domingo, 2 de dezembro de 2012

Bonum Mercator nihil donat


O comércio é um jogo curioso.

A introdução poderia soar vaga não fosse dada à razão de mencionar certo procedimento em que um comerciante oferece, “gratuitamente”, na compra de um produto qualquer, um produto outro que, a principio, não denota nenhuma relação necessária com o produto a que virá, no trato em questão, vinculado. Chama-o “brinde” e tenta fazer sugerir que se trata de um negócio que se justifica na simples oportunidade dada, porque seja o comerciante um bom samaritano, louco, ou homem de pouca a nenhuma inteligência, a título de vantagem ao comprador que, não fosse por isso, compraria ainda assim, porque o produto em questão é bom o bastante e o preço absolutamente razoável. Diz-se que o bom vendedor é capaz de vender gelo a um esquimó. Mas se fosse o caso destes ditos estenderem-se com algum detalhamento, poderia-se também incluir que o esquimó levaria, ainda, na transação, um espelho de bolso ou uma escova-de-dentes.

Em um grande Shopping Center na zona sul do Rio de Janeiro, um conjunto de lojas associadas – que compreendia quase a totalidade das lojas do edifício – oferecia a todo comprador de seus produtos, cupons a partir dos quais o comprador seria convidado a concorrer a um carro novo: respeitando que a quantidade de bilhetes que o candidato ao carro disporia na urna do sorteio seria proporcional ao dinheiro por ele gasto nestas lojas.

O carro encontrava-se apoiado sobre um pequeno palco, na calçada bem em frente ao Shopping, logo ao lado da urna, que se situava atrás de um pequeno balcão de onde um funcionário, estabelecido pelos comerciantes vinculados à promoção, anunciaria o ganhador imediatamente após o sorteio do bilhete. Um amontoado de pessoas se espremia na calçada a espera. Ao todo, duzentas pessoas se dispunham como espectadores do evento que escolheria um ganhador dentre os milhares, talvez milhões, de cupons que, analogamente aos ali presentes, se espremiam na urna.

A ansiedade fazia com que as conversas que tinham lugar entre aquelas pessoas parecessem murmúrios. Isso porque nenhuma conversa deveria tomar suficiente atenção ao ponto de fazê-los desviar-se do sorteio e do anúncio do sorteado. Como se não bastassem os cupons alojados ali; como se o sorteado houvesse mesmo que personificar aquela escolha, estando ágil e disposto no momento do sorteio para que seu grito de entusiasmo fizesse condecorar uma escolha assim batizada pelo mérito – pouco criterioso, contudo – da expectativa. Desse modo, conversas se iniciavam sem muita convicção, em tom de voz ameno e findavam logo que alguma movimentação se fizesse aparente no palco a frente. 

A mulher, que retiraria o bilhete e anunciaria o vitorioso, se mexeu a frente do microfone disposto no balcão e fez menção a dizer algo. Embora o silêncio não houvesse irrompido absoluto e instantaneamente, foi conquistado em poucos segundos, ao custo de algumas reprimendas e sutis indelicadezas dedicadas uns aos outros pelos próprios ouvintes daquela sessão. Anunciou, então, que giraria a urna - cuja forma aparente já antecipava a mecânica de um dispositivo que a faria girar, certificando aos presentes que a escolha não seria determinada por possíveis “lugares privilegiados” onde a presença do cupom indicaria maiores probabilidades de que seria esse mesmo cupom sorteado: isso porque se havia ali premissa alguma para sorte era essa a quantidade de cupons por indívíduo e, portanto, o dinheiro gasto nas lojas e não a medida do manejo e a sagacidade do candidato no instante de atirar na urna o cupom – e escolheria o bilhete inadvertidamente, sem preparação ou parcialidade algumas, apenas se dispondo a cumprir as recomendações a ela dadas pelos organizadores do evento.

Girou, assim, a urna durante dois minutos e meio. Tempo necessário para a distribuição aleatória e casual dos bilhetes, mas também potencialização eficiente das expectativas, como fizesse-se rufar tambores a indicar que o resultado em espera era digno de toda reverência e atenção. Enfiou a mão na urna e de lá arrancou o bilhete - que antes não era senão um bilhete - e posicionou-o à frente dos olhos.

A pequena multidão fez dilatarem seus ouvidos, desfizeram-se de todos os pensamentos impróprios dedicando atenção que provavelmente não dedicaram antes nem mesmo a seus filhos, suas esposas e maridos, seus pais, colegas de trabalho ou professores, mas antes que a mulher anunciasse aquele nome, interrompeu-a o resultado de um evento outro que, desenrolando-se paralelamente ao sorteio, resultou num automóvel em alta velocidade invadindo a calçada e colidindo brutalmente com o carro novo a espera, objeto do sorteio em andamento.

Responsável pelo acidente, saiu do carro uma senhora ainda atordoada com a batida, mas aparentemente saudável, e dispensou sobre a cena um olhar de espanto. Os outros ali presentes haviam dispensado o mesmo olhar de espanto alguns segundos antes: Agora, começavam a entumescer suas expressões faciais, preparando-se para dedicar hostilidade mais veemente a inoportuna recém chegada quando a anunciante do sorteio, num misto de presença de espíríto e omissão de responsabilidade, declarou: “Senhor Marcos Heleno dos Santos!”

Imediatamente, diante do povo que naquele segundo retomava atenção sobre ela, identificou um rapaz que, ainda sem entender exatamente o que se passava, insinuou tratar-se ele mesmo de Marcos Heleno dos Santos. Logo, ela desceu do palco, esticou a mão com a chave do carro e entregou-a ao ganhador dizendo-lhe, antes de partir sem delongas em retirada: “O carro é seu. Parabéns!”.

Após o tramite concluído as expressões hostis do público deram lugar a novas, que no geral variavam entre a frustração e o alívio. Não era o caso particular daquele rapaz que, se segundos antes saltou-lhe um convidativo entusiasmo e agradável surpresa com o sorteio que lhe havia sido favorável, restabelecida a cena em que a velha e os carros amassados tomavam parte, seu humor, então, era o do homem irritado e desgostoso porque tinha que resolver o problema que acabara de chegar-lhe as mãos junto com a chave de seu novo carro.

Sem perder muito tempo, foi diretamente ter com a senhora, quando perguntou-lhe secamente: “A senhora tem seguro?”

A pergunta era honesta, já que cumpre ao proprietário zelar pelo bem de que dispõe, mais ainda quando se trata de material valioso como aquele. A resposta nem tanto, conquanto se lançara levianamente na forma pouco esclarecida de uma nova pergunta: “O senhor tem?”   

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A umidade relativa da água



Chegou na minha casa às 23:37. Sei exatamente a hora porque olhei no relógio - sabia que mais cedo ou mais tarde acabaria escrevendo sobre isso e me apeguei aos detalhes desde a espera até a hora que ela partiu. Abri a porta e ela entrou. Sentou-se no sofá, cruzando as pernas que saíam de dentro do vestido minúsculo e esboçou um início de conversa: - Bela casa você tem.

- É alugada. – tive que dizer para que ela não pensasse enganosamente da minha situação financeira.

- Ainda assim é bonita. – ela concluiu.

Eu ofereci vinho, cerveja ou água, ela rejeitou, sumariamente, se levantou do sofá, colocou as duas mãos na minha cintura e começou com as carícias. Primeiro subindo pelo abdômen, por dentro da camisa, por todo torso até o peitoral, depois descendo, cravando as mãos por dentro das minhas calças e apertando minhas nádegas com força.



Minha timidez me deixou em atraso e eu demorei uns quantos 5 minutos para tomar o controle da coisa. Foi quando a virei de costas com brutalidade, encostei-a contra a parede da sala, bem ao lado de uma reprodução impressa de um quadro de Rothko, puxei a calcinha por baixo do vestido vermelho e penetrei nela sem esperar que ela estivesse pronta. Como não estivesse suficientemente molhada naquele momento sentimos, eu e ela, o vigor áspero e a brutalidade insensível da minha ofensiva. Mas ela logo se umedeceu e aquilo ficou pra trás. Eu continuei por trás dela, com força, num movimento em que fazia me demorar dentro dela, forçando até onde fosse possível a entrada.

Eu mantinha os dentes cerrados: se algum observador oculto me descrevesse espumando pela boca, eu não duvidaria. Ela gemia alto demais e eu cansei daquilo. Conduzi o rosto dela pelo cabelo com violência até embaixo, onde pressionaria sua cabeça contra o meu pau, fazendo da boca um orifício à disposição ininterruptamente. Depois de alguns segundos ela ficava sem ar, pressionava as mãos contra o meu corpo oferecendo resistência contra as minhas investidas, recuperava o fôlego como se lutasse contra um intempestivo afogador, e se largava novamente ao movimento.

Quis chamá-la pelos mais ofensivos nomes que me vieram a cabeça naquele momento, mas permaneci calado, com a mandíbula contraída. Levantei-a, ainda pelo cabelo, apertei firme sua cintura, apoiando-a sobre um móvel ao lado do sofá e tornei a penetrá-la. Sustentei o olhar diante do olhar dela, que arrefeceu e se desmanchou em submissão sem que ela desviasse de mim os olhos, enquanto eu mantinha o movimento da pélvis, que ela sentia e declarava com um gemido suave a cada estocada.

Ao me aproximar do gozo, puxei com força seu cabelo, inclinando a cabeça para trás, e cuspi sobre a sua boca. Ela arregalou os olhos assustada, mas como não tivesse controle nenhum sobre o movimento que eu fazia e que se concentrava entre suas pernas ela retomou a expressão de prazer e mordeu os lábios encharcados com a minha saliva. Segundos antes de gozar, puxei-a novamente pelos longos cabelos e gozei sobre seu rosto, como se cuspisse uma segunda vez. Ela fechou os olhos e se colocou a disposição.

Retomando o fôlego e deixando pingar as últimas gotas de sêmen no chão, que eu arrancava de dentro pressionando o indicador e o polegar sobre a cabeça do membro, fazendo um movimento que ia da parte superior da glande e do prepúcio até a ponta - como se ordenhasse uma vaca - senti o calor se esvair, o suor que escorria abdômen abaixo, e como se uma criatura completamente diversa daquela que acabara de gozar assumisse o comando, virei de costas e fui até o banheiro, trazendo – na volta – uma pequena toalha que entreguei a ela para que enxugasse o rosto. Ela me agradeceu com um sorriso, como se eu fosse o cara mais amável do mundo. Eu, então, tomei aquele rosto entre as minhas mãos (Até ali não havia reparado na beleza ingênua que se descolava dele, como uma máscara delicada que se desfaz com o toque bruto) e acariciei como acariciasse uma criança ou um cachorro (pois até hoje não sei ao certo a diferença entre o carinho que se deve entregar a uma criança e a um animal de estimação). Os olhos dela, a partir daí, se encheram de água e ela quis chorar, mas não deixou que uma só gota escorresse. Os olhos, que tanto líquido haviam produzido, foram os mesmos que absorveram cada gota não chorada, cada lágrima não descida. Levantou-se dos joelhos no chão que, provavelmente, já sentia doer, e se recompôs. Catou a calcinha, esticou o vestido e esperou que eu tirasse 150 reais da minha carteira e entregasse a ela, conforme fiz logo depois.

- Obrigada! – ela disse não sei se com ironia ou por sincero agradecimento. – Obrigado você! – eu respondi e responderia fosse pela honesta graça ou pelo sarcasmo.

Levei-a até a porta.

Sentei-me no sofá e procurei sentimentos por entre os escombros do que havia sobrado dentro de mim. Certo era que um monte de culpa se fazia conviver com alguma emoção mais claudicante, reticente, e que não deveria estar ali. Pensei por um segundo estar apaixonado. Mas me desfiz do pensamento. Não sei, de fato, o que é a paixão e a poderia ter tomado por coisa muito mais frívola, como já antes tomara, aliás, quando após uma refeição magnífica meus pensamentos se dedicaram tão intensamente àquele prazer que certa vez acreditei estar apaixonado por uma lasagna. Ademais, paixão não é coisa que se compre com 150 reais. 150 mil talvez, mas isso não cabe aqui especular.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O pintor de paredes


"Wir fühlen den Schmerz, aber nicht die Schmerzlosigkeit"
(Sentimos a dor, mas não a sua ausência)
Arthur  Schopenhauer



Fecho os meus olhos e outros dois olhos, de repente, aparecem diante mim; diante de meu peito ou ao meu redor; uma imagem que se espalha e contamina aos poucos o espaço de minha percepção; não são, no entanto, olhos de verdade o que vejo; e como poderia vê-los de olhos fechados? São olhos não porque “ser” lhes funde em alguma verdade, mas porque uma existência sutil lhes entrega o caráter de ‘coisa no mundo’. Olhos pintados por mãos invisíveis - a memória é uma artista tão delicada; detalhista, algumas vezes e outras, apenas delicada. Pois há esses momentos em que se apega somente ao essencial; desfaz o contorno preciso em forma que já não se quer definida; derrama sobre o espaço intangível entre os olhos e a alma a cor que dia houve visto em círculos e elipses em vida e movimento. Agora, no entanto, retém perene e objetivamente apenas seu nome: azul. Mas a palavra, somente, não faz jus aos olhos que dia estamparam essa cor; a mesma cor, talvez, que Agamenon um dia viu sobre o Egeu quando da sua investida em direção a Tróia. Mas também esses olhos, os do herói grego, não tem verdade que não seja apenas o reverberar de um sentido que dia fez nascer a palavra, ecoando através das vozes que se seguiram à voz de Homero ou nos palimpsestos gravados a custo de mãos que hoje já não mais pintam.

Abro meus olhos e aqueles olhos outros permanecem diante de mim sem dirigirem-se aos meus, pois sua imagem imprecisa não se delineia através da visão e nem é o sol quem a alumia; esse mesmo sol que um dia iluminou a visão que Galileu teve do azul num céu à luz do dia; o sol que Copérnico descreveu, talvez, como um nome apenas e em nome de uma visão que não era, todavia, a dos olhos seus.

Respiro fundo e sinto o cheiro do mofo que cobre as paredes do quarto. Mas faço surgir renitente a imagem da pele, cuja cor dá também vida a uma pintura nascida sem tela. Mas pele, branca ou bege, pontuada por sinais mais escuros como que pintados à ponta de um lápis, essa pela não exala, como se pede, o cheiro que um dia teve lugar sob minhas narinas. O cheiro não é, com efeito, da memória um talento exemplar; permanece intocado. Quanto mais aspiro mais é, nada obstante, o branco (e tanto menos o bege) - da superfície por onde se espalham aqueles pequenos sinais - que sobe e me penetra os pulmões em imagens visíveis ou quase, sem odor algum a evocar. Se sob as narinas vigilantes, todavia, esse aroma exalasse novamente, eu poderia tê-lo outra vez e reconhecê-lo. A memória é um pintor virtuoso mas um perfumista apenas medíocre ou nem isso; e se nem mesmo no espaço memorial rarefeito tenho eu a presença do cheiro, pouco tenho as palavras que me possam nessa arte delicada guiar para retomar da baunilha outra coisa que não o amarelo vivo das suas flores.

Como guiasse, na memória do músico, o timbre, os intervalos e as notas de canção silenciosamente retomada; porque também ali a harmonia permaneceria incógnita se não houvesse sabor e individualidade em cada som que se evoca. Mas a minha lembrança é nesse campo, ainda, uma orquestra vacilante. Pois quando penso na voz é a imagem da boca a mexer o que surge ao redor dos meus ouvidos. Aquela voz que um dia antes sussurrou em um ouvido meu, não retorna e não me parece haver meios para fazê-la retornar senão no que se pode rever do resvalar ruidoso do ar sobre os lábios rosados e um quase tom agudo, desvanecido, de quando um dia ouvi tal voz a cantar. É dos instantes em que ela sumia, entretanto, que a lembrança se faz mais rigorosa. Gravou-se dessa voz o silêncio numa imagem, ainda que intangível, para olhar; era o silêncio a nota dominante, sem dúvida, porque eram a mesma sentença o canto e ar que escapava através da garganta. 
  
Posso ainda vestir um corpo ao redor daqueles olhos, sob um tecido florido, prender-lhe cabelos ao redor de um rosto refigurado, ou ainda despir esse corpo e retomar novamente a imagem da pele branca, reinventar seios – como eram aqueles – pequenos e disformes como os de uma jovem há pouco tempo ainda criança, ou ainda o umbigo, que é agora apenas um pequeno orifício acima da pélvis, uma imagem sem fundo e sem superfície; um buraco negro que pede por ser esquecido pois que os dedos não mais lhe podem tocar.

Além de tudo, a memória não tem volume, não tem textura ou opacidade, pois detalhista ou não nunca nos leva ao centro daquilo que se empenha em mostrar. Nem as sensações e os sentimentos que nasciam no meu corpo quando da presença daquele outro traduzem aspectos de realidade alguma, já que a memória não se alimenta daquela matéria, mas das tintas dos sentimentos de agora. Talvez seja querer demais da memória, essa gravurista ambiciosa, não mais que oportuna, quando o caso requer mais que o naturalismo da pintura de uma paisagem ou natureza morta. Pois a essência não é apenas o azul que nascia nos olhos ou o cheiro do branco descansando sobre a pele, não é nem mesmo a transparência da voz na forma silenciosa do ar entre os lábios, nem é, ainda, os contornos do corpo ou menos o tecido e os cabelos ao seu redor.  A memória, ainda quando uma fotógrafa experiente e tenaz, não pode exprimir a essência quando se pede que essencial seja tudo: O todo, as partes e nada mais.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Mal Secreto


Na mesa vazia, uma carta se apoiava silenciosa. Pois nem a mesa vazia, vazia estava, nem a carta se via, já que o envelope, fechado, a fazia adormecer. À volta, uma sala sem rosto. Um espaço não demarcado, escuro ou semi-escuro, já que vultos transparentes circunscreviam o ambiente ainda por ser descrito. De fato, não apareciam, mas se deixavam mostrar, ainda, nos limites, nas bordas da imagem que nem forma tinha; imagem sem remetente, como a própria carta ali dentro de um envelope quente.

É de se supor que o texto fazia menção a alguém, se dirigia a um outro e, muito provavelmente, guardava consigo as frustrações, desejos, idéias, os vícios, perturbações, cacofonias, inclinações, gestos e ensejos, alegorias, ignorância e domínio de algum dispositivo autômato que fazia de seu senhorio também um autor. Mas o texto - o texto mesmo - palavra e palavra conforme o que se lia; se leu ou lerá, não estava à vista. E alguém, por certo, por isso se pôs também aliviado. Porque também curiosidade e desprezo, zelo e audácia, preocupação, perspicácia e contexto, eram em nomes as sombras, traços quase visíveis dos vultos que ao redor da mesa - e da carta – circulavam no espaço de dentro da sala, ainda que fora das margens. Já que a topologia do oculto é esse virar ao avesso do plano; olhar de um lado e do outro sem ver a dobra, sem ver o verso, sem frente nem costas nem lado nem todo – apenas o intermitente e pulsante indeterminado.
    
Mas sob um olhar atento, mais fundo, ver-se-ia que a mesa tinha do metal a textura, que a carta dentro do envelope, cuja superfície brilhante acusava da substância o seu plástico, era de alguma matéria orgânica, ou quase orgânica, arrancada a um ser outrora vivente e a tinta vermelha do texto (pois vermelha devia, a tinta, ser) seria urucum ou cádmio, ou ainda algum óxido, ou extrato de algum vegetal amargo, ou, quem sabe, sangue de algum animal ainda não conhecido, produzido em laboratório ou nascido do cruzamento impróprio de duas espécies inimigas e incorrigivelmente bélicas. Sob essa escrupulosa atenção, poder-se-ia perceber que o negro do chão não era apenas da luz a ausência, mas de algum óleo negro ou carvão, que se tivessem pés esses vultos deixariam marcas e acusariam a presença indevida ou inoportuna que a carta velada lhes recusava; que se tivessem peso esses vultos afundariam até os joelhos e alardeariam suas pretensões escusas em gritos de socorro; e nesse instante o olhar à distância desconfiaria da realidade da mesa flutuando sobre a superfície negra, enquanto o envelope, por um instante, pareceria não estar mais ali. Porque não se pode olhar em detalhe ao mesmo tempo o corvo no alto e o bisão agonizando; não se pode ver em um único quadro o Brutus e o imperador apunhalado; há que se recorrer então a outros termos; imagens outras e outras vozes, outros nomes; já que a realidade não é atributo de um ente e nem uma virtude fantasmagórica do ar que cerca a matéria. Realidade é contexto, e apenas por sugestão de uma leitura não feita poderiam existir ao mesmo tempo a carta e tais vultos, já que a cola que lacrava aquele envelope era - e pouca dúvida parece restar sobre isso – a síntese e o suor de uma mentalidade vil; a força descomunal, lâmina e as serras de uma arma branca sem cor; pois era o lacre a própria medida do texto que se fazia ameaça e nem os vultos saberiam a distância entre eles e o objeto que lhes dirigia diligente atenção, porque esses vultos não tinham olhos e nem percepção alguma do espaço.

Quando alguns séculos mais tarde, uma palavra lançou renovado interesse pela existência passada e confusa de um texto que seguiu intocado por olhos humanos durante todo tempo em que se deitou silencioso e a espreita sob a fina parede de um envelope branco, historiadores argutos declararam haver decifrado o enigma e repetiram adiante conforme as leis das instituições que arcavam com os custos de suas pesquisas:

“Desejo todo mal do mundo a vocês.”

Mas permaneceu, ainda, não revelado quem houve assim desejado e a quem, por direito, o desejo se dirigia. Pois a ciência desses homens não atende ao interesse de outros homens senão ao seu próprio interesse. Do mesmo modo como, provavelmente a carta, se filiava também a um interesse marcadamente particular.
     

sábado, 7 de julho de 2012

Dinheiro é nome próprio ou O nascimento da tragédia


Numa rua antiga no atual centro do Rio de Janeiro, a iluminação insuficiente, ainda que elegante, pairava sobre dois homens a conversar em tom amigável. O primeiro, mostrando ao seu interlocutor uma arma, orientava este sobre os dispositivos mecânicos através dos quais a arma dispara, desde o percutir do “cão” sobre a parte de trás do cartucho, fazendo arremessar um projétil em alta velocidade capaz de perfurar  com alguma facilidade o corpo de um homem, até às implicações do manejo e os riscos, para o próprio manuseador, por desconhecimento técnico e utilização imprópria do objeto. Disse ele:

- Como podes ver, tal engenho é justificativa razoável ao menos, embora talvez não tão nobre, para que façamos dar seguimento ao roteiro no qual você me entrega o dinheiro o qual dispõe na carteira, e eu me encaminho na direção contrária a sua, logo após a transação concluída.

O segundo homem, que ouviu com interesse ímpar as descrições técnicas e a lógica irrefutável da conclusão daquele exímio “negociante”, interpelou-o com ares de leigo, mas antes sem deixar de mostrar algum respeito pelo domínio e conhecimento que o outro possuía sobre o seu artifício:

- Mas isso é mesmo capaz de perfurar o corpo do um homem? Digamos que o homem tenha tônus muscular acima da média, ainda assim seria essa arma capaz de perfurá-lo desta distância em que nos encontramos um do outro? E, afinal, tendo o corpo perfurado por um projétil tal, como o que você menciona, poderia esse homem morrer em decorrência disto?

Neste momento, o senhor com a arma olhou para o chão, estabeleceu o rosto em uma determinação fisionômica que o fazia parecer pensativo e, calmamente, apresentou suas considerações sobre a pergunta do outro:

- Bom, não tenho dúvidas de que, a essa distância, mesmo o homem cuja densidade muscular seja bastante acima da média, teria seu corpo perfurado por um projétil como o que se encontra nesse momento engatilhado neste pistola. Embora, atingindo em seu trajeto, quem sabe, um osso, poderia ser o caso do projétil não atravessar todo o corpo no caminho em que se conduzia. Se tal perfuração, de todo modo, seria causa mortis nos termos que tomo da tua questão, isso me parece um tanto mais difícil de prever. De fato, tal conseqüência dependerá de inúmeros fatores que não posso calcular com precisão antes do fato decorrido, mas creio que numa escala de possibilidades, tendo em vista as condições que se nos apresentam neste momento, considerando a figura do senhor mesmo como do dono do corpo a ser perfurado, acredito ser muito provável uma morte decorrente deste possível disparo.

Apenas depois da resposta e após considerar os possíveis danos em detrimento da quantia que trazia acumulada na carteira, o homem dirigiu ao bolso as mãos e de lá puxou, também calmamente, a carteira em couro marrom da qual retirou a quantia de cento e cinqüenta e oito reais, sendo entregue ao senhor com a arma em três notas de cinqüenta, uma de cinco, uma de dois, e uma pequena e reluzente moeda de um real. O homem tomou o dinheiro na mão que permanecia vazia, a mesma mão que o artista usou para indicar as partes e os movimentos das peças da arma naquela sua descrição feita sobre os mecanismos desta, contou com aqueles olhos interessados e matemáticos de quem tem em mente as necessidades e desejos que lhe regulam o consumo, e concluiu não ser necessária a moeda que lhe havia sido entregue pelo agora pobre camarada, que apesar da pobreza agora evidente no esvaziamento sumário de sua momentânea fortuna, trazia ainda sobre a cabeça uma cartola, mantendo ares de aristocrata em concordância com o fraque que vestia e a gravata borboleta que se enrolava em seu pescoço.

Ao ver o diplomata afastar-se com o dinheiro que, alguns minutos antes, guardava sob sua tutela, concluiu em voz alta, projetando ao vento e ao espaço desabitado a sua volta as palavras que seguem:

- Se é mesmo verdade o que me dissera aquele astucioso cavalheiro, e dispositivo tal como o que trazia em mãos é mesmo capaz de perfurar o corpo de um homem, situando-o numa escala de possibilidades em que a morte é uma conseqüência provável, deverei eu mesmo utilizar as posses de que ainda disponho, em casa o no banco, em aquisição de modelos como aquele. Dispondo ainda de homens instruídos no uso e funcionamento da ferramenta, que receberão justo valor pelo cumprimento da atividade que seguirá, posso recuperar o dinheiro investido nas armas, além desses cento e cinqüenta e sete reais que acabo de pagar ao senhor pela lição e pela idéia.

O inspirado cavalheiro, então, levantou a cartola com uma das mãos enquanto alisava o cabelo com os dedos da outra, e tornou a posicionar o chapéu sobre os lisos fios daquela iluminada cabeça.

Naquele mesmo dia, um pouco mais tarde na noite, o homem pensou e repensou, desenhou digramas e esquemas, elaborou fórmulas, calculou todo o processo, definiu e tomou nota:

- Chamarei, a esta atividade, comércio!   
            

domingo, 10 de junho de 2012

O observador submerso


A perede de vidro refletia meus dois grandes olhos redondos, sempre abertos, e meu corpo vermelho, escamoso e alongado. Quase não podia ver o outro lado, embora reconhecesse que alguma coisa, monstruosa talvez, se erguia por trás daquele vidro transparente, minha imaginação não era suficientemente complexa para especular muito além das formas repetidas que eu conhecia dentro daquele aquário: o cascalho colorido, o baú borbulhante ou a pequena caverna sob a qual meu caro amigo Uéslei se encostava quase todas as noites, se misturando a paisagem como se ele mesmo fosse um acessório de decoração.

Atrás de mim, Jeferson e Euclides, respectivamente um acará e um paulistinha, discutiam sobre uma questão que lhes parecia essencial. A ração, que aparecia todos os dias – as vezes duas vezes no mesmo dia – na superfície da água, se esparramava ali sem alguma regra ou dirigida a alguma ordem estabelecida. Lacerda, um poderoso bagre de corpo prateado, era o primeiro a chegar e ninguém se atrevia a incomodá-lo em sua refeição. Estabelecida que estava uma certa autoridade baseada numa simples medida de força e presença. Também assim era quando um companheiro morria, como no caso do falecimento de Tânia. Ao perceber que ela não ia bem, Moisés, Waltinho e Manduca, três mato-grossos atrevidos que andavam sempre em grupo (Até se anunciavam pela alcunha de The magicians de modo a angariar alguma publicidade em favor de sua suspeita agremiação), iniciaram pequenas investidas nas quais abocanhavam aqui e ali uma lasca ou uma escama de Tânia. Ela, por fim, faleceu e seu corpo logo se recostou no cascalho no fundo do aquário. Logo chegaram os outros todos para ver e tirar um pedaço. Uma grande festa e com muito entusiasmo, todos nós nos servíamos até a chegada de Lacerda. Ele não precisou de uma palavra: seu corpo simplesmente se estabeleceu flutuando sobre o cadáver de Tânia. Se movimentava freneticamente afastando todos os peixes menores em um perímetro em que se conservava com clara autoridade um ambiente tenso e silencioso no qual Lacerda faria uma refeição farta e egoísta também, devo dizer.

Euclides, um tanto indignado com a forma como autoridade se estabelecia, incompreendendo a apatia e resignação dos outros viventes daquele universo, perguntava a Jeferson o que ele pensava da justiça e se essa idéia alguma vez lhe passou pela cabeça em um outro esquema, balizado antes pela simetria das causas diante das partes e da proporcionalidade estabelecida dentro das virtudes e necessidades de cada indíviduo, não sendo medida apenas por fator tão tacanho e simplista como aquele, de mero tamanho e força física, em que se sustentavam ali as relações de uma primitiva economia alimentar. Jeferson, por outro lado, indicava acreditar muito nobre a idéia de justiça sobre a qual acabara de ouvir seu eloqüente amigo dissertar, mas ponderava um egoísmo primordial que parecia sustentar todo e cada peixe naquele viveiro, cujas bocas mastigavam alheias às fomes particulares de seus coetâneos, cujos corpos navegavam quase sempre a parte e em uma disposição que obedecia apenas as suas próprias vontades, salvaguardando exceções como os neons: peixes que pareciam constituir um corpo coletivo onde raras vezes se viu a marca de um comportamento individual. Esses, aliás, eram muitas vezes tidos mais como alimento (astuto conquanto disponível aos maiores e mais velozes) que como criaturas capazes, pensantes e merecedoras de algum respeito.  Por fim, Jerferson questionou seu caro colega Euclides, se ele mesmo, fosse como Larceda corpulento e intimidador, não se faria dos privilégios a revelia daquele ideal de justiça que acabara de defender. Antes que Euclides pudesse dar uma resposta, Manduca se intrometeu na conversa, seguido por Waltinho e Moisés, perguntando a respeito da discussão em pauta e quase imediatamente lançando seus pontos de vista, atropelando-se uns aos outros em falas que se dificilmente distinguiam.  Apesar disso, pude perceber como cada um trazia à discussão um senso de justiça particular, e a confusão que se estabelecia sonora, conforme gritava um e outro para sobressair sua voz a de seu interlocutor, parecia uma metáfora da precipitação ideológica que se desprendia da variedade daquelas personalidades e convicções.  

Naquele momento, eu recordei com saudosismo o tempo em que eu era apenas o caroço de um abacate, quando o silêncio que me cercava era também a unidade e a perfeição de uma idéia chamada justiça, indivisível e inquebrantável, que eu compartilhava apenas com o espaço úmido e cremoso a minha volta.

     

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Um filósofo, um travesti e um papagaio


Três homens caminhavam por sobre o couro calvo da cabeça de um gigante, este sentado em uma cadeira minúscula, que estaria, certamente, mais adequada às proporções daqueles três que encimavam o monstro que ao próprio senhor, cujo peso que sustentava sobre a cadeira  era pelo menos vinte mil vezes maior que o indicado pelo fabricante do assento para uma utilização supostamente segura. A cabeça calva daquele senhor, no entanto, oferecia espaço suficiente para que os três cavalheiros circulassem pensativos, de lá para cá, em provável busca por resposta a pergunta que se havia formulado segundos antes do início da cena. E se os pequeninos pés sobre sua cabeça não o incomodavam é porque nas mãos o gigante trazia um livro que roubava cada centímetro de sua atenção (que poderia também ser medida em litros tão prontamente uma conversão fosse solicitada) fazendo-o ignorar esses antropomórficos insetos que lhe bagunçavam o escalpo.

O primeiro cavalheiro, baixo e gordo, trazia no rosto um enorme bigode, que alguns anos antes havia sido companhia de uma vasta barba e cabeleira. O cabelo, embora um pouco mais ralo, se mantinha sobre o cucuruto, mas a barba havia sido vítima de uma curiosa alopécia que o acometeu na região do queixo e das bochechas, determinando a queda gradual de todo aquele pelo que antes envolvia seu rosto, deixando agora apenas um bigode, solitário conquanto orgulhoso, dando ares de lusitano ao homem que atendia pelo título de filósofo - e se lhe fosse questionado o dado, imediatamente ele puxaria do bolso uma sumária e irrepreensível identificação indicando a veracidade da titulação.

O segundo, de cabelos longos, fartos seios e trajando um vestido vermelho justíssimo, era, em verdade, um travesti. Caminhava pensativo e rebolante enquanto girava uma pequena bolsa na altura da cintura quase onde terminava o vestido, que assim deixava expostas as coxas e boa parte das nádegas. O primeiro cavalheiro o teria tomado por mulher, não fosse ele mesmo filósofo, ou seja, homem de cuja sabedoria se poderia destilar com suficiente raciocínio as desavenças entre as configurações de gênero que atestavam o homem não ser, de fato, mulher.

O terceiro homem, consideravelmente menor que os outros, sustentava o corpo verde coberto por penas (ou o corpo coberto por penas verdes, desde que os olhos que enxergassem fossem suficientemente conscientes para se dar conta de que o corpo embaixo das penas não tinha cor, uma vez que não podia ser visto) sobre duas estreitas garras que marchavam, em passos comedidos, à direita e à esquerda. Era, na realidade, um papagaio. Nesse ponto um leitor poderá reclamar contradição a minha iniciação nesta narrativa: “Como poderia ser um homem e ao mesmo tempo um papagaio essa curiosa criatura?” - A esse leitor, justifico que não há contradição alguma. Tratava-se de um papagaio e não de um homem e se foi dado a entender de outro modo num primeiro instante, deve o leitor considerar-me com mais cuidado e recúo. Entenda, pois, esse que vos narra não é seu amigo e não tem, portanto, a pretensão de lhe ser honesto todo o tempo. O caso é que o papagaio falava e, se lhe fosse perguntado sobre a razão de ser ou não homem, poderia muito bem responder ao revés de sua condição aparente. E nesse caso poderíamos tomar por mentiroso menos o narrador - que atendendo a descrição de si dada pelo pássaro se faria enganar sobre os fatos - que o próprio papagaio, esse sim galante na astúcia tanto quanto sórdido na resposta, uma autêntica e inescrupulosa rapina da boa moral e do senso de ética. Mas isso não aconteceu, pois o papagaio, assim como os outros dois homens, se punha a pensar na questão desconhecida que impulsionara a narrativa; e essa não versava, muito provavelmente, sobre os termos da sua condição espécime.

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Repare o leitor, que a cena constituía-se em presença das figuras descritas e seus acessórios e da pequena cadeira. O espaço a volta, não tendo sido posto em diligente descrição, poderá ficar a critério daquele que imagina. Como sugestão – apenas no sentido da sugestão, todavia – eu mesmo recomendaria como cenário, o fundo de um aquário decorado com uma carcaça de um pequeno navio de plástico, por onde levantariam pequenas borbulhas de ar a cada cinco segundos, corais e algas reluzentes desenhados ao fundo, como num papel de parede perfeitamente encaixado aos moldes do vidro do aquário. Nesse caso, deverá o próprio leitor dispor da imaginação necessária a ajustar nesse quadro a figura do gigante sobre a pequena cadeira com o livro em mãos e os três cavalheiros (um dos quais, papagaio) e suas devidas proporções para que não se desvaneça a harmonia da cena.
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Após segurar os olhos sobre livro durante algum tempo, pareceu que alguma outra coisa chamou sua atenção, quando a parte escura e circular de cada olho seu começou a ganhar movimento circular dentro das devidas órbitas, como que indicando uma dispersão imperativa, fosse por vasculharem esses olhos o espaço em busca de um inseto voador sobre cujo zumbido não se teve notícias nesse lado da história, ou fosse um surto convulsivo iminente que tomasse forma a medida que algum dispositivo fisiológico no corpo do gigante o fizesse perder o controle das esferas oculares. Os olhos pararam-se e ouviu-se, então, um reco-reco barulhento como o de uma serra, conforme uma estreita linha se desenhava na altura da testa pouco acima das sombrancelhas. Alguns segundos depois da linha atravessar toda a testa, desde uma visão frontal – e, portanto, parcial – do gigante, o barulho cessou. Os três cavalheiros se desviaram de seus pensamentos, preocupados com aquele som que se iniciara e terminara como no resoluto ecoar de uma ação objetivamente desdobrada no tempo e finda bem sucedida, se entreolharam e fizeram caretas quando sentiram o chão abaixo de seus pés mover-se. Naquele instante, como uma catapulta arremessando aquelas criaturas outrora pensantes, foi assim que se seguiu quando, descolado na altura da linha traçada na testa, o tampão da cabeça do gigante se abriu, alavancando da direita para a esquerda aqueles três e se pode ouvir seus gritos – vozes minúsculas e agudas como agora se podia vê-los quando o gigante assumia proporções de um homem mediano. Só, então, foi possível enxergar em foco e com nitidez o título que estampava a capa do livro que o homem tinha nas mãos, sobre uma cadeira ainda inadequada ao seu tamanho.

Dizia o título: “A metafísica onde menos se espera” e concluía com um subtítulo bastante sugestivo: “Homens domesticam cachorros, cachorros domesticam pulgas, e as pulgas domesticam os deuses, por P. S. Higgs”