terça-feira, 19 de abril de 2011

As novas ondas da estética

Sentava-me todos os dias em uma cadeira que permanecia frontal ao aparelho de microondas enquanto a comida girava e girava. Se é dito que “a arte imita a vida” também aquela imagem que me chegava aos olhos, atravessando uma frágil porta translúcida, me parecia arte àquela altura. Se uma caixinha barulhenta me dispunha as imagens repetidas de um prato em movimento, fazia-me lembrar a televisão que em casa tinha. A novela que praticava, no entanto, não pertencia aquele restrito universo dentro do aparelho; versava, mormente, sobre uma fome primitiva que me fazia esquecer cada segundo passado e contabilizado pelo marcador digital, criando assim os aspectos encadeados de uma ficção muito bem definida. Havia, ali, um protagonista de direito: a comida; um argumento que lhe era externo: minha fome; e um enredo que se deslanchava sem maiores conturbações (a não ser pela ansiedade ciosa que minha urgência mastigava), a saber que cada partícula daquele digestivo se esquentava para suprir uma demanda absolutamente irracional de meu critério alimentar. Um belo espetáculo surgia daquela alegoria giratória e iluminada. O som rangente que indicava a ação das microondas sobre o alimento (ainda que não houvesse ali nenhuma ligação direta entre um e outro e o barulho viesse de algum mecânico processo necessário à produção das ondas mas cuja essência nada tinha a ver com o ser daquelas que davam nome ao aparelho, eu assim atribuía-lhes correspondência, posto que apenas as ondas e o alimento faziam-se personagens) era descriminado com minúcia pelo relógio que se trazia acima e a parte daquela ópera eletrônica.

Questionei-me quando faltavam ainda 30 segundos para o final do último ato: o alimento, conforme a passividade de sua conduta (e mesmo que girasse fazia-o por um capricho daquele ambiente torturante para um ser vivo de qualquer espécie), representava ali não o papel do herói, mas o da vítima. E as nobres ondas, que castigavam com um calor muito próprio e diferente do fogo das inquisições habituais, era o carrasco assumido Mas não o vilão odiado, visto que era uma extensão afectada de minha fome que lhe pedia o tratamento dado. Devi julgar-me um sádico quando o meu espetáculo pedia a curra de um protagonista indefeso, mas eu não pude. Pois carecia àquela altura de certa moralidade maniqueísta necessária ao julgamento de tais pudores. Achei belíssima então aquela imagem – a do profeta que ardia por dentro e por fora à maneira de um inquisidor invisível. Entendi naquele momento porque o prato girava e porque devia girar; fazia-o para mostrar-me cada pedaço exposto e como choravam os grãos, a carne e os vegetais. Algum diretor de arte sagacíssimo havia percebido, antes de qualquer engenheiro a que competia, a necessidade de uma bandeja giratória. Assim como um Canova, dando-se conta da imobilidade de sua figura esculpida, fê-la de forma a exibi-la aos olhos frontais de um observador estacionado em três posições distintas, dando a essa unidade de perfeição a insígnia redundante de “As três graças”. Mas diferentemente dessa onde a imagem parecia destacada do tempo, ociosa e impecavelmente imóvel, a obra que eu deleitava se desenrolava nos segundos contados de uma minha natureza predatória e salivante. Eu consumia com todo fervor aquela ansiedade, com a mesma violência que iria consumir depois uma refeição já sem tanta arte.

E como num final apoteótico o aparelho gritara. Gritara como estivesse em pleno exercício de um gozo fulminante, apenas para anunciar um fim premeditado. Gritara como gritasse o executor enlouquecido que esquarteja a sua vítima já desfalecida dando ao estreito de sua feitura a dimensão exacerbada da arte. E se “a arte imita a vida”, ali também um fac-símile havia-se reproduzido; e imitara-se a vida tão bem, que julguei que era essa – doce como sangue na língua do carnívoro – a própria morte, encarnada e encenada, verdadeira e espetacular, como nenhuma saciedade consegue imitar.

domingo, 3 de abril de 2011

As formas do conteúdo

Saindo do metrô na estação da carioca (quando deverá o leitor ignorar que existem duas saídas possíveis nesta estação, tomando o deslize por oportuno), entrei na rua homônima e me conduzi por ela até uma loja disposta na esquina onde a rua é invadida pela Av. República do Paraguai. Entenda-se “loja” por “espaço físico restrito onde se vende coisas” e a sentença parecerá vaga, quando solicitará o interpretante que eu defina tal espaço sob o lexema “sebo” indicado em unidade cultural definitiva a qual permite um juízo mais propositado aos desígnios do narrador. Sublinhar-se-á, no entanto, que apesar do esforço em conduzir a sentença a um campo semântico em que o leitor possa, sem desvios, concluir com alguma precisão a natureza do lugar a que se empenha o retrato falado, se falha ainda na permissividade do termo que subentende categorias de definição de todo modo imprecisas. O termo “sebo”, pois, se aplica à loja em que o objeto da venda é um livro usado - Ainda que o astuto em posse de um dicionário se apresse em declarar que sabe, com absoluta resolução, o que é um livro, titubeará em elencar em tópicos circunspectos aquilo que na expressão “livro usado” corresponde ao “usado”. Deverá definir, deste modo, que o simples ato de abrir o livro não corresponderá ao termo do uso a que se refere; menos ainda fará sugestão de que o uso, nesse caso, corresponde à leitura, ainda que, se assim fosse, precisaria delinear se o “uso” de ocasião se refere à leitura do livro inteiro ou se se basta apenas a leitura dos dois primeiros parágrafos (ou parágrafos intermediários escolhidos em orientação arbitrária) para determinar tal denominação. Pensará - com alguma argúcia até - que o definitivo do uso se dá pela posição de revenda, ou seja, de que o livro foi uma primeira vez vendido e de que, agora, se dispõe pela segunda (terceira, quarta, etc.) vez à venda. Não conseguirá, entrementes, se posicionar diante de excetos casos em que o livro chegou ali sem a mediação de uma primeira venda ou, até mesmo, àqueles em que ainda sendo a propósito de uma segunda ou terceira vendas, se apresenta o livro em estado de novo, não havendo, por força do uso, perdido o lacre com que saíra da fábrica. Chegará à conclusão, então, de que o definidor do termo é, de fato, o próprio lugar, que estando destinado à venda de livros usados, impõe, sem demérito literário ou desavenças críticas quaisquer, ao livro que ali se apruma o designativo mercadológico próprio do espaço.

Sendo ou não desse modo, entrei: isso porque, a despeito da forma da expressão e de certa indeterminação do conteúdo, parece-me suficiente o verbo com que designei a ação.

A loja, que se dispunha em profundidade por dois estreitos corredores formados na mediação de uma estante central que me alcançava à altura do umbigo, havia adotado um modo de organização peculiar na distribuição dos livros. Quando antes se propunha agregar títulos sob a importância de disciplinas/assuntos, fazia agora uma organização lateral em que certos livros se emparelhavam a partir da especificidade de seus autores. Nota pouco efetiva se se pensar que em comum com seus autores é, em geral, consequente que os livros se ostentem sob a mesma demanda disciplinar. Dito isso, o caro leitor poderá concordar que todos os livros de um mesmo Wittgenstein poderiam dispor-se lado a lado numa prateleira destinada a livros de filosofia. O mesmo, no entanto, não se pode dizer sobre os livros de um bem versado em campos diversos como Umberto Eco. Pois eis a surpresa pela qual fui acometido. Provavelmente porque a loja não dispusesse suficientes volumes para uma prateleira destinada apenas a livros deste autor, foi bem ao lado de “O pêndulo de Foucault” que me encontrei sob a tal surpresa: um livro empenhado em problemas de semiótica e estética em estranha arrecadação numa prateleira a princípio destinada a romances. Surpreendeu-me, em todo caso, mais pela apelação de um contexto (tal qual um ornitorrinco, que de “criatura de Deus” foi rebaixado à “aberração natural” assim que o escopo classificativo das ciências dos homens resolveu trocar a definição empírica pela teleologia ensaiada nos diários de Darwin) que por uma estatística qualquer que me indicasse a provável impossibilidade de encontrá-lo na loja. Em todo caso, tomei-o em mãos e me dirigi ao balcão assim que identifiquei que o preço estava em acordo com uma valoração pessoal minha (que leva em conta não apenas o nome do autor e o estado do livro, como também o tempo em que se cerca uma possível primeira leitura que poderá ocorrer desde a compra efetiva até a chegada em meu destino próximo, determinando assim que esse não será mais um daqueles livros não lidos em minha biblioteca pessoal, salvo que eu já tenha devorado pelo menos um primeiro e, talvez, segundo capítulos). Chegando ao balcão, atende-me um homem atencioso que me toma das mãos com cuidado o livro, enfiando-o em uma sacola. De cabelo e barba rasteiros, também a juventude do homem (que beirava a casa dos 50) contrastava com a imagem que eu tinha em memória do antigo senhorio daquele estabelecimento: quando um senhor arqueado sobre um livro, sentado em um banco no canto da loja, alisava as longas e alvas barbas como que despreocupado com a função que naquela loja o acompanhava e com o tempo que se perdia a cada instante, tempo – ao avesso das páginas – impassível de retrocesso.

Paguei a quantia que me competia e o homem me entregou a sacola com o livro. Antes de me virar, contudo, perguntei:

- Não trabalhava aqui um senhor de idade avançada, com a barba branca descendo ao pescoço de tão comprida?

O homem, antes esculpido em matéria inerte em imagem que não me dizia mais que os excertos de um manual técnico, transformou-se inesperadamente numa narrativa mítica e melancólica em língua que eu desconhecia. Seus olhos encheram-se de lágrimas (ainda que nenhuma tenha, de fato, corrido abaixo) e falou-me:

- Esse era meu pai que faleceu recentemente.

Perguntei, já inoportunamente - como se fizesse parte da história apenas por comigo ter na memória a imagem lúcida do senhor em vida:

- Quando foi?

No que o homem respondeu, em um misto de conformação e culto:

- Fez seis meses semana passada.

A história que se anunciava na emotividade que se desenrolava sob os olhos do homem (que parecia, em alguns segundos, querer descer como uma chuva torrencial na oportunidade do desabafo prosódico com o desconhecido) se velou no silêncio que se seguiu à sua resposta, enquanto eu o encarava esperando por algo mais a ser dito.

Compreendi naquele instante que o diálogo do homem era com outro e suas formas expressivas tinham também natureza diversa. Compreendi, sobre todas as coisas, o que viria extrair mais tarde do livro do qual me fiz proprietário naquele dia: que basta que a forma seja em si, para que seu conteúdo, a rigor, se declare nos contornos e preenchimentos de seus espaços, pouco importando que alguma ciência consiga ou não dar cabo deste que é o significado e nos alcança sob legenda imprecisa; que a expressão não se dá nos intervalos do signo, em cuja divisão feita pelo estudioso se pensa existir algum fundamento maior que a expressão em si, mas no fenômeno indivizivel que ocorre entre o impulso intencionado daquele que expressa e a recepção crédula de um outro que, ausente de preocupações analíticas, lê a mensagem como se fizesse sob um braço extenso da própria percepção; que a reza de um homem às suas deidades não estará, em conteúdo, acessível ao antropólogo, cujo arcabouço teórico, no entanto, será suficiente para o preenchimento e contorno do seu livro e esta sua própria reza; que aquele que escreve pensa, o que pensa existe, o que existe é pensado e, com efeito, escrito pelo outro que lhe dá forma e, portanto, conteúdo; que o livro usado é, sobretudo, um livro e o “sobretudo”, na posição de sincategoremático ou não, pouco importará ao que o usa (salvo nos casos em que o frio se faça "de fato", para além do contingente).

terça-feira, 22 de março de 2011

Insensível, insensível...

Entro no restaurante e me sento no banco junto ao balcão.

Peço um guaraná (tentando encontrar o hábito de não tomar bebidas alcoolicas enquanto o sol ainda estiver a pino)

Na televisão suspensa no alto, ao canto esquerdo do balcão, o jornal noticia uma nova contabilidade dos mortos na tragédia ocorrida no Japão.

Faço constar aqui, pois, uma deliberada ponderação sobre o modelo vigente em estatísticas do gênero, que ausentes de todo e qualquer coorporativismo, não dão nota nem números especiais a estes que, dentre os mortos, contam como estetísticos (ex-estatísticos, em todo caso) ou funcionários do meio.

Mas penso nisso menos como medida humorada (ainda que me paute pelo humor mais que pela precisão realista) que na observância líquida e cirúrgica dos fatos que me convém, tal que a atualização da contagem de mortos não me faz restar mais comovido ou chocado com o acontecido.

Enfim, a coisa foi mesmo feia.

Do meu lado direito, então, ouço uma criatura efeminada comentando com outro (ou outra, sabe-se lá...) a respeito da tragédia no continente asiático - tomando lembrança, em recurso, da outra que se abateu recentemente sobre a região serrana do Rio de Janeiro:

- 2011 é ano solar. Ano de desencarnação em massa...

- Meu deus! - Eu penso comigo mesmo, ainda que seja ateu e a companhia dos meus próprios pensamentos seja tão desagradável a mim quanto é ao meu provável leitor.

- Devia ter visto que era um restaurante macrobiótico antes de entrar... - Concluo.

E de repente, os vinte e tantos mil mortos pelos quais choram outros tantos milhões de vivos parecem-me dispor de importância menor que uma asneira qualquer dita por um Walter Mercado gafapastas da zona sul carioca.

Eu devo mesmo ser uma dessas almas penadas que veio ao mundo apenas para sentenciar a regra de que a raça humana, definitivamente, não presta.

Que se foda!

Pago as minhas contas.

Não tem nem Obama que me queira dar lição de moral e não ouça um palavrão como resposta.

Morrer afogado, afinal, não deve ser tão pior que engasgado com uma azeitona ou esmagado por uma senhora gorda caída do sétimo andar (ou, ainda, alvejado por um projétil mercenário de um soldado norte-americano lá onde o inglês nem direito chegou)

Defendendo-me - sob o risco de parecer ainda mais cretino - relatando que, algumas horas depois, comprei um salgado numa pastelaria de chineses na rua da Glória.

(Pra variar, tava uma merda).

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Os jardins suspensos da Babilônia

Poderíamos precisar a narração segundo a data do único sétimo dia de dezembro do ano de 2010, embora eu não coloque em dúvida, em qualquer hipótese, que narrativa similar se possa haver dado em data distinta dessa. O narrador – este a quem cabe a assumpção de testemunha ocular nos supostos fatos – poderia também ser outro, ainda que, desse modo, haveria de narrar provavelmente com outras palavras ou, quem sabe, as mesmas tomariam forma genuinamente peculiar por uma disposição qualquer em ordem avessa ou diversa da que aqui se apresenta. De fato, qualquer um que, nesta data circunspecta, parasse-se num ponto de ônibus bem em frente a entrada da estação ferroviária de Olaria, lá onde a Rua Dr. Alfredo desemboca na Leopoldina Rêgo, entre as 18:25 e as 18:40, aproximadamente, estaria apto a reclamar para si o título de testemunha da cena que lhes confiarei em trato.

Aquela senhora atravessou a rua segurando, com a mão direita, as calças enquanto abraçava um montante algo parecido com lixo: guardanapos sujos e, talvez, um ou dois copos plásticos amassados pelo braço esquerdo contra o corpo na altura das costelas. Depois de quase ser atropelada por um carro em alta velocidade – que tratou de evitar uma tragédia utilizando o expediente de uma brusca freada, chamando assim minha atenção para a personagem pela primeira vez – chegou-se junto às grades que separam o ponto de ônibus da ferrovia por onde passaria em algum momento um trem.
Demorei a compreender o movimento da velha e mesmo a identificar-lhe o gênero, como também demoraria um espectador outro, desavisado como eu, já que não apenas a velhice e a magreza – essas que lhe roubavam praticamente a garantia da feminilidade – dificultavam essa identificação, como também as roupas: um jeans bastante largo e surrado ancorava-se na região da cintura unicamente sob a ação da mão direita que, firme como uma convicção, impedia uma queda que parecia iminente a cada movimento dela; e uma camiseta qualquer, azul com mangas amarelas que a vestia conforme um senhor franzino, já que os seios se ocultavam em absoluto– pouco volumosos que eram – sob o tecido pouco justo da veste.

Mas se compreendi o que testemunhava num segundo instante foi apenas por ouvir as palavras de um senhor que se sentava num dos bancos do ponto e comentava com outro homem ao seu lado: “Ela pega qualquer coisa que esteja no chão; papel, copo, bituca de cigarro... Não fica nada. Esse é o ponto mais limpo daqui até Bonsucesso, pode ver! Não sobra uma migalhinha no chão.”

Falava ele daquela senhora e qualquer criatura que estivesse na posição mesma onde eu me encontrava naquele instante e compreendesse, ainda que superficialmente, o português fluído da zona norte do Rio de Janeiro, o poderia ter ouvido e compreendido em meu lugar. Logo em seguida, a velha deu contornos mais definidos àquela fala ao se abaixar e catar um guardanapo amassado que um sem educação qualquer acabara de largar. O homem, como que para ilustrar sua história e com o peito estufado pelo excesso de razão, olhou para seu comparça e apontou para a senhora dizendo: “Tá vendo só!”

Os cabelos brancos e ensebados lhe caíam sobre o pescoço e o rosto, quase a alcançar-lhe os ombros, suavemente ondulados de modo que se poderia – por que não? – declara-los lisos, enquanto ela permanecia alheia ao senhor que contava ao amigo uma história ligeiramente distinta da minha, mas na qual aquela senhora era também a protagonista. A pele era escura como a de uma índia severamente castigada pelo sol. Do rosto, pouco se via algo além da idade avançada. Isso também porque aqueles cabelos que lhe faziam avançar sobre o rosto permaneciam lá quase todo o tempo já que a cabeça se mantinha baixa em permanente ocupação, vasculhando o território asfaltado como nem um faxineiro remunerado faria.

A história poderia encerrar-se na gloriosa moralização do gesto com o qual parecia ela querer assear o espaço público, conforme o julgamento do homem sentado, não fosse por um detalhe significativo e, talvez, ignorado numa história que se contasse com um pouco mais de pressa, tendo em vista o mesmo recorte de tempo e lugar. A velha seguia em direção às grades que se estendiam sobre a mureta da ferrovia toda vez que catava algo, porque lá atirava o “lixo”. Ora, se deixando limpas a rua e a calçada a senhora, deliberadamente, sujava a margem dos trilhos da ferrovia, o propósito benemérito que lhe incutia aquele senhor sentado deveria ser posto em suspenso e se, justificado não haver hierarquia simbólica entre aqueles espaços tendo em conta que existe e estava ali ao alcance um lugar próprio para aquele com o estigma do lixo ser depositado em nome da civilidade e da boa educação, devemos supor que a razão da velha era de natureza outra que não aquela moral ou pedagógica que via nela o outro narrador.

O caso é que a atenção da senhora parecia se dirigir muito mais para o destino recorrente dos desfeitos e descartados que ao possível inconveniente a que eles davam nome quando no meio da rua ou na calçada. Aquele ser humano improvável, objeto da minha atenção durante aqueles 10 ou 15 minutos, atravessou mais uma vez a rua – ignorando o tráfego e fazendo menção, novamente, a uma quase tragédia -, enfiou a mão esquerda dentro de uma lata de lixo disposta na entrada d’uma pastelaria quase em frente ao ponto d’onde eu observava (isso porque a mão direita mantinha-se no confronto contra a queda da calça todo o tempo), arrancando de lá um pacote de biscoitos vazio, um ou dois palitos de picolé e um pequeno copo de isopor descartável. Gesto mais uma vez seguido pelo script, que consistia em atravessar a rua e lançar dejetos na margem vulnerável da linha do trem.

Pois se é verdade que pelo uso e função damos às coisas nomes distintos daqueles que se poderiam ler na estampa de um outro contexto, tambem aqueles detritos deveriam receber nova nomenclatura nos autos desta narrativa, uma vez que a urgência que os impendia agora não mais era a do despojo ou da repulsa, mas a de alguma mágica propriedade em propósito da qual se pedia jogar-los na margem dos trilhos: transubstanciação semelhante a que ocorre com os dejetos e fezes de alguns animais quando se fazem suprir nutrientes em terras destinadas a cultura de vegetais. Deveria, então, compreender o observador comprometido, em razão do gesto da velha, a categoria em que se incluía o comportamento que se dispunha a observar. Difícil mesmo seria imaginar uma espécie capaz de florescer no árido solo da margem dos trilhos, composto quase que exclusivamente de granito, alimentada por matéria pouco orgânica como a que se tem nos restos produzidos pelo consumo urbano.

Mas ainda que o perfume espalhado não fosse assim agradável e o jardineiro em momento algum se tenha posto a sorrir, certo é que também no aspecto morbo da farsa há alguma cor e beleza como aquelas que se vê nas flores.

domingo, 28 de novembro de 2010

Pública República - pequenas crônicas sobre grandes cidades...

A cidade é fria.

Em pleno verão, os raios das primeiras horas de sol não são suficientes para aquecer o estrangeiro aviltado pela realidade dantesca que o cerca. “São Paulo” – Pensará ele, como se o próprio nome evocasse cada detalhe do espaço, do clima, e das pessoas que parecem constituir algo como uma natureza do lugar. “Natureza?!” – é o que se perguntará o forasteiro, certo de que não há nada de natural naquilo.

Saindo do metrô na estação da República, atravessando a praça o deslocado aventureiro se deparará com uma jovem que se deita ao chão, escorando-se no metal da porta corrediça de uma loja qualquer (talvez uma casa lotérica ou um curso de inglês, mas a jovem lhe atrairá em demasia a atenção para deixar espaço a especulações desse tipo – pouco importa qual loja será). Cobre-se com um velho cobertor enquanto empunha um sorriso tão deleitoso que parecerá a jovem ter esperado toda a noite por aquele descanso impróprio – ou o deleite é conseqüência de algum entorpecente pesado, justificando assim o prazer em total despropósito. A jovem tem lábios lindos e grossos, e as bochechas enrubescidas contrastam o tom de pele com a posição que a menina ocupa numa calçada perpendicular à praça da República. O piercing no nariz e o cabelo - despenteado em arranjo intencional – acusam também a disparidade com a realidade que ela molda a si ao deitar-se sobre o concreto de uma rua imunda. O estranho continua andando sob o risco de perder-se naquela bela jovem e apaixonar-se por ela, que lhe desvirtua a mais conservadora orientação classista. Cessa o olhar, no entanto, visto que nem lá nem na Normandia é direito sustentar a visada diretamente sobre o rosto de um inteiro desconhecido.

Mais tarde no trajeto, dois jovens efeminados e uma moça de cabelos coloridos (que parecem saídos dos subúrbios de Berlim em um filme B de algum diretor desconhecido) conversam como se o dia não houvesse descido. Divertem-se em alguma discussão que o estranho jamais estará apto a introduzir-se. Divertem-se, mas parecerão dispostos a brigar ao rapaz que chega pela rua que vem da praça. E seja qual ou quais forem os motivos de uma possível briga, não será gratuito e nem poderia ser. Contornando o Largo do Arouche pela Av. Duque de Caxias o passante será convidado a parar-se diante de um solene mural na av. São João onde a mesma está estampada numa fotografia da década de 50. Lê-se logo acima: “Departamento de polícia de proteção a cidadania”. Os tempos, em todo caso, são outros. As pessoas de terno e chapéu deram lugar a moicanos, travestis, piercings, bonés. Também os bonés que se espalham pelas cabeças locais irão causar estranheza ao gentio abismado, tal qual alguma religião ortodoxa se fizesse presente na distância que separa esse homem da cidade sob seus pés e sobre sua cabeça.

É, sem dúvida, uma cidade hostil. Mas isso tem como mérito, a honestidade. Hostil é como todas as cidades são e como não poderiam jamais não ser. Caso esse evidente na justa necessidade de uma polícia para proteger a tal - a “cidadania”. Não que seja necessária a visão dos dois pombos se alimentando dos pequenos pedaços brancos espalhados num vômito rosado, conforme verá nosso homem ao retornar de seu passeio pelo outro lado da mesma av. Vieira de Carvalho que o haveria levado mais fundo na celebre São João não fosse a pressa ou a necessidade de dar tapas contra o tempo, para se compreender o dado. Nem que essa realidade justifique qualquer ato desumano e impensado que atente contra a paz de espírito de um outro cidadão qualquer. Nada obstante, a hostilidade que a cidade carrega é resultado do simples fato de haver uma estrutura tal como “a cidade”. E não é por conta das múltiplas identidades que ali se encontra, como se a diferença fosse sempre sinônimo de guerra iminente. Tampouco haverá culpa alguma subjacente ao fato de ter sido construída toda em substância tão dura como o concreto. A hostilidade da cidade vem, de outro modo, da indiferença.

Se é possível transitar por toda extensão visível de asfalto é porque o valor chapado de uma nota de 50 reais é o mesmo para o comerciante ávido como para o bandido a espreita, para o taxista esperto como para o mendigo desesperançoso. E aqui ou ali se compra com a mesma retórica não importando de que mão veio o dinheiro, nem para que mão irá.

O estrangeiro, pois, perceber-se-á estranho toda vez que saindo de um lugar seu de origem, onde já naturalizou todas as formas de relações confusas como aquelas às quais o mesmo se absteve de dar nomes em terra natal, chegar a uma cidade outra – como aquela ou qualquer uma – onde o direito a cidadania é um bem em permanente vigilância, como a carteira no bolso de trás da calça que o paranóico apalpa a cada minuto, pois dá mais valor ao dinheiro que traz no bolso que à vida que pulula diante dos olhos. O que dizer, então, dessa paranóia necessária chamada polícia que qualquer cidadão ostentará como título de ordem a cada vez que um desafio qualquer lhe for posto ao alcance? Dir-se-á que é coisa da cidade, lá onde o grito é um desabafo tanto quanto um alarme, um comando ou uma forma de arte.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Da primeira vez que invejei um cego.

Esperava o ônibus numa das largas calçadas da Central do Brasil. Disposto na direção oposta à que vinham os carros na grande avenida, percebi que me situava na região central de um longo corredor que se formava. De um lado havia os “atentos”. Pessoas que se alinhavam rentes ao meio-fio - com olhares fixos no horizonte, por onde chegariam seus ônibus como que numa aparição maquinal – e se perfilavam à direita do corredor (devo dizer, com o perdão do trocadilho: pessoas direitas). Do outro lado, criaturas mais vagas tomavam forma no semblante impreciso de sua atenção. Esperavam também seus ônibus, certamente, afinal é essa a lógica daquele espaço instituído, o “ponto de ônibus”. Mas das suas expressões empedernidas por fora, pude julgar – a partir de um método especulativo qualquer que me é peculiar – que por dentro faziam-se da embriagues de um pensamento volumoso: “pensavam na vida”.

Eu, que me colocava no meio daquela disposição diligentemente conceituada por mim, vi-me obrigado a conceber que também naquele centro havia um sentido; e se eu me diferenciava – em minha “embriaguês” de pensamento – dos à esquerda, era porque eu, na forma inversa daqueles que pensavam na própria vida, pensava mesmo era na vida dos outros. Afinal, foi nesse eterno diálogo entre um individualismo do "eu" absoluto com a sensibilidade humanista de um olhar de alteridade que o caso que sucedeu se desenrolou. Meus pensamentos foram interrompidos por um homem que caminhava pelo “corredor” há alguns metros à frente. Era cego e quicava seu cajado pelo chão, sistematicamente, à direita e à esquerda, enquanto vinha em minha direção. Contudo, tinha um aspecto viril como poucas vezes antes eu houvera visto em um cego; os braços fortes lembravam os de um estivador, ainda que a delicadeza com que empunhava o cajado desmentisse a altivez do corpo sadio - era mesmo um homem cego. Vinha sem os tradicionais óculos escuros e de olhos abertos - bem abertos - em plena consciência de sua cegueira e nenhuma vergonha daqueles dois inúteis que eram seus olhos. Logo que entendi do que se tratava dei um passo ao lado (à direita), posto que estava na rota de colisão de uma criatura que não me podia ver. Talvez tenha escolhido a direta por uma questão prática: tão logo meu ônibus chegasse, estaria mais próximo e seria menos custoso alcançá-lo. Aliás, pra mim, era essa mesma praticidade que definia os daquela coluna. Mas assim que o homem cego passou por mim (a meio metro de distância, talvez) uma belíssima mulher se colocou entre nós em alta velocidade, fazendo-me dar um passo para trás de sobressalto e esbarrando no cego que não pode prever sua presença repentina e quase se estabaca no chão – a destreza do corpo bem trabalhado, no entanto, foi suficiente para que o homem fincasse no chão o cajado e recuperasse o equilíbrio das pernas. A mulher seguiu dando as costas ao cego e, assim como o homem que quase derrubou, nem tomou conhecimento da cena. Ignorara completamente a deficiência do homem como também o homem ignorava a beleza dela, a mulher. Mais uma vez, dois tipos apareciam na minha concepção de mundo porque eu julgasse todos o tempo todo e não pudesse parar de fazê-lo sem que isso me custasse o sofrimento esculpido em um certo vazio que preenche toda espera: Um introspectivo – o cego -, contido hermeticamente em universo próprio e despreocupado com as ações instantâneas que surtiam segundo após segundo no mundo material (de certa forma, era como os da esquerda, os que pensavam na vida e concediam à espera do ônibus apenas uma atenção secundária que deveria despertar apenas quando o ônibus chegasse afinal). A outra, absolutamente externa a si, deslocava-se da coluna da esquerda à da direita porque seu transporte acabara de ter-se estacionado no ponto. A pressa era o aspecto externo que completava a transição em que se tornava agora, a mulher, um daqueles pragmáticos à direita, que se fixavam com vista única em um objetivo. Coincidências à parte, não poderia defini-la, ali, de outro modo senão por aquela pura exterioridade que declarava sua aparência – beleza física. E era também esse aspecto que fazia tocante a mim aquela criatura.

Falavam por mim, então, os desejos de um “eu” sem fronteiras, que era tudo e queria ser todo o resto; e se martirizava pela distância que se impunha entre o desejo de possuir aquela mulher (e todas as que fossem como ela belas) e a impossibilidade patente de efetuar a posse. Senti-me fraco. Um porque me teve mais apelo aquela volúpia que certo humanismo que me deveria comover com a cegueira e a vulnerabilidade do homem naquele instante. E outro porque, ainda que eu fosse o mais humano dos homens e minha generosidade ultrapassasse o vigor incessante de minha libido, eu jamais teria em mãos os contornos sutis daquela beleza - aprofundada pela superficialidade dos meus imperfeitos instintos - que era a mulher.

Senti o peso daquele desejo e desejei não desejar.

Foi nessa hora que me reportei à indiferença do cego para com a beleza que o havia quase jogado ao chão - como se não houvesse qualquer diferença se o corpo que o tocara fosse o de uma deusa encarnada ou o de um suíno mal adestrado – e foi essa a primeira vez que invejei um cego.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

M93

Entrar no ônibus parece-me a parte mais difícil embora também seja difícil sair dele. Mas como tudo na vida, pior que o golpe de misericórdia é a tortura diligente e silenciosa que procura amparo psicológico antes do problema físico. Em todo caso, entrei. Contive-me lá dentro como o líquido se contém na garrafa. Não me era possível sair a não ser pelo único lugar que define a saída no distintivo de uma garrafa: o gargalo.

O ônibus andou uns poucos metros e parou diante de um quilométrico engarrafamento e só a partir desse dia me foi possível compreender porque assim o chamam. Estávamos todos enfileirados no trajeto de alguma indústria perversa. A maquinária daquele organismo arrastava, a lentos passos, umas milhares de unidades da produção com destino aos seus respectivos mercados. Continha-nos grossos recipientes feitos de vidro e metal, e tirávam-nos, naquela tormenta de pequenos incômodos, o mais ínfimo nódulo de uma possível individualidade. Tínhamos todos a consistência dos líquidos que são passíveis de conter-se em garrafas. Como refrigerante quente, embora não tão doce, borbulhavamos apenas quando abria-se espaço para o que de nós tornava-se gás. Quão triste era quando essa minha ingênua metáfora ganhava dimensão literal... provável que eu nem devesse tê-la armado, mas, de fato, dentre os incômodos que se poderia listar seria esse o que melhor definiria a ocasião em acordo com a analogia em que pessoas comuns se constituíam da mesma matéria de um quente e pouco agradável refrigerante.

Eu olhava pela janela. Apenas aos olhos o ambiente me tinha em certo conforto. A fumaça negra que se espargia lá fora encatava-me pela soltura e eu, ali, desejava um pouco de dióxido de carbono como um peixe que tem pulmões e espreita no fundo do lago deseja o ar da superfície. Eu só olhava pela janela enquanto o ônibus permanecia parado. Andava, é verdade, mas permanecia parado - assim como a Terra que gira abaixo dos pés, e permanece, também, parada. E Newton não explicaria isso melhor que o senhor ao meu lado, que reclamava de 4 em 4 minutos que iria chegar atrasado ao trabalho.

Uma sirene enlouquecida fazia-se baixa e aos poucos inundava o ambiente. Avolumava-se e preenchia, pelas pequenas frestas, aquele recipiente no qual eu estava contido. Era um som louco de fato. A imagem que suscitava nao podia ser senão a de um demente clínico a gritar pedindo passagem ou anunciando o apocalipse. Aos poucos, conforme aqueles latidos alucinados da sirene ganhavam a imagem inquieta da ambulância, os carros assumiam as personalidades de seus donos e tentavam ajeitar-se para dar passagem ao veículo berrante. Percebi, então, que todos no ônibus olhavam pela janela com semelhante obstinação. Senti-me parte daquela grande massa uniforme que era o líquido que o onibus continha. E pude sentir, com a unidade perene dos sentidos coletivos, o que se passava com toda a gente. Penetravam na ambulância e com diligência insensata mapeavam todas as possibilidades. Descreviam com imaginação cada traço oculto dos habitantes daquela viatura. É claro que alguns deveriam duvidar que houvesse ali um doente - esses preferiam supor a desonestidade do motorista que usava a sirene como medida de por-se mais alto. Mas a grande maioria, aqueles dos quais eu fazia parte, o grosso do líquido por assim dizer, olhavam o sujeito na maca na luta contra uma morte prematura e o invejavam. Senti também essa inveja, mas no surto de minha conspícua racionalidade fiz-me recobrar o panorama da coisa. E daí que ele estivesse confortavelmente deitado, que o seu carro andasse em velocidade superior a todos os outros e que ele, possivelmente, chegasse ao seu destino antes de qualquer um de nós? O seu destino seria, de qualquer forma, a ala de emergência de um mórbido hospital ou um sombrio necrotério – enfim, a morte.

E enquanto um sem rosto ao meu lado se ajeitava e eu sentia o desconforto lancinante daquela garrafa, dissolvia-se a minha racionalidade pretensa e insensível. Transformava-me, então, no quinhão indeciso de um bruto coletivo e novamente pude sentir o torpor palpitante daquele líquido organismo que me envolvia.

A morte. Ah! A morte! E que inveja eu sentia daquele sortudo.