quarta-feira, 23 de junho de 2010

O velho e Omar

Esquentava as mãos sobre o latão na fogueira que se sustentava ao custo de folhas de jornais velhos e dos pedaços de madeira arrancados aos antigos móveis, abandonados bem ali, naquele beco imundo. Permaneci em silêncio até que se aproximou um senhor, cuja branca barba atravessava a linha do pomo-de-adão, dobrando-se ao peito coberto com o grosso tecido de um casaco escuro. Cumprimentou-me com um aceno sutil da cabeça e pôs suas mãos sobre o fogo em compassiva atitude, compartilhando não apenas o calor necessário ao corpo enrijecido pelo frio intenso, como também a desavença com o mundo que mantinha a margem os freqüentadores daquele beco.

- A noite vai ser fria – comentou o senhor dando espaço a um assunto qualquer, como quem admitisse o diálogo antes mesmo da pauta sugesta.

- O dia já está frio – eu retruquei, lógico e agudo.

O velho riu-se, comedidamente, e me perguntou as horas. Puxei a manga do sobretudo, confirmando que já se passavam das 4 da tarde, no que fui imediatamente agradecido por ele, que logo em seguida comentou:

- Nunca te vi por aqui.

- Eu não costumo entrar por esses becos, é que hoje tive uma notícia ruim e resolvi dar uma volta pelo bairro. – respondi certo de que seu comentário implicitava a pergunta qual minhas palavras fizessem saciar.

O senhor permaneceu em silêncio. Mas o silêncio falava por si; tinha os ouvidos abertos e auscultava minha dor com todo coração. Aliás, pedia-me que desabafasse, pois éramos “Irmãos de fogo” e dividíamos juntos o calor, o frio e as dores. Afinal, por baixo de uma barba tão volumosa, devia mesmo haver um espírito nobre e doce, conforme as lendas que nos descrevem esses sábios.

Expus, então, o que me incomodava: - Não existe justiça no mundo?! Não se vestem mais os homens com o mesmo traje. A humanidade que nos devia cobrir deu lugar às fardas e hierarquias da força e da desproporção.

O velho olhou-me nos olhos e consentiu, lacônico: - É... Mundo cão!

Comecei, então, a contar-lhe o caso: - Fui demitido. Sem mais nem menos. Chamaram-me no departamento de recursos humanos e me disseram que os meus serviços não eram mais necessários. Que humanos são esses se os seus recursos são sempre os mais sórdidos? Os meus serviços não são mais necessários?! Ora essa! Nunca precisaram, de fato, de mim. Não é por necessidade que se sustentam relações como a de empregado e empregador. As pessoas precisam trabalhar, ganhar dinheiro, comprar coisas. Assim fazem trabalhos desnecessários produzindo coisas inúteis que serão compradas por outros, que produzem outras inutilidades. Então, um dia alguém chega e diz que a inutilidade daquilo que você produz é ainda mais inútil que todo o resto. Te joga na rua sem a menor culpa.

O senhor permaneceu recluso numa compostura honesta e comedida. Olhava para o fogo e dava-me de esguelha a atenção que minha história pedia. Eu continuei:

- Justiça. Justiça! É isso que falta ao mundo. Se os homens fossem mais justos... Afinal, de quantas coisas precisamos pra viver? É mesmo necessário que todos trabalhem o tempo todo? Claro que não! Bastava um revezamento planejado e trabalharíamos todos no máximo 3 meses por ano, dividindo tudo igualmente entre os homens, todos os homens. Isso sim seria justiça. –

E me excedendo, como que atribuindo necessidade maior que aquela realmente disposta sobre a atenção que o homem me dava, perguntei-lhe: - Justiça! O senhor sabe lá o que é isso?

Virou-se na minha direção e começou uma história: - Li certa vez uma história sobre um antigo reino em que certo ladrão, tendo o olho furado, acidentalmente, por um tear enquanto invadia, na escuridão da noite, uma fábrica de tecidos (por engano, já que queria, de fato, era roubar a loja de um cambista), havia reclamado justiça ao rei, porque cego de um olho não poderia agora cumprir com perfeição seu ofício, o de ladrão. O rei, comovido com a dor do ladrão, mandou que chamassem o tecelão, dono do estabelecimento, e exigiu que lhe furassem um olho para que assim se re-estabelecesse a justiça. O tecelão disse ao rei que precisava dos dois olhos para exercer seu trabalho, já que o trabalho lhe exigia aptidão com as mãos e também com os olhos, mas comentou sobre um seu vizinho que era sapateiro remendão e que, portanto, não tinha necessidade os dois olhos para o cumprimento do seu trabalho. O rei, então, mandou que chamassem o sapateiro e furaram-lhe um dos olhos. E a justiça foi feita, concluía a história – disse o velho.

Demorei um pouco a assimilar esse gênero de “sabedoria” Gibran Khalil que saltava por entre os pelos da barba do homem e, por fim, concluí eu mesmo e comigo em silêncio: “velho de merda”.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O caminho das pedras

Andei pensando. Literalmente.

Não sei o que é, mas me faz sentir bem.

Ignoro o percurso, porque enquanto caminho sou todo cérebro.

Há quem já tenha dito que no andar alguma transcendência toma forma no espírito e é apenas enquanto estamos andando que a existência se mostra a nós por completo. Bom, há também quem diga o contrário.

Os que meditam, por exemplo, dizem do corpo imóvel a urgente possibilidade do encontro com o superior – estado da alma que escapa a esses brutos que por aí se mexem à toa.

Mas se assim fosse, creio que haveria muito mais mérito nas estátuas vivas que o que de costume atribuímos a elas - essas que assombram nossas praças pintadas em pelo, muitas das vezes segurando um livro atilado em um tecido da cor da tinta que trazem no corpo e fechado, como se a leitura ultrapassasse a razão: - “Estátuas não lêem!”, bradam elas em silêncio, com o corpo imóvel e os lábios batidos, mas infladas daquela mesma sabedoria que os monges budistas se valem no exercício da meditação.

Ficar parado? Que merda de sabedoria é essa?! Não me admiraria se o Buda fosse ainda mais gordo que o que se vê naquelas estatuetas, embora isso também não seja tão provável.

Por isso, eu ando. E nem por isso limito a consciência, que trabalha tangente ao corpo em suas próprias demandas. Quarenta minutos à fio, até que cansem as pernas; porque a mente não pára e tem vida longa muito além desses músculos mecânicos, motores; e anda sozinha na periferia do olhar vagabundo, compreendido entre o trajeto do corpo que guia e as não-bordas que à volta se quase enxergam.

Filosofia de vida, eu diria. Andar pensando (ou seria pensar andando?). Ainda que possa dar nota aos modelos que passam, ou parar pra tomar um açaí (caso tenha dinheiro), é o andar quem descreve a atividade.

Rezam, os mais comprometidos com a filosofia, que se deve sempre andar sem destino.

Eu, por acaso, parei na frente desse puteiro. Um dos mais sujos da cidade. Mas o que não tem brilho na face compensa no preço. Agora, as protagonistas são as pernas de terceiras. Verdade que ainda estou sóbrio demais pra encarar uma dessas...

Enquanto isso, escrevo.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Fênix Hotel

Entraram pela porta que, desde a rua, conduzia esses amantes despatriados até o salão principal do hotel. Ele, cabelos grisalhos, pele castigada e abdômen saliente. As marcas ao redor dos olhos sugeriam-lhe a idade de cinqüenta e poucos anos. Vestia-se respeitosamente, desde que os botões daquela camisa de tecido nobre mantivessem-se fechados até a gola. Ela, cabelos cacheados - deliciosamente soltos e leves -, pele branca e de textura suave como a do açúcar que cobre o bolo das noivas. Tinha olhos negros profundos que lhe davam tonalidade misteriosa, embora, ainda assim, não fosse provável julgar, desde uma primeira vista, que já houvesse ela alcançado a maioridade.

Andaram até o balcão, que se dispunha ao centro do salão, e dirigiu o homem a palavra à recepcionista: “Queremos um quarto.” Subiu os olhos até o dono da voz que interrompera seus pensamentos ociosos naquela madrugada de pouco movimento no centro do Rio de Janeiro (e especialmente naquele estabelecimento), e vasculhou com um vagar escrupuloso de olhar - que ia das sombrancelhas cinzas e grossas do respeitável senhor até a sapatilha vermelha da pequena que, timidamente, se recolhia ao seu lado - aquele casal inoportuno que buscava abrigo para uma noite de 4 horas (talvez menos). Não satisfeita com a visão que teve, a mulher ao balcão voltou os olhos abaixo e se reteve por um breve minuto seu (e quem há de negar que mesmo a cronologia mais diligente tem duração distinta para cada indíviduo), adiando a resposta que esperava o casal. A mulher, que se protegia atrás de um uniforme asseado e justo composto por tailleur e blusa de seda, tinha olhos redondos e grandes, boca larga e lábios grossos, e um nariz abatatado que combinava com as bochechas gordas. Gordas como, aliás, eram os braços, o rosto, o pescoço e o busto, ou seja, todas as partes que se punham à vista. A frase que proferiu logo em seguida, no entanto, não era a resposta que esperava o homem, mas uma pergunta que causou constrangimento irrevogável para os dois que estavam de pé: “A menina possui documento de identidade?”

A preocupação era clara. O homem era velho demais para a menina que, provavelmente menor de idade, havia sido arrastada para lá por aquele velho sem coração: perverso, calculista e imoral – sobretudo imoral. Mas o julgamento da moça atrás do balcão logo se viu ameaçado, por conta do movimento que fez a menina. Puxou da bolsa uma carteira da qual tirou um documento verde e com graças de autêntico. A recepcionista alisou o rabo de cavalo com a mão direita - movimento pelo qual se pôde inferir a aspereza do cabelo esticado pela escova - e com a mesma mão tomou o documento da menina e se parou nele com cuidado. Leu o campo que indicava a data de nascimento. Uma, duas, três vezes. A menina havia completado os dezoito anos há coisa de duas semanas atrás. O que não pareceu suficiente para a apreciação discriminativa e “moralmente sólida” da senhora que guardava as chaves e liberava os quartos. Devolveu a identidade à menina e se dirigiu ao homem, pedindo-lhe também o documento. O homem se surpreendeu: “Isso é mesmo necessário?” Do que teve em resposta: “Senhor, é o procedimento padrão. Eu não posso lhe entregar a chave do quarto sem isso.” O homem puxou do bolso, contrariado, a carteira, de onde tirou o documento e entregou à mulher.

A senhora leu com o mesmo atilamento de antes, contou alguma coisa nos dedos da mão direita e devolveu o documento ao senhor com uma posição resoluta e irrevogável: “Senhor, eu não posso liberar um quarto.” O homem avivou o sentimento de espanto que o assaltara há poucos segundos e retrucou já com certa indignação na voz: “Como assim você não pode liberar um quarto? Qual é o problema?” E a mulher: “Senhor, o senhor tem quarenta e sete anos e a menina apenas dezoito. Não posso entregar a chave a vocês. Não seria uma coisa legal da minha parte.” A menina permanecia calada e imóvel, encostada sutilmente ao corpo dele que teve em resposta: “A senhora não sabe o que está falando. A menina tem dezoito anos. É perfeitamente legal que aluguemos um quarto para o fim que seja. Sinceramente, não entendo essa sua cerimônia.”

A essa altura a situação era insuportavelmente constrangedora para a menina, que além da repressão corrente que já sofria “lá fora”, por se haver envolvida com um homem mais velho, sentia-se agora impotente sob os auspícios e o julgamento de uma senhora que nunca antes houvera visto. A mulher detrás do balcão, então, solicitou que os dois se retirassem dali, porque ela não lhes poderia alugar quarto nenhum. Ele, que poderia simplesmente ter tomado o rumo de um outro hotel, não o fez porque não aceitasse estar a mercê do julgamento individual e arbitrário de uma mera recepcionista de hotel. E foi enfático ao dizer à senhora que ficaria ali até que lhe entregasse a chave. A senhora, então, endureceu a voz com que falava ao recalcitrante e disse: “Se o senhor e a menina não se retirarem, vou ser obrigada a chamar a polícia” O homem se riu - ironicamente, e com alguma artificialidade, mas falso que fosse ainda assim era um riso: “Pois a senhora chame a polícia agora, porque isso é um grande absurdo. Com que direito a senhora se põe a julgar sermos dignos ou não de alugar um quarto aqui? Quem você pensa que é?” Foi a primeira vez que ele a teve tratado por você e essa informalidade talvez tenha ofendido mais a mulher que o nervosismo e a agressividade que ele impunha aos termos. Nesse instante ela se levantou, tomou um gole de ar profundo ao peito e discursou com gravidade: “O senhor pode tentar tomar a chave a força ou sair direto pela porta por onde entrou. O caso é que de boa vontade não vai conseguir quarto nenhum. Toda vez que vejo um homem sem escrúpulos como o senhor eu sinto não poder fazer nada para ajudar pobres meninas com essa. Provável que o senhor saia daqui e arrume um quarto em outro lugar em que os funcionários não sejam tão corretos e guiados por virtude moral como a minha, mas quanto a isso, eu nada posso fazer. Mas do que depender de mim, o senhor não vai estragar a vida dessa coitada inocente que veio debaixo das suas asas.”

A coisa, agora, alcançava um ponto sem volta. Não seria possível dizer que a mulher, cheia de vigor de espírito e senso de auto-conduta moral, não estava lá na sua razão. Tinha uma razão bem sua - isso é certo. Mas tão prontamente a desobedecesse, aí sim sua atitude poderia ser tomada por imoral, posto que a moral que tinha não a pudesse ignorar. O homem, cujos quarenta e tantos anos não foram suficientes para blindá-lo dos conseqüentes transtornos causados pela irresolubilidade da situação, não menos errado se poderia julgá-lo. Nada que fizesse ali estaria fora da ordem da legalidade, já que sua companheira chegara àquele local por vontade própria e espontânea, mas isso, e ainda que houvesse sido a menina coagida de alguma forma, quem saberá ao certo? Tanto faz como tanto fez se a sociedade em questão julga seus membros aptos às escolhas tais como fazer sexo ou eleger um presidente a partir dos dados dezoito anos, assim como se declarava nos documentos daquela.

E justo quando a hostilidade insurgente se fazia epigráfica diante das circunstâncias, foi quando a menina puxou pelo braço seu parceiro e disse as suas duas primeiras palavras desde que adentrou ao recinto: “Vamos embora!” E não como nota em defesa do homem, que transgredia talvez algum preceito moral daquela sociedade antiquada, mas é de se questionar se aquela atitude sensata que a sobejou, qual seja a de anunciar retirada diante de disputa tal em que se não pode haver vencedores, não justificava que uma pessoa (assim munida de razão e bom senso) não fosse suficientemente capaz de bem escolher o local, a hora e com quem fazer sexo – ainda que seus escolhidos tivessem já os cabelos desbotados pela ação dos anos...

Mas difícil mesmo é imaginar como seria o evento sexual em questão depois de uma preliminar tão desgastante como aquela.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A existência limita

- Me fala mais sobre você.

- O que você quer saber?

- Tudo... quer dizer, qualquer coisa.

- Sou atriz.

- Sério?

- Não, tive vontade de dizer isso agora.
Na verdade sou um pote de biscoitos.

- Sim, que você é um pote de biscoitos eu sei.
Posso ver. Mas quero saber mais; o que te desafia?
o que você tem dentro?

- Teria biscoitos se você não os tivesse comido.

- Eu não falo disso. Quero saber o que você tem dentro do
dentro; a sua essência. (Adomais, aqueles biscoitos
estavam velhos).

- Desculpa, mas como pote de biscoitos eu costumo rejeitar
questões existenciais. Mas você pode dizer que além
de guardar biscoitos sou uma obra de arte.

- Uma obra de arte? E porque você acha que eu poderia dizer
uma coisa dessas?

- Eu sou uma obra, e isso é fato. A parte da arte, você pode julgar, pois, sou vísivel; tenho apelo estético. Embora todo esse engajamento para com o belo esteja voltado para o banal de guardar biscoitos, há que se querer minha presença. Senão os biscoitos poderiam perfeitamente permanecer em seus pacotes, como produtos consumíveis que são. (E se estavam velhos você não os devia ter comido. E, além de tudo, "do cavalo dado não se olha os dentes")

- Essa é a sua motivação? “Há que se querer sua presença”? “Ser” pelo simples desígnio de “ser visto” te basta?

- Não, se existe motivação aí deve ser invenção sua. A minha deve se apenas guardar biscoitos. Melhor que isso, eu não tenho motivação, sou um objeto desmotivado, que guarda biscoitos por ofício e não por motivo.

- E isso te incomoda? vc queria ser outro, outra coisa? Atriz?

- Eu não queria nada, não tenho nem motivos pra querer. Talvez, se eu atriz fosse, minha maior motivação fosse interpretar um pote de biscoitos; captar, em um único momento vivo, toda a morbida desmotivção de ser um pote; ou não ser nada. Sendo atriz ou pote de biscoitos, não há porque querer ser outro. E se a atriz interpreta o pote ela só o pode fazer sendo atriz. Já eu, como pote que sou, não interpreto, me foge essa capacidade. Tampouco desejo ser outra coisa; talvez seja essa uma característica inerente aos potes (e falo apenas pelos de biscoitos, já que só posso falar pelo que sei), somos independentemente de desejos, vontades e afins. Mas e você?

- O que tem eu?

- Qual o seu “dentro”, sua “essência”?

- Eu costumo dizer que sou um dragão.
(Apesar do seu tom irônico)

- Metaforicamente?
(A ironia fica por sua conta. Como pote de biscoitos que sou, a ironia também me foge, como a paciência parece também muitas vezes querer fazer)

- Não. Sou um dragão de verdade. Cuspo fogo pelas narinas e aterrorizo vilarejos em filmes e fantasias. Não sou uma metáfora porque existo. Talvez eu seja um símbolo, ou uma alegoria, mas eu existo mesmo que como dragão de fantasias e isso ninguém pode tirar de mim.

- E se você não fosse um dragão... o que gostaria de ser?

- Uma palavra. Fico sempre encantado com a abstração que se sucede ao grafismo ou ao fonema. Todo esse jogo de significar, que antecede a você enquanto pote de biscoitos ou a mim enquanto dragão. Embora eu, como bom dragão que sou, sou dragão antes mesmo da palavra que me diz: “dragão”.

- Pois eu não sou pote de biscoito antes da palavra me dizer? "Pote de biscoitos"?

- Certamente que não. Antes da palavra você é vidro. Recipiente, no máximo. Isso se entedermos essa palavra na acepção moderna da tentativa científica de submeter à palavra sua função. Mas pote de biscoitos você só é depois que a palavra biscoitos é apresentada e o jogo semiótico te agrega o valor de comando, de uso.

- Pois te digo que sou pote de biscoitos antes disso. Na motivação originária de meu artesão ou meu projetador. Em sua busca inegavelmente pré-racional pela concepção da arte ou por anseio ao lucro. Que não tivesse ele escrito em meu corpo, que não tivesse colocado nem um sequer cream cracker dentro de mim, ainda assim eu seria um pote de biscoitos. E todos somos capazes de diferenciar um “balde” de uma “lata de lixo”, ainda que lhes faltem os nomes e que estejam ambos vazios; e um que coloque seus biscoitos em um deles, ao invés de coloca-los num como eu mesmo, fardará seus biscoitos ao total desperdício. E você, como “bom dragão” que é, deveria se conter aos graves e sonoros grunhidos de sua classe e a destruir seus indefesos vilarejos nas fantasias e filmes, e não se meter a filosofo, que esses já vão muito mal com as limitações todas dos seres humanos, que dirá fossem, como você, répteis agigantados e falastrões.

- E, afinal, que diferença essencial mesmo é essa entre o balde e a lata de lixo? Não poderia, de qualquer modo, o balde fazer as vezes do pote de biscoitos ou de lata de lixo? Que postulado absurdo advindo de um pote de biscoitos é mesmo esse que me impede de ser dragão e filosofo a um só tempo?

- É justo a mesma diferença (ou uma diferença de mesma natureza, em todo caso) que existe entre a atriz que interpreta o pote de biscoitos e o pote. A diferença entre o balde, a lata de lixo e o pote de biscoitos é inquestionável, ainda que um porco como você se ponha a comer biscoitos da lata de lixo. Que um dragão filosofe nas fantasias dos outros, isso é coisa que eu não vou questionar. Mas na minha própria (e, sim, se um dragão me dirige a palavra é apenas porque eu, humilde “pote de biscoitos”, rumino também as minhas próprias fantasias), a conversa termina quando eu bem quero e o dragão que se cale ou procure objeto mais obtuso que ele próprio pra problematizar sua existência.(Recomendaria-lhe a colher de pau, não fosse ela, além do apetrecho que é para as cozinhas pacíficas, uma arma de empunhadura dolorosa e certeira contra aqueles que falam demais). Pois antes de importunar outros que, como eu mesmo, estão no mundo apenas por um capricho de uma natureza humana, fique sabendo disso: A condição é uma condição. Não porque a palavra significa, mas porque a existência limita.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Bebo, logo existo.

Sem inspiraçao ou um problema epistemológico perfeitamente a mao, resolvi por em prática o metodo das últimas noites: uma bebida e um tema.

Poucos percebem que a bebida, por si só, é já um tema. No entanto, não deveriam se perguntar, aqueles que o percebem, sobre a probabilidade de serem ou não alcoolatras? De qualquer modo, hoje a coisa nao me parece lá muito afiada. Vou de Domecq: Se o resultado nao valer um suspiro interessado de minha catatônica intelectualidade, ou ao menos umas risadas, pelo menos nao doeu no bolso.

A consciência se move um pouco antes da marretada que irá levar: Domecq puro? Um limaozinho daria pra quebrar um cadinho o tino de "alcoolatra inveterado".

Não tem limao.

Gelo?

Nem pensar. Pior que a sina do bêbado imundo é Domecq aguado.

E o tema chega logo depois, como natural consequência da vida que levo e que insiste em tomar forma nas minhas consideraçoes filosòficas. Minha casa fede. É o mesmo cheiro que associaria a minha vida se eu pudesse colocar nestes termos o problema da existência. Minha vida fede. O cheiro do Domecq é o melhor cheiro que me passou pelas narinas o dia todo.

A bem da verdade, o nariz me é táo inutil quanto um abridor de latas para um aborigene na selva. Nunca deixei de cumer uma sequer empada por julgar o cheiro desagradàvel. Tomo banho apenas pra arrancar do corpo os pedaços de comida que vão ficando presos em mim com o passar da semana. Me serve menos ainda que o pau, esse nariz torto e exibido que trago na cara. Se não o tivesse, respirava pela boca. Não faria a menor diferença.

(Como um experiente somelier e ao contradito das minhas palavras, dou uma boa inalada no copo. Segue-se o gole. E o Domecq está onde deveria. Desce mais uma dose! Grito pro barman... que sou eu mesmo)

Quem leva a sério um existencialista servido a Domecq? Pois digo isto: há tanta dignidade ali quanto em qualquer Uísque de 8 anos pra baixo.

(O vômito quase se antecipa a minha sobranceira conclusão, mas ficou parado no exôfago e voltou pro bucho)

Não é a bebida, tenho andado mal do estomago nessa ultima semana. A bebida, ao contrario, só ajuda. Foi o que disse o meu mèdico... que também sou eu mesmo e segura um copo atè a metade com Domecq em uma das mãos.

Viro mais uma dose. Depois da terceira o organismo assenta. E o vômito vai ter que esperar o sono. So vai aparecer quando eu já estiver dormindo. Dormir me concede alguma especie de licença existencial, quase como quando estou bêbado por completo. Não me envergonho de nada que não possa me lembrar. Menos ainda do que se teve apenas em sonho, onde posso estuprar uma freira, espancar um velho com dificuldades de locomoção e me cagar todo. Se quando eu acordo a merda aparece como que pra dizer que a cagada do sonho foi real, foda-se. Se a policia aparece na minha casa com uma freira aos prantos, aí sim eu começo a me preocupar.

Enquanto isso, o Domecq me serve de aviso. Vai a terceira dose e a cadeira jà começa a balançar. Me vem a cabeça um problema fenomenologico: é a cadeira que balança ou é a minha percepçao que impõe movimento á cadeira? A resposta vem com o tombo e a dor que depois vai ficar nos quadris: era a cadeira que balançava. Mas não foi uma só gota da bebida ao chao. O copo tava vazio. Existe lá alguma coordenaçao entre as idéias e esse corpo surrado que as contem. Pra confirmar o equilibrio, encho o copo e viro mais uma dose. Uma constataçao: o copo vai sempre direto à boca, nunca erra. O importante é nao prolongar o tempo que o Domecq fica no copo - logo depois de ter saido da garrafa e antes de entrar pela goela. Coordenaçao é ritmo.

Na quinta dose o primeiro sinal de fraqueza. Ao me perguntar sobre o problema da unidade do ser - como posso ser ao mesmo tempo minha cabeça e meu braço sem que meu braço e minha cabeça nao sejam individualmente? - um vacilo no manejo e a bebida escapa pelas bordas e molha o chão. É o sono chegando. Existência com as horas contadas. Pelo menos ate amanha de manha. O corpo reclama: quer deitar.

Vou dar uma cagada antes... pra não acontecer como na ultima noite.

domingo, 24 de janeiro de 2010

És um senhor tão bonito...

23:47

- Branco. Maldita cor!

Faz semanas desde a última vez que escrevi algo que não tenha destinado à lixeira ou apagado sem dó. Sei lá que são comuns essas crises de inspiração entre os escritores do gênero, eu mesmo venho passado por crise ou outra sem precisar recorrer ao expediente de uma bala nas têmporas, mas desta vez é diferente. O Sr. Morelli acaba de me ligar do escritório central para lembrar-me que o prazo expira amanhã e ronda-me os nervos a trágica sensação de que nunca mais conseguirei escrever uma história.

A editora é pequena, mas costuma se orgulhar da fama que tem, de que lança novos escritores todo ano. Lancei meu primeiro livro (e único, até então) em agosto do ano passado. Não fosse a iniciativa do Sr. Sálvio Morelli, aquelas páginas soltas ainda estariam atravancando o movimento de papel, aqui, nas minhas prateleiras. O livro não vendeu bem, mas isso já era esperado. O caso é que fiquei comprometido de entregar até a data de amanhã um opúsculo, coisa de cinco mil palavras, para compor uma coletânea que a editora lança todos os anos, exibindo novos trabalhos dos autores que tenham publicado no ano anterior.

Até agora não tenho nada. Comecei inúmeras vezes, mas em nenhuma delas vislumbrei valer a pena continuar. A verdade é que tudo que venho escrevendo já desde há algum tempo me parece terrível. Nem ao menos nos nomes consigo acertar. Soam-me todos falsos ou exageradamente ordinários. Eu mesmo não culparia um gênio como Göethe se os primeiros nomes do jovem Wether fossem, como os seus próprios, Johann Wolfgang; ou, ainda, se houvesse dado o nome de Fausto a todos os seus personagens. Dar nomes, em verdade, sempre me pareceu difícil, mas agora, tampouco, consigo imaginá-los anônimos. Enfim, nomes são sempre nomes. E ainda que os tivesse muito faltaria a constituir uma história. Afinal, nunca um pai deixou de dar nomes aos próprios filhos sob a desculpa patética da falta de inspiração. Os nomes se arranjam, ainda que à força, se arranjam...

***
23:49

O Sr. Morelli é um bom homem e lhe sou imensamente grato pelo que tem feito por mim. Mas é, ainda assim, um homem de negócios. Trabalha com resultados. Deve estar se lixando pouco para crises de inspiração, ainda mais as minhas (é sabido que os escritores por profissão só se podem dar ao luxo de uma crise de inspiração após, ao menos, um primeiro best seller). Amanhã mesmo mandará um empregado qualquer tomar-me o texto em mãos. Se não o tiver mandará arrancar-me – à força – as vísceras, o coração e talvez um rim. Não pudesse ser pior, a essa angústia se acaba sempre seguindo uma violenta orgia alcoólica, mas isso é coisa de que eu não quero falar a respeito. Tenho por certo que um rim fará mesmo muita falta. Já as vísceras e o coração não têm serventia há algum tempo.

***
9:42

Acordei há pouco. São nove e quarenta da manhã, mas ninguém veio, ainda, à minha porta buscar o maldito texto - texto que não existe, é claro. Estou considerando entregar um relatório das minhas atividades de escritor em crise de inspiração. Algo como: “Enquanto as idéias não vinham esfregava uma lapiseira sobre o papel em branco em uma página de fundo de um livro largado na estante. Acho que era um livro de auto-ajuda, não tenho certeza, já não tinha a menor paciência para letrinhas miúdas àquela altura.” Mas não. O Sr. Morelli não é afeito a experimentalismos. Eu ainda lhe poderia argumentar que este tipo de escrita por encomenda se assemelhava um tanto com o aspecto dos relatórios que profissionais de áreas menos criativas são obrigados a entregar todos os meses, às vezes todas as semanas. Mas o Sr. Morelli não tem sensibilidade para metáforas ou simbolismos, menos ainda um humor requintado. Homens de negócios não costumam ter senso de humor, essa é a verdade. Estou, então, de mãos vazias, como bem se vê.

Já até posso imaginar a minha cara lavada ao abrir a porta ao mandado da editora, dizendo-lhe que espere cinco minutos enquanto procuro uma versão corrigida do dito “trabalho” em meio à nebulosa bagunça que é meu quarto. Ou ainda a vergonha estampada quando revele ao suposto encarregado que nada tenho a lhe entregar, pedindo que volte outro dia, como diz o homem educado quando não tem ou não quer dar uma esmola, ou um pão, a um que lhe bate a porta.

É-me fácil imaginar possíveis futuros nos quais sou o derrotado escritor sem palavras, mas uma simples história, ficçãozinha qualquer, isso não vêm às idéias nem por um decreto. Maldita profissão! Geniozinho bastardo esse seu!

***
10:20

O dia se alonga minuto após minuto e como se o tempo já não me fosse raro, tornam-se cada vez mais improdutivas, conforme se estendem as horas. Vejo, assim, que o problema não é o tempo - e não é mesmo. Ora, ora, que alívio – desse modo tenho a vida inteira pra ruminar minha absoluta falta de criatividade ou, então, morro logo em dez minutos como prática de covardia bem executada. O Sr. Morelli não teria a história escrita, mas poderia quiçá escrever uma sobre essa inesperada fatalidade. Não me daria crédito de autor, isso é fato. Mas, certamente, lhe ajudaria vender ao menos alguns exemplares de meu livro, que estão até hoje a ganhar poeira nas prateleiras daquela editora.


***

10:33

Senso de humor! Trago ainda algum em meio a essa angustiante espera de minha degola. E uma garrafa de vodka, também. “Devias beber bourbon”, disse-me certa vez um amigo, explicando-me que era essa a “bebida dos grandes escritores”. Não considerei o caso, pois nunca parei, de fato, a tentar descobrir que bebidas embriagam os grandes escritores. Também porque não me apetece Bourbon. Não importa. Isso tampouco me dá uma história. Pois se bastasse apenas Bourbon para erguer grandes escritores, nossos clássicos da literatura seriam tão numerosos quanto às vítimas da cirrose que invadem nossos hospitais todos os dias.

***
18:45

Ando de um lado a outro, da sala ao quarto, do quarto ao banheiro. Lavo as mãos obcecadamente por mania ou nervosismo, ou mesmo por superstição, não sei ao certo.
Os olhos me doem e a cabeça. É a ressaca. – Maldita ressaca! – Não tenho muito que fazer agora, senão esperar. - Chegaram! Seja o que Deus quiser!

***
19:00

As onze da matina meus olhos latejavam - queriam sair pelas órbitas. Eu não tinha absolutamente nada sobre o papel. Meu tempo estava se esgotando, e eu insistia em acreditar que ainda era possível escrever qualquer coisa. Isso porque me restavam umas poucas horas (supondo que, se eu não sabia ao certo a hora em que viriam, devia dar-me o beneficio da dúvida, atribuindo a este tempo incógnito o lenitivo de “umas poucas horas”) e, ainda que eu escrevesse uma crônica barata, umas poucas páginas seriam o suficiente pra ser eu considerado um escritor indigno, um literato sem criatividade ou, simplesmente, um mero representante da mediocridade que assola nossa época de raros talentos. Mas nunca o trabalhador sem caráter que se poupa ao esforço por comodidade ou indiferença – pois, de fato, esse eu não sou. Também por isso decidi sair à praça.


***

19:01

Um tanto atordoado pelo calor da manhã, vasculhei a praça à vista de um lugar calmo, um banco vazio ou qualquer pedaço de chão que me prometesse a dádiva da inspiração instantânea. Algo como uma fonte de onde as histórias jorrassem e fosse preciso apenas embolsar uma ou outra. Na falta de uma dessas, sentei-me num banco próximo ao jardim principal, donde um grande círculo gramado continha umas quantas arvores e, à volta, um calçado de paralelepípedos oferecia o caminho sereno aos flaneurs de plantão.

Papel e caneta a mão e era isso. Apenas isso. Nada que justificasse a caneta o passeio por sobre a superfície branca. Rabisquei uns desenhos abstratos e dali em meia hora já estava me pondo a desenhar a paisagem num esforço representativo que era quase nulo, visto que se nem desenhista eu era, menos ainda dispunha da calma necessária ao pintor de paisagens que se entrega aquela visão como se ele próprio não existisse. Eu, em todo caso, existia. E era por existir mesmo que todas as minhas preocupações se faziam atuantes. Dissimulei aquele esboço paisagístico rabiscando violentamente com a caneta por cima das arvores tortas que eu desenhara na folha. Botei de lado papel e caneta e me entreguei aquele imenso vazio que eu simbolizava tão bem no texto que tinha até o momento.

Sem que eu percebesse um tipo raro havia sentado ao meu lado naquele banco desconfortável (era mesmo desconfortável, devo dizer) e se punha lendo um livro de páginas amareladas, da capa dura e caindo aos pedaços, mas que eu não pude identificar por conta das letras miúdas (também, eu devo considerar que não enxergo lá essas coisas). Um senhor alto e magro. Bastante magro, mas cuja barba avolumava-se por sob o queixo e fazia compor uma certa excentricidade condizente com os trajes, de uma elegância aristocrática embora surrados e um tanto encardidos, daquele senhor.

Percebendo que o fitava o senhor arrancou os olhos das paginas e os direcionou a mim. Esbocei um sorriso sem graça, amarelo (não como as páginas do livro, um amarelo metafórico, em todo caso, já que eu os escovava todos os dias). E o senhor voltou serenamente as suas páginas secretas como se eu nem mesmo estivesse ali. Pensei, então, no texto que o devia absorver; algo profundamente instigante - devia ser - para tomar-lhe a atenção com tanta eficácia. E tentava novamente reconhecer uma frase ou mesmo desvendar um autor ou um título, procurando por sobre o braço direito do homem alguma palavra que me revelasse aquela obra. O senhor, então, deixou escapar os olhos das páginas amareladas e, mais uma vez, direcionou-os a mim, dessa vez com uma ausente severidade como se me repreendesse a curiosidade, mas ao mesmo tempo indulgente, sem ostentar o papel de uma figura opressora. E tornou os olhos ao livro.

- Lendo?! – perguntei, sem jeito, ao senhor.

A resposta me veio sem uma palavra sequer, precisou apenas consentir com as sobrancelhas ao alto e um leve acenar da cabeça.

Eu o invejava profundamente posto que se largasse tão despreocupadamente a uma história já pronta diante de si, enquanto eu permanecia perdido atrás (ou ao lado) de uma história desconhecida, “inteiramente” incompleta e “possivelmente” inexistente. E murmurei comigo mesmo: “Sorte a sua.” Como em resposta ao aceno com o qual o senhor confirmara laconicamente a obviedade retórica e desnecessária da minha pergunta. Tinha por certo que aquelas palavras não haviam passado de puro pensamento quando o senhor evadiu-se por completo de seu livro e veio a mim com aquela pergunta um tanto jocosa:

Não sabes ler?! – Surpreendeu-me, ali, determinado humor que eu jamais atribuiria ao velho, não tivesse eu mesmo testemunhado. Respondi logo, sem a mesma sutileza do homem:

- Claro que sei! – Eu realmente não tinha a presença de espírito que naquele momento se pedia, mas meu interlocutor sobrava com a sua. Disse-me:

- Então a sorte é sua também. Aliás, sorte de todos aqueles que dispõem de olhos e sabem ler.

- Não é isso. – Ponderei ao velho. - É que me falta tempo. Se o tivesse agora sobrando, estaria, de certo, como o senhor. Debruçado a um livro, possivelmente com as páginas já amareladas como as do seu. – E ele, novamente, exibiu aquele tácito humor, de sutiliza irrepreensível:

- Ora, o velho aqui sou eu. E, ainda assim, tenho tempo para os livros e as praças e toda essa atividade humaníssima que alguns preferem chamar a ócio. Tu que és jovem, então, devias dispor de todo tempo do mundo. Isso se é mesmo que o mundo contém essa quantidade tão significativa de tempo, que valha enunciar com tanto entusiasmo.

Ri, então, com o despojamento do homem. Era mesmo uma criatura formidável. O tom doce da voz era de uma beleza inigualável. O discurso era impecável em execução e conteúdo, e trazia, na forma, o carisma de uma juventude eternizada. No conteúdo, a sabedoria de mil anos vividos. “Absolutamente perfeito”, encantei-me, imediatamente, por aquele ancião. E, ainda sorrindo, prossegui com a conversa:

- É mesmo de se duvidar. Confesso que “todo tempo do mundo” me parece também demasiado abstrato e, a mim também, não me deixa tão desejoso. Me agradaria mesmo se pudéssemos criá-lo. Não acha?! Criasse eu o tempo, como criasse o espaço em perspectiva apenas usando linhas de fuga, ora... Leria todos os livros da terra e ainda mais um pouco. Ainda hoje, me seria muito útil criar um pouco de tempo.

- Se pudesse ser criado, meu caro, aí é que não teria utilidade alguma. – Disse o velho, cheio de sua própria razão. E continuou:

- Veja só. Deus inventou os homens e estes não tem utilidade nenhuma pra ele. Poder-se-ia dizer, de outro modo, que os homens criaram deus. Mas dizem isso apenas aqueles que já não vêem utilidade nenhuma também para esse. Afinal, que utilidade teria mesmo um Deus inventado?! Meu jovem! Criasses tu o tempo, e o tempo te seria tão inútil quanto é a vida para o homem em estado vegetativo. Ficarias perdido em teu infinito particular. Não há tanta beleza nisso, se é mesmo que pensas assim.

Eu não pude contestar o argumento do velho, mas precisei ponderar visto que se tratava da condição mesma de meu ofício como escritor.

- Veja o senhor! Eu, não me posso dar ao luxo desse tipo de pensamento, já que “criar” é todo o sentido de meu trabalho e, devo dizer também, de minha vida. Sou escritor, meu caro, e considero-me escritor não só como honra de ofício. Escrever é a síndrome de minha obstinação nesse mundo. Não fosse isso – criar e recriar – eu consideraria insuportavelmente difícil viver. Como já nos últimos meses tenho considerado. Sei que muitos duvidam que sejam mesmo necessárias as ficções, mas creio nelas e em sua necessidade, porque eu mesmo as tenho como necessárias a minha vida.

- Meu jovem! – intercedeu o velho com uma voz amável e um tom de reprovação. – Não vos disse jamais que as ficções sejam desnecessárias. De modo algum eu vos diria uma coisa destas. Primeiro, porque eu falava de utilidade e, realmente, entendo que, a quem cria, a criatura perde todo valor utilitário. Pois desse mérito, não pode figurar seu valor senão por sua própria condição de objeto criado. Quero dizer, a quem cria vale todo o esforço por criar e isso só é justificativa suficiente para essa sua criatura que nasce. Mais ainda que uma qualquer possível utilidade que a ela se venha supor. E se pudésseis mesmo criar o tempo, que sentido teria para vós esse mundo tão adequado ao tempo de que ele mesmo - o próprio mundo - dispõe? Mas, como escritor que sois, bem entendo que tanto vos deis ao ofício da criação. Aliás, chego mesmo a estranhar que um homem que julga insuficiente o tempo que tem e que se diz tão apaixonado pelo trabalho de escritor, esteja perdido, aqui, nessa praça ociosa, a que se entregam apenas os que se deixam pela vida a passeio.

Com a argumentação digna de um filósofo, o senhor me arrancou daquele dialogo despropositado e me jogou de volta a vida. Aquela vida áspera e angustiante que eu trazia aos ombros, junto com a desculpa trágica de minha falta de inspiração. Lembrei-me, nesse momento que o tempo – esse monumento abstrato ao qual nos referíamos – tinha definições bem mais precisas no mundo prático em que minha desgraça se desenrolava. Vasculhei ao entorno da praça girando o pescoço, procurando um relógio a vista que me pudesse indicar a hora; precisamente, como na prática métrica em que as criaturas de Deus faziam do tempo suas próprias criaturas. E, se aquele tempo específico me era inútil, não era simplesmente por haver sido criado. O caso é que marcavam já quinze minutos para o término do horário comercial - horário que eu supunha limítrofe para entrega do meu improvável trabalho. Improvável, em todo caso, muito menos pelo tempo que escoava que pela falta total de uma idéia sobre a qual escrever.

Levei, então, o rosto às mãos e não consegui esconder o desespero contido de minha existência. Tornei novamente a cabeça ao alto e olhei para aquele sábio senhor que me fizera companhia nesses minutos finais de minha derrota. Disse-lhe:

- Estou arruinado. Não devo mais ter sequer um motivo para esta vida. – O sábio, então, manifestou-se apenas com compaixão aos olhos. Pois se eu ainda parecia sóbrio e calmo, era porque dessa maneira particular é que se manifestava o meu desespero. A fleuma do escritor era a armadura subcutânea que minha doença vestia. Mas soube o velho do que se tratava assim que olhou em meus olhos. Era mesmo uma criatura iluminada. Certamente, também criador de sua própria iluminação. E enquanto eu lamentava por não ser forte ou apto suficiente para essa vida mundana cheia de impedimentos, ele estacionava aquele rosto plácido e inalterado diante de mim e com um leve acenar de cabeça tentava me fazer compreender que se tratava de um tolo lamento.

Estarrecia-me, no entanto, essa equanimidade de alma e conduta que aquele senhor exalava. Logo ele, que, provavelmente, vivera uma vida cheia de privações; ele que (a julgar por seus trajes) soubera como nenhum outro a impiedade do mundo que me inconsolava, mas que a ele parecia perfeito como a morte parece ao coveiro.

E eu, despindo-me da calma, da fleuma e de toda razão de escritor, praguejei. E em troca dos meus pecados ofereci ao deus (que eu mesmo negava) um aceno de reprovação - um gesto obsceno, devo dizer. Mas como último verso, entreguei-lhe mesmo foram essas palavras, que saíram ao ar:

"Foda-se. Eu desisto de tudo. Não há coisa tão dificil como esta, de se viver dia após outro e nunca chegar ao fim, ter sempre o vazio como premissa. Sou já agora uma fruta seca, sem mais nada a oferecer a esse mundo. Estou farto, cansado e é isto. Deu!"

Essas palavras, d'outro modo, não chegaram ao deus imanente ao qual minhas queixas se dirigiam. Não só porque não houvesse um - e, de fato, não havia - mas porque antes disso, aquele probo homem absorveu-as sem hesitação e não deixou que passasse mais uma sequer sem a devida resposta. Sinto mesmo que tomou para si a vergonha do deus omisso, esse que não dava retorno e que a nada dava respostas. Sacudiu a cabeça, um tanto comovido com o meu lamento, mas deixou-se perder na serenidade que seu espírito velava antes de me dizer:

- Não há reprovação tão nobre quanto o silêncio e nem queixa mais orientada que a indiferença. Entendo sua maledicência, filho. Mas estás longe da desistência que anuncias. E, afinal, quão dificil pode ser viver se já está tudo dado de antemão. Pois acredite, e falo isso sem acusar-te de ingratidão, já que também não há a quem ser-te grato. O fato é que não há tarefa mais difícil que a de nascer. A todo resto compra-se o ingresso.

Sombreei seus olhos com espanto renovado. Não pude sorrir posto que estivesse por demais comprometido com aquela cena de homem traído e vítima do circunstancial. Mas dei-lhe em troca um suspiro de concórdia, não simplesmente porque concordasse, mas era também essa a minha maneira de mostrar a admiração em que lhe tinha. Era ele o filósofo, ao meu lado. Enquanto eu oferecia apenas os ouvidos (e a estupidez como contraste, é claro); ele me dava o conforto das sábias palavras, as quais dizia em frases concisas e melodiosas, mas também as que implícitas estavam.

Pois era mesmo nascer a mais difícil tarefa. E ele o anunciava como quem contesta ao nada o valor de potência e atribui a cada partícula incompreendida a capacidade do nascimento. Como se a probabilidade existisse antes mesmo do fato e o nascer de uma criatura encerrasse em si o não-nascer de milhares e incontáveis não-criaturas, veladas pelo simples acaso do não nascimento.

Não me tentava fazer sentir-me homem de sorte, visto que ele também de antemão a negasse. Eu era, pois, sob a conjectura daquele discurso, o valoroso ente que penetrara - por mérito próprio - a obscuridade do nada absoluto e atravessara ileso até alcançar a luz de uma consciência tangível. Um mérito duvidoso, confesso. Mas também nas dúvidas havia esse silencioso remir de uma existência latente. Duvidar significava estar vivo e isso aquele senhor me disse em palavras que, em verdade, nunca chegaram a sair de sua boca. Eram também elas criaturas não-existentes que justo eu – o escritor sem história – fazia-as existir, eu mesmo, a partir de uma economia secreta do discurso do velho.

O ancião, nesse momento, mostrou-se a mim transparente. Sorriu-me como quem antecipa o final ao próximo; como quem dá a vida como presente ao outro e a morte, a si próprio, como trocado. Desfez-se, então, da transparência que ainda o vestia - a que até então o acomodava sob minha vista incrédula -, e desapareceu no ar como desaparecem as sombras ao meio dia. E se ele mesmo já não existia, o fundamento de sua razão ontológica permanecia. Se veio ele, das profundezas do inexistente, comunicar-me o que eu de todo já sabia - ou devia saber - restava-me então um questionamento:

"Se eu penso nele, logo ele existe?"

Pois se eu nunca mais cheguei a considerar a morte ou a desistência como solúvel, após aquilo, foi porque estava agora preso a essa particular existência como jamais estivera. E mesmo que as tantas zilhares de não-criaturas (as que não chegaram a nascer) não me pudessem contar a angústia perene de sua ilimitada inexistência, eu poderia contá-las, a cada qual delas, as agruras da vida pungente, ainda que elas não me pudessem ouvir.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O Caixeiro

- Estou dentro de uma caixa. – disse-me certa vez um porco-da-índia. Era um daqueles pequenos que se costuma chamar porquinho. - Ora essa, meu caro, tens abrigo, conforto e comida, por que reclamas da vida? - Eu lo disse como quem dá o consolo como argumento.

Depois pensei naquilo e percebi, na lembrança da expressão daquele porquinho, o quão entediante era pra ele aquela vida; o próprio tempo que se declarava naqueles hábitos pueris. E não foi preciso um grande esforço para tocar na grande questão da vida moderna-contemporânea (já que só essa eu conhecia). Vivíamos todos dentro de uma caixa. Andando de dia entre uma caixa e outra, a procura de um espaço que nunca nos era oferecido. Veja lá! Acordava sete horas da manhã e já estava dentro de uma caixa; saia desta e entrava em outra que se locomovia e me levava ao pé de mais outra caixa, na qual entrava e onde permanecia por longas horas. Ao fim do dia, aquele processo se repetia. Eu que pensava que aqueles pequenos furos feitos na caixa eram suficientes para satisfazer a necessidade de oxigênio do pequeno animal. Não eram. Do oxigênio em si, creio eu que aqueles pequenos pulmões se fartavam, mas também os meus pulmões careciam de um sem-número de experiências (fossem elas olor de rosas ou dióxido de carbono) que eu não poderia negar ao pobrezinho, pois, já àquela altura, compreendia o problema do pequeno porco, que não se resumia ao que a biologia me havia ensinado alguns anos antes. Então abri a caixa e o coloquei fora dela. Ele correu pelo chão do meu quarto de lado a outro e, finalmente cansado, parou e adormeceu. Olhei com certo carinho comedido aquele pequeno adormecido e fixei-me bem em seu rosto. Ele tinha cara de Nelson. Talvez eu devesse chamá-lo Nelson. Mas sempre tive o costume de não dar nomes - talvez para não me apegar. Aliás, eu já tinha feito muito por ele lirvando-o daquela minúscula caixa de sapatos. Naquele momento me ocorreu que qualquer que fosse a liberdade experimentada por aquele roedor, ela não duraria muito; apenas o tempo d’ele perceber que se tratava de outra caixa; uma maior, porém não menos restringente.

Eu não era o mesmo no dia seguinte. Um tédio arrogante se impunha sobre todas as minhas observações. E era justamente a única coisa que eu podia fazer ali: observar. Apesar disso, a condição de observador não me concedia nenhum tipo de licença existencial. Minha presença era de fato. Apenas podia observar porque estava ali, porque ali eu era, visto que ser e estar fossem a mesma coisa. Comprei, então, um aquário. Quando chegava em casa, assistia à reprise da minha vida condensada na solidão daqueles animais, como num reality show zoomórfico. Enquanto o porquinho-da-índia sublimava seu tédio conhecendo lugares do quarto, no qual ele agora se sentia livre - talvez por se tratarem de lugares desconhecidos até então (embora eu nunca vá compreender que espécie de liberdade é essa que se baseia em presença num espaço desconhecido)-, 5 peixes nadavam e flutuavam diante dos meus olhos, em um conjunto de hábitos e movimentos que pareciam a mais nítida interpretação de uma peça teatral fora de época, tal era o nível de inexpressividade daqueles seres. Era pior que isso: 5 peixes de cor laranja se misturavam naquela cena e eu não conseguia identificá-los individualmente. Tenho dúvidas, ainda hoje, se eles mesmos conseguiam. Imaginava a confusão mental de cada um deles tentando achar a si próprio entre os outros e o reflexo no vidro.

Em alguns momentos acreditava estar, também eu, sendo observado naquela cadeia metafísica de observadores, que observavam um ao outro, e eram todos observados por um maior. Mas estes eram só os momentos em que eu também acreditava em Deus, que eram poucos e curtos. A maior parte do tempo eu preferia negar, ter dúvidas ou apenas não pensar naquilo. Como eu, pensava que, também aqueles animais, não deviam pensar. Embora muitas vezes eu tenha criado imagens de um grande peixe laranja, criador de todos os mares e de todas as algas, ou d’um gigantesco porco-da-índia que se alimentava de florestas inteiras com a facilidade que abocanhasse pequenos galinhos de mato; e vejo agora, que está escrito, que dessa forma não poderiam ser deuses. Seriam monstros. Delírios agigantados. Mas como os monstros, também os deuses alternam suas façanhas entre criar e destruir, erguer e desmontar. Aliás, acho que somos todos assim; criaturas ou entidades, animais ou deuses, que sejam; nunca um só prédio se ergueu sem que ao menos uma pedra fosse partida.

Pobres animais. Eu os tinha - assim se diz ainda hoje dos animais a que se alimenta e se oferece abrigo. E, a menos que eles também domesticassem pequenas pulgas ou enormes micróbios que habitassem seus corpos, eles não tinham nada. Pensava naquilo e exceto, é claro, pelo fato d’eu ter que acordar todas as manhãs e ir para o trabalho, considerava-me mais sortudo que aquelas criaturas. Bobagem. O que é a sorte? A sorte é a qualidade atribuída ao sorteado, quando este recebe a dádiva da premiação de um sorteio. Mas ali não houve sorteio. Éramos simplesmente 7 criaturas diferentes; um homem, um porco da índia e 5 peixes, mesmo que entre os 5 peixes a diferença fosse menos significativa que a semelhança. Quando aquele meu momento de convívio com os animaizinhos a cada dia terminava, eu, irrefletidamente, voltava para o jogo das caixas. E, para não perder o costume, imaginava quatro mãos gigantes movimentando aquelas caixinhas, que eram minha casa, meu carro e meu escritório, enquanto poderosas vozes sem dono cantavam em uma afinação angelical: “escravos de jó, jogavam caxangá...”Eis, então, a grande coincidência que se revelará nesta história: o tal Zé Pereira trabalhava num escritório bem ao lado do meu. Embora isso seja tão irrelevante quanto desnecessário à história, aquela vizinhança não me era, particularmente, agradável. Esse é o preço que se paga por não se querer pagar preço maior em uma sala de escritório. Talvez eu preferisse caixas de fósforos, se fosse possível conter-me nelas. Mal me continha - com muito esforço - naquela minúscula sala. O que eu podia fazer? Como me livrar daquela prisão tridimensional que eram as caixas? Não bastaria sair de uma pequena para uma maior como acontecera ao ingênuo porco-da-índia.

Eu era a figura domesticada de mim mesmo, dentro do espaço que ninguém criou, embora seja mais fácil atribuir autoria às caixas. Por muitas vezes, cheguei mesmo a acreditar que aquelas caixas eram produto de um desenvolvimento natural do espaço, como eram as cavernas e os oceanos. Mas logo que batia de frente com alguma parede, cuja absoluta arbitrariedade da existência a escondia de meus olhos ingênuos, percebia que se tratava de um instrumento de opressão. Um instrumento de opressão controlado, visto que as portas forneciam passagem e as janelas alguma ilusão de liberdade, pelo menos à vista.

Cheguei em casa mais um dia e, como todos os dias, observava aqueles pequenos quase com a imparcialidade de um Deus. A forma como aqueles peixes estavam imersos numa caixa com água fez-me pensar que, também os humanos, se fossem vistos de fora, por extraterrestres, pareceriam estar imersos em alguma coisa. Respeitando, é claro, a diferença de densidade entre o ar e água, estávamos em situações muito parecidas. Assim também as paredes da caixa deles, como muitas vezes as das nossas, eram invisíveis ao pé de sua ignorância batizada.

Eu os alimentava diversas vezes. Queria ver a expressão de prazer do animal que sacia a sua fome. Era inútil. Eles não tinham expressão. Comiam o vigésimo quinto grão da ração exatamente da mesma forma que comiam o primeiro, e o quadragésimo. Minha mãe costumava dizer, quando eu era pequeno, que se você não parasse de alimentá-los eles comeriam até morrer. Eu ignorava a profecia e do alto de uma visão deveras displicente, pensava: Talvez o significado da vida de um peixe estivesse na quantidade de comida que ele ingerisse; eles estariam, assim, sempre buscando atingir o tal ponto; o nirvana; a chamada overdose. Quando o destino se completava, eles emergiam desfalecidos e seus corpos boiando com a barriga estufada eram a prova cabal da completude de sua existência enquanto peixes. Era uma teoria pouco crítica e um tanto romântica, mas eles não pareciam se incomodar com as enormes quantidades de comida que eu jogava dentro daquele aquário todos os dias. Aos poucos, um a um, aqueles foram morrendo. Ao final da terceira semana restavam apenas dois. E na semana seguinte foi-se o penúltimo. Não tinha importância, aquele último peixinho representava todos os outros. E de fato, eu sempre pensei neles como uma unidade. Como é a colméia: um grande organismo ao redor do qual orbitam todas aquelas partes sem individualidade que são as abelhas.

Na semana seguinte, eu já não me contentava mais com apenas aqueles dois: o peixe e o porco. Comprei uma pequena tartaruga, que o vendedor da loja me vendeu sob a alcunha de jabuti, explicando-me que tartaruga era nome usado de maneira mais correta para aquelas marinhas, enquanto estes eram répteis terrestres. Eu aceitei de pronto, mas ainda assim prefiro chamar “tartaruga” a esses pacientes jabutis. Vim depois saber que cágado era, também, nome dado àquela espécie. Talvez o fato d’aqueles animais possuírem tantas nomeações fosse a razão pela qual eu não dava nome aos meus. Eu preferia que a existência daqueles bichos fosse a mais discreta possível. Pois, não à toa, os animais que eu conhecia que tinham nomes próprios, eram demasiadamente arrogantes, como o era o próprio Zé Pereira, que fazia questão de levantar a cabeça e desviar o olhar toda vez que cruzava comigo no corredor do edifício onde ficavam nossos escritórios.

Fiquei muito decepcionado ao entender que tipo de criatura era aquela tartaruga. Passaram-se aproximadamente duas horas até a primeira mudança de posição daquele jabuti desde que eu o havia colocado no chão de meu quarto. Como os peixes (que agora era apenas um) ela não tinha qualquer expressão. Mas o seu espetáculo era ainda mais monótono. Talvez porque a sua caixa fosse ainda mais restrita. Ao primeiro contato físico que tive com a tartaruga, ela se retraiu inteira para dentro do casco. E apesar da forma irregular deste, aquilo não era senão uma caixa. Mas uma caixa sobre a qual eu não tinha o controle. O jabuti, em muitos aspectos, parecia ser dono de sua própria caixa. E aquilo poderia ser um testemunho de liberdade (do animal que podia se esconder da minha observação predatória em qualquer tempo), a não ser pelo fato d’ele estar preso àquela caixa desde o seu nascimento até sua morte. Verdade essa, muito comum aos apreciadores da sopa de tartaruga, que é servida nos restaurantes mais refinados dentro do próprio casco da dita cuja. Aquele tipo de caixa era, dentro de cada contexto, berço, abrigo, prisão, caixão e prato. Embora eu imaginasse ser muito confortável ali dentro.

Acho que não preciso mencionar que o meu quarto, àquela altura, não cheirava tão bem. Éramos quatro animais e três caixas, já que o porco-da-índia dividia o espaço comigo, agora, sem paredes entre nossos corpos. O cheiro das outras 2 se espalhava sem acanhamento pela grande caixa que era o meu quarto. Mas entendia que esse era o preço a se pagar pelo grande circo selvagem que se tornara meu espaço doméstico. Como eu também percebia que aquela minha obsessão pela domesticação estava em vias de se revelar patológica; e não iria parar por ali. Não tardou nem uma semana e lá estava eu, entrando naquele quarto com uma gaiola e dois periquitos. Era um casal deles. Aqueles animais eram vendidos apenas em casais; pelo menos assim me disseram na loja onde os comprei. Talvez fosse uma compensação pela liberdade que lhes fora tomada. Afinal, estas aves, na natureza, com o alcance e o despojo que permite o vôo, eram animais de largas áreas; áreas percorridas por elas de norte a sul, a procura de alimento e descanso. Ora, alimento elas tinham aqui, todos os dias, na mesma bat hora. Já a liberdade, o vendedor (e, porque não dizer, eu também?) pensou que pudesse substituir pela companhia do sexo oposto. Como acontece perceptivelmente com nós humanos, que, não raras vezes, trocamos certa liberdade da vida solitária pela clausura do matrimônio constituído. Mas, e devo considerar, se aquele pássaro pudesse escolher, tenho cá minhas dúvidas se ele não preteriria a vida estável do casamento engaiolado por obrigação, à livre concorrência da vida selvagem. Talvez tenha sido essa escolha entre os homens que tenha anunciado uma suposta vitória do capitalismo no pós-Guerra Fria, quando o fracasso da experiência soviética pareceu sufocar a convicção idealista de muitos dos socialistas mais otimistas. Embora seja uma analogia muito sem medida, onde eu me incorra do risco de desagradar, por um lado, a todos os outros socialistas. Mesmo afirmando em seqüência que a minha escolha pessoal seria aquela do periquito que prefere o cativeiro como certeza à incerta e relativa liberdade do capital e do homem descomprometido, e, nesse caso, eu estaria escolhendo como inimigos os defensores dos direitos dos animais, já que, para eles, nenhuma justificativa para manter um pobre animal em cativeiro seria tolerável. Estes, entretanto, já devem ter interrompido essa leitura na parte em que eu explicava a situação da morte de meus queridos peixinhos. Que assim seja! Não me arrependo. Aqueles passarinhos cantaram para mim como nenhum outro animal naquele quarto. Em troca, eu os deixei experimentar a espaçosa clausura do meu quarto, a minha caixa. Com as janelas devidamente fechadas, vi aqueles animaizinhos alçarem curtos vôos, rodeando todo aquele grande-pequeno espaço entre aquelas paredes que, como a epiderme de um corpo-cápsula, eram o lado de fora do dentro e o lado de dentro do fora. Recuei logo depois, achando melhor levá-los de volta à gaiola, quando, depois de um descuido no pouso, o pequeno porco-da-índia ameaçou uma mortal investida sobre um dos pequeninos pássaros. O porco-da-índia talvez quisesse dizer que aquele chão era agora o seu território, já que a tartaruga se mantinha acuada em um canto dentro de seu próprio casco e eu, o verdadeiro dono daquele território, não tinha como fazer aquele roedor entender tal hierarquia, pelo menos não com palavras. Embora, com palavras, aquele mesmo porco tenha iniciado toda essa narrativa. Pois mesmo que aquele porco me entendesse em argumento, ele jamais aceitaria o parâmetro na ausência do uso da força bruta. E, ora lá, era um pequeno animal inofensivo, não havia necessidade para tanto. Deixei assim aquele indiano orgulhoso, pregado sobre a altivez em suas quatro patas, achando que era, de fato, o dono do pedaço, que com pedaços eu alimentava todos os dias.

Eram belíssimos animais aqueles periquitos. Diferentemente da rusticidade que marcava o porco-da-índia e a tartaruga, e da indiferença determinante que melhor representava o peixe, esses dois eram, além de belos, deliciosamente exuberantes. Exibiam-se simplesmente. Era a condição de sua existência particular. As asas coloridas se redimiam de sua inutilidade naquela cela. Um deles era azul e branco, com pequenas manchas negras ao longo do corpo. O outro era amarelo e verde, e ligeiramente maior que o primeiro. Eu não sabia distinguir entre macho e fêmea, e cheguei a me questionar se o vendedor não me teria vendido, por falta da heterogenia na disponibilidade, dois machos ou duas fêmeas. Mas logo larguei de mão o questionamento. Não faria, mesmo, diferença alguma pra mim. Por alguns dias, cheguei a esquecer que existiam outros animais naquele recinto, embora o cheiro das fezes não me deixasse esquecer por completo. Eles se mexiam com graça e me encantaram por quatro ou cinco noites. Mas toda aquela pompa, postura, soberania, foi-se revelando como excessiva arrogância. Talvez aqueles pássaros se achassem melhores que os outros animais. Talvez eu achasse que eles achavam isso. O fato é que em algum momento senti na expressão daqueles animais essa declarada e excessiva arrogância. Logo enjoei deles; como antes dos outros. Não que eu não nutrisse nenhuma espécie de carinho por todos, mas não superestimava aquelas presenças, como fossem eles parte de alguma verdade que me pudesse preencher, ou um sentido maior para aquele conjunto de formas sem propósito que era a minha vida. Não era isso. Mas, no final das contas, eram apenas animais que eu domesticava...

Aquilo não estava certo. Aquele uso de meu espaço privado não estava a me libertar de forma alguma. Ao contrário, eu estava cada vez mais preso a cada uma daquelas caixas; a gaiola, o aquário... O dicionário dizia dela - a caixa - entre outras coisas: “Qualquer objeto ou peça que resguarda ou contém outra.” Falava também de uma espécie de papagaio feito de papel, mas no largo daquelas muitas definições que dava, em maior parte referia-se a procedimentos financeiros; referenciava em quantidade a importância que nessa vida se dá ao dinheiro. Ora essa, eu já devia saber que é mesmo o dinheiro a linguagem das caixas. Compram-se e vendem-se, pessoas ou caixas. As segundas dão conta da guarda dos dois (dinheiro e pessoas), as primeiras são responsáveis pela manipulação funcional dessas caixas; abrir, fechar, mover, manter buracos na lateral para evitar o sufocamento... Já, aos papagaios de papel, não se necessitava o engaiolamento. Talvez fosse uma forma de liberdade, o papel. As palavras pareciam contidas ali, naquele dicionário, naquele papel. Mas não estavam. Não se podia dizer daquilo exatamente uma caixa. Logicamente, a sua condição física de palavra ficava restrita àquela tinta impressa, mas a palavra existia independentemente daquela impressão. Por outro lado, a caixa daquelas palavras éramos nós, os homens. Elas diziam todas de nós; de nossos feitos; de nossos conhecimentos; de nossa estupidez. Ainda com o dicionário à mão descobri que “canxangá” era nome dado a uma espécie de crustáceo, vulgarmente conhecido como siri. - Piada! – logo pensei. A vulgaridade ali, pra mim, residia naquele tipo de linguagem que dava a um animal tão ordinário uma distinção tão formal. Logo percebi a espécie de recalque que aquele livro submetia às palavras. Não era o papel em si, mas a institucionalização daquele livro fazia dele não menos que uma pequena caixa de palavras. Eu, então, me corrigi. Era o dicionário, também uma caixa. Estava decidido. Todos, ali, presos a uma classificação. Éramos animais, palavras ou caixas. Estávamos todos ligados de forma a dificultar o reconhecimento de qual desses éramos. Animais, palavras ou caixas são todos palavras, ditas ou escritas por animais, presos como as próprias palavras em caixas, feitas por animais - palavra.

Tudo isso depois se mostrou quase como profecia. Aqueles animaizinhos morreram todos, cada um ao seu tempo. As suas caixas ficaram esquecidas dentro de outras caixas. Das palavras que restaram, falam deles apenas com uma suave nostalgia, que não se chega a fundar em saudade. As grandes caixas permanecem contendo pequenas pessoas, e mesmo as que se acham grandes. Como o Zé Pereira, que não é grande, e muito menos “grande pessoa”. Mas apesar das minhas convicções, de não dar nomes aos meus animais, tenho ainda hoje uma pequena ressalva. Penso com certo arrependimento, se eu não teria devido chamar aquele pequeno porquinho-da-índia de Nelson. Ele tinha uma cara de Nelson...