quarta-feira, 25 de abril de 2012
sábado, 21 de abril de 2012
A prosa do impressionista
Contornos disformes se destacavam nos semitons e nas sombras as quais sugeriam volumes àquelas superfícies que se dispunham num espaço inteiramente constituído de substância viscosa e plasmática. Compreender que alguma diferença de densidade entre duas pequenas massas - que se movimentavam a parte de todo resto substancial presente, num espaço nem definido por um contorno preciso (como um quadro) menos ainda estendido para além de alguns metros quadrados que a consciência menos precisa pudesse perceber – e a massa que as envolvia no espaço seria o suficiente para tomá-las como organismos em desenvolvimento de alguma vida que se situasse ali. Mas isso porque uma tentativa de compreensão como essa ignorasse o colorido efusivo e inquieto que se movimentava dentro das formas. As cores, de todo modo, eram também repletas de alguma vida e se poderia ver nelas também formas se a imprecisão do contorno formado entre uma cor e outra vizinha, muitas vezes gradações sutis de um mesmo tom, fosse deposta por uma visão absoluta em que se veria cada cor como uma apenas, fazendo as manchas que se derramavam em luminosidades contorcidas sobre toda a superfície, e mesmo nas formas avolumadas no espaço tridimensional, se consolidarem em formas concisas e presentes, quando já a tridimensionalidade se dissolveria numa imagem plana e as massas, que antes se personificavam na idéia de um espaço materialmente tangível, se subtrairiam a nada. E se fosse possível imaginar um diálogo que através daquele cenário fizesse falar a personalidade de cada cor-criatura ali depositada ao lado e ao estreito de uma outra - quando já mesmo nem o espaço existisse senão uma malha obturada de criaturas-cor justapostas em um enredo que se desenvolvia conforme as mudanças de posição, sutis em alguns cantos e mais bruscamente em outros – esse diálogo assim se daria, se os ouvidos que ouvissem fossem capazes de traduzi-lo:
- Sou! – Disse um vermelho pleno de si e consciente da própria unidade que sustentava sua forma. E, então, de ombros dados a um vermelho vizinho, um tanto mais escuro que ele mesmo, refaria a declaração numa dúvida direcionada ao caro semelhante (completamente outro na homogeneidade estendida da forma, mas repleto de uma natureza similar que o próprio vermelho reconhecia, reconhecendo no outro a presença daquele mesmo vermelho que era ele mesmo em pureza) : - Sou mesmo? – Mas esse outro, que ladeava toda aquela forma central – cujo formato, nunca antes definido numa língua conhecida em apenas uma palavra, é aqui indescritível – em um contorno que parecia repetir, em tamanho ampliado, a forma daquele em seu centro, não lhe deu resposta e se limitou a divagar em uma sentença retórica: - Ah, a dúvida! A eterna dúvida.-
A locução se propagou daquelas duas criaturas para as que se dispunham ao redor, alcançando outras manchas ao centro de outras em outros cantos da imagem. Verdade que a cada cor-criatura só era dado ouvir àquela imediatamente ao seu lado, e não fosse por essa razão em um determinado momento seria possível ouvir um burburinho que se inflamava desde aquela primeira questão até derivadas outras que assumiam complexidade em contexto, do mesmo modo como as cores que se movimentavam e davam vida a uma imagem confusa e sem fundo.
- Sei que há algo antes de mim e, provavelmente, algo também depois. Não posso ver, tocar, ou ouvir, mas alguma natureza dedutiva de meu intelecto é capaz de supor que se há algo de lado meu e há algo também do outro, deve haver também lados aos lados desses que me ladeiam. – Disse um lilás que formava um anel ao redor de azul estático que se punha dele ao centro em forma elíptica. Enganava-se, pois, uma vez que tal azul que o lilás tomava ser, por razão de um pensamento indutivo (e não dedutivo como ele mesmo pensava), também o lado de fora de um outro dentro estava preso aquele perímetro e ouvia somente a voz de seu amistoso vizinho. E logo se pôs a argüir o azul: - Lado?! Do que se trata? – Nesse momento, o paciente lilás tentou sumariamente explicar àquela ingênua criatura, sem ter acesso ao conhecimento da topologia indivisível daquela elipse: - Quando digo lado me refiro a uma idéia tal como a de posição em que as coisas participam com as outras de uma maneira espacialmente distinta, tal como há uma posição determinada a você aqui e uma outra determinada a outro em posição também outra.-
Mas o azul incompreendeu aquela fala uma vez que, não haver tido a experiência de uma situação tal como a que enfrentava naquele momento o lilás, o impossibilitava de dar aqueles termos significantes, significados condizentes com os pretendidos pela subjetividade da cor sua parceira única em uma existência visível e limitada. Ao mesmo tempo que o lilás, não havendo experimentado a posição central daquele azul que estabelecia para esse uma topologia monolítica, era incapaz de conceber tal centralidade e, por isso, incapaz de reconhecer tal realidade mesmo que em palavras a criatura elíptica houvesse vindo a ela dizer.
De quando em quando, o movimento das cores se encontrava em uma imagem que fazia lembrar aquela cena primeira em que o aspecto ali visível ganhava materialidade ao dispor de uma substância plasmática que parecia conter aquelas tantas cores, e novamente era possível reencontrar as duas formas distintas em massas sem forma definida que pareciam se movimentar em destaque, fazendo de todo o resto apenas espaço, cenário, paisagem. E também a essas formas seria possível atribuir um diálogo se os ouvidos a espreita deixassem-se imergir no silêncio profundo que se afogava naquele plasma, pois ouviriam não conforme esses modelos emitissem som algum, mas porque seriam ouvidos imersos no absoluto de uma consciência que se desprendia visível, porquer seria uma consciência própria da imagem visível. Diria, então, uma das massas a qual parecia circular ao redor da outra (essa em movimento mais lento): - Comprei um aspirador de pó da Electrolux e uma semana depois o filha da puta já não funcionava mais. Acredita? – No que a massa mais vagarosa respondeu enquanto parecia girar entorno de si mesma – Foda-se! Eu lá quero saber do seu aspirador de pó?! Vai contar essa história pras suas piranhas!
Nesse momento, as formas e cores ganharam distância e reconheci-me eu mesmo em posse de visão embaçada e sem definição. Depois de alguns segundos, a imagem ganhou foco e percebi que se tratava da cidade iluminada por sobre um pequeno muro na subida da Rua Joaquim Murtinho em Santa Teresa. Dois homens ganhavam distância subindo a rua e eu, ainda um pouco atordoado, me iniciava num juízo bastante indiscriminado sobre aquela vista, como quem pensasse que um admirar tal como aquele em que eu me investia a uma vista da cidade do Rio de Janeiro à noite fosse mérito particular de uma consciência individualmente determinada e repleta de uma capacidade de juízo singular a que nenhuma outra consciência teria acesso e que, por isso, ao invés do elogio declarado que parecia iminente, deveria eu dar razão ali apenas ao silêncio.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Dois críticos debatem teoria literária.
O primeiro, sentado de frente para o apoio de costas da cadeira, onde ele apoia um dos braços enquanto o outro gesticula conforme a sua argumentação: - O texto politiza uma cena ordinária através de uma representação animalizada da luta de classes. A adolescente faz as vezes de uma burguesia tirânica, mas ao mesmo tempo lacônica, sem voz. Os cabelos coloridos enumeram as cores da superficialidade dessa classe, o consumo vazio, letreiros iluminados anunciando produtos sem razão ou significado. Os cachorros, no entanto, falam. Como na revolução de George Orwell, eles tomam consciência da linguagem através de uma investigação aproximada do mundo. É a mancha que lhes chama a atenção e os incita ao diálogo, mas não a mancha porque é visível, como a mancha porque tem cheiro. Trata-se de uma busca por essências e a revolução virá conforme esses animais perceberem que a mostarda, símbolo do capitalismo em voga, não os alimenta e o seu cheiro não é senão uma forma em sinestesia da conhecida visualidade superficialista dessa sociedade de consumo.
O segundo crítico, sentado a frente do primeiro, com as penas cruzadas delicadamente, repousa uma das mãos sobre o joelho enquanto na outra ele maneja um cigarro que leva a boca regularmente em um movimento carregado de expressão e efeminado: - Devo discordar de você, meu caro! A representação não tem em vista alguma revolução, muito pelo contrário. Não é a luta de classes que se lê nessas linhas, senão a própria rigidez de uma estrutura engessada concebida no âmbito de uma religião monoteísta. Os cachorros são conduzidos, ainda que em nenhum momento essas amarras da condução estejam explícitas; não se fala de coleiras ou correias, perceba você. No entanto, a adolescente, que é descrita secundariamente como fosse coadjuvante no enredo, tem papel central nessa estrutura; ela conduz. Os cachorros tem o dom da palavra e conversam entre si, mas o diálogo não chega aos ouvidos da adolescente que permanece alheia na narrativa. Ela é a própria metafísica, e a maneira como é representada sob a face de uma adolescente rebelde dignifica uma ironia sutil no interior do texto: a metafísica, não sendo acessível pelos sentidos (pela visão dos cachorros ou pelo olfato, que seja, que permanece recluso ao dispor insignificante de uma mancha de mostarda) deve ser imaginada tal qual um personagem, uma alegoria. Trata-se de uma adolescente de cabelos coloridos, mas poderia ser um mergulhador trajando um escafandro ou um homem em trajes antigos com barba e longos cabelos.
Por aí, a discussão se estende.
Mais tarde, entra em cena, uma ovelha. Ela cumprimenta os senhores críticos com um gesto positivo que faz com a cabeça e se senta no chão, sobre as patas traseiras. Inicia assim seu discurso: - Não pude deixar de notar que os senhores falavam a respeito de um texto em que dois animais ensejam um diálogo súbito e que parece dar margem as mais diversas teorias prevendo símbolos e alegorias que, talvez, e os senhores hão de convir que isso é uma hipótese razoável, não estivessem lá pensadas originalmente. Mas eu não vim aqui para cotejar uma declaração sobre as intenções iniciais do autor, nem para dizer-lhes equivocados em respeito as suas teorias, de outro modo, tomo o lugar apenas para encetar a minha própria teoria. Penso nos cachorros como a celebração do instinto. O autor, tivesse ou não em mente esse caráter impulsivo e natural da escrita, escreveu, simplesmente. Deu margem as imagens que o assaltaram em criação inoculada dentro de uma imaginação selvagem e escreveu. – Nesse momento, a ovelha faz uma pausa para se coçar; coça-se na altura das costelas com uma das patas traseiras, e continua – Ora, não é curioso que também a menina que se forma em sua imaginação tenha aparência incomum? A verossimilhança, quando confrontada com a imaginação mais bruta parece sempre referida por um aspecto significativo dessa brutalidade da linguagem, que deposita sobre as imagens uma sonoridade vulgar e conforma um quadro familiar e compreensível com seu interlocutor ainda quando das imagens originadas no absurdo. Mas a natureza dessas imagens é indiscutivelmente selvagem: o moicano sobre a cabeça da moça, os cachorros em diálogo, a mostarda, ah, a mostarda! Esse tempero tão ordinariamente ácido e indigesto. Devemos lembrar, que em qualquer das hipóteses, trata-se de um animal empunhando as palavras...
Antes que a ovelha terminasse seu discurso, um senhor idoso trajando uma fantasia de Super-homem invade a sala, interrompendo a locução da ovelha e pergunta diante do grupo: - Aqui é que acontecem as aulas de defesa pessoal contra insetos e aracnídeos? – O cavalheiro com o cigarro na mão, já quase a queimar-lhe os dedos, respondeu ao senhor: - Não meu senhor. Aqui estamos debatendo teoria literária conforme o título do texto indica. Apenas essa ovelha intrometida é que não tem razão de ser, e agora o senhor, é claro. De todo modo, as aulas de defesa pessoal contra insetos e aracnídeos acontecem na sala 403, logo no fim do corredor. – O senhor pede desculpas e se retira. O efeminado então atira ao chão o cigarro, que a essa altura constava apenas do filtro, e desviando o olhar do senhor a ovelha, sugere a retomada: - Você dizia...?
A ovelha olha para um lado e para o outro e em tom de fofoca, indaga ao cavalheiro que acabara de lhe dirigir a atenção: - Querida!! Quem é essa criatura esquisita que acabou de cair de para-quedas?!? – E o senhor, já excitado e totalmente entregue aos trejeitos que o particularizavam desde o inicio da cena: - Meu amor, isso aqui é assim todo dia! Uns bofes esquisitíssimos aparecem toda semana para essa aula de defesa pessoal contra insetos e aracnídeos. As vezes você esbarra com um com tentáculos pelo corredor, as vezes uma senhorinha quase batendo as botas com um par de óculos tãaaoooo démodé! Mas querida – e nesse momento o crítico olhou firme nos olhos da ovelha e fez as vezes de quem lhe daria um conselho: - A aula é ótima! Acho, inclusive, que você deveria se inscrever pra ver como é. Vi você aí se coçando e você sabe que pulga é aracnídeo, num sabe?
Nesse momento, a ovelha deu as costas ao cavalheiro erguendo ao alto o pescoço como que ofendida com a insinuação do crítico e saiu da sala sem nem ao menos um “bééé”. Os críticos se entreolharam e como que não entendessem a reação do animal, se levantaram, juntaram seus papéis e caminharam juntos até o elevador do prédio. Pelo corredor, esbarraram ainda com dois caquéticos senhores: um índio e um policial. E tiveram ainda o desprazer de testemunhar a nudez do homem obeso que, fantasiado de Adão, não tinha suficiente proteção para quantidade absurda de carne e pele que transbordava de seus ossos. Já no elevador, e antes que se despedissem, um disse ao outro: - Essa gente é horrível! – O outro respondeu logo em seguida: - Definitivamente uma gente horrível!
O segundo crítico, sentado a frente do primeiro, com as penas cruzadas delicadamente, repousa uma das mãos sobre o joelho enquanto na outra ele maneja um cigarro que leva a boca regularmente em um movimento carregado de expressão e efeminado: - Devo discordar de você, meu caro! A representação não tem em vista alguma revolução, muito pelo contrário. Não é a luta de classes que se lê nessas linhas, senão a própria rigidez de uma estrutura engessada concebida no âmbito de uma religião monoteísta. Os cachorros são conduzidos, ainda que em nenhum momento essas amarras da condução estejam explícitas; não se fala de coleiras ou correias, perceba você. No entanto, a adolescente, que é descrita secundariamente como fosse coadjuvante no enredo, tem papel central nessa estrutura; ela conduz. Os cachorros tem o dom da palavra e conversam entre si, mas o diálogo não chega aos ouvidos da adolescente que permanece alheia na narrativa. Ela é a própria metafísica, e a maneira como é representada sob a face de uma adolescente rebelde dignifica uma ironia sutil no interior do texto: a metafísica, não sendo acessível pelos sentidos (pela visão dos cachorros ou pelo olfato, que seja, que permanece recluso ao dispor insignificante de uma mancha de mostarda) deve ser imaginada tal qual um personagem, uma alegoria. Trata-se de uma adolescente de cabelos coloridos, mas poderia ser um mergulhador trajando um escafandro ou um homem em trajes antigos com barba e longos cabelos.
Por aí, a discussão se estende.
Mais tarde, entra em cena, uma ovelha. Ela cumprimenta os senhores críticos com um gesto positivo que faz com a cabeça e se senta no chão, sobre as patas traseiras. Inicia assim seu discurso: - Não pude deixar de notar que os senhores falavam a respeito de um texto em que dois animais ensejam um diálogo súbito e que parece dar margem as mais diversas teorias prevendo símbolos e alegorias que, talvez, e os senhores hão de convir que isso é uma hipótese razoável, não estivessem lá pensadas originalmente. Mas eu não vim aqui para cotejar uma declaração sobre as intenções iniciais do autor, nem para dizer-lhes equivocados em respeito as suas teorias, de outro modo, tomo o lugar apenas para encetar a minha própria teoria. Penso nos cachorros como a celebração do instinto. O autor, tivesse ou não em mente esse caráter impulsivo e natural da escrita, escreveu, simplesmente. Deu margem as imagens que o assaltaram em criação inoculada dentro de uma imaginação selvagem e escreveu. – Nesse momento, a ovelha faz uma pausa para se coçar; coça-se na altura das costelas com uma das patas traseiras, e continua – Ora, não é curioso que também a menina que se forma em sua imaginação tenha aparência incomum? A verossimilhança, quando confrontada com a imaginação mais bruta parece sempre referida por um aspecto significativo dessa brutalidade da linguagem, que deposita sobre as imagens uma sonoridade vulgar e conforma um quadro familiar e compreensível com seu interlocutor ainda quando das imagens originadas no absurdo. Mas a natureza dessas imagens é indiscutivelmente selvagem: o moicano sobre a cabeça da moça, os cachorros em diálogo, a mostarda, ah, a mostarda! Esse tempero tão ordinariamente ácido e indigesto. Devemos lembrar, que em qualquer das hipóteses, trata-se de um animal empunhando as palavras...
Antes que a ovelha terminasse seu discurso, um senhor idoso trajando uma fantasia de Super-homem invade a sala, interrompendo a locução da ovelha e pergunta diante do grupo: - Aqui é que acontecem as aulas de defesa pessoal contra insetos e aracnídeos? – O cavalheiro com o cigarro na mão, já quase a queimar-lhe os dedos, respondeu ao senhor: - Não meu senhor. Aqui estamos debatendo teoria literária conforme o título do texto indica. Apenas essa ovelha intrometida é que não tem razão de ser, e agora o senhor, é claro. De todo modo, as aulas de defesa pessoal contra insetos e aracnídeos acontecem na sala 403, logo no fim do corredor. – O senhor pede desculpas e se retira. O efeminado então atira ao chão o cigarro, que a essa altura constava apenas do filtro, e desviando o olhar do senhor a ovelha, sugere a retomada: - Você dizia...?
A ovelha olha para um lado e para o outro e em tom de fofoca, indaga ao cavalheiro que acabara de lhe dirigir a atenção: - Querida!! Quem é essa criatura esquisita que acabou de cair de para-quedas?!? – E o senhor, já excitado e totalmente entregue aos trejeitos que o particularizavam desde o inicio da cena: - Meu amor, isso aqui é assim todo dia! Uns bofes esquisitíssimos aparecem toda semana para essa aula de defesa pessoal contra insetos e aracnídeos. As vezes você esbarra com um com tentáculos pelo corredor, as vezes uma senhorinha quase batendo as botas com um par de óculos tãaaoooo démodé! Mas querida – e nesse momento o crítico olhou firme nos olhos da ovelha e fez as vezes de quem lhe daria um conselho: - A aula é ótima! Acho, inclusive, que você deveria se inscrever pra ver como é. Vi você aí se coçando e você sabe que pulga é aracnídeo, num sabe?
Nesse momento, a ovelha deu as costas ao cavalheiro erguendo ao alto o pescoço como que ofendida com a insinuação do crítico e saiu da sala sem nem ao menos um “bééé”. Os críticos se entreolharam e como que não entendessem a reação do animal, se levantaram, juntaram seus papéis e caminharam juntos até o elevador do prédio. Pelo corredor, esbarraram ainda com dois caquéticos senhores: um índio e um policial. E tiveram ainda o desprazer de testemunhar a nudez do homem obeso que, fantasiado de Adão, não tinha suficiente proteção para quantidade absurda de carne e pele que transbordava de seus ossos. Já no elevador, e antes que se despedissem, um disse ao outro: - Essa gente é horrível! – O outro respondeu logo em seguida: - Definitivamente uma gente horrível!
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu
Dois cachorros, conduzidos por uma adolescente sustentando um moicano colorido sobre a cabeça, pararam-se diante de uma mancha no chão da calçada e se puseram a cheirar com intensa curiosidade. Então, um disse ao outro: - É mostarda!
O outro, imediatamente retrucou: - Com certeza é mostarda!
O outro, imediatamente retrucou: - Com certeza é mostarda!
quinta-feira, 22 de março de 2012
Humanista demasiado humanista
Brincadeira de criança. Profunda poesia pro tipo de inocente alma que se redime no encanto de imediatia com o outro. Bela figura desenhada por dentro das molduras tortas de um quadro de madeira pendurado sem planejamento na parede da sala. Mas as crianças conservam a mesma crueldade implícita ao instinto que vemos na labuta das Hienas sobre uma carniça tomada a força a outro carnívoro. E nem mesmo o mais insensível humanista será capaz de dizer que não há beleza na visão, de luta e sangue, estampada em uma tela de TV de 40 polegadas, do documentário referente sobre savanas africanas. Também o humanismo tem os seus limites. Ele acaba no ponto justo em que nos exige certa tolerância com as diferenças, certo relativismo de teor cultural, etário, ou inter-espécie. Porque o humanista, quando concede ao leão devorar outro animal sob o rechaço da tolêrencia, ele deve assim proceder: dizer do leão não-humano. Da mesma forma precisa admitir que um paquistanês que submete sua mulher, não estendendo a ela a liberdade que ele próprio garante a si, deve ser visto por certa lente de desumanidade para que não se impute a ele essa condenação que o humanista deve fazer a tudo que, entre os homens, não é humano. Ora, também uma criança aos 5 anos de idade é perdoada pelo tratamento injusto, vexativo e desproporcional de um semelhante sob a máxima tão difundida do "é apenas uma criança", como quem diz na verdade, "ela não é humana, ainda." Mas o perdão é uma virtude cristã e não uma ferramenta humanista. A tolerância por outro lado é o recurso mais a mão para um dessa classe e, no entanto, é fulcro de uma hipocrisia marcada no centro desse culto. O humanista não é tolerante porque é humano, mas porque priva o outro - em seu sentimento de alteridade - desse humanismo que ele mesmo assume ser algo como uma verdade fundamental: o outro, em sua visão, é digno pela falta de humanidade: é digno porque, apesar da indgnidade, não se pode pedir a todos que estejam a par desse conceito difuso e inconstante que é a verdade, que ele mesmo precisa duvidar por força de uma natureza humanista maior que traz ainda em seu bojo uma simpatia acentuada com relativismo. É, então, que o humanismo se perde. Não pode ser humanista se, em seu discurso, o paquistanês e a criança não são tão humanos quanto ele mesmo, insuspeito e incorruptível. Não pode ser humanista se o flerte com certo relativismo o induz a duvidar da verdade que é, todavia, pilar de toda sua razão: todos os humanos são iguais. Torna-se, assim, um demagogo. E ainda hoje as fronteiras que deveriam separar um e outro não são diáfanas e a imposição de um julgamento não pode ser feita com a mesma clareza e infalibilidade com que julgamos e condenamos o autoritário "humanismo" católico durante a idade média.
Pois quanto mais cedo os humanistas perceberem o risco corrente que sua ideologia enfrenta sob a suposta vernaculidade do relativismo em que se deixam confortar-se, serão forçados a tomar partido. Mas que partido será esse? Eis o problema que enfrentarão ainda que tenham ciência das suas limitações. Poderão comprometer-se com o risco do erro, sabendo que sua tolerância é tão parcial quanto uma medida extrema? Resta saber se será capaz de condenar e de que natureza será a condenação. Pois se o humanismo é o que se prega - e se deve pregar - entre os homens, o que será feito daquele que entre esses não é, assim, tão humano? Terá ele liberdade dos predadores na savana africana, ou a restrição de alguns dos mamíferos num zoológico urbano.
Não é a moral que deve conduzir esses homens, mas menos ainda será a falta dela a lhes trazer liberdade.
Pois quanto mais cedo os humanistas perceberem o risco corrente que sua ideologia enfrenta sob a suposta vernaculidade do relativismo em que se deixam confortar-se, serão forçados a tomar partido. Mas que partido será esse? Eis o problema que enfrentarão ainda que tenham ciência das suas limitações. Poderão comprometer-se com o risco do erro, sabendo que sua tolerância é tão parcial quanto uma medida extrema? Resta saber se será capaz de condenar e de que natureza será a condenação. Pois se o humanismo é o que se prega - e se deve pregar - entre os homens, o que será feito daquele que entre esses não é, assim, tão humano? Terá ele liberdade dos predadores na savana africana, ou a restrição de alguns dos mamíferos num zoológico urbano.
Não é a moral que deve conduzir esses homens, mas menos ainda será a falta dela a lhes trazer liberdade.
sábado, 17 de março de 2012
"...e mais uma vez o suburbano pós-adolescente de quase 30 se aventura num centro cultural da Zona Sul..."
E completa uma cena de quadrinhos: Eu, sentado na mesa de um café, esperando um filme começar, tomando um café e escrevendo no meu bloco manchado de tinta de esferográfica estourada.
Minhas roupas de trabalho de loja de departamento estranham o entorno. Eu? já nem tanto. Os outros talvez. Mas quem não me estranha?
Como sempre, assim que cheguei no tal "complexo de arte" fui direto a livraria:"Até os livros de bolso tão caros demais aqui, e eu reclamando das bancas..." e Viva os Sebos!
Por entre prateleiras vejo um par de borboletas logo após o fim das pernas de um surrado e justo short jeans feminino. Me posiciono melhor pra ver a obra completa. Além do par de borboletas na parte de trás das coxas, dois piercings nos lábios.
Lésbica. Um pouco ao lado vejo sua amiga. Cabelos vermelhos, tatuagens, piercings, short jens apertados e surrados. Lésbicas. Ou seja lá qual seja a moda sexual de adolescentes esquisitas da Zona Sul.
"Não existe mulher virgem tatuada".
A máxima que ouvi algumas vezes de um amigo veio à minha mente. Com certeza aquelas borboletas recebem muito mais lambidas femininas que minha pica. O que não é grande coisa: a lista de coisas que recebem mais lambidas que minha pica é infinita.
Uso meu olhar mais sensual, aquele que diz sem palavras: - Te estupro, depois arranco tua pele faço uma buceta artificial e vou fuder todo dia, mesmo depois que apodrecer.
Não funciona.
Essas coisas só dão certo nos contos do Bukowski.
Sento.
Peço um expresso.
Tento ler.
Bukowski.
Continuo pensando nas meninas lésbicas.
Peço outro expresso.
Fecha o ciclo na cena inicial dessa merda.
Tomara que o filme seja bom, já coloquei 9 reais na conta da familia Moreira Salles.
Filhos da Puta.
Minhas roupas de trabalho de loja de departamento estranham o entorno. Eu? já nem tanto. Os outros talvez. Mas quem não me estranha?
Como sempre, assim que cheguei no tal "complexo de arte" fui direto a livraria:"Até os livros de bolso tão caros demais aqui, e eu reclamando das bancas..." e Viva os Sebos!
Por entre prateleiras vejo um par de borboletas logo após o fim das pernas de um surrado e justo short jeans feminino. Me posiciono melhor pra ver a obra completa. Além do par de borboletas na parte de trás das coxas, dois piercings nos lábios.
Lésbica. Um pouco ao lado vejo sua amiga. Cabelos vermelhos, tatuagens, piercings, short jens apertados e surrados. Lésbicas. Ou seja lá qual seja a moda sexual de adolescentes esquisitas da Zona Sul.
"Não existe mulher virgem tatuada".
A máxima que ouvi algumas vezes de um amigo veio à minha mente. Com certeza aquelas borboletas recebem muito mais lambidas femininas que minha pica. O que não é grande coisa: a lista de coisas que recebem mais lambidas que minha pica é infinita.
Uso meu olhar mais sensual, aquele que diz sem palavras: - Te estupro, depois arranco tua pele faço uma buceta artificial e vou fuder todo dia, mesmo depois que apodrecer.
Não funciona.
Essas coisas só dão certo nos contos do Bukowski.
Sento.
Peço um expresso.
Tento ler.
Bukowski.
Continuo pensando nas meninas lésbicas.
Peço outro expresso.
Fecha o ciclo na cena inicial dessa merda.
Tomara que o filme seja bom, já coloquei 9 reais na conta da familia Moreira Salles.
Filhos da Puta.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Boa praça é praça pública! - Dizia ele.
Certa vez conheci um senhor, bastante respeitável, que atendia pela alcunha de Nogueira. Grande Nogueira! Era assim que eu o cumprimentava nas vezes que ele chegava ao banco da praça onde eu me recostava dia após dia, pois não tinha nada mais o que fazer.
O senhor Nogueira era um homem bastante sério, mas, acima de tudo, era um homem sensato ao extremo. Tão sensato era que eu não pude recusar a concórdia quando ele proferiu numa manhã nebulosa, a sua teoria pragmática sobre a sua sociedade de justiça. Começava assim seu discurso:
- Meu Caro Antunes! Temos que reduzir a sociedade apenas ao necessário, o básico do básico por assim dizer! Falava ele gesticulando grosseiramente como se mo quisesse impor a argumentação a força. Veja só, Antunes! Quantos bares a nossa volta, vendendo salgados e sucos que de tão parecidos não seria possível precisar a procedência se eu vos trouxesse aqui. E pra que tudo isso? Hã?! Por uma variação mínima de preço e de localização, por uma simples questão de mercado. Ande lá! Ao final do dia, são toneladas e toneladas de salgados jogados fora porque a relação de demanda e oferta não pode coincidir. Há sempre o excedente ou a recessão! E não bastasse isso, tem-se essa maldita exigência de alcançar níveis cada vez maiores de oferta e também demanda. É tudo um grande absurdo. -
Eu, do baixo de uma ingenuidade que não me permitiria prever o sopetão da resposta daquele nobre parlamentar, perguntei: - Escuta aqui Nogueira, o que exatamente você está sugerindo?! Que se extinguissem os bares? E onde esse povo todo iria comer os seus salgados engordurados e os turvos sucos que ali se serve?! Acho exagero seu, esse número de tonelada dado ao desperdício que se tem ao fim do dia. Afinal, são apenas alguns bares, seis ou sete, não mais do que oito certamente.
Então, Nogueira arregalou os olhos e eu pude prever a algaravia que me atropelaria por aquele canal. Ele olhou pro céu abrindo os braços como se perguntasse a Deus de onde vinha tamanha estupidez e olhando novamente na altura de meus olhos inseguros, disse-me: - Donde tirastes tamanha estapafúrdia meu jovem? Pensas assim pois tens os olhos fechados para as macro dimensões dessa enorme cadeia a que chamamos sociedade. Temos, por certo, apenas sete ou oito desses bares por aqui, mas ao final do próximo quarteirão somam-se vinte, e mais outro quarteirão quarenta, logo seria possível encher a Lagoa Rodrigo de Freitas apenas com um tipo desses salgados que sobram ao fim do expediente. Que seja um "joelho", digamos, seria uma enorme piscina de massa, queijo e presunto, e a tal tonelada que eu havia cantado te pareceria mingua de um pobre sovina comparada a isso. E quanto a proposta de extinção dos bares, não era exatamente isso que eu tinha em mente. É um fato que as pessoas precisam comer, mas que comam a mesma coisa, no mesmo lugar, e pelos mesmos preços. Ora, o que é bom o bastante para o estômago de um pobre coitado, deve ser bom o bastante para as entranhas de um executivo engravatado. Ou não somos mesmo feitos da mesma matéria? Bastava, então, que existisse por essas bandas um único bar. Melhor, que fosse o tipo do lugar onde se come e bebe, e fosse apenas uma pequena variedade de comidas e bebidas, respeitando assim as variantes alérgicas dos organismos a que se queiram dirigir. Chamar-lho-íamos refeitório, e vá lá! -
Ouvia-o admirado. Quanta eloqüência ele demolhava por entre os pontos e as vírgulas; era, sem dúvida, um orador de boca parruda. Tinha até mesmo a minúcia de salvaguardar os alérgicos em seu projeto. Havia-me, ainda, detalhado seus calculados sistemas de organização responsáveis pelo mínimo de desperdício e o máximo de eficiência. Um pragmatismo admirável para um senhor que trazia sobre o torso um "vistoso" terno que dava, à guisa de um par exagerado de ombreiras, um aspecto um tanto patético a um homem que dizia trazer a próspera solução para um mundo melhor. Mas não um mundo ideal, veja bem! Ele ratificava sempre que podia sua descrença nos modos utópicos que por outras bandas se impregnavam de um discurso batido e ultrapassado sobre mercado livre ou mesmo uma declaração acintosamente cínica sobre as liberdades de escolha em um socialismo como aquele. Sabia dos estorvos de uma sociedade sem tantas variedades, que talvez não fosse possível por lá ouvir Hermeto Pascoal enquanto comesse uma boa rosquinha sabor chocolate, mas que se substituísse a rosquinha por cream cracker e o Hermeto Pascoal desse lugar a uma velha senhora tocando minuetos de Bach ao violino na praça, o que não se poderia admitir era o desperdício e a fome - tudo menos isso.
A sua metodologia não era a torto e a direito como diziam as línguas mais ásperas naquela praça pública. Tinha o encanto particular dos detalhes mais diligentes de sabedoria econômica e social. E resumia-se numa simples assertiva: "Temos que reduzir a sociedade apenas ao necessário, o básico do básico por assim dizer!"
Que belo praça teríamos no comando se o elegêssemos presidente da república.
O senhor Nogueira era um homem bastante sério, mas, acima de tudo, era um homem sensato ao extremo. Tão sensato era que eu não pude recusar a concórdia quando ele proferiu numa manhã nebulosa, a sua teoria pragmática sobre a sua sociedade de justiça. Começava assim seu discurso:
- Meu Caro Antunes! Temos que reduzir a sociedade apenas ao necessário, o básico do básico por assim dizer! Falava ele gesticulando grosseiramente como se mo quisesse impor a argumentação a força. Veja só, Antunes! Quantos bares a nossa volta, vendendo salgados e sucos que de tão parecidos não seria possível precisar a procedência se eu vos trouxesse aqui. E pra que tudo isso? Hã?! Por uma variação mínima de preço e de localização, por uma simples questão de mercado. Ande lá! Ao final do dia, são toneladas e toneladas de salgados jogados fora porque a relação de demanda e oferta não pode coincidir. Há sempre o excedente ou a recessão! E não bastasse isso, tem-se essa maldita exigência de alcançar níveis cada vez maiores de oferta e também demanda. É tudo um grande absurdo. -
Eu, do baixo de uma ingenuidade que não me permitiria prever o sopetão da resposta daquele nobre parlamentar, perguntei: - Escuta aqui Nogueira, o que exatamente você está sugerindo?! Que se extinguissem os bares? E onde esse povo todo iria comer os seus salgados engordurados e os turvos sucos que ali se serve?! Acho exagero seu, esse número de tonelada dado ao desperdício que se tem ao fim do dia. Afinal, são apenas alguns bares, seis ou sete, não mais do que oito certamente.
Então, Nogueira arregalou os olhos e eu pude prever a algaravia que me atropelaria por aquele canal. Ele olhou pro céu abrindo os braços como se perguntasse a Deus de onde vinha tamanha estupidez e olhando novamente na altura de meus olhos inseguros, disse-me: - Donde tirastes tamanha estapafúrdia meu jovem? Pensas assim pois tens os olhos fechados para as macro dimensões dessa enorme cadeia a que chamamos sociedade. Temos, por certo, apenas sete ou oito desses bares por aqui, mas ao final do próximo quarteirão somam-se vinte, e mais outro quarteirão quarenta, logo seria possível encher a Lagoa Rodrigo de Freitas apenas com um tipo desses salgados que sobram ao fim do expediente. Que seja um "joelho", digamos, seria uma enorme piscina de massa, queijo e presunto, e a tal tonelada que eu havia cantado te pareceria mingua de um pobre sovina comparada a isso. E quanto a proposta de extinção dos bares, não era exatamente isso que eu tinha em mente. É um fato que as pessoas precisam comer, mas que comam a mesma coisa, no mesmo lugar, e pelos mesmos preços. Ora, o que é bom o bastante para o estômago de um pobre coitado, deve ser bom o bastante para as entranhas de um executivo engravatado. Ou não somos mesmo feitos da mesma matéria? Bastava, então, que existisse por essas bandas um único bar. Melhor, que fosse o tipo do lugar onde se come e bebe, e fosse apenas uma pequena variedade de comidas e bebidas, respeitando assim as variantes alérgicas dos organismos a que se queiram dirigir. Chamar-lho-íamos refeitório, e vá lá! -
Ouvia-o admirado. Quanta eloqüência ele demolhava por entre os pontos e as vírgulas; era, sem dúvida, um orador de boca parruda. Tinha até mesmo a minúcia de salvaguardar os alérgicos em seu projeto. Havia-me, ainda, detalhado seus calculados sistemas de organização responsáveis pelo mínimo de desperdício e o máximo de eficiência. Um pragmatismo admirável para um senhor que trazia sobre o torso um "vistoso" terno que dava, à guisa de um par exagerado de ombreiras, um aspecto um tanto patético a um homem que dizia trazer a próspera solução para um mundo melhor. Mas não um mundo ideal, veja bem! Ele ratificava sempre que podia sua descrença nos modos utópicos que por outras bandas se impregnavam de um discurso batido e ultrapassado sobre mercado livre ou mesmo uma declaração acintosamente cínica sobre as liberdades de escolha em um socialismo como aquele. Sabia dos estorvos de uma sociedade sem tantas variedades, que talvez não fosse possível por lá ouvir Hermeto Pascoal enquanto comesse uma boa rosquinha sabor chocolate, mas que se substituísse a rosquinha por cream cracker e o Hermeto Pascoal desse lugar a uma velha senhora tocando minuetos de Bach ao violino na praça, o que não se poderia admitir era o desperdício e a fome - tudo menos isso.
A sua metodologia não era a torto e a direito como diziam as línguas mais ásperas naquela praça pública. Tinha o encanto particular dos detalhes mais diligentes de sabedoria econômica e social. E resumia-se numa simples assertiva: "Temos que reduzir a sociedade apenas ao necessário, o básico do básico por assim dizer!"
Que belo praça teríamos no comando se o elegêssemos presidente da república.
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