quarta-feira, 20 de maio de 2015

Dialogs on stone tablets




A man and a woman meet on the street:

Hi you! / Hello! - both of them offering each other their good manners.

How are you? - Says the man.

And she replies - Pretty fine... but, I am just worried about a Zipplie I saw five minutes ago.

Did you see a Zipplie? This is amazing, actually. Why are you worried about it?

I am worried about my son, walking around. Cause, you know, he plays guitar in a heavy metal band.  

Now, imagine the following dialog between a priest and a giant frog. They are sitting in a wood banch in a public garden. The priest tries to explain the frog the wonder of symbolic thinking and how this indirect knowledge of things and faith are tied through a primitive bond:


'I can tell you about an old woman, carrying a bucket over her head, and spitting on every longhaired man she sees. I can tell you about this old lady even if I never saw anything like it. But as long as you know the words old, woman, bucket, etc., you can pretty much imagine the same figure I have in mind when I talk about it. Of course, your figure might have a different dress, since I didn't define every detail; she might be naked and have a big nose; or she might be carrying a surf board under one arm while holding the bucket with the other; but she certainly is not a man, and she definitely is not young once I just told you she is a woman and she is old. You can picture, otherwise, fishes inside her bucket, tattoos all over her body; you can think about a skinny old lady or about a woman on a wheel chair, doesn't matter; an old woman with a bucket on her head, spitting on every longhaired man she sees is pretty much the idea you would have in mind.'

The frog is deeply attentive, and the priest continues with his argument:

'Well, let´s say this old lady, or much better, this kind of old ladies have a name. They are known as
“chactalac”. Even if no one has never seen a “chactalac”, since the concept is given in the current language, every one can understand it. And now when I formulate the sentence “there is a chactalac in the drugstore”, you imagine an old woman carrying a bucket on her head inside a drugstore, and every time a longhaired man appears in this picture in your mind, she spits on him, or at least she tries. This may sound a bit awkward, but let's suppose someone says just “There is a woman in the drugstore” in the 9th century. As the word drugstore is not conceived as a proper word, it would be necessary to state that drugstore is a place where you can buy certain kinds of products which have been classified in accord with a number of specific functions. Maybe they would be familiarized with the concept of medicin, maybe not, it´s hard to tell.'

At this point, the frog nods affirmatively and launches out: “I see where are you trying to get with this, wrooobitt... go on, wroobittt”

'The language is a symbolic instrument which allows humans to connect themselves with a reality that their senses can not contain. We are able to understand each other and the barely “real” things people say one to another , cause we all believe in language. If I tell you about an old woman carrying a bucket and spitting on longhaired man across her way, you can just not believe that this woman exists, but you certainly believes in those concepts that I used to build this image, like bricks in a fortress. And the fortress is so solid it wont fall apart just because you have doubts about the shape or the efficiency of its architecture. Like when one of the patients of Freud has advised him that he did not believe in his method and Freud immediately replied: “My method works regardless of your beliefs”. Now, think about the idea of God...'


“There you go...wroobitt” - Said the Frog.

'Hey, just because you don´t believe in God, it doesn't mean that the idea of God is devoid of significance. Imagine how many constructions of concepts were necessary to the synthesis of what most of us understand as God... We are talking about a much more complex picture than the one of an old woman carrying a bucket.'

“Yeah, we are talking about a picture of an old man longbearded carrying lightnings or something similar... wrooobit wroobit. It makes this old lady to appear very plausible, wrooobitt.” - joked the giant green toad.

'Ok, then, forget the word God and take those different concepts: love, benevolence, comprehension, omnipotence and justice; try to describe and find the branches that connect these concepts with much more primitive ones. Yet, first of all, keep in mind that we are not talking about religion, but about language.'

“I see your point. But if you allow me, I would give another name to this complex idea shaped among the concepts of love, benevolence, comprehension, omnipotence and justice.. wrooobitt”

'So, what do you suggest?'

“wrooobit. How about Zipplie?”


sábado, 9 de maio de 2015

Die deutsche Dame



Ich kann nicht mehr machen als was ich kann
ich bin eine Kopie von mir selbst

Sie ist sie
eine unermüdliche Tautologie

dennoch habe ich sie vor mir laufen lassen

Sie ist dort angekommen,
ich nicht... noch nicht..
aber ich werde
werde ich?

Wenn ich angekommen bin,
wird sie jedoch vielleicht nicht mehr dort bleiben
Sie bewegt sich immer noch
Ist es möglich?
Sind wir nicht im gleichen Raum?
und nicht in der gleichen Zeit?

Jetzt bin ich hier
Ich kann sie nur beobachten
sie sieht nahe aus,
aber nee...
Ich komme nie an,
Ich werde sie nie erreichen, denke ich...

Mein Verstand läuft langsam und begrenzt,
weil es keine sammelung der Möglichkeiten ist
Mein Gedanke ist ein gegangener Weg,
eine befahrene Strasse
ein Fakt
solide
wie ein Stein

Und sie? sie lebt
doch!

Sie läuft vor mir
immer weg
Ich kann sie nicht halten
nicht berühren
dann spiele ich mit ihrem Schatten

“Ein Stein der einer Schildkröte nachläuft”
Sagt der Wind

“Ich kann nicht mehr machen”
Sagt der Stein


sexta-feira, 24 de abril de 2015

As cinzas de Melanie



Não há introdução mais oportuna ao orador que o silêncio.

Porque o silêncio reforça a responsabilidade do ouvinte ou, simplesmente, porque dissimula a responsabilidade do que fala. Esse traquejo do versador presente também faz recair sobre os ombros do que ouve qualquer culpa pela qual não seja o discurso justificado ou eficiente.

O silêncio é também um recurso engenhoso que sibila no interstício entre a visão e a memória, lá onde ecoa uma voz noturna que se desdobra a partir da voz muda e transparente daquele que lê. Pois, é essa voz fantasma que ressoa soberana quando o mundo disponível a volta precisa resumir-se ao texto que enfrenta; não há espaço para ruídos nem mesmo imaginados; a linguagem é um campo de virtuosidade tão plena, que faz da memória meramente um instrumento peculiar.

O chefe de um Estado democrático tanto quanto o ditador implacável; o padrinho que toma a palavra no brinde tanto quanto aquele ocupado com o panegírico de uma alma em retirada; o mágico, o palhaço, o amante ou amigo em desabafo, a aeromoça em demonstração, o cineasta; todos pedem o silêncio diante de si, porque sobre essa solenidade edificam a dignidade de sua arte; o professor, esse homem que se acostumou com os privilégios da posição que ocupa e teme olhar no espelho e enxergar apenas uma autoridade vazia, como as insígnias de um capitão em tempos de paz; após o sonoro e triunfante silêncio, essas crianças diante da autoridade irão celebrar cada palavra alçada simplesmente porque o silêncio um segundo antes fez delas palavras de mérito.

Mas o silêncio, legitimador absoluto da eminência do enunciador, é também um vilão a espreita. Pois se o ouvido deseja e espera um só ruído diante si, o silêncio é como um acorde dominante que espera sem sucesso um tom que o resolva. Pois ao desejo silencioso, o silêncio não é senão frustração.

Mas não pense você que este é um trato sobre o silêncio, pois não é. Se fiz do silêncio introdução foi porque o tema requeria um tal ornamento. Por razão da importância dessas memórias, pedi o respeito em medida, que aqui não se teria apenas com o silêncio bruto da folha em branco; fiz então do silêncio narrado o símbolo oportuno.

Mas memórias também não se deitam aqui por puro acaso e a tristeza que você reconhece ou reconhecerá na melodia que agora ecoa e se espalha orquestradamente ao redor dessas palavras, é a minha tristeza, bem como as memórias com as quais ela se ocupa... ausências que justificativa alguma poderia saldar.

Ainda assim, não há morte que se reconheça neste manifesto. É a vida que segue onipresente e porque seja a morte uma impossibilidade literária, como é para uma consicência viva impossível tomar da morte senão os símbolos e jamais a dinâmica dos fatos, você não verá sangue, aqui; não ouvirá a narrativa de um acidente fatal; muito menos irá testemunhar a descrição de um cadáver.

Quando eu era pequeno, morávamos em uma casa com um grande quintal frontal. A cerca que nos separava do vizinho não era suficientemente alta para manter afastado do nosso terreno o seu galo. Um enorme galo - com esporas longas e pontíagudas - que de tempos em tempos atravessava e montava guarda em frente a nossa casa, no quintal entre a porta e o portão externo. Quando acontecia, ficávamos presos dentro da casa, aterrorizados com a postura ameaçadora do animal, que, conquanto fosse ainda menor que o menor de nós, mantinha-se ereto e em posição de ataque, insinuando investir contra um de nós sempre que um passo a frente ou a cabeça enfiada pelo vão da porta fazia menção a atravessarmos o quintal até a saída. Recolhíamo-nos em abrigo e esperávamos o galo partir, para seguir nossas vidas em mais um dia escolar ordinário.

Contei essa história a mim mesmo inúmeras vezes depois disso, mas o medo que aquela cena fez surtir na origem deu lugar a meras risadas, ainda que eu tenha me furtado aqui ao tom anedótico que, percebo, agora, passados os anos, convém ao caso. Mas não sendo mais possível reconhecer o medo nascente no coração da criança diante de animal tão insignificante em tamanho e anatomia, sou obrigado a supor que o medo que me afligia era de outra natureza. Talvez, o de chegar à escola e enfrentar, finalmente, a insignificância do discurso que se lançava a nós como o de um promissor futuro; ou a ideia de que seguíriamos pelos anos a fio e todo aquele comprometimento apenas para sermos mais ou menos o que já éramos ou simplesmente a sombra de nossos modelos instituídos; uma versão a mais daquela figura em cuja autoridade se espelhava o melhor dos mundos possíveis a nossa frente.

Mas é provável que em idade tão tenra eu ainda não tivesse um juizo tal empunhado. O medo devia então ser de natureza ainda outra. Apenas o que sei é que parece impossível agora conciliar esses dois sentimentos, o sentimento real e o que se recolhe à memória. Duas criaturas tão diversas quanto o menino de antes e o homem de hoje, como o personagem opaco e o narrador detalhista, não podem compartilhar um sentimento mútuo, ainda que os sentimentos diversos atendam pelo mesmo nome.

Certo dia, deixava-me guiar em ronda noturna suspeita por um colega um pouco mais velho, pulando de cerca em cerca nos terrenos da vizinhança, aparentemente sem rumo – o rumo havia e estava por ele traçado, apenas eu o desconhecia. O tamanho das cercas, veja você, não era problema. Se um galo de não mais que alguns centímetros era capaz de transpor a barreira que aqueles emaranhados de arame ofereciam, não seria diferente para nós com nossos corpos leves e flexíveis de crianças da terra. Para minha surpresa, paramos em frente ao pequeno viveiro onde dormiam as aves da vizinha. Meu colega vasculhava aquelas gaiolas em busca de algo em particular. Eu reconheci o galo sentado, silencioso e indefeso no canto da jaula. Em uma gaiola ao lado, uma pequena codorna, que meu colega tomou em mãos com cuidado antes de seguirmos em retirada, deixando para trás o galo e a cena de um roubo.

Trata-se, todavia, de mais uma memória de cujo propósito nesse texto não se pode precisar a razão. Os sentimentos que agora projeto são turvos e confusos. Lembro-me de haver questionado o rapaz assim que chegamos a sua casa. Tenho a imagem da pequena cordorna sendo deixada em um banheiro de serviço que dava direto ao quintal na casa dele. Mas também lembro, um tanto vagamente, a autoridade que ele exercicia sobre mim pelo fato, talvez, de que fosse um pouco mais velho e maior, ainda que a autoridade do galo se tenha imposto sendo ele mesmo menor e mais novo. Tenho vivas, contudo, as duas imagens: a do galo recluso e impotente em sua gaiola e a do animal altivo e intimidador diante de mim, minha mãe e minhas irmãs.

Mudamos-nos alguns anos depois. Nunca mais vi o Galo. Mas um medo de sair de casa pela manhã me ocorre ainda hoje, sempre que um compromisso inexpressivo qualquer me conduz de casa e porta afora num dia de semana que se repete. É, ainda assim, um medo qualquer...

Soube que o Galo morreu, embora a notícia, tendo-a recebido mais de uma década depois de minha última experiência com o animal, fosse apenas uma confirmação lógica de uma condição imposta pela natureza àquela criatura. Mas eis o dado novo que se levantou apenas após o anúncio do vaticinio: aparentemente, a dona da ave achava graça das nossas batalhas mantinais pelo direito de ir e vir, de outro modo, a nós garantido pela constituição - e em particular no terreno de nossa residência - e, por isso mesmo, soltava o Galo pelas manhãs em conivência com o paternalismo galiforme do eminente algoz meu de infância. Mas sobre esse testemunho é também a memória de muitos anos que me oferece a visada. Entre os sentimentos que transparecem e se projetam - sem muita vida, contudo - esse figura apenas como um a mais na extensa coleção de minhas lembranças.

A dona do galo viria a morrer, também, alguns anos depois dessa confissão, mas sua morte não servirá de apoio a um qualquer sentimentalismo, simplesmente porque se trata de uma memória vazia de afeto. São, assim, os meus afetos que impõe o rítmo e quando, sobretudo, me empenho em salvaguardá-los do medo, tão iminente, de que seja tudo tempo perdido; de que essa história seja pura e simplesmente uma covarde espoliação do seu tempo - caro leitor -, enquanto eu, por puro despeito ou vaidade, roubo a sua atenção sem mérito e nada a oferecer, sem que galo algum se tenha posto entre nós e me impelido a fala; faço apenas porque é esse o medo que agora me assalta; tão somente por isso estendo ele a vocês na forma de uma descrição repetida, excessiva e, talvez, desnecessária.

Não é apenas medo da frivolidade diagnosticada da circunstância desse apanágio, que se reitera a cada volta em redundância nos arabescos destas linhas, mas de que o sentimento real – aquele que sinto no corpo e que não posso transpor a vocês senão indiretamente – seja insignificante ou apenas mais uma expressão oca da minha vaidade. Mas eu sinto e não há respostas para tais sentimentos em livros, artigos, filmes, palestras ou missas. Meu sentimento por uma memória – conjunto de imagens visuais e sonoras residualmente inscritas em mim - não se pode justificar nem pelo objeto que referencia, que já não mais existe, nem pela reverência em perspectiva a um mundo porvir, feito quem sabe de luz e som, onde se faça estender essa existência que é aqui, agora, negada, porque minha consciência privada não me permite um tal recurso exegético.

Penso nela todos os dias, todavia, e a comoção recorrente me é um fardo. Como se tivesse entre mãos suas cinzas compactadas no volume de um saco plástico transparente – e isso é o mais próximo da descrição de um cadáver que se lerá aqui. E ainda que pareça possível reconstituir das cinzas, e através do fogo de um momento antes, o corpo sem vida e, antes ainda, a imagem em movimento que me inspira desconsolo... Gostaria de ter agora a imagem do cigarro queimando, lentamente, apenas para poder conservar em mente a medida e a extensão do processo, porque o tempo me escapa e com ele a densidade real dos meus sentimentos, que se dirigem nesse momento apenas a substâncias memoriais e não verdadeiramente as essas cinzas... caso as tivesse em mãos - Eu tampouco fumo.

Posso chorar, e o tenho feito diariamente. Mas estando sozinho, a quem ofereço esse choro? Recrimino-me a cada lágrima, porque não sei, de fato, quão genuíno é o sentimento com qual me ocupo. Costumo duvidar das expressões emotivas rasgadas, ou atribuí-las apenas a um impulso teatral, afinal, somos todos atores diante de um público sempre disposto. Mas me pergunto: por que são tais sentimentos tão urgentes em declararem-se a mim mesmo, em voz alta, ainda quando não há ninguém à volta?

Há resposta alguma nesses apelos? A minha própria morte deveria ser-me indiferente, mas uma sensação distinta me acomete sempre que a projeto nos anos a frente: algo como um deslocamento abdominal sutil, em cuja fisiologia não posso procurar explicação alguma, pois pouco compreendo do que se passa com meu corpo naquele instante: A morte é um colosso, eis aqui uma resposta – A morte é um colosso.

Não me deveria culpar, nem duvidar da comoção o enredo. Estranho mesmo é que haja indiferença diante de morte qualquer que nos tome de assalto, ainda que como um conhecimento furtivo.

A morte é um colosso e nem mesmo todos os panegíricos do mundo e nem longos anos de silêncio deliberado seriam suficientes pra dar conta da sua dimensão colossal. Soa apenas absurdo que todas essas mortes estampadas em reportagens ou nas páginas dos obituários diariamente não nos impossibilite de dar seguimento, simplesmente, às nossas vidas.

Entenda agora a razão dessa missa e desconte dela qualquer excesso que pareça querer contestar destas linhas a mais honesta seriedade. Trata-se de um apelo, um conselho ou tão somente uma sugestão: Não aceite nada que não seja absoluto estarrecimento diante da morte, de quem quer que seja, e mesmo de seu mais odioso inimigo.

A memória te trará sentimentos mais brandos e o tempo a razão dos detalhes que não couberam no momento. Mas a morte permanecerá intocada, inalterável, incorrigível, pois ela é num só instante toda a explicação do nascimento do mundo.


domingo, 29 de março de 2015

A saliva de Hidra



“Um crime sem vítimas”. Foi assim que ele se referiu ao trajeto de sua conduta, desde os pensamentos primitivos que o houveram impulsionado até a última linha do texto, onde se descrevia a ação.

O interrogatório prosseguiu: um inquisitor fazia perguntas e ponderava criticamente as respostas que vinham em seguida: o interrogado, homem, branco, heterossexual, bem vestido... havia sido chamado a depor após ter sido denunciado por agressão. O contexto que praticava era o de uma publicação recente, em que o autor relatava açoitar uma prostituta, descrevendo, palavra por palavra, uma situação de constrangimento, humilhação e covardia.

Defendia-se, contudo, dando como argumento o escudo da ficção: - Nada ali é real. É apenas um texto fictício. A figura da vítima não pode oferecer denuncia simplesmente porque ela não existe!

Do outro lado, uma voz feminina , calma e equilibrada, perguntava: - Por que, então, o senhor sustenta toda a narrativa em primeira pessoa? - para ele, no entanto, também aí não se configurava culpa por crime algum, dizia: - A primeira pessoa não define, em si mesma, a concretude da ação que relata. Aliás, nada a define senão a realidade em si. Eu mesmo, que escrevo, não sou aquele a quem minhas palavras endereçam identidade. Sou apenas o homem que empunha manualmente a linguagem, materialmente constituída.

Mas a voz tratava de colocá-lo novamente na posição que ali lhe cabia: - Você não pode determinar a legitimidade ou não da sua condenação, simplesmente porque não pode impor aqui suas regras. Neste espaço, você é apenas o réu. Projetar sua defesa como um ataque aos meios e razões de quem o julga é incorrer num erro ainda maior que aquele pelo qual você está sendo julgado. Portanto, por favor, limite-se a responder minhas perguntas

No texto, a mulher não tinha nome. As poucas palavras que diziam dela, vinham através de um narrador implacável, judicioso, autoritário e irônico. A ironia, afinal, era o instrumento mesmo através do qual se fazia diminuir aquela personagem à comparações grosseiras das mais baixas; dizia dela objeto de consumo; emprestava-lhe formas, cores, um preço determinado e um gosto particular, em cujos adjetivos se atestava, não as qualidades de um indivíduo, mas o julgamento de um deus, dono das verdades que produziam e eram produzidas pelas suas próprias palavras.

Não sou eu dono das imagens que me assaltam em íntimo? Não me pertence, por isso mesmo, o inescrutável das minhas ideias? - Perguntava ao seu algoz em defesa de si, mas também porque a pergunta traz consigo um tom de autoridade que resposta alguma pode saldar. Conhecendo, no entanto, o perímetro desenhado daquele movimento, abdicou de responder e, novamente, após um curto e contido silêncio, perguntou: - O que o senhor sentiu ao terminar, ao escrever a última letra? Quem o senhor pretendia atingir com tal publicação? - Antes que o acusado pudesse responder, a voz levantou-se (porque era ao mesmo tempo também um corpo) e caminhou ao redor dele cadenciando os passos, intimidatoriamente. Também, por isso, a resposta não veio em seguida porque estava tomado por medo o homem, sentado de frente a uma pequena mesa de metal escovado, que poderia haver saído de uma câmara de tortura ou de uma clínica veterinária. Ele podia, então, imaginar-se sobre ela como um pequeno animal doméstico prestes a ser abatido por piedade ou conveniência e isso fazia-o esquecer a pergunta que lhe houvera sido feita, justificando o gesto que seu inquisitor teve em seguida, o de arrastar sua cadeira, pressionando-o contra a pequena mesa e exigindo resposta.

- Eu me senti... me senti satisfeito. Não, não... me senti indiferente, como se tivesse apenas cumprido uma tarefa ordinária. Não tinha em mente um leitor específico, ou melhor, fazia-me eu mesmo de algo como um leitor modelo. Como, aliás, acredito que façam todos os que escrevem. - concluiu sentindo-se triunfante em sua sua retórica, após um inicio visivelmente sofrível.

- Você não espera que eu acredite nisso, espera? - Disse ela, sem esperar resposta alguma. Ele, então, se tentou impor mais uma vez, questionando o objetivo daquela pergunta sem outro propósito senão o de intimidá-lo: - Por que você faz isso? O que eu fiz pra você? - E se escondia assim atrás de um véu de vitimização, como fazem todos aqueles em situação análoga. Cumpre, pois, que o réu em um processo de condenação é, também ele em certo sentido, uma vítima. Se pudéssemos separar todos os eventos e ações em segmentos e isolá-los de modo que não houvesse participação alguma de um no outro, o acusado seria, em vista da punição a ele imposta, nada mais que uma vítima.

Mas a justiça é um ideia que requer dimensão ampliada e, portanto, não pode ser apreendida senão através de uma imagem maior. Desse modo, dos seus apelos pela compassividade de seu “carrasco”, a voz, e o corpo que agora se podia enxergar ao redor dela, ouvia apenas o covarde indigno, incapaz de se responsabilizar pelas palavras que lançava, simplesmente porque estas ficavam para trás no tempo toda vez quando ditas ou lidas. E a figura de vítima que tinha ele de si, então, se deformava e assumia o aspecto do covarde manipulador, uma vez que podia supor e imaginar, da voz, os juízos e as sentenças não pronunciadas – o contexto é um código poderoso a partir do qual podem ler, diversos interpretantes, uma mesma mensagem.

A voz se pôs em silêncio e o corpo voltou a caminhar, dessa vez atrás dele, de um lado ao outro. O barulho do salto, cadenciado e intermitente, explodia nos ouvidos do acusado como golpes violentos desferidos pelas costas com instrumento pontiagudo. Ele fechou os olhos e tapou os ouvidos. Mergulhou fundo na imaginação dentro de si, aquela mesma imaginação na qual havia ele (ou qualquer personalidade que sua voz em primeira pessoa houvesse vestido) uma mulher humilhado. Agora, apenas uma sala escura, vazia, repleta de pensamentos vagos, culpa, ecos de uma narrativa na qual ele não era, como antes, uma autoridade irrepreensível, mas um monstro tirano.

Abriu os olhos e olhou ao redor a sala vazia. Nenhum corpo, nenhuma voz. Na mesa a frente, agora peça de um mobiliário de escritório qualquer em madeira, uma carta. Lançou os olhos ao texto, mas ele não precisou ler, porque já o conhecia.

Assinou o documento como confissão inequívoca dos crimes ali assinalados, levantou-se e partiu sem precisar por os olhos sobre a sentença que concluía o texto (saberia invocá-la se lhe fosse assim requerido) e dizia:

O autor será sempre o herói das façanhas descritas, ainda quando a façanha descrita seja um crime hediondo - e um crime hediondo será um crime hediondo ainda que ficção seja, porque a realidade das palavras anunciadas procede por tautologia, simplesmente.




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

I watch them all falling down all day

I was about to enter a supermarket near to the corner of Birkenstrasse with Putlizstrasse, when I saw a man of arab resemblance (to whom a average german would call a turkish) closing his jacket right in front of the exit of the store, preparing himself to face the cold wind which was waiting for him outside, from where I came. While closing the jacket, the Arab sang a song which sounded absolutly exotic to me and reached my ears somewhat like this: "Odê Odê, domin o dans ki, odê..."

As I crossed the door and passed the man, the music reverberated in my head and little by little it was being shaped a song from that milenar culture, which still nowadays haunts our cities...

All day, all day! Watch them all fall down
All day, all day! Domino dancing
All day, all day! Watch them all fall down
All day, all day! Domino dancing


sábado, 31 de janeiro de 2015

A Notícia




Entrei no vagão e sentei-me num banco dianteiro, afastando-me da porta por onde o calor escapava em toda parada pelo trem feita, recolhendo e deixando seus passageiros.
O trem acelerou. S42 Ring Bahn: o “S” faz referência ao título Schnell (rápido) Bahn, que o sistema recebera na época de sua criação, quando, quem sabe, justificava-se.
Hoje, não há nada de particularmente rápido que, ali, faça valer menção tão enfática.
Mas apesar do passado tão presente, é da atualização constante que vive a cidade, fazendo dos prédios antigos e monumentos apenas objetos de decoração. E o trem, esse velho senhor de tez tão antiquada, segue fazendo voltas ao redor dela porque, apesar da ferrugem que eventualmente assalta seus trilhos, além do passado, é também o presente e, ainda hoje, o futuro (se é que ainda há mesmo algum lugar para ir).
O trem parou. Um senhor de barba e cabelos brancos entrou e anunciou com uma voz rouca e cansada em uma língua tão rouca quanto, mas ainda cheia de vitalidade: “Normaleweise würde ich Ihnen die aktuelle Ausgabe der Obdachlosenzeitung Strassenfeger verkaufen. Die aktuelle Ausgabe war so interessant, dass sie seit 4 Tagen ausverkauft ist. Deswegen kann ich heute leider keine Zeitung mehr anbieten. Ich bitte sie um ihre grosszügige Spende, dass ich morgen Zeitungen der neuen Ausgabe kaufen kann.”
Trocando em miúdos, o senhor pedia, por meio de um tal expediente, contribuições para comprar exemplares da nova edição do jornal que, hoje, ele não lhes poderia oferecer porque, “infelizmente”, na razão de ser aquela edição “tão interessante”, já se havia esgotado há 4 dias.
O jornal, que atende pelo título de “jornal dos sem-teto”, faz-se ali não apenas do veículo de informação - nova e supostamente relevante -, como também instrumento de reintegração para alguns desafortunados, através do qual a jornada diária do excluído em angariação de meios materiais para sua sobrevivência perde a indignidade atribuída por aquela mentalidade protestante e se renova em trabalho, orgulho e recurso estratégico.
Mas por razão de evento extraordinário ou talento editorial, fez-se daquela edição tão valiosa que se esgotou. Naquele dado instante, assim, o advento da notícia na forma do produto oferecido entrava em conflito com as reivindicações de um passado moral ainda determinantemente presente, fazendo ecoar - ainda que nas cabeças mais desacreditadas - a ideia de que o trabalho dignifica o homem. Pois se tendo vendido todos os exemplares daquela edição, ainda que se pudessem por isso vangloriar editor e redatores, ficou o pobre homem impedido de exercer a parte que lhe cabia naquela cadeia de ação em justo trabalho.
Pedir, no entanto, não me parece pecado algum e, tampouco, é o trabalho pelo trabalho em si um gesto acima de quaisquer suspeitas. O caso é que não me dei ao trabalho de por nos bolsos a mão, como não o teria feito pela compra da edição que, de todo modo, se esgotara – interessante que fosse a notícia, a teria lido no conforto do meu próprio espaço, através de veículo ainda mais rápido que o trem abaixo de mim.
Mas qualquer que seja a notícia, não é senão a cidade que a torna possível e através de seus meios e no tecido de seus encontros e reencontros, como nos trilhos em círculo daquela linha eu, provavelmente, voltaria a encontrar senhor como aquele, em labuta ou mendicância tão digna quanto a minha avareza ou a generosidade de quem lhe teve algum dinheiro entregado. Porque do passado retive a memória e o futuro só se faz existir em movimento e no espaço.




terça-feira, 14 de outubro de 2014

O homem e o lago




O jovem, procurando por razões e histórias que pudessem preencher o vazio que sentia dentro de si, foi ter com o ancião da vila, esperando que este lhe pudesse dar alguma resposta.

O velho, então, contou-lhe uma história antiga, registrada nos autos do grande livro de histórias de sua comunidade, sobre um homem que se sentara à beira do lago com sua vara de pescar e colocara-se a pesca. E como depois de algumas horas nenhum peixe houvesse beliscado a isca e o porque a paciência não era uma das virtudes daquele pescador, resolveu o homem prender a vara à margem e aproximar seu rosto da superfície do lado, tentando enxergar o movimento dos peixes abaixo dela. Só conseguiu ver ali, no entanto, a imensidão deserta do fundo do lago. Aproximou-se, assim, mais um pouco e depois mais um pouco ainda, até que uma brisa inesperada o fez perder o equilibrio e o derrubou nas águas da lagoa.

Ao tentar nadar de volta à margem, descobriu que estava preso ao anzol na ponta da linha de sua vara. Tentou em vão tirar aquele gancho que o perfurava num ponto cego exatamente bem ao centro de suas costas e inacessível às suas mãos.

O homem nadou por três dias e três noites inteiras com o anzol preso a si e como não houvesse ninguém por perto para puxar a linha e trazê-lo de volta à margem, desfaleceu e afundou lentamente, indo seu corpo habitar, a partir dali, o fundo daquele lago.

Explicou, depois, ao jovem a moral da história: “O homem que produz a arma é também aquele que produz a guerra; e este que produz a guerra é também o autor da glória dos vitoriosos e, ainda, da miséria da qual padecem os derrotados.”

O jovem ficou intrigado com a história e durante três dias e três noites pensou naquelas palavras procurando um sentido que o satisfizesse. Recorreu, então, ao grande livro, esperando encontrar outros detalhes e, talvez, algum significado outro que pudesse completar as lacunas deixadas pela história contada pelo mestre. Surpreso, descobriu que a história não constava no livro.

Retornou, então, a casa do ancião para perguntá-lo a respeito do porquê daquela ausência, mas ao chegar lá, encontrou-o desacordado e com a boca suja diante de uma carta e um vidro de tinta vazio. Viu com terror no pacífico daquela semblante que o senhor jamais acordaria das profundezas de seu sono e constatou, ainda mais uma vez, ao ler a carta - escrita com a mesma tinta outrora conservada no vidro agora vazio - que dizia: “O homem que não produz suas próprias histórias é como o lago vazio diante dele e não importa o quanto aproxime seu rosto da superfície do lago, o único movimento que verá, será o seu próprio ao aproximar-se.”

Quando recuou o rosto da carta, percebeu que havia apenas um corpo naquele recinto e esse era o seu próprio, já ausente de toda e qualquer curiosidade e com a boca irremediavelmente suja de tinta.