crua dos artifícios e ficções que imantavam aquela festa de um ar característico de fábula é que nascia a percepção de seu fim - já quando fim e percepção do fim eram uma e a mesma sentença. E como todas as coisas que são, apenas quando e conforme são, também o carnaval se presta a essa dinâmica particular em que toda a descrição é fantasia, porque quando se descreve, já não é; e quando chega de fato ao final é já outra coisa – e antes dela apenas um campo de possibilidades que a memória articula como quem maneja um álbum de fotografias.

Precisou afastar-se daquela gente, pois da diáfana compreensão de que já não fazia parte do instante. Quis mesmo acreditar que seu caminho seguiria, a partir dali, sua vontade e tão somente a sua vontade, mas não podia ignorar a sensação de que fora deixado de lado, excluído quando prontamente deixara de ser um deles para tornar-se outra coisa. A agitação dos corpos em sincronia deu lugar à marcha individual, e onde se contorcia o desejo incontrolável de mexer-se, refração do contágio festivo a que dá nome o carnaval, insinuava-se agora apenas o aspecto funcional do movimento pendular que leva de um lugar ao outro por mera necessidade e ocasião.

Pelo caminho, no entanto, a memória seguia ativa e capturava com participação diligente cada figura que iria compor esse retrato do encerramento. O encantamento residual de uma mágica que depende das proezas do corpo – "o corpo que agora falha", dizia a legenda.

Havia aqueles ainda excitados, mas nesse momento estes serviam já apenas de moldura para a pintura que descreviam os ânimos em declínio. Afinal, não se tratava de uma descrição pictórica qualquer do carnaval, mas sobre o seu fim. E quanto mais afastavam-se o som dos surdos e das caixas, das vozes e dos metais, mais protagonizavam o espaço vazio e os dejetos de orgias sem nome; e conforme os resquícios da festa em movimento desapareciam no silêncio da rua, a melancolia do trajeto dava lugar ao desespero e a ansiedade pela chegada ao destino. Sentia-se, o ex-folião, cada vez mais abandonado por aquelas milhares de pessoas à quem havia ele dado o melhor de si durante as últimas horas da sua vida, mas sobre cujo pertencimento dizia respeito apenas à sua memória e não às delas, provavelmente. Não havia uma sequer alma ouvindo o apelo cantado em versos de marchas sem rima daquele um que agora carregava sobre os ombros apenas sua própria consciência - morada de uma personalidade irremediavelmente sóbria e solitária.

No chão, gradualmente, apareciam os despejos casuais da massa e, de repente, despejos menos casuais: Corpos humanos. Um, depois outro e mais outro. Cada um deles carregava consigo o aspecto geral de uma condição que era para a consciência que os reconhecia inconciliável com a ideia do que deveriam ser corpos humanos, posto que o termo, para esta, deveria descrever um contexto absolutamente diverso daquele exposto. Assim, não se pôde reconhecer, num primeiro instante, em nenhum deles, e ainda que o cansaço lhe subisse pelo pescoço e lhe quisesse roubar todo o movimento do corpo, não seria possível que fosse ele e seu corpo no chão, porque nele perdurava, sem ressalvas, aquela estrutura construída ao longo de seus alguns anos sob a alcunha de alguma dignidade, que exercia não apenas com o corpo, mas com todo o arranjo dos gestos possíveis; que se exibia não apenas nos olhos abertos, mas nas roupas, no cabelo e nas unhas cortadas. Algum tratamento especialíssimo, percebia agora, o havia dotado de um sentido e um patrimônio de si que pareciam de todo ausentes naquelas figuras ali largadas; deitadas sobre o concreto das calçadas ou mesmo entre o meio fio e a rua, como se a pele acostumada estivesse a dureza particular daquele solo, como se conforto fosse uma palavra sem ordem e de sentido perdido nas ilusões de algum mercado que lhes era, sobretudo, alheio.

Mas os corpos em exaustão ressaltavam uma nota particular em razão: eram seres humanos e, aquela, a consequência dos seus excessos. Mas e os excessos daquele que observava, por que levavam tão criteriosamente a consequências diversas? Perguntou-se, finalmente, pois a honestidade era também parte daquela estrutura chamada dignidade: “O que nos diferencia?” E a resposta saltava-lhe aos olhos. Apenas entre o tecido das roupas e a pele que estas cobriam, uma dezena de características separavam aos olhos atentos os corpos estendidos ao chão daquele que caminhava judicioso. A partir da pele e adentro, no entanto, muito pouco devia-se encontrar que os diferenciasse - o sangue devia ser úmido e vermelho como o dele, os órgãos cumpriam, provavelmente, funções similares às dos seus e os ossos deles mediam-se por dureza análoga a dos ossos que o mantinham naquele instante de pé. Seria, então, a química artificial que incendiara aqueles corpos horas antes muito diversa da que nele ainda corria, querendo se extinguir sobre um colchão macio em ambiente silencioso e controlado ou da que corria no sangue dos outros que, ainda, atrás de si festejavam? Provavelmente. Como as vestes sobre o corpo e o corte de cabelo, também por dentro um tratamento mais cuidadoso e sofisticado, como as alegorias sobre a cabeça e penduradas ao redor do pescoço, resultava o encerramento da festa de modo diverso para aqueles e para aqueles outros ou para si. Assim, reconhecia-se no meio do caminho entre os corpos estirados e os corpos ainda em festa, mas sem poder identificar-se completamente nem com estes, nem com aqueles.

Quis ele, então, por um instante, voltar a ser apenas mais um entre os que festejavam. Mas para isso, seria necessário que deixasse de lado a consciência que agora determinava seu curso. Talvez fosse apenas uma questão da circunstância ou da falta de apelo. Quem sabe uma ocasião distinta não pudesse transpô-lo daquele quadro desesperançoso de humanidade em questionamento e projetá-lo novamente ao reino encantado dos foliões? Era certamente o corpo em esvanecimento, contudo, que dava lugar a consciência criteriosa e que também o alertava para o caso de que é terrivelmente fácil julgar uma multidão, dizer-se um “eu” entre os “eles”, sem ter acesso ao enredo individual e aos pensamentos, ainda que de lucidez residual, que balançam com aqueles corpos em ecstase. Se lhe fosse permitido invadir a consciência privada de cada um deles, certamente encontraria em um e outro disposição mais aguerrida a reclamar contra aqueles privilégios, pois é também um direito a eles garantido – e privilégio maior entre os privilégios – reconhecer e questionar a dinâmica da história que produzia um tal contraste e desumanizava os corpos outros que agora pendiam pelas sujas ruas. Mas como o seu acesso se limitava aquilo que lhe proporcionavam seus olhos e ouvidos, podia apenas reconhecer a alienação geral a tudo que não tinha o aspecto sumptuoso da alegria e do prazer.

A sua consciência, no entanto, pedia tão somente que terminasse a festa – e se explicava: a grande e mais cruel capacidade humana é a de suportar que haja corpos aos quais se entrega tamanho apreço, e outros que se confundam no lixo dos resíduos carnavalescos. Porque são corpos como esses os que se emprestam a função de cadáver quando ao invés do carnaval traça-se um retrato medido da guerra.

O ex-folião se preparava, assim, para uma nova festa, enquanto colhia o cenário a volta entre adjetivos descolados e frases de efeito. A fantasia mais desatinada - costurava o estilo como num golpe coreografado de acomodada autocrítica - é ser aquele que escreve; o que julga e condena, de um lado, e aproveita, do outro, os deleites da posição que ora ocupa. E essa máscara ostentosa que o narrador veste sobre seu rosto enquanto seus olhos vasculham pela memória as cenas possíveis de uma crônica ensaiada - e cheia das suas assertivas morais – disfarça tão bem seu caráter sob um entulho de virtudes humanas quaisquer, que faz da história contada seu próprio carnaval.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Aquele era um escritor cansado da poesia. Cansado dos lirismos e da música que invadiam as letras e faziam o leitor desarmado esquecer que era a vida real aquilo que lia; que era seca, amargurante a notícia e que, repleta das futilidades, faziam-no uma vez mais virar os olhos para o sem importância ou o insignificante. Aliás, quando foi que a poesia descreveu tão bem a realidade, que fosse possível vê-las ao mesmo tempo, uma na outra, poesia e realidade? Seguindo essa pergunta sem resposta, ele definia agora, para ele mesmo, que nenhuma outra forma de escrita estaria justificada que não o grafismo da literalidade que o impendia no peito e nos olhos, diante de si no mundo; assim também seria no papel a sua frente, pois tudo o que, a partir dali, escrevesse, seria como os gritos de um animal em sacrifício, falando sua dor diretamente aos ouvidos presentes, pedindo clemência ao seu executor; ou como fotografias frontais de rosto em 3 por 4 dando como prova de existência de um rosto nada mais do que aquilo essencial; ou, ainda, como as pinturas de Lascaux, representações tão reais que o homem moderno não pôde enxergar nelas o computo de um pensamento inventivo ou a falácia de ficção mitológica alguma.

Sua primeira noticia estava ali, diante de si, crua como deveria ser a sua própria linguagem e assim ele seguia dando nota ao caso de um acidente que deixara orfã uma menina de 9 anos, quando a mãe, de quem dependia seu sustento e criação, morreu tragicamente eletrecutada por um cabo de alta tensão partido e mergulhado numa poça d´água no caminho da pobre mulher.

Teria continuado a descrição da notícia e concluído a nota de falecimento se não houvesse entrado em êcstase após ler aquelas duas palavras que apareceram em seu texto, retumbantes; ao mesmo tempo infâmes e plenas de vigor estético. A história que seguia curso nos fatos não tinha, para ele, ali, o sabor e a medida, inconciliáveis, daquela expressão de costume: “morreu tragicamente”. Haveria se sentido culpado por se prestar a uma experiência estética tal como aquela, não fosse a contradição tão absurda das palavras, que deveriam dar o tom brutal de terror, serem justamente aquelas que davam beleza mais viva ao texto.

Percebeu que seria um jornalista desumano se desse destaque aquelas duas palavras, deixando como pano de fundo o desamparo da menina cuja mãe havia acabado de falecer. Mas ao esteta, a notícia era em si apenas um adorno protocolar, um melisma costumeiro, pois era o efeito sonoro daquela expressão que fazia seu texto ecoar por trás dos olhos de quem lia.

Concluiu sua obra, então, com um título que dava novo sentido aquele texto conciso que ele recortou delicadamente da notícia lançada, agora, à gaveta – e assim ficou eternizada sua obra, na forma de uma crônica melancólica ou poesia incisiva, conforme a disposição e a psicologia particular de quem lesse:

“Vítima de um encanto fatídico: Morreu tragicamente.”


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Cena 47

Zuummmmmm...

Se encontra numa sala vazia. “zuumm..” é o barulho que anuncia sua chegada naquele lugar, porque todas as coisas guardam um som característico quando existe ao menos um ouvido lhes dirigindo atenção. Sua chegada, com efeito, é um evento tanto quanto a sua permanência lá, que é o que se quer, em todo caso, anunciar: Está lá.

Quem é? Que lugar é esse? Qual o próposito da apresentação deste instante?

Craac. Mais uma onomatopéia tangindo a presença invisível de movimentos e ações que não foram descritos. Quebra alguma coisa com as mãos enquanto ali dentro procura por algo. Há um objeto, ainda que vago, e algo que é somente uma suposição (um desejo, intuição ou um objetivo).

O processo se repete uma centena de vezes em apenas alguns minutos. Em todo esse tempo, há uma presença, movimentos inúmeros e muita indefinição. Encontra-se, no entanto, aqui e ali imagens conspícuas. Encontra-se também respostas, cada uma delas escritas em minusculas fitas de papel como que oferecidas na medida incerta da sua aceitação. São, sobretudo, tautologias inquestionáveis, pois são o que são e apenas na medida incerta da sua aceitação.

“Algo maravilhoso irá acontecer a partir daqui!”

Não se trata de mero otimismo, contudo. A mensagem recorta no tempo uma linha difinitiva: nada mais é o mesmo; o que existia antes parece agora se distinguir do que virá a existir, pois, a partir daqui, existe um campo de coisas boas possíveis, de coisas boas prováveis. Algo tão vago quanto o objeto da busca das mãos que golpearam, querendo ali dentro encontrar apenas.

Sssssssssss....

Ressoa baixinho quase como o próprio silêncio, pois naquela sala vazia esse é o som de um pensamento não revelado após outro, e outro. Mas ao redor de cada um deles, paira agora esse belíssimo campo de maravilhosas possibilidades, ininterruptamente.

Não se conhece o futuro, mas o presente é instante perfeito para se receber boas-novas, ainda que não se tenha a menor ideia do que são ou serão; e mesmo na mais plena desconfiança de que venham mesmo a ser.



segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O Bom Moço




Lei e moral são formas de uma mesma ideia ou ideias distintas em vista de um mesmo problema, como são os pássaros distintos em suas espécies a referência categórica ao mesmo animal. Não há como determinar a origem de algo senão em si, pois tudo o que antes de uma coisa qualquer se apresenta como sua causa, é, por isso mesmo, já uma outra coisa. Ao mesmo tempo, nada é sem que antes sua existência seja posta como possível.

Ao homem moral, muitas vezes, não há nas leis apelo que à sua consciência satisfaça. Do mesmo modo como são, amiúde, imorais as leis dos homens que, diante de circunstâncias muito particulares, impõem sua norma – pronta e acabada - àquilo que antes não era senão insondável.

Um homem dirige seu carro vermelho, popular, com as marcas pontuais do intenso uso. Ele trafega em baixa velocidade pelas ruas menos movimentadas no interior do bairro de São Cristóvão, quando é abordado à distância por um policial de pé, pedindo a ele que diminua a velocidade.

Ao aproximar-se, o policial indaga, antes mesmo de requerer que o motorista encoste: “Você sabia que placas terminadas em 3 deveriam ter realizado vistoria em julho?”. A fala do policial se condiciona à justificativa já implícita de que a placa do carro em questão assim se numera e de que o mês de julho é agora passado. De fato, o dia do acontecido é precisamente o terceiro do mês seguinte.

O homem acena fazendo menção ao fato de que tem conhecimento do calendário regulamentado de vistorias da agência que regula a circulação de veículos no Estado e encosta o carro, submetendo-se à requisição do policial - feita após a referida pergunta e logo depois de mandar embora outro carro de passeio que esperava ali encostado sob seu comando. Pede ao homem habilitação e documentos do carro, ainda antes que o carro esteja absolutamente parado. Ele estaciona, retira o sinto de segurança, levanta sutilmente o corpo e enfia a mão no bolso traseiro da calça, retirando de lá a carteira com a habilitação e o documento. Entrega-a ao policial que abre e lê com atenção, identificando que a última vistoria data de outubro do ano anterior.

- Sua vistoria deveria ter sido feita em julho. - Sentencia o policial com severidade. - Eu sei, - responde o homem.

- Por que, então, você não a fez? - Questiona em tom antes de curiosidade que de repreensão.

- Eu requeri o agendamento tarde demais e não consegui vagas para vistoria em julho. Minha vistoria agora está marcada para daqui a duas semanas. - Disse homem, não querendo se justificar pelo seu erro, mas tentando responder a pergunta do policial, que insatisfeito com a resposta, prossegue:

- Por que você não fez antes?

O homem - sem resposta a dar - julgou desonesto forjar alguma que de algum modo o desculpasse da sua falha e, uma vez sem resposta, levantou os ombros e contorceu o rosto, oferecendo ao policial apenas uma expressão de absoluta impotência diante da sua pergunta.

O policial guardou no bolso os documentos do homem e indicou que já havia chamado um reboque para o seu carro e que ele aguardasse alguns minutos, pois teria o carro e a habilitação retidos. O homem permaneceu em silêncio, sob resguardo da autoridade que empunhava o policial no exercício da sua função.

Não houve excessos e dos dois lados se via, o tempo todo, homens em face das obrigações que os impeliam. O homem havia desrespeitado as leis que circunscreviam aquele contexto, conduzindo o seu carro irregularmente pelas ruas do Rio de Janeiro. Mas da moral que agora o assaltava, pedia-se a ele que acatasse em silêncio as recomendações do policial. O policial, simplesmente, fazia seu trabalho, que consiste exatamente na observância geral do cumprimento da lei.

Os dois permanecem em silêncio por cinco minutos. O homem pensa no prejuízo que terá com os tramites da retirada do seu veículo e recuperação da sua licença. O policial se remói com a dúvida não solucionada pela ausência da resposta a sua pergunta. Ele provavelmente considera também com pesar o prejuízo que terá o homem, mas não pode deixar de lado as leis que orientam sua conduta e posição como oficial da justiça. Pergunta mais uma vez ao homem: "Por que você não fez a vistoria?" Indicando com o tom da voz alguma compaixão e lamento pela situação em que ora se encontra o homem.

O homem, ainda sem resposta, devolve-lhe apenas um pouco elaborado “não sei”. Mas ele na verdade sabe: Apenas acredita que a resposta, muito complexa para a medida da curiosidade de um outro na função que ocupa o policial, seria demasiado prolixa e transmitiria, de algum modo, a ideia de que tentaria ele desculpar-se pelo não cumprimento das suas obrigações diante da lei, forçando assim um diálogo à margem, em que ele poderia se beneficiar ilicitamente em face da condescendência possivelmente promíscua do policial.

Engole a seco aquela resposta, pois nem mesmo a sua autoridade é suficiente ali para arrancar do homem resposta mais elaborada e permanece em silêncio por mais cinco minutos, aflito e tensionado entre o cumprimento do dever e a compaixão por um homem cujo o único crime fora o atraso.

A lei é objetiva: Estabelece aquilo que é, enquanto resultado de ações individuais, e como deve ser, a partir das punições previstas àqueles cujas ações procedem em descumprimento das normas. A moral é sensível: Pode o policial compadecer-se com a infelicidade do transgressor, reconhecendo haver ali punição demasiada para crime tão pouco danoso.

O policial se aproxima mais uma vez e pergunta ao homem: “O que você faz?”

- Sou professor – responde. 
- Professor de que? 
- História... – e suprimiu no último instante, mas intencionalmente, a palavra “arte” que, assim, designaria de forma mais precisa sua disciplina de atuação, porque julgou que tal pormenor nada acrescentaria em perspectiva àquele diálogo. Para o policial, um professor de história ou um professor de história da arte se deveriam orientar pelas mesmas obrigações e deveriam valer a eles os mesmos direitos.

O policial fez uma breve pausa e olhou para os lados, inconsolado com a decisão que estava em vias de tomar, qual seja a de liberar o homem, indulgentemente, contrariando suas convicções mais distintas diante da lei em face de alguma convicção moral mais fundamental que aquelas.

Entregou os papéis a ele e disse: “Pode ir, não vou mais tomar o seu tempo”.

O homem, aliviado, entrou no carrou; partiu otimista e disposto a regularizar sua situação o mais prontamente possível em respeito ao amabilíssimo gesto que acabara de presenciar. Pois se as leis produzem homens da justiça tão plenos de consciência moral como aquele, devem elas se sustentar em razão subjacente mais profunda que o simples apreço pela norma.    

segunda-feira, 8 de junho de 2015

A Festa dos Esquecidos



É comum o relato de pessoas que encontram dificuldades em descrever, sobre os seus sonhos, inicio ou fim. Por isso mesmo, parece oportuno concluir de que se trata, o sonho, de um fenômeno psíquico com independência ao menos relativa da vida consciente, lógica e sequencial, a partir da qual estabelecemos as narrativas que guiarão nossa vida social, nossas relações e nossos afetos. Eu mesmo desconheço quem tenha estabelecido relação intensa e de longo prazo com alguém cuja presença em sua vida se fez na maior parte do tempo atráves de sonho ou mesmo apenas ali. Há algum dispositivo eficiente que garante autonomia aos sonhos e nos permite abandonar aquela vida que se teve durante toda uma noite como ficção vulgar; são fantasmas que se dissolvem tão logo se recupera a vigília, mas o mais importante, dissolvem-se com eles todos os sentimentos experienciados e os afetos que durante aquele fluxo de imagens se fizeram de algum modo presentes. Mas, hoje, algo incomum aconteceu.

Em primeiro lugar, o sonho se inicia com a disposição de uma clareza narrativa que poucas vezes reconheci nos relatos dos outros ou na minha própria vida passada de sonhos. Há um cenário bem definido e uma razão - embora não muito clara - destilada na atmosfera do sonho para a minha presença naquele cenário. Visto um uniforme que me infantiliza, mas que é também a marca distintiva de todo aquele espaço cênico, já que todos a minha volta compartilham o mesmo uniforme. Reconheço nele a instituição de um passado que a minha memória parecia ter deixado para trás há muito. A sensação de ser novamente um colegial, no entanto, parece encontrar eco numa experiência recente, na qual me fiz frequentar diariamente um curso de língua por mais ou menos cinco meses num país estrangeiro, onde a maior parte dos elementos que caracterizavam minha vida adulta não se faziam ativos. Lembro-me de sentir-me ao mesmo tempo constrangido e excitado com a sensação de ser novamente “criança” durante aquele período; a frase “vou para escola” causava-me certa angústia particular toda vez que saía da minha boca, como se algum mecanismo psicológico delicadíssimo me desse advertência moral sobre a impossibilidade de retroceder, em outras palavras, de que a vida adulta me deveria ser um fardo a ser carregado sobre os ombros agora e indefinidamente. Mas algo diferente acontece aqui: estou cercado de crianças; adolescentes em cuja juventude, no rosto estampada, espelha-se a minha própria.  Há uma razão, como eu disse, para a minha presença naquele espaço e ninguém a minha volta parece questionar a pertinência dela, ainda que ela não se faça explícita em nenhum momento, mas essa razão não se encontra em meu passado. Há algo de ambíguo na infância que se faz em mim reviver no espaço daquele sonho, já que sou ali o mesmo adulto que era horas antes de mergulhar naquele sono mais ou menos profundo. Afinal, a vida (também a do sonho) é sempre a vida presente.

O espaço, no entanto, não recupera a arquitetura da instituição verdadeira, que posso, agora, depois de acordado, acessar em minha memória. Trata-se de um espaço aberto, sem salas de aula, onde as pessoas se amontoam aos grupos que eu vou reconhecendo e abordando, pouco a pouco. O momento dessas apresentações parece também ter uma justificativa narrativa, mas não só: é, a mim, possível identificar com muita clareza aquela sensação, misto de alívio acadêmico e comprometimento social, que o recreio entre as aulas sempre representou na minha vida escolar. Aqui, uma metáfora se descola do sonho e me projeta ao agora, o instante em que escrevo: o recreio é, como o sonho, um espaço de transição; uma interrupção que se define antes por tratar-se de um mundo entre mundo que por sua imanência mesma. E algo mais tensiona a diegese que esse esquema narrativo subliminar sustenta: a nostalgia que se intensifica em mim a cada rosto que reconheço como figura do meu passado.

Sigo até eles e, um por um, os abraço, exteriorizando e reiterando com palavras saudosas essa nostalgia que me assalta. Recupero alguns nomes, outros permanecem ocultos. Alguns parecem refletir um sentimento nostalgico ao meu análogo, outros remoem certa indiferença como houvessem conservado uma vida privada durante todo esse tempo e a qual eu não posso ter acesso.

Converso em privado com uma jovem, namorada de um colega de classe, que me conta dos seus planos de estudar na suíça. Há, todavia, algo de diferente nela. Na sua imagem e nos sentimentos que eu mesmo dirijo a ela, encontro traços de uma outra figura, essa mais recente na minha história pessoal, mas do mesmo modo uma “namorada de um amigo”. Não questiono a “fusão”, de todo modo, porque parece-me algo natural. Aquelas pessoas parecem não carregar a responsabilidade de conservar uma identidade precisa, como se houvesse um entendimento silencioso de que são todas projeções minhas: um pacto que precisa permanecer não dito para que a diegese se conserve de algum modo intacta.

Sentados num degrau estrategicamente localizado no pátio, que não possui nenhuma função arquitetônica senão a de ser assento para aquelas duas figuras do meu passado, estão “Frangolino” e “Scooby Doo”. Uma feliz coinciência trazer à tona essas figuras da ficção infantil do meu tempo, mas os nomes são reais, ou ao menos tão reais quanto as alcunhas que adquirimos com tanta frequência na vida jovem. Abraço-os, os dois de uma vez. Tomo, em seguida, Frangolino pelos ombros e ofereço a ele palavras de afeto, transbordando com a excitação nostálgica que parece não me abandonar durante todo o sonho. Posso encontrar com precisão agora na memória detalhes do seu rosto que me querem denunciar que a “realidade” não é mais que um truque cinematográfico: um sinal tímido ao lado do nariz cheio de personalidade (que lhe garantiu o apelido eminente) se projetando com sua anatomia peculiar embaixo do arame delicado e prateado da armação retangular dos óculos, enquanto o rosto de Scooby é apenas uma superfície manchada ou uma imagem sem foco e translúcida, mas sobretudo um nome. Porque no sonho, mais do que em qualquer outro lugar, conservam as palavras e as coisas uma identidade solícita; e mesmo material. Por isso mesmo, naquele universo, não há maior grau de realidade numa pedra do que há num fantasma; o sentimento não é, também, menos real que a ação; os corpos e os espíritos são, então, apenas as colorações sutilmente distintas que se deslocam na superfície de um líquido - meras refrações luminosas, talvez.    

Mais a frente, um grupo de figuras indeterminadas. Chego a eles e ofereço a saudação comovida de um amigo do passado, mas eles parecem não me reconhecer de imediato. Vasculho separadamente pelos rostos do grupo e também não os reconheço. São, contudo, mais jovens que os outros. Largo-me, então, à conclusao de que são calouros. Essa ideia parece acalmar o meu constrangimento pelo engano da minha abordagem. Esse constragimento, por sua vez, conserva também sua função diegética, fazendo-me ignorar que aqueles figurantes não tem personalidade própria, que são figuras sem qualquer densidade, talvez mesmo incapazes de comunicarem-se simplesmente porque minha psiquê é incapaz de lhes emprestar voz ativa. Em todo caso, a rejeição momentanea reacende em mim do mesmo modo uma memória particular. A consciência contida de que sou eu mesmo a razão de ser daquele universo não me concede autonomia absoluta sobre os meus sentimentos entre os quais a rejeição parece ocupar um lugar de destaque.

Agora, caminho junto a um grupo de amigos por um corredor que vem de lugar nenhum e parece se dirigir a lugar algum e outra figura se faz em destaque vindo na minha direção. O movimento é uma constante porque o espaço e as coisas são acentos e tonalidades de um mesmo fluido. Corro para cumprimentá-lo, entusiasmado, ele aperta a minha mão e parece sustentar um sorriso ambíguo. Eu comento sobre um sonho recente meu, no qual ele haveria dado o ar de sua graça. Logo, a ambiguidade se faz declarada. Ele acusa meu entusiasmo, sugerindo-o tratar-se de mera falsidade. Argumenta que esse sonho não existiu e que eu não me lembro, de fato, dele. Eu me defendo dizendo que no sonho ele não era exatamente ele, mas uma fusão na qual sua figura, no entanto, assumia um papel de destaque e descrevo brevemente seu contexto de aparição, como se esse preciosismo descritivo conferisse ao sonho textura real alguma. Ele me desafia: “Qual o meu nome?” Eu não tenho a resposta de pronto. Vejo o nome “Nathália” como uma imagem dentro da imagem. Quando, no entanto, preparo-me a oferecê-lo como resposta, percebo que não faz sentido. A figura a minha frente atende pelas determinações do gênero  masculino. Pocuro no “n” uma sonoridade familiar e dali extraio um outro: “Daniel” - é a minha resposta final. Ele não aceita e reitera: “Você não sabe quem eu sou!” - cheio de ressentimento, como se eu o houvesse abandonado sob os escrombos de memórias insignificantes. “Meu nome é Araquém”, diz.

Eu não acredito. O nome parece inventado - lembro-me de haver assim pensado. Eu me lembraria de um nome incomum como esse se alguma vez ele tivesse tomado parte na minha vida social. Percebo, então, que ele mente, ou melhor, que dá para si um nome como se se quisesse afirmar, altivo, independente, como se dissesse: “Eu sou muito mais que uma lembrança vaga que você largou como um canivete sem uso no fundo de uma gaveta”.

Daniel, esse era o seu nome - digo a mim mesmo em pensamento. Deixo-o com o seu ressentimento e sigo em frente. Talvez o tenha deixado no fundo daquela gaveta por algum motivo, talvez não, mas devo acordar logo e não quero perder esse tempo precioso do sonho com ressentimentos.

Novamente, sou invadido por aquela excitação nostálgica. Reencontro um amigo e o abraço. Tomo seu rosto em mãos e tenho lágrimas nos olhos. Reconheço uma ponte entre o sonho e a vida real e digo a ele que devemos sair para tomar uma cerveja lá fora, quando o sonho acabar. Ele pondera, dizendo-me que mora longe. Eu contra argumento prometendo buscá-lo em casa e acordo.

Mas dessa vez, algo não muito comum. Os sentimentos não se dissolvem com as imagens do sonho. Eles permanecem lá ainda por muito tempo. Melancolia descreve sem muita precisão a maior parte deles. Sinto-me de algum modo culpado por todos aqueles que abandonei sob os escombros de memórias insignificantes. Procuro, caso a caso nas figuras que me houveram brindado naquele sonho com a sua presença, o momento em que essas memórias deixaram de ter valor e encontro uma justificativa que parece me aliviar daquela culpa. Eles escolheram, de uma maneira ou de outra, o papel que representavam no sonho e tinham todos ali isso em comum: eram todos memórias mais ou menos vagas; imagens que não conservam relação alguma com minha vida presente; figuras sem história - não casaram, não tiveram filhos, não se tornaram profissionais respeitáveis ou mesmo adultos irresponsáveis ou delinquentes; não faleceram em acidentes de carro, não se tornaram pessoas públicas eminentes. Também não tiveram oportunidade de conquistar minha admiração furtiva e silenciosa pela forma como se comportam e conduzem sua vida social dia a dia.

Mas a memória tem sua mecânica complexa, não como uma câmera ainda que moderníssima, pois ela não grava apenas imagens e sons. Ela confere independência de tal modo aos seus registros, que concede a eles - de forma relativa e condicionada, é verdade - uma vida e uma dinâmica próprias. Eles podem falar dentro dela o que nunca foi, de fato, dito; podem performar movimentos que nunca foram, de fato, articulados; podem ressentir-se e entregarem-se ao ressentimento em palavras ou podem calar; a namorada do amigo tinha planos de estudar fora; Daniel rebatizou-se com o nome de um Pajé Tabajara, pai de Iracema na ficção de José de Alencar - que eu até então desconhecia; e os sentimentos que se tiveram em algum tempo registrado podem ainda fazer chorar quem os carrega ocultos... quem sabe a grandiosidade de seus gestos e de suas palavras que se transformam a cada segundo no submundo da memória, enquanto a vida consciente segue, bruta e pragmática, ignorando-os, como o mundo real ignora seus esquecidos?

Que a tirania dos poderosos não nos sirva de exemplo em nosso reino privado, pois a vida já é desumana o bastante lá fora...


quarta-feira, 20 de maio de 2015

Dialogs on stone tablets




A man and a woman meet on the street:

Hi you! / Hello! - both of them offering each other their good manners.

How are you? - Says the man.

And she replies - Pretty fine... but, I am just worried about a Zipplie I saw five minutes ago.

Did you see a Zipplie? This is amazing, actually. Why are you worried about it?

I am worried about my son, walking around. Cause, you know, he plays guitar in a heavy metal band.  

Now, imagine the following dialog between a priest and a giant frog. They are sitting in a wood banch in a public garden. The priest tries to explain the frog the wonder of symbolic thinking and how this indirect knowledge of things and faith are tied through a primitive bond:


'I can tell you about an old woman, carrying a bucket over her head, and spitting on every longhaired man she sees. I can tell you about this old lady even if I never saw anything like it. But as long as you know the words old, woman, bucket, etc., you can pretty much imagine the same figure I have in mind when I talk about it. Of course, your figure might have a different dress, since I didn't define every detail; she might be naked and have a big nose; or she might be carrying a surf board under one arm while holding the bucket with the other; but she certainly is not a man, and she definitely is not young once I just told you she is a woman and she is old. You can picture, otherwise, fishes inside her bucket, tattoos all over her body; you can think about a skinny old lady or about a woman on a wheel chair, doesn't matter; an old woman with a bucket on her head, spitting on every longhaired man she sees is pretty much the idea you would have in mind.'

The frog is deeply attentive, and the priest continues with his argument:

'Well, let´s say this old lady, or much better, this kind of old ladies have a name. They are known as
“chactalac”. Even if no one has never seen a “chactalac”, since the concept is given in the current language, every one can understand it. And now when I formulate the sentence “there is a chactalac in the drugstore”, you imagine an old woman carrying a bucket on her head inside a drugstore, and every time a longhaired man appears in this picture in your mind, she spits on him, or at least she tries. This may sound a bit awkward, but let's suppose someone says just “There is a woman in the drugstore” in the 9th century. As the word drugstore is not conceived as a proper word, it would be necessary to state that drugstore is a place where you can buy certain kinds of products which have been classified in accord with a number of specific functions. Maybe they would be familiarized with the concept of medicin, maybe not, it´s hard to tell.'

At this point, the frog nods affirmatively and launches out: “I see where are you trying to get with this, wrooobitt... go on, wroobittt”

'The language is a symbolic instrument which allows humans to connect themselves with a reality that their senses can not contain. We are able to understand each other and the barely “real” things people say one to another , cause we all believe in language. If I tell you about an old woman carrying a bucket and spitting on longhaired man across her way, you can just not believe that this woman exists, but you certainly believes in those concepts that I used to build this image, like bricks in a fortress. And the fortress is so solid it wont fall apart just because you have doubts about the shape or the efficiency of its architecture. Like when one of the patients of Freud has advised him that he did not believe in his method and Freud immediately replied: “My method works regardless of your beliefs”. Now, think about the idea of God...'


“There you go...wroobitt” - Said the Frog.

'Hey, just because you don´t believe in God, it doesn't mean that the idea of God is devoid of significance. Imagine how many constructions of concepts were necessary to the synthesis of what most of us understand as God... We are talking about a much more complex picture than the one of an old woman carrying a bucket.'

“Yeah, we are talking about a picture of an old man longbearded carrying lightnings or something similar... wrooobit wroobit. It makes this old lady to appear very plausible, wrooobitt.” - joked the giant green toad.

'Ok, then, forget the word God and take those different concepts: love, benevolence, comprehension, omnipotence and justice; try to describe and find the branches that connect these concepts with much more primitive ones. Yet, first of all, keep in mind that we are not talking about religion, but about language.'

“I see your point. But if you allow me, I would give another name to this complex idea shaped among the concepts of love, benevolence, comprehension, omnipotence and justice.. wrooobitt”

'So, what do you suggest?'

“wrooobit. How about Zipplie?”


sábado, 9 de maio de 2015

Die deutsche Dame



Ich kann nicht mehr machen als was ich kann
ich bin eine Kopie von mir selbst

Sie ist sie
eine unermüdliche Tautologie

dennoch habe ich sie vor mir laufen lassen

Sie ist dort angekommen,
ich nicht... noch nicht..
aber ich werde
werde ich?

Wenn ich angekommen bin,
wird sie jedoch vielleicht nicht mehr dort bleiben
Sie bewegt sich immer noch
Ist es möglich?
Sind wir nicht im gleichen Raum?
und nicht in der gleichen Zeit?

Jetzt bin ich hier
Ich kann sie nur beobachten
sie sieht nahe aus,
aber nee...
Ich komme nie an,
Ich werde sie nie erreichen, denke ich...

Mein Verstand läuft langsam und begrenzt,
weil es keine sammelung der Möglichkeiten ist
Mein Gedanke ist ein gegangener Weg,
eine befahrene Strasse
ein Fakt
solide
wie ein Stein

Und sie? sie lebt
doch!

Sie läuft vor mir
immer weg
Ich kann sie nicht halten
nicht berühren
dann spiele ich mit ihrem Schatten

“Ein Stein der einer Schildkröte nachläuft”
Sagt der Wind

“Ich kann nicht mehr machen”
Sagt der Stein