segunda-feira, 25 de março de 2013

Diálogos e laticínios

A mãe questiona o filho (mulher e homem adultos de cuja relação só é possível tomar conhecimento porque o narrador impaciente assim a declara): "Você vai beber esse leite? Tenho frio, preciso cobrir-me."

O filho, então, responde: "Não, obrigado. Pode guardar. Acabei de comer uma pizza."

sexta-feira, 8 de março de 2013

Perna Curta e o poder simbólico




Numa delegacia no centro do Rio de Janeiro, especializada em crimes de violência e agressão contra mulheres, entra, de vestido florido longo,uma bela jovem, dirige-se ao balcão de atendimento e anuncia que quer denunciar uma agressão. A atendente pede-lhe informações básicas, digita alguma coisa em seu computador conforme a mulher lhe presta satisfação dos dados requeridos e indica-lhe que deve esperar ali mesmo no hall de entrada pelo policial que irá tomar-lhe o depoimento.

A mulher, cabelos louros e longos, rosto delicado arranjado em expressão todavia hostil, certamente ainda remoendo as lembranças do acontecido que a fizera encaminhar-se àquela delegacia, recuou até o hall e sentou-se num banco instalado junto à parede. Esperou por cerca de 40 minutos (a demora, nesse caso, era também a celebração da ocupação do policial – e toda expectativa produzida naqueles 40 minutos deveria justificar assim a relevância do ofício que a venerável autoridade executaria, num misto de psicólogo, ombro amigo e homem de justiça, como nem o Rei Salomão ainda quando das suas mais inquestionáveis virtudes), quando se soube chamada para prestar seu depoimento num quadrante sem cobertura delimitado por paredes baixas no fim de um corredor atrás do balcão de atendimento.

O policial pediu à jovem mulher que se sentasse e sentisse-se “à vontade” (fora o termo exato usado por ele). Vendo-a acomodada na cadeira, sentou também ele e perguntou: “O que aconteceu?”

A mulher curvou a cabeça abaixo da linha dos olhos do homem a sua frente, colocou a mão sobre a testa como servisse de apoio a uma consciência repleta das frustrações e desmandos da vida sobre seu crânio e relatou ao policial com a voz um tanto chorosa: “Fui agredida pelo meu namorado!”

O homem entendeu logo a dimensão do problema, como não poderia deixar de ser, uma vez que se tratava ali mesmo de fórum apropriado àquele gênero de denúncia. Pediu, assim, que a mulher continuasse, detalhando a história e se fazendo entender pela narrativa para além da circunstância já anunciada.

A mulher levantou o rosto, colocou a mão esquerda cerrada sobre a boca enquanto pigarreava, adequando à voz um depoimento claro e lúcido como seria – e se iniciou sem a insegurança e  melancolia que antes sugeria a fala da jovem: “Nós voltávamos do aniversário de uma amiga minha, começamos a discutir no carro por uma coisa boba qualquer, que já nem me lembro, e quando entramos em casa ele se descontrolou e me bateu.”

Nesse meio tempo, o policial digitava no teclado como que acompanhando o depoimento da moça, enquanto fazia sua atenção intermitentemente variar entre a fala dela e as teclas do computador. Após concluída a narrativa, um tanto sintética, e ainda alguns segundos depois de uma digitação residual na qual o policial se empenhava (talvez corrigindo erros ou colocando acentos nas vogais), trouxe ele novamente os olhos fixos e atenciosos aos olhos dela e perguntou: “Bateu como?”

A mulher, sumária e resoluta como antes na história, respondeu-lhe: “Ele chutou minha canela.”

O policial, então, manteve-se inerte em expressão facial incrédula, pois como se não compreendesse a fala, ou melhor, como se julgasse haver engano qualquer naquela comunicação direta, julgou tratar-se de caso de polido silêncio antes de lançar, reticente, a pergunta mais uma vez: Bateu... como?

A mulher, dando ênfase à convicção reproduzida no tom de voz intensificado, devolveu-lhe: “Ele chutou minha canela!”

O policial, no entanto, deu mais uma vez razão à dúvida: “Você tem certeza?”

Devo confessar aqui, malgrado o constrangimento da vítima na situação em que se encontrava, que compreendo e me compadeço com a estupefação daquele senhor da lei diante da conclusão em que se encerrava o registro. A natureza da ofensa que leva uma mulher a denunciar criminalmente seu parceiro projeta-se muito além das repercussões físicas daquela conduta. O chute na canela, não há dúvida, trata-se de agressão intencionada e fisicamente plausível, mas em cuja conotação não se justifica ou não se deveria justificar o contexto relacionado a uma situação de denúncia como aquela, não porque seja de modo algum lícita ou porque os danos e riscos físicos não sejam assim relevantes e senão porque o caráter simbólico daquela ação não endereça a ocasião de uma ofensa tão grave. Repare que o chute na canela, não sendo episódio comum nas brigas conjugais e nem mesmo ação recorrente em duelos pela honra ou coisa parecida, é circunstância repetida e cabível, por exemplo, numa comédia infanto-juvenil. É possível recorrer à memória para lá encontrar tais imagens que não nos condicionam - como no caso da mulher agredida - ao ímpeto da indignação, mas ao riso e ao divertimento. Ou seja, a mecânica e a fisiologia implicadas no gesto determinam por definição um agressor e um agredido, mas ao insulto, pede-se que haja mais profundidade na ação e ousadia imoral mais inescusável. A canela, por outro lado, é do corpo apenas um membro acessório; uma extensão literal da perna que lhe serve o caminho e a sustentação simplesmente; é o local por excelência dos acidentes ordinários, dos impactos súbitos e imprevistos, dos ferimentos mais grosseiros e sem conotações particulares; é, por isso mesmo, o chute na canela a agressão característica das crianças, almas inocentes em cujo dolo não há ainda uma dimensão simbólica elaborada.

Concedida ao senhor, dono das perguntas eméritas, essa nota em defesa, segue-se à história que: o policial, ainda não satisfeito com o desdobramento particular daquele depoimento, questiona a jovem acerca de uma possível e suposta indisposição da memória dela, como nas palavras mesmas usadas por ele: “Não teria sido, por acaso, um empurrão violento escada abaixo, um tapa no rosto ou um soco no estômago?”

A mulher parecia não compreender a tentativa de seu interlocutor de dar rumo distinto à história que ela mesma vivera algumas horas antes. Mas tal procedimento parece justificar-se pelo estabelecido de que tais agressões, sendo muito mais recorrentes (e brutais, certamente) que o declarado chute na canela, parecem acomodar uma narrativa mais íntegra e adequada aos autos daquela instituição.

A mulher, ainda sem dar chance alguma à conveniência daquele desvio, perguntou em sequencia e com alguma severidade ao policial: “O senhor não ouviu o que eu disse?” - e concluiu em seguida: “Ele me deu um chute na canela!”

O policial, ainda que amador nos trâmites da psicanálise, mas cheio de espírito, fez-se entender melhor: “As vezes, nossa memória nos prega peças. Em especial, em situações traumáticas como esta. Parece que nossa consciência está sempre disposta a recobrir situações que nos são desgostosas com eufemismos e ilusões e fazemos com isso sublimar tais eventos em registros distorcidos ou enganosos do que aconteceu na realidade. A senhora pode, quem sabe, ter tomado um tapa no rosto por um chute na canela, não?”

A mulher, a essa altura já com uma expressão de deboche que não lhe sairia mais do rosto então e depois, levantou o vestido florido, deixando exposta a marca vermelha na canela em que se via as ranhuras de uma espécie de bico grosso de calçado, talvez, uma bota militar. Segurando entre as duas mãos com firmeza a perna na altura do joelho, direcionou ao policial e perguntou ironicamente: “O senhor vê?”.

Diante daquela evidência e como que para se redimir do cepticismo que o acompanhara durante todo o depoimento, o homem levantou imediatamente da cadeira, abriu a gaveta da mesa de onde tirou uma pistola e enfiou-a na parte de trás da calça, um tanto agitado, quando inquiriu a mulher pela última vez, dando como consolo uma resposta em ação: “Onde ele está nesse momento? Vamos até lá, agora, dar voz de prisão a esse covarde!”

A viatura se dirigiu ao local. Dois policiais entraram na casa e anunciaram ao acusado - que abriu a porta sem oferecer resistência - do que se tratava. O meliante acompanhou os policias na viatura até a delegacia e teria sido preso naquele mesmo dia, não fosse um único detalhe: tratava-se de um desenho animado: um enorme coelho de corpo esverdeado, duas orelhas compridas - uma ao alto e a outra dobrada ao meio, recaindo sobre a testa -, olhos que se movimentavam neuroticamente ao redor das órbitas ovais, e calçava botas pretas, imponentes, uma das quais, como evidência, instrumento reconhecido da agressão.

Diante daquela criatura, cujos jargões repetia em sentenças que não faziam sentido algum em contexto, o delegado se viu obrigado a renunciar à circunstância do encarceramento. Percebera a absoluta indisponibilidade das restrições do espaço, visto que o acusado, na condição de desenho animado, era capaz das mais inverossímeis peripécias físicas: poderia ele passar espremido pelas grades do cárcere ou, simplesmente, escorregar elegantemente pelos dutos de água ou ventilação; sem falar na ineficiência incondicional das armas de fogo com que estavam municiados aqueles defensores da justiça para com aquela criatura sem ossos, feita em plenitude de imagem e movimento.

Desse modo, na razão de encaminhar o caso para jurisdição apropriada, recorreu o delegado imediatamente ao ministério da cultura, cuja ação efetiva foi sucinta e definitiva para tirar de circulação elemento tão nocivo e indiscriminado perante à vida civil e a ordem do estado. Declararam, pois, ao convicto réu em questão a única pena cabível: a censura.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Gentileza gera gentileza, só que não


Entrei no ônibus com uma sacola na mão. Procurava pelo dinheiro na carteira aberta, um pouco confuso, a considerar que o veículo em movimento não me ajudava o equílíbrio e nem tão pouco a pressão que me fazia, com a atenção intermitente voltada a mim, o motorista, que deveria recolher o dinheiro e dirigir ao um mesmo tempo, enquanto um senhor num banco estrategicamente (ainda que a estratégia permaneça a mim desconhecida) isolado ao lado da roleta murmurava alguma coisa em minha direção. Entre os murmúrios distingui a sentença: “Passa a roleta, procura o dinheiro e depois volta pra pagar.”

Desconsiderei, no entanto, a sugestão. Não apenas porque julgasse desnecessário – e uma vez que eu passasse a roleta, teria que esticar o braço até o último centímetro para dar o dinheiro ao motorista, que deveria retorcer o pescoço e recolher a passagem com apenas uma mão no volante e o carro, provavelmente, em movimento – mas também porque a posição que me ocupava na procura do dinheiro, pedia-me que não desse atenção ao senhor atrás de mim.

Ele balbuciou mais alguma coisa; talvez tenha me oferecido ajuda, mas não tive certeza se oferecia e nem de que maneira me seria a ajuda dele benéfica.

Ao contar meus trocados, reparei que faltavam vinte centavos e tive, então, que puxar uma nota de vinte reais, para a qual o motorista não haveria de ter troco, uma vez que durante a madrugada, as empresas mandam seus funcionários ao trabalho como os mandasse a alguma expedição perigosíssima, não cabendo arriscar dinheiro algum no trajeto. De fato, a nota fora um problema que o funcionário tratou de rechaçar em um acenar negativo com a cabeça. Eu ponderei, assim, que, dos trocados que eu tinha a mão, vinte centavos faltavam para completar o valor da passagem. Ele estendeu a mão e me pediu o dinheiro. Entreguei-o com a sensação incômoda de que o motorista me fazia um favor desnecessário ao me poupar vinte centavos, mas também por conta do senhor atrás de mim que a essa altura já havia inserido inadvertidamente dois ou três comentários ao movimento. Entre eles, sobretudo, pensei ter ouvido algo como: “Você precisa de alguma coisa?”

Quando atravessei a roleta, pus-me de frente a ele, que me sorriu com ironia e me disse: “De nada!”.

Devolvi-lhe o sorriso apenas por dúvida e me coloquei a refletir sobre o comentário. O procedimento, no entanto, era claro. Oferecendo o jargão corrente em resposta a um agradecimento em questão sem, contudo, haver o agradecimento tomado forma, o senhor colocava em evidência o mérito de uma gentileza jamais reconhecida, e com alguma ironia, dizia-me mal agradecido de modo a não deixar dúvidas sobre a sua conduta presumidamente generosa.

Eu teria deixado passar se o desconforto por ficar devendo vinte centavos ao motorista não me tivesse roubado a tolerância que era ali necessária. Já havia passado a roleta e me projetava pelo corredor do ônibus quando resolvi retornar e lhe fiz a pergunta: “O que o senhor disse?” Ele ergueu a cabeça e , cheio de orgulho, repetiu que havia dito “de nada” em razão do agradecimento que eu deveria tê-lo oferecido por conta da gentileza descrita quando do seu envolvimento com a minha situação. Ele, de fato, havia-me perguntado se eu precisava de alguma coisa e nesse instante tive certeza. Eu, todavia, não precisava de nada, ou ainda que precisasse não teria recorrido a um estranho no ônibus. Aliás, os vinte centavos que ficaram por conta do motorista não me deveriam ser, absolutamente, necessários, já que à ocasião eu trazia comigo uma nota de vinte reais, dinheiro suficiente para garantir minha entrada no ônibus. No entanto, não pude negar que alguma gentileza se havia postulado no concernimento do senhor para com um que lhe era inteiramente estranho. Gentileza essa que se poderia retribuir com a gentileza proporcional de um “muito obrigado”. Fiquei, nesse momento, confuso e após ouvir o senhor descrever a ocasião em que me havia feito uma gentileza, senti-me compelido a agradecê-lo e o fiz, mas não sem um sorriso artificiosamente empunhado, como quem não fizesse senão atender a uma formalidade.

Veja lá! Inegável que o senhor me tenha gentilmente oferecido ajuda. Mas é incontestável também que sua ajuda não se tenha feito absolutamente necessária. Pareceu-me, assim, pouco justo que eu lhe fosse obrigado a agradecer quando de mais a mais o senhor perdera todo direito a um agradecimento ao exigir-me tão cinicamente um. Pois se foi a gentileza de por-se a disposição que o fizera digno de algum mérito, fora, por outro lado, a grosseria equivalente em contrário ao requerer-me em situação como aquela um inaudito “muito obrigado”. Pouco importa, e assim como eu havia sido forçado a aceitar a duvidosa gentileza dos vinte centavos postos em desconto pelo motorista do ônibus, fui também compelido a entregar ao senhor ocioso um “obrigado” que deixou de fazer sentido algum quando da sua imediata exigência.

Sentei-me num banco na parte de trás do ônibus, duplamente frustrado. Alguns minutos depois, o veículo passava por debaixo dos viadutos da rodoviária, onde se lia aquelas celebradas frases do poeta Gentileza, dentre elas, a famosa equação do velho também chamado profeta: “Gentileza gera gentileza”.

Pensei mesmo comigo: a economia dos gestos amáveis não é assim tão resumida e requer da justiça um desdobramento a altura para os casos em que não vingar a tautologia. Pois pode ser que o julgamento equivocado de apenas um dos lados determine não haver proporção alguma que justifique a vigência dessa espécie de lei de Talião às avessas.  

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Breve conclusão acerca do conhecimento e de como se põe a conhecê-lo




O mundo é bem maior que os olhos. Como teima, então, o homem em querer todo vê-lo?

Explico: É que a visão não está restrita a imagem; não está na luz nem no objeto que toma forma sob a claridade. A visão se abre, justamente, quando o mundo se põe ao alcance. O resto é pequeno; visada; vulto; paisagem; relance.

Visão é ver o mundo.

Olhos, até os cegos os têm.


domingo, 2 de dezembro de 2012

Bonum Mercator nihil donat


O comércio é um jogo curioso.

A introdução poderia soar vaga não fosse dada à razão de mencionar certo procedimento em que um comerciante oferece, “gratuitamente”, na compra de um produto qualquer, um produto outro que, a principio, não denota nenhuma relação necessária com o produto a que virá, no trato em questão, vinculado. Chama-o “brinde” e tenta fazer sugerir que se trata de um negócio que se justifica na simples oportunidade dada, porque seja o comerciante um bom samaritano, louco, ou homem de pouca a nenhuma inteligência, a título de vantagem ao comprador que, não fosse por isso, compraria ainda assim, porque o produto em questão é bom o bastante e o preço absolutamente razoável. Diz-se que o bom vendedor é capaz de vender gelo a um esquimó. Mas se fosse o caso destes ditos estenderem-se com algum detalhamento, poderia-se também incluir que o esquimó levaria, ainda, na transação, um espelho de bolso ou uma escova-de-dentes.

Em um grande Shopping Center na zona sul do Rio de Janeiro, um conjunto de lojas associadas – que compreendia quase a totalidade das lojas do edifício – oferecia a todo comprador de seus produtos, cupons a partir dos quais o comprador seria convidado a concorrer a um carro novo: respeitando que a quantidade de bilhetes que o candidato ao carro disporia na urna do sorteio seria proporcional ao dinheiro por ele gasto nestas lojas.

O carro encontrava-se apoiado sobre um pequeno palco, na calçada bem em frente ao Shopping, logo ao lado da urna, que se situava atrás de um pequeno balcão de onde um funcionário, estabelecido pelos comerciantes vinculados à promoção, anunciaria o ganhador imediatamente após o sorteio do bilhete. Um amontoado de pessoas se espremia na calçada a espera. Ao todo, duzentas pessoas se dispunham como espectadores do evento que escolheria um ganhador dentre os milhares, talvez milhões, de cupons que, analogamente aos ali presentes, se espremiam na urna.

A ansiedade fazia com que as conversas que tinham lugar entre aquelas pessoas parecessem murmúrios. Isso porque nenhuma conversa deveria tomar suficiente atenção ao ponto de fazê-los desviar-se do sorteio e do anúncio do sorteado. Como se não bastassem os cupons alojados ali; como se o sorteado houvesse mesmo que personificar aquela escolha, estando ágil e disposto no momento do sorteio para que seu grito de entusiasmo fizesse condecorar uma escolha assim batizada pelo mérito – pouco criterioso, contudo – da expectativa. Desse modo, conversas se iniciavam sem muita convicção, em tom de voz ameno e findavam logo que alguma movimentação se fizesse aparente no palco a frente. 

A mulher, que retiraria o bilhete e anunciaria o vitorioso, se mexeu a frente do microfone disposto no balcão e fez menção a dizer algo. Embora o silêncio não houvesse irrompido absoluto e instantaneamente, foi conquistado em poucos segundos, ao custo de algumas reprimendas e sutis indelicadezas dedicadas uns aos outros pelos próprios ouvintes daquela sessão. Anunciou, então, que giraria a urna - cuja forma aparente já antecipava a mecânica de um dispositivo que a faria girar, certificando aos presentes que a escolha não seria determinada por possíveis “lugares privilegiados” onde a presença do cupom indicaria maiores probabilidades de que seria esse mesmo cupom sorteado: isso porque se havia ali premissa alguma para sorte era essa a quantidade de cupons por indívíduo e, portanto, o dinheiro gasto nas lojas e não a medida do manejo e a sagacidade do candidato no instante de atirar na urna o cupom – e escolheria o bilhete inadvertidamente, sem preparação ou parcialidade algumas, apenas se dispondo a cumprir as recomendações a ela dadas pelos organizadores do evento.

Girou, assim, a urna durante dois minutos e meio. Tempo necessário para a distribuição aleatória e casual dos bilhetes, mas também potencialização eficiente das expectativas, como fizesse-se rufar tambores a indicar que o resultado em espera era digno de toda reverência e atenção. Enfiou a mão na urna e de lá arrancou o bilhete - que antes não era senão um bilhete - e posicionou-o à frente dos olhos.

A pequena multidão fez dilatarem seus ouvidos, desfizeram-se de todos os pensamentos impróprios dedicando atenção que provavelmente não dedicaram antes nem mesmo a seus filhos, suas esposas e maridos, seus pais, colegas de trabalho ou professores, mas antes que a mulher anunciasse aquele nome, interrompeu-a o resultado de um evento outro que, desenrolando-se paralelamente ao sorteio, resultou num automóvel em alta velocidade invadindo a calçada e colidindo brutalmente com o carro novo a espera, objeto do sorteio em andamento.

Responsável pelo acidente, saiu do carro uma senhora ainda atordoada com a batida, mas aparentemente saudável, e dispensou sobre a cena um olhar de espanto. Os outros ali presentes haviam dispensado o mesmo olhar de espanto alguns segundos antes: Agora, começavam a entumescer suas expressões faciais, preparando-se para dedicar hostilidade mais veemente a inoportuna recém chegada quando a anunciante do sorteio, num misto de presença de espíríto e omissão de responsabilidade, declarou: “Senhor Marcos Heleno dos Santos!”

Imediatamente, diante do povo que naquele segundo retomava atenção sobre ela, identificou um rapaz que, ainda sem entender exatamente o que se passava, insinuou tratar-se ele mesmo de Marcos Heleno dos Santos. Logo, ela desceu do palco, esticou a mão com a chave do carro e entregou-a ao ganhador dizendo-lhe, antes de partir sem delongas em retirada: “O carro é seu. Parabéns!”.

Após o tramite concluído as expressões hostis do público deram lugar a novas, que no geral variavam entre a frustração e o alívio. Não era o caso particular daquele rapaz que, se segundos antes saltou-lhe um convidativo entusiasmo e agradável surpresa com o sorteio que lhe havia sido favorável, restabelecida a cena em que a velha e os carros amassados tomavam parte, seu humor, então, era o do homem irritado e desgostoso porque tinha que resolver o problema que acabara de chegar-lhe as mãos junto com a chave de seu novo carro.

Sem perder muito tempo, foi diretamente ter com a senhora, quando perguntou-lhe secamente: “A senhora tem seguro?”

A pergunta era honesta, já que cumpre ao proprietário zelar pelo bem de que dispõe, mais ainda quando se trata de material valioso como aquele. A resposta nem tanto, conquanto se lançara levianamente na forma pouco esclarecida de uma nova pergunta: “O senhor tem?”   

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A umidade relativa da água



Chegou na minha casa às 23:37. Sei exatamente a hora porque olhei no relógio - sabia que mais cedo ou mais tarde acabaria escrevendo sobre isso e me apeguei aos detalhes desde a espera até a hora que ela partiu. Abri a porta e ela entrou. Sentou-se no sofá, cruzando as pernas que saíam de dentro do vestido minúsculo e esboçou um início de conversa: - Bela casa você tem.

- É alugada. – tive que dizer para que ela não pensasse enganosamente da minha situação financeira.

- Ainda assim é bonita. – ela concluiu.

Eu ofereci vinho, cerveja ou água, ela rejeitou, sumariamente, se levantou do sofá, colocou as duas mãos na minha cintura e começou com as carícias. Primeiro subindo pelo abdômen, por dentro da camisa, por todo torso até o peitoral, depois descendo, cravando as mãos por dentro das minhas calças e apertando minhas nádegas com força.



Minha timidez me deixou em atraso e eu demorei uns quantos 5 minutos para tomar o controle da coisa. Foi quando a virei de costas com brutalidade, encostei-a contra a parede da sala, bem ao lado de uma reprodução impressa de um quadro de Rothko, puxei a calcinha por baixo do vestido vermelho e penetrei nela sem esperar que ela estivesse pronta. Como não estivesse suficientemente molhada naquele momento sentimos, eu e ela, o vigor áspero e a brutalidade insensível da minha ofensiva. Mas ela logo se umedeceu e aquilo ficou pra trás. Eu continuei por trás dela, com força, num movimento em que fazia me demorar dentro dela, forçando até onde fosse possível a entrada.

Eu mantinha os dentes cerrados: se algum observador oculto me descrevesse espumando pela boca, eu não duvidaria. Ela gemia alto demais e eu cansei daquilo. Conduzi o rosto dela pelo cabelo com violência até embaixo, onde pressionaria sua cabeça contra o meu pau, fazendo da boca um orifício à disposição ininterruptamente. Depois de alguns segundos ela ficava sem ar, pressionava as mãos contra o meu corpo oferecendo resistência contra as minhas investidas, recuperava o fôlego como se lutasse contra um intempestivo afogador, e se largava novamente ao movimento.

Quis chamá-la pelos mais ofensivos nomes que me vieram a cabeça naquele momento, mas permaneci calado, com a mandíbula contraída. Levantei-a, ainda pelo cabelo, apertei firme sua cintura, apoiando-a sobre um móvel ao lado do sofá e tornei a penetrá-la. Sustentei o olhar diante do olhar dela, que arrefeceu e se desmanchou em submissão sem que ela desviasse de mim os olhos, enquanto eu mantinha o movimento da pélvis, que ela sentia e declarava com um gemido suave a cada estocada.

Ao me aproximar do gozo, puxei com força seu cabelo, inclinando a cabeça para trás, e cuspi sobre a sua boca. Ela arregalou os olhos assustada, mas como não tivesse controle nenhum sobre o movimento que eu fazia e que se concentrava entre suas pernas ela retomou a expressão de prazer e mordeu os lábios encharcados com a minha saliva. Segundos antes de gozar, puxei-a novamente pelos longos cabelos e gozei sobre seu rosto, como se cuspisse uma segunda vez. Ela fechou os olhos e se colocou a disposição.

Retomando o fôlego e deixando pingar as últimas gotas de sêmen no chão, que eu arrancava de dentro pressionando o indicador e o polegar sobre a cabeça do membro, fazendo um movimento que ia da parte superior da glande e do prepúcio até a ponta - como se ordenhasse uma vaca - senti o calor se esvair, o suor que escorria abdômen abaixo, e como se uma criatura completamente diversa daquela que acabara de gozar assumisse o comando, virei de costas e fui até o banheiro, trazendo – na volta – uma pequena toalha que entreguei a ela para que enxugasse o rosto. Ela me agradeceu com um sorriso, como se eu fosse o cara mais amável do mundo. Eu, então, tomei aquele rosto entre as minhas mãos (Até ali não havia reparado na beleza ingênua que se descolava dele, como uma máscara delicada que se desfaz com o toque bruto) e acariciei como acariciasse uma criança ou um cachorro (pois até hoje não sei ao certo a diferença entre o carinho que se deve entregar a uma criança e a um animal de estimação). Os olhos dela, a partir daí, se encheram de água e ela quis chorar, mas não deixou que uma só gota escorresse. Os olhos, que tanto líquido haviam produzido, foram os mesmos que absorveram cada gota não chorada, cada lágrima não descida. Levantou-se dos joelhos no chão que, provavelmente, já sentia doer, e se recompôs. Catou a calcinha, esticou o vestido e esperou que eu tirasse 150 reais da minha carteira e entregasse a ela, conforme fiz logo depois.

- Obrigada! – ela disse não sei se com ironia ou por sincero agradecimento. – Obrigado você! – eu respondi e responderia fosse pela honesta graça ou pelo sarcasmo.

Levei-a até a porta.

Sentei-me no sofá e procurei sentimentos por entre os escombros do que havia sobrado dentro de mim. Certo era que um monte de culpa se fazia conviver com alguma emoção mais claudicante, reticente, e que não deveria estar ali. Pensei por um segundo estar apaixonado. Mas me desfiz do pensamento. Não sei, de fato, o que é a paixão e a poderia ter tomado por coisa muito mais frívola, como já antes tomara, aliás, quando após uma refeição magnífica meus pensamentos se dedicaram tão intensamente àquele prazer que certa vez acreditei estar apaixonado por uma lasagna. Ademais, paixão não é coisa que se compre com 150 reais. 150 mil talvez, mas isso não cabe aqui especular.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O pintor de paredes


"Wir fühlen den Schmerz, aber nicht die Schmerzlosigkeit"
(Sentimos a dor, mas não a sua ausência)
Arthur  Schopenhauer



Fecho os meus olhos e outros dois olhos, de repente, aparecem diante mim; diante de meu peito ou ao meu redor; uma imagem que se espalha e contamina aos poucos o espaço de minha percepção; não são, no entanto, olhos de verdade o que vejo; e como poderia vê-los de olhos fechados? São olhos não porque “ser” lhes funde em alguma verdade, mas porque uma existência sutil lhes entrega o caráter de ‘coisa no mundo’. Olhos pintados por mãos invisíveis - a memória é uma artista tão delicada; detalhista, algumas vezes e outras, apenas delicada. Pois há esses momentos em que se apega somente ao essencial; desfaz o contorno preciso em forma que já não se quer definida; derrama sobre o espaço intangível entre os olhos e a alma a cor que dia houve visto em círculos e elipses em vida e movimento. Agora, no entanto, retém perene e objetivamente apenas seu nome: azul. Mas a palavra, somente, não faz jus aos olhos que dia estamparam essa cor; a mesma cor, talvez, que Agamenon um dia viu sobre o Egeu quando da sua investida em direção a Tróia. Mas também esses olhos, os do herói grego, não tem verdade que não seja apenas o reverberar de um sentido que dia fez nascer a palavra, ecoando através das vozes que se seguiram à voz de Homero ou nos palimpsestos gravados a custo de mãos que hoje já não mais pintam.

Abro meus olhos e aqueles olhos outros permanecem diante de mim sem dirigirem-se aos meus, pois sua imagem imprecisa não se delineia através da visão e nem é o sol quem a alumia; esse mesmo sol que um dia iluminou a visão que Galileu teve do azul num céu à luz do dia; o sol que Copérnico descreveu, talvez, como um nome apenas e em nome de uma visão que não era, todavia, a dos olhos seus.

Respiro fundo e sinto o cheiro do mofo que cobre as paredes do quarto. Mas faço surgir renitente a imagem da pele, cuja cor dá também vida a uma pintura nascida sem tela. Mas pele, branca ou bege, pontuada por sinais mais escuros como que pintados à ponta de um lápis, essa pela não exala, como se pede, o cheiro que um dia teve lugar sob minhas narinas. O cheiro não é, com efeito, da memória um talento exemplar; permanece intocado. Quanto mais aspiro mais é, nada obstante, o branco (e tanto menos o bege) - da superfície por onde se espalham aqueles pequenos sinais - que sobe e me penetra os pulmões em imagens visíveis ou quase, sem odor algum a evocar. Se sob as narinas vigilantes, todavia, esse aroma exalasse novamente, eu poderia tê-lo outra vez e reconhecê-lo. A memória é um pintor virtuoso mas um perfumista apenas medíocre ou nem isso; e se nem mesmo no espaço memorial rarefeito tenho eu a presença do cheiro, pouco tenho as palavras que me possam nessa arte delicada guiar para retomar da baunilha outra coisa que não o amarelo vivo das suas flores.

Como guiasse, na memória do músico, o timbre, os intervalos e as notas de canção silenciosamente retomada; porque também ali a harmonia permaneceria incógnita se não houvesse sabor e individualidade em cada som que se evoca. Mas a minha lembrança é nesse campo, ainda, uma orquestra vacilante. Pois quando penso na voz é a imagem da boca a mexer o que surge ao redor dos meus ouvidos. Aquela voz que um dia antes sussurrou em um ouvido meu, não retorna e não me parece haver meios para fazê-la retornar senão no que se pode rever do resvalar ruidoso do ar sobre os lábios rosados e um quase tom agudo, desvanecido, de quando um dia ouvi tal voz a cantar. É dos instantes em que ela sumia, entretanto, que a lembrança se faz mais rigorosa. Gravou-se dessa voz o silêncio numa imagem, ainda que intangível, para olhar; era o silêncio a nota dominante, sem dúvida, porque eram a mesma sentença o canto e ar que escapava através da garganta. 
  
Posso ainda vestir um corpo ao redor daqueles olhos, sob um tecido florido, prender-lhe cabelos ao redor de um rosto refigurado, ou ainda despir esse corpo e retomar novamente a imagem da pele branca, reinventar seios – como eram aqueles – pequenos e disformes como os de uma jovem há pouco tempo ainda criança, ou ainda o umbigo, que é agora apenas um pequeno orifício acima da pélvis, uma imagem sem fundo e sem superfície; um buraco negro que pede por ser esquecido pois que os dedos não mais lhe podem tocar.

Além de tudo, a memória não tem volume, não tem textura ou opacidade, pois detalhista ou não nunca nos leva ao centro daquilo que se empenha em mostrar. Nem as sensações e os sentimentos que nasciam no meu corpo quando da presença daquele outro traduzem aspectos de realidade alguma, já que a memória não se alimenta daquela matéria, mas das tintas dos sentimentos de agora. Talvez seja querer demais da memória, essa gravurista ambiciosa, não mais que oportuna, quando o caso requer mais que o naturalismo da pintura de uma paisagem ou natureza morta. Pois a essência não é apenas o azul que nascia nos olhos ou o cheiro do branco descansando sobre a pele, não é nem mesmo a transparência da voz na forma silenciosa do ar entre os lábios, nem é, ainda, os contornos do corpo ou menos o tecido e os cabelos ao seu redor.  A memória, ainda quando uma fotógrafa experiente e tenaz, não pode exprimir a essência quando se pede que essencial seja tudo: O todo, as partes e nada mais.