sábado, 28 de novembro de 2020

Sobre o conceito de Liberdade






Lavando a lentilha antes de cozinhar. Três grãos caem da cumbuca, depois mais dois. Pego os cinco grãos e os devolvo ao recipiente junto aos outros, como se não havendo nenhuma condição hierarquica entre os grãos, cada um deles deveria valer o que valem os outros. Mas o valor de 1 em referência ao valor dos outros, não perde importância pela diluiçao de seu valor mediante o valor da soma de todos. Mesmo em matemática, a variável não se define pelo seu valor quantitativo diluido no conjunto dos valores da equação - a variável é um lugar de direito, que qualquer número poderá assumir uma vez ali posto, e em nome de uma suposição requisitado. A variável é uma ideia, mais que um número.
 
Antes de levar as lentilhas a panela, percebo que há ainda 1 diminuto grão num canto da pia. Preciso tomá-lo em mãos e entregá-lo ao conjunto ao qual pertence. Mas a preguiça é também matemática e põe em questão se a proporção material com que o esforço empenhado para aquela ação se veria justificado pelo retorno prático dela, no caso, 1 único grão de lentilha. Mas a consciência é moral e não matemática, tão pouco é a consciência uma burocrata ou pragmatista recorrendo ao expediente prático de suas justificativas. A consciência do disperdício é a consciência do esforço coletivo que proporcionou aquela abundância material que é a cumbuca cheia de lentilhas. Em seu axioma, se instaura a primeira lei derivada: a ideia de que o valor de 1, sendo exatamente o mesmo (em parâmetros quantitativos de alguma natureza) é a condição para o julgamento do valor de todos, e cada 1. O esforço de cada 1 tem medida párea no esforço de cada outro. Como, então, aceitar, sob o envólocro da preguiça ou da ganância ou de um narcisismo de quaquer espécie, que um grão de lentilha, único que seja, seja desperdiçado? O homem é a lentilha da sua própria cumbuca, um único grão, de cores e formas parcialmente distintas, mas incrivelmente assemelhadas à média das cores e formas de todos os outros. Não há valor de um sem o valor de todos, mas também não há um valor do todo se se recusa valor a um único deles que seja.
 
A consciência é quem move a mão que se estica para alcançar o grão descuidado. É também ela quem move a comida à boca, permitindo o suprimento do estômago em sua labuta, e depois dele do intestino, delgado, grosso... Cada órgão dispõe de sua própria consciência e fará cumprir sua ação em acordo com essa lei universal que é: SOMOS PARTES DE ALGO MAIOR QUE NÓS MESMOS, mas somos também o que somos."

domingo, 27 de setembro de 2020

The containing sorrow

 

Kreuzberg Merkezi – It's stamped on the façade in the annex over the street connecting the two buildings, leaving passage underneath to the cars, which, however, need to give preference to pedestrians, who walk around and across one side to another on the street, as the repeated white marks in the asphalt below their feet indicate. 

Kreuzberg Zentrum,  says the translation to the previous expression, and It will be seen on the other side as the passerby turns its neck behind and above, while follows its path across this gate desguised as building, that gains a name as soon as the fellow understands its actual location: Kottibusser Tor.

A car and a bycicle approach the gate, reducing the speed when they take notice of a man, in the middle of the street, right beneath that gate, who slowly wobbles and stumbles with an empty bottle in one hand, while the other gesticulates as if confronted an invisible interloctutor. 

A lather jacket (synthetic, most likely), enough for the mild cold which had been down that night – and a high and tight haircut, nothing different from the current dominant masculine fashion trend, giving that figure some sort of class inespecificity, while the skin colour, facial features and beard would suggest one that could easily subscribe to a particular ethnic estereotype.

He hurls to the ground the empty glass bottle, which shatters at the same time that the hand articulates a conclusive performance following the throwing movement, as to declare the inexcusable intentionality of the gesture; as he had hurled a molotov cocktail prepared in a Sternburg bottle.

The glass, breaking at the very moment it touches the floor, is a hostile announcement; a note to those who would come later to be remembered of the scene they never really saw, except for the broken pieces left in place, as minor obstacles to their feet or wheels. 

But what exactly it's being announced there? 

Maybe the inconvenience of the liquid abscence, the liquid the man with the empty bottle had drunk minutes earlier? 

As if the bottle could be pledged guilty for its own emptyness, and its hardness exposed by the impact against the ground were to be both setenced punishment and a statement for its current uselessness... 

Or the agression was to be directed to the asphalt, the main representative of a system stitched through and around big concrete structures all over, because the man with the empty bottle were a victme of this same system, now somehow conscious of the unyielding field of determinations to which he was subjugated, and ready to get to this exact instant, a moment of open grievance? 

As a neglected human being on that cold night, while some others placed their enormous glass mugs over a coaster in which one could read a message claiming for civil desobedience of any nature. Even if in the most banksian way of an imaginary molotov cocktail throwing man. 

If one in confrontation with this question had access to the private content of the man, subject of one's attention, one would know the particular reason for that attitude, who knows, a bad day, a spontaneous insatisfaction, a broken heart... Because a subject, whoever they are, contains way more than the narrow frames of my observational remarks.

The others around keep silence for a brief moment when hearing the bottle to burst on the ground. The performance of violence has always a public in view. Its consequent materiality carries within the archetype of the attentive eyes that witnessed, even in the case of those eyes being merely imagined by an inibriated author or simply one out of one's mind. 

The bottle is by nature a prop. Even better: it's an instrument, because it amplifies the action of the handler in a convulsive discharge of textures and sounds that, as the music of a particular celebrated tradition, has purpose and meaning.

But the scene is left behing. While one rides its bike, they will leave behind also the memory of the bottle throwing individual. A few meters from there, when crossing the bridge over the Landwehr channel, the glass shrapnel – multiplied along the way around and ahead, as unmarked „crime scenes“ - will evoke, each of which, a vague scene in which a subject, now absent, expresses hostility likewise the bottle thrower.

There will be only a few minutes until this conscious beholder holds a bottle in its own hands, from which one feeds onself or any other inebriation (anesthetic or of excitation), and to which one will devote the same attention one devotes to a poetic text or an advertisement. 

Possibly, one will place the bottle - by now empty - over a wall at sight or in an uncovered corner, to be picked up by the hands of another person, who will use it accordingly to the role and the tipyfied behavior that the city defined for this one.

The broken hearts, nevetheless, will remain unseen in the chests of their respective hosts. But, as the bottle, they carry in their own shapes also a content to be revealed. Containing and transfering their liquids – and their messages – in the same manner the bodies, that carry them, do.



quarta-feira, 23 de setembro de 2020

A mágoa recipiente

 

Kreuzberg Merkezi – estampa o arco arquitetônico formado pela junção de dois edifícios a partir de um anexo que sobrepassa a rua, deixando abaixo de si passagem para os carros que, no entanto, precisam dar preferência aos pedestres que circulam e atravessam de um lado ao outro, como indicam as marcas brancas repetidas no asfalto sob seus pés. 

Kreuzberg Zentrum, traduzindo a expressão anterior (em turco), aparecerá do outro lado conforme o passante gire o pescoço para trás e para cima, enquanto segue seu caminho através deste portal disfarçado de edifício, que logo depois ganhará um nome na medida mesma em que o sujeito se tente localizar: Kottibusser Tor.

Um carro e uma bicicleta se aproximam, diminuindo a velocidade ao ver que um homem, no meio da rua, bem abaixo daquele portal, cambaleia vagarosamente com uma garrava vazia numa mão, enquanto a outra gesticula como se enfrentasse um interlocutor invisível.

Uma jaqueta de couro (sintético, talvez), não mais que suficiente pro frio moderado que havia descido naquela noite - e cabelo com corte militar, nada distinto da moda masculina dominante, dão inespecificidade de classe àquela figura, enquanto a cor da pele, os traços do rosto e a barba lhe sugerem uma que adere a um estereótipo étnico particular.

Ele arremessa no chão a garrafa de vidro vazia, que se estilhaça, ao tempo em que a mão articula uma performance conclusiva seguida ao gesto do arremesso, como que para declarar a intencionalidade inescusável do gesto; como se arremessasse um coquetel molotov preparado em uma garrafa de Sternburg

O vidro que quebra ao tocar o chão é um anúncio hostil; um aviso aos que passam; uma nota em lembrança aos que vierem depois e puderem testemunhar da cena apenas os estilhaços no chão, a servirem de obstáculo menor a qualquer um que por cima deles caminhe com pés ou com rodas. 

Mas o que se anuncia ali exatamente? 

Seria o inconveniente da ausência do líquido, bebido minutos antes pelo homem em posse da garrafa agora vazia? 

Como se tivesse culpa a garrafa e sua dureza exposta no impacto contra o chão fosse ao mesmo tempo punição sentenciada e uma declaração de sua inutilidade atual... 

Ou a agressão se dirigisse ao asfalto, representante basilar de um sistema costurado ao redor das grandes estruturas de concreto a volta, porque fosse o homem com a garrafa vazia uma vítima agora consciente de todo campo de determinação ao qual foi submetido e feito chegar ali, naquele instante, em seu momento de lástima? 

Como que negligenciado, naquela noite fria, enquanto outros repousassem suas enormes canecas de vidro sobre um porta-copos em cuja estampa se poderia ler uma mensagem clamando por desobidiência civil de qualquer espécie. Ainda que do modo banksiano do de um arremessador de coquetéis molotov imaginário...   

Tivesse, quem naquele instante se confronta com essa questão, acesso ao conteúdo privado do sujeito objeto de sua atenção, saberia a razão particular daquela atitude: quem sabe, um dia ruim, uma insatisfação espontânea, um coração partido... Pois um sujeito, quem quer que seja, contém bem mais que os estreitos frames das minhas especulações observacionais.

Os outros a volta fazem silêncio por um instante ao ouvir a garrafa estourar no chão. A violência performada tem sempre um público em vista. Sua materialidade consequente conserva o príncipio dos olhos atentos que a tiveram como testemunha, ainda que sejam olhos apenas imaginados por um autor embreagado ou fora de si. 

A garrafa é um acessório cenográfico por natureza. Melhor ainda: é um instrumento, porque potencializa a ação de quem a maneja numa descarga convulsiva de texturas e sons que, como a música de uma tradição celebrada, tem objetivo e significado.

Mas a cena fica para trás. Enquanto cavalga em sua bicicleta, um observador de detalhes deixará para trás também a memória do indivíduo arremessador de garrafas. 

A alguns metros dali, ao atravessar a ponte sobre o canal de defesa (Landwehrkanal), os estilhaços de vidro que se multiplicam ao redor e a frente - como "cenas de crime" não marcadas - evocarão, todos eles, uma cena vaga em que o sujeito, agora ausente, expressa hostilidade similar àquela do arremessador da primeira garrafa.

Serão apenas alguns minutos até que esse observador consciente tenha ele mesmo uma garrafa em mãos, da qual se alimenta ou alimenta uma embriaguez qualquer (de anestesia ou excitação) e para qual devotará a atenção que se devota a um texto poético ou uma peça de publicidade. 

Possivelmente, apoiará a garrafa, então vazia, em um muro à vista, ou num canto descoberto, para que seja tomada em mãos por outro, que fará uso dela conforme a cidade lhe defina um papel e um comportamento à caráter.

Os corações partidos, no entanto, permanecerão ocultos nos peitos de seus hospedeiros respectivos.

Mas, como a garrafa, trazem também eles nas suas formas um conteúdo a ser descrito, contendo e transferido seus líquidos - e suas mensagens - do mesmo modo que os corpos que os carregam.


quarta-feira, 1 de abril de 2020

O Encontro por marcar

„Preciso me encontrar“, disse Cartola enquanta narrava as imagens de um movimento contínuo, „por aí, a procurar“, „deixe me ir, preciso andar“. O sol, os pássaros com seus cantos únicos e variados na medida mesma das variedades dos espécimes a cantá-los, as águas dos rios sempre em marcha tal que nominamos seu movimento como o movimento de pernas humanas em ação.

E, no entanto, o „eu“ que procura, ao mesmo tempo sujeito e objeto da ação, não faz mais que anunciar a medida imanente de seu isolamento. Todas essas imagens de uma natureza magnífica que o cerca são externas a ele; a cada passo dado, afastam-se. E no espaco agora ocupado, só um corpo. Seu próprio corpo a servir-lhe o encontro em vista. Mas o encontro não vem e a procura continua, porque a irremediável razão dos sentidos é vagar pelas coisas mesmas sem nelas, contudo, habitar – ainda que a percepção seja a do próprio corpo que percebe, porque ninguém – absolutamente ninguém – pode desfrutar do luxo de ser sujeito e objeto, ao um mesmo tempo, da ação do encontro. Como os polos invertidos de dois ímãs: um que empurra e o outro que é empurrado. Encontrar não é verbo reflexivo, não pode ser. A necessidade deste sair vagando é apenas desculpa (mentira que um diz a si mesmo, por que „mentir“ sim é ação em que se permite o sujeito ser também objeto), mera desculpa para mover de lugar esse corpo, que não suporta a constância de ser – ser o tempo todo – e não saber exatamente o que se é.

„Eu quero nascer, quero viver“. O sujeito que não se conhece e sendo impossível conhecer-se de fato, clama pelo próprio nascimento e pela vida própria. É pois nas imagens em movimento do mundo – que espelham o movimento de seu próprio corpo – que essa vida ganha contorno. Mas é sempre e apenas uma vida em retrato: „rir para não chorar“ - Nós a aceitamos assim, porque entre a dor e a dúvida, escolhemos a dúvida, sem saber que é a dor, e somente a dor, que pode o „ser“ presentificar. A dúvida é, como o corpo que vaga e sempre a ele paralelo, um justificativa branda mas opção que se renova a cada passo... Vou por aí a procurar, não sei o que exatamente, mas deixe me ir, preciso andar, até que um dia não mais: e damos um nome ao „encontro“, um nome terrível, mas um nome. Pois é um nome, acima de tudo, o que todo sujeito merece.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Curtindo a vida adoidado às avessas (Ferris Bueller's day on)



“I want you to panic. I want you to feel the fear that I feel everyday. I want you to act.”

Essas palavras saídas do discurso de uma menina sueca de 16 anos expressam a medida exemplar do nosso sistema de circulação de imagens e ideias. Uma pessoa, individualizada ao máximo no nome e na imagem do herói inocente e puro, aqui feito heroína (o que apenas convoca mais um elemento nessa dimensão libertadora da redenção), vem ao mundo dar sua mensagem – parece que até aqui a mensagem não havia sido dada com essa ênfase ou essa clareza. Não é, no entanto, uma mensagem de “esperaça” dirá ela, mas uma mensagem de desespero, conclui, para logo depois assoprar a ferida. “Mas ainda há tempo!”. Ela quer que você sinta o medo que ela sente todos os dias. O medo dela é real, não se engane, mas é somente o medo que ela conhece. Há uma semana uma menina de 8 anos chamada Ágatha era baleada e morta no Rio de Janeiro. O que uma coisa tem a ver com a outra? você vai perguntar, com criticismo justificado. As tragédias em questão não se anulam, nem se sobrepõem, é verdade. Mas eu as coloco aqui lado a lado, apenas para dar a você a dimensão abstrata do medo que ocupa a consciência da ativista sueca. Sim, é um medo abstrato, apesar de real, porque é um medo refletido, é um medo alimentado por uma consciência inclusive política; uma consciência que reconhece responsabilidade - uma responsabilidade moral sobre o futuro da existência humana, civilização. Não é o medo da arma do policial que espreita na esquina, pronto para atirar em qualquer um com a pele mais escura. É o medo abstrato de alguém privilegiado o suficiente para achar que seu medo tem o rosto e a dimensão do problema mais global e mais urgente.

Por que é o medo da menina sueca que ganha mundo? Porque ali se encontra a figura vestida do nosso sistema de circulação de imagens e ideias. O mensageiro traz um grito que convoca a luta, como ele mesmo faz, com seu olhar que se alterna entre o papel que lê a sua frente e a plateia em silêncio ao redor. A seriedade não poderia ser mais real, porque não é o produto de uma dramatização fictícia, é real como a menina e o seu medo. Ela quer que você aja, como ela está agindo (o termo ativista não está a disposição por mera coincidência, e aqui eu uso a palavra agir e não atuar para que você não confunda uma arte com a outra). Mas nas palmas alçadas e no alívio da tensão muscular depois da fala, o espírito de luta se dissolve – os gregos chamavam a isso de catarse. Ainda que o agir e o atuar sejam os empenhos de duas profissões distintas, o resultado final aqui é o mesmo.

O medo continua lá, mas ele estará adormecido enquanto a menina dorme, enquanto você trabalha, enquanto eu confecciono o meu texto, enquanto – em resumo – cada um de nós exerce a individualidade de uma existência reverênciada por esse espírito liberal que nos alimenta e que nós alimentamos. A menina usa o termo homo sapiens, em todo caso. Pedindo - com a consciência de quem sabe o exato significado das palavras que fala - uma identificação como espécie entre esses indivíduos dispersos que somos, mas não percebe que é a sua própria imagem que nos impede de identificarmo-nos. Uma imagem do indivíduo privilegiado das celebradas e minoritárias democracias europeias. A classe média daqui, quem sabe, poderá vir a se identificar com ela, mas não é essa classe (acostumada a certo conforto) que vai dar significado algum para o que a menina, de fato, quis dizer com “eu quero que você aja”. O meu respeito e admiração por ela é grande, inclusive na medida da ingenuidade e inocência daqueles que acreditam que ela é o anúncio de uma mudança. Você precisa lembrar - o tempo todo, se possível - que quem colocou (permitiu, pelo menos) ela ali para falar foram os mesmos agentes que deram um púlpito e um microfone para o presidente em exercício dessa nação em pedaços falar na ONU. Ela quer que ajamos, mas eu pergunto: não estamos todos agindo? Ou estamos apenas atuando? Depois de assistir 2 horas em sequência em filmes e seriados no netflix, impossível não conservar a impressão quase permanente de que a vida é uma obra de ficção.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O dia em que atropelei um homem de gravata

Como eu queria acreditar numa resposta à espreita a aviltar opressores, o sono dos justos a povoar pesadelos daqueles que já muitos sonhos interroperam. Quem me dera fosse a estrutura do mundo, e do universo, uma máquina moralizante a distribuir – como reações newtonianas – contrapesos e a fabricar, na semântica geral dos gestos intencionados, uma simetria tão clara quanto aquela reproduzida pelo espelho. E eu diria que a revolução não foi, e nunca será, um mero acidente. Absteria-me de julgar, quem quer que fosse e por qualquer coisa que tenha feito, porque a estreiteza do ponto que ocupo no espaço não me oferece senão a mobilidade de um corpo que flutua.

Mas eu que cheguei até aqui só vi injustiças perpetuarem-se no lassez-faire da vontade abstrata do deus infinito. E mesmo quando a sorte abateu criminosos, não houve justiça, porque seu nome não foi mencionado. Não houve justiça, porque efeitos e causas não eram ali os amantes de uma dança ensaiada. Não houve justiça, porque também o recursivo sentido da resposta ficou esquecido entre as dores daqueles que apenas puderem enxergar o vazio semântico do aleatório. Como no instante fatídico daquele infeliz acidente, em que com desatenção abusiva marquei minha culpa no asfalto:

O dia em que atropelei um homem de gravata – e ele já não pode mais responder por seus crimes, e o meu agora emerge sozinho, em demanda de um novo juízo. Ah, se com as linhas tortas do contingente me pudesse desenhar uma casa, nela me confinaria até que viesse à minha porta bater a fortuna que me é de direito, seja ela qual fosse.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Manual dos sentimentos mudos




Tão simples
que o senhor encostado no balcão,
se sentiu constrangido

quando lhe disse
que a poesia viria como um recibo
na ausência da explicação


domingo, 27 de maio de 2018

Uma crônica bem humorada






A van pára e a porta se abre, deslizando como um pedaço inerte de matéria sendo movido por um dispositivo autômato qualquer, uma mulher de mãos dadas com uma criança - de, talvez, 6 anos de idade – segura a mochila do filho pela alça, enquanto projeta a criança para dentro da van, oferecendo o impulso necessário para que o pequeno ultrapasse o obstáculo que é a alta soleira do veículo para as suas reduzidas dimensões. Depois de concluída essa ação, pede ao menino que se segure enquanto coloca a mochila também lá dentro. O próximo passo é subir ela mesma, com as dificuldades que seu peso corporal, aparentemente, impõe. Apesar do esforço, ela tem êxito na tarefa e agora procura um lugar para si e para o filho, quando ouve, vindo de trás do veículo, uma voz carregada de intimidade se dirigindo a ela:

- Dona Neuza! O que tá fazendo a essa hora na rua?! Fazendo hora extra – Diz o homem, provavelmente, em referência ao horário em questão, algumas poucas horas depois do final do chamado expediente comercial.

A mulher identifica imediatamente um assento e dirige a ele o seu filho, antes mesmo de responder ao senhor que lhe teve a palavra. Ele sentado, ela devolve: “Minha hora extra é essa aqui!” - enquanto sacode levemente o menino pelo pulso, fazendo dele ao mesmo tempo seu protegido e objeto da conversa que tem em mente. Mas o menino é já suficientemente perspicaz para entender do que se trata e reage, sem nem ser convidado na conversa: “Sou hora extra não! Sou filho!”

A mãe ironiza a fala do menor, pouco versado nas paródias sociais da qual ela toma parte: “É filho?! Filho de quem?! Do seu pai?” - o garoto permanece silente, sem resposta, enquanto ela completa – "Só se for filho dele mesmo, porque pra mim você só dá trabalho.”

O menino fecha a cara e faz bico, sem argumentos para defender sua própria condição de produto de uma cadeia familiar específica, enquanto a mulher se desvia dele e retoma a conversa que se havia iniciado com o senhor no fundo.

- Hora extra que nada! O patrão perde os dedos pra não dar hora extra, seu Walter. - se refere ela ao fato do custo de um tal expediente não ser vantajoso para o seu empregador, mas também deixando emergir da sua fala um julgamento da personalidade do homem em questão - ganancioso a tal ponto que entregaria falanges e metacarpos para não se ver estreitado pelas margens nos seus preciosos rendimentos.

- É, dona Neuza... Se não tá fácil pra eles, imagina pra nós. - diz seu Walter, sempre com um toque de irreverência na voz, como quem pratica alguma intencionada política de coleguismo, mas sem deixar de mencionar que existe no enredo um “nós” e um “eles”, porque é, afinal, um senso particular de identidade que media sua relação amena com a mulher em diálogo e, porque, o outro é quase sempre, por alguma razão, aquele que os expõe a uma situação de transporte como aquela, que se não é a pior possível, tampouco é de algum modo agradável.

“Não tá fácil pra eles?!” - ela questiona a fala do homem - “Que isso, seu Walter?! O senhor já ouviu reclamação de patrão? - e completou como quem muito antes já houvesse domesticado a resposta - “Reclamação de patrão é sempre coisa pouca e bobagem.”

E arracou do “velho” umas boas risadas que, de tão honestas, contagiaram a mulher e provocaram sorrisos coadjuvantes à volta. Pois, riram os dois sonoramente e por alguns segundos mais e quando cessaram, foram imediatamente capturados pelo rosto enfurecido do menino que, a um só tempo decidido e atrapalhado em continência do choro iminente, falava alto, gritava quase: “João! João! Meu nome é joão e eu sou filho! Hora extra o caramba!”

Teriam todos gargalhado por horas a fio não fosse o cansaço do dia acumulado e a obrigação de, em algum momento, retirar o dinheiro do bolso e entregá-lo ao motorista.

Dinheiro na mão e um rosto sério e esse é o retrato final. Pois nem dona Neuza, nem seu Walter têm de sobra tempo, nem ânimo pra fazer da história contada uma “crônica bem humorada”, como o seu condutor gostaria.



segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Formigamento




Ah! Os neurônios se agitam
Sentido esse do atraso,
acaso, comunicante acaso
Nervos pálidos, calados
são vítimas eleitas
d’uma pressão momentanea
seja opressão deliberada ou subcutânea

Mas essa paixão é elastica
e do estado compresso retorna
de um borrão expandido uma forma
e novamente um sentido
que o ouvido da mente recorda
antes tão crú não se via
agora arde, dorme e chora

Não tenha medo, membro amigo
levante-se, é só uma parestesia
mexa os dedos e sinta
você é a voz que comanda
a dor é um grito contido,
transborde
pois és da forma um lamento

quarta-feira, 14 de março de 2018

O busto de Hera






Felipe, de 11 anos, pula de cima da cama com um boneco empunhado e alcança uma massa de brinquedos depositada no chão, projetando a figura que tem em mãos como se se dispondo a atacar um inimigo cruel, a quem não se deve conceder abono nem na fantasia mais inocente.

Do outro lado do quarto, Luis, prestes a completar seu décimo segundo ano de vida, organiza uma fortaleza com caixas de sapato e livros, para servir de base ao exército de plástico que mantém ao seu redor. Silencioso, trabalha diligente naquela organização enquanto, vez por outra, levanta a cabeça para observar a movimentação do amigo.

Trata-se de uma brincadeira em comum, mas em que os dois participantes, em juízo de duas personalidades muito distintas respectivamente, encontram prazer e motivação. Felipe, aos golpes e gritos, encenando situações de combate e, eventualmente, narrando sua própria continuidade. Luis, concentrado, escolhendo posições estratégicas e exercitando seu talento em encontrar soluções arquitetônicas, que deveriam satisfazer tanto aos desígnios da diplomacia entre amigos quanto à guerra fictícia que se anuncia como cenário em vista.

A mãe entra no quarto e interrompe a ação, ordenando indulgentemente às crianças a seguir para a cozinha, onde o lanche se faz à espera. No caminho do quarto à cozinha, encontram-se o pai e a avó de Luis, sentados no sofá, assistindo tevê, calados. O pai tem consigo um copo de refrigerante, enquanto a avó se entretem à mão com um de Whisky. A sala se estende como um largo corredor entre a porta do quarto e a abertura que inicia a cozinha, mas a resignação dos dois diante do aparelho determina que a única atenção dirigida à cena pelas crianças se direcione aos ruídos que se projetam da televisão para fora, de onde se pode ouvir com clareza apenas a voz do apresentador de um programa de auditório, que tanto reconhece o despropósito do show que se limita a ler as indicações de roteiro no prompt eletrônico, incluindo aqui e ali uma expressão indiomática qualquer para dar cor a uma fala que não enaltece senão o enfado da proposta.

Durante a refeição, Felipe explica a Luis seus planos para o grupo de soldados que se encontram sob seu comando, enquanto Luis, com os olhos e ouvidos atentos ao amigo, mastiga apropriadamente cada pedaço que, com uma ou duas mordidas, arranca do sanduíche. Vez por outra, pergunta sobre uma qualquer irrelevância, mas apenas para garantir ao outro a atenção que, de fato, investe em seu interlocutor.

Ao cair da noite, após muitas idas e voltas, brincadeiras findas e reiniciadas, a mãe de Luis retorna ao quarto e anuncia aos garotos que a hora de deitar se aproxima. Ela explica a Felipe onde ele deve dormir e orienta - em mãos com uma toalha entregue a ele em seguida – o menino que siga para o banho. Luis, no conforto e intimidade de sua própria casa, cuida de si e esforça-se ao máximo para que o amigo não se sinta deslocado. Por exemplo, quando lhe pede um copo d’água, conduz-o ao armário em que se guardam os copos e lhe apresenta a garrafa com água na porta da geladeira, sem contudo tomá-la consigo, dando a entender ao menino que abra a geladeira e se sirva sempre que desejar.

Já deitados, a luz se apaga. Alguns minutos em silêncio e Felipe chama o amigo: “Você tá acordado ainda?!”

Luis responde: “O que é?” - com economia, mas sem a intenção de ser rude.

Felipe, então, explica que alguma coisa se forma em seu peito, um desconforto sutil, mas suficiente para tirar-lhe o sono. Ao mesmo tempo em que se articula para explicar-se ao amigo, começa a entender do que se trata. Percebe-se, subitamente, “longe de casa”. Longe de toda aquela estrutura que, nos últimos 11 anos, havia sido a sua fortaleza. Pai e mãe - os dois que até ali se afirmaram como a linha de frente sempre disposta a protegê-lo do menos anunciado perigo - lá não estão. Ansiedade e melancolia se misturam. Ele levanta o tronco e se enconsta na cabeceira da cama. Pede a Luis que acenda a luz.

Luis atende, imediatamente. Em seguida, fixa o olhar no rosto do colega por alguns segundos e pergunta, um pouco constrangido, mas com curiosidade genuína: “Você tá chorando?”

Felipe limpa o rosto imediatamente, mas sem efetivamente negar a pergunta, diz que sente falta da mãe.

Luis não sabe o que fazer e acaba batendo na porta do quarto dos pais – a quem pede ajuda. O pai pergunta: “O que a gente faz?” - Transferindo imediatamente à mãe a responsabilidade de tomar uma decisão em ação.

A mãe segue ao quarto, conversa com Felipe tentando acalmá-lo. Ele retém o choro, mas as lágrimas ainda assim escorrem, enquanto ele explica que não está acostumado e dormir fora de casa. Ora, ele mesmo talvez não imaginasse que o cair da noite traria todos aqueles sentimentos à tona; que o entusiasmo do dia se transformaria em medo e insegurança e em todo aquele sussurrar de vozes ausentes pela casa toda vez que a luz se apaga e o silêncio quase absoluto novamente se instaura. Repetem o ritual uma, duas, três vezes. Depois disso, a mãe desiste e decide que a única solução razoável é deixá-lo à própria sorte, pensando, talvez, que o amadurecimento também pede certos sacrifícios. Isso porque, àquela hora, não seria nem prático nem razoável ceder à fraqueza do menino, também porque seus pais morassem a pelo menos 40 minutos de carro dali.

Levantou-se, então, a avó, não sem alguma dificuldade. Não porque ao corpo envelhecido faltasse força, mas porque lhe faltava equilíbrio, e o andar cambaleante se justificava à medida que sua passagem espalhava o cheiro de álcool, que lhe evadia do corpo, pelo hálito e pelos poros - pelo hálito, principalmente.

A essa altura, conversavam as crianças com a luz do quarto acesa. Porque Felipe não conseguisse dormir, compreendera Luis que, também ele, não dormiria, oferecendo-se, então, como única opção, e opção mais correta, aquela de oferecer companhia ao colega, ainda que deitado à cama e com lençóis esticados sobre o corpo, dos pés ao peito.

A avó entrou no quarto e, junto com ela, o cheiro de alcool. Ficaram os dois em silêncio, mas os olhos vermelhos e umedecidos de Felipe acusavam o choro que precipitou toda a situação.

“O que tá acontecendo aqui?” - Perguntou a avó, e soluçou uma vez.

Explicou Luis: “O Felipe não consegue dormir.”

“Não consegue dormir por que?” - Retrucou a avó sem muita delicadeza.

Nesse instante, a figura ameaçadora da mulher embreagada e pouco compassiva, pressionava ainda mais o sentimento de insegurança que se acumulava dentro do menino que, antes de uma resposta de Luis em vista, tomou parte no diálogo, não conseguindo, no entanto, evitar as lágrimas e o choro à medida que dizia: “Eu... sinto... falta da minha… da minha mãe. Eu preciso... da minha mãe...”

A senhora engoliu a seco a própria pergunta em espanto. Estava absolutamente surpresa que um rapaz daquela idade ainda se dispusesse a caprichos como aquele. Mas o espanto passou e logo deu lugar a irritação. Ela perguntou uma vez: “Precisa da sua mãe?!” - e repetiu, mudando o rítmo da sentença, impregnando nela um misto de zombaria e despeito: “Precisa da sua mãe, é?!” - acrescentou ainda: “Precisa da sua mãe pra que?! Pra te dar ‘mamá’?!” - já quando a zombaria se tornava tão evidente, que sobrava às crianças apenas a atenção e os olhos arregalados. Deixou cair a alça do sutiã, puxou para fora com a mão direta o seio do mesmo lado, que imediatamente murchou e se espalhou sobre a mão enrugada, ao mesmo tempo sustentando e balançando o peito na frente do garoto, enquanto gritava: “Mama aqui, ó! Você quer mamá?! Então mama aqui, seu muleque mimado! Mama!”

Performou durante quase 1 minuto, até retornar a um estado de animo mais ameno e se retirar do quarto, sem dizer mais nada. Com ela, foi-se embora o cheiro de álcool. As crianças apagaram as luzes e fecharam os olhos, não se sabe porque dispostas mesmo a dormir e tentar esquecer por algumas horas a nada ortodoxa cena, ou apenas por medo de que acontecesse mais uma vez, ainda que já naquele instante, no escuro das palpebras, ruminavam os traumas prováveis que naquela noite tiveram origem.

A avó voltou ao seu quarto, apoiando-se pelas paredes. Pensava, quase arrependida: “Será que eu fui muito longe?!” - mas logo se justificativa: “Não se deve dar moleza a uma criança mimada. Hoje chora porque está longe da mãe, amanhã porque não conseguiu a vaga de emprego. O mundo é um lugar dificil...”

Nem trauma, nem disciplina. Para ela, cada um a lidar com suas próprias emoções. As dela, certamente afloradas pela bebida, repercutiam naqueles a sua volta como as deles repercutiam nela. O menino roubou-lhe o sono, teve em resposta o que teve. Cada um conduzindo a si mesmo - e por conta própria – ao que se deve tornar. “O que não nos mata, nos deixa mais fortes”, teria ela pensado se a fraseologia nietzschiana lhe estivesse à disposição. Não estava, ainda que o espírito dionisíaco lhe caísse a caráter.

Deitou a cabeça no travesseiro, virou-se para o lado e começou a roncar.


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Juizo




A realidade é um sentimento ao redor do qual posiciono as coisas que vejo, que ouço e ignoro. Eu sinto o meu corpo, em toda intangibilidade do tato, sinto a cada instante estas células que se comprimem a dar volume a essa forma, que suponho seja como uma linha seguindo por todo e cada um dos pontos dessa epiderme que encontra seu sentido mais diligente no contato com o ar . Exceto pelas solas dos pés, que sentem sobre si o corpo todo, esse emaranhado de células ao mesmo tempo tão estranho e tão íntimo a essa consciência que os reconhece e os dá unidade.

O rúido cumpre, da mesma forma, um desenho sonoro em vista de um objeto que, da ponta dos dedos ao couro cabeludo, também ouve. E elabora a compreender que à imagem que avança a partir de um objeto qualquer fora de si pertence também uma voz. Tal é a conversa silenciosa que a consciência do corpo trava com o mundo. Ao mesmo tempo os conecta e os separa, como a pontuação sintática de um parágrafo cheio de ideias a comunicar.

O corpo é; e assim permite a todos os outros corpos que sejam; e pede gentilmente ao espaço que não seja; ao silêncio que negue; e à ausência que ignore. Encontram todos seu lugar no mundo, esse cômodo tão estreito que contém apenas o que se sente, se ouve e se vê, mas nunca além das bordas desse campo sem dimensões que o corpo lhe empresta. Damos a ela um nome e, prontamente, ela é também. A realidade. Ai de quem duvide!

Ainda assim, nada explica o prazer ou o desgosto. Pois o juizo é uma fantasia absurda. A ele não importa quem seja e quem seja ausência. E o corpo é dele refém, a todo instante que é de si consciente. Sente o frio que congela a pele, mas gosta. Sente o aroma do café ebulindo e, no entanto, detesta. Não importa o que seja a realidade, cabe sempre ao juizo uma nota de aprovação, um valor-sentimento, uma legenda, resumindo tamanha complexidade a um capricho deliberado.

E tudo mais - tempo e espaço e essência - não tem em si outro significado que não o de serem, em dado instante, de um juizo objeto. Diga-me o que quiseres do tempo, eu te direi como me sinto a respeito. Descreva-me o mundo pelas lentes da mais meticulosa ciência e, ainda que eu nada compreenda, terei uma nota de gosto a dar. Porque meu acesso ao mundo não se dá pela pele, pelos olhos ou pelos ouvidos. Também não se dá pela palavra – essa que tão frequentemente nos entorta os sentidos. O mundo é, afinal, a voluntária e inegociável constante de um nele sentir-se como deveras se sente.

O átimo, o íntimo e o étimo, de todo modo, são todos ótimos.



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O coração do mundo




Andava pela rua cabisbaixo, cansado, faminto. A passada em stacatto das pernas articuladas em sincronia com os braços soltos, pendulares, e entre um lance e outro de vista, um pensamento em sincronia com o a fome dos desejos populares - aqueles mesmos do encanto com as imagens em tela.

Na sua frente, um aparelho celular chama sua atenção numa bancada num corredor de barracas enfileiradas, em uma zona de comércio ao ar livre, sem muros. Percebe-o ao mero alcance da mão. Poderia simplesmente pegá-lo, e, afinal, não basta apenas querer? Não, não basta… e retorna ele a olhar para o chão e, com a cabeça baixa, segue seu caminho. A esperaça de um futuro melhor em recompensa pelo comportamento “correto”, mantém a passada em curso - sem desvios ou imprevistos.

beatius est magis dare, quam accipere... A recompensa é a ilusão dos ovinos.


Não que o impulso seja a premissa de toda ordem de uma tal natureza, mas, muitas vezes, é a esperança o grilhão que convém questionar.  

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Tome Nota!





Então, eu havia parado de tomar notas. Percebi-me completamente outra pessoa, pois, aquele de antes, sempre disposto a tomar notas das ideias mais incabíveis era uma criatura sã e consciente de si – uma contradição tão harmoniosa quanto a própria palavra, já que a consciência de si conserva um parentesco inevitável com a loucura. Afinal, a consciência de si é a própria negação da vida, resultado do fluxo incessante no qual o mundo - a envolver-nos com suas coisas de mundo - faz de nós parte dele. Quanto menos conscientes de nós mesmos, mais nos permitimos ser com o mundo, e isto é o resumo próprio da sanidade.

Mas nas ideias que deixamos pra trás, pintam-se retratos de uma realidade que nos apresenta o mundo em singular clareza. Por isso mesmo, a sanidade difere essencialmente da consciência de si, que é lucidez, clareza… a sanidade , por outro lado, é contraste, instável, indeterminada – é encontrar-se no fluxo ininterrupto das ideias sem prender-se a nenhuma delas. Mas ideas, veja você, todos as tem, o tempo todo. Diferem, no entanto, aqueles que tomam notas, alcançando-as – as ideias – fora da água corrente da vida ela mesma. Percebem-se, então, como seres pensantes, porque pensam ideias e, em dado momento, param-se nelas, interrompendo a sequência inabitável dos pensamentos que dão margem a própria vida. Recortam - no mar das coisas pensadas, passadas e presentes – um instante impregnado de um sentido tão particular, que não é possível ter os dois ao mesmo tempo: a vida e o pensamento. Porque a vida é o movimento dos passos que se ultrapassam, e o pensamento é o momento preciso da chegada do pé ao solo.

Foi quando parei de tomar notas que o tempo correu, como quem corre ao supermercado para comprar café, açúcar ou batatas. Nimguém é, de fato, consciente de si enquanto compra batatas e, no entanto, é a sanidade necessária para comprá-las. Mas quando tomo notas, reconheço que as ideias existem em si e por si; eu mesmo existo porque as concebo e as circunscrevo à parte da vida mesma, mas posso deixar-me novamente perder no fluxo incessante que a sanidade me pede, porque tenho naquelas inscrições pontuais um recipiente seguro para esse líquido semitransparente que são as ideias. Tomar notas, alguns dizem, é a atitude dos acumuladores, guardando caixas e partes sem todo, apenas porque esperam que o mundo que agora os rejeita, recorra novamente a eles, num tempo ainda não desdobrado… mas a memória também é acúmulo. Foi, pois, quando parei de tomar notas que me vi sem importância para um eu futuro – um eu que tangencia a consicência do agora, mas que se projeta adiante, como um membro que se alonga para alcançar aquilos que os olhos apenas veem a distância. O homem que se pára diante de um pensamento, reflete a si mesmo, como ali houvesse um espelho, o pensador indisfarçável de uma ideia, mas ao refletir essa imagem, anuncia também uma criatura nova e que se transforma a cada movimento da luz no espaço.

Tomo, assim, mais essa nota – da frustração dirigida de quem há muito não as tomava - a vida vivida sem elas, parecia-me menos sã, ainda que mais salutar... talvez porque me tenha acostumado a pensar-me como alguém que as toma.

Mandarei escrever na minha lápide, tomando a nota em pedra: “Também não há mal algum em comprar batatas, ainda que as batatas nada digam de ti. Pois, somos mesmo, apenas até onde nossa fome nos dá permissão.”


A vida, de qualquer modo, é outra coisa… e não cabe na nota.

sábado, 22 de julho de 2017

O Capuccino

Sentado numa mesa lateral em um café esperando alguém. Vira-se para o garçon e pede um capuccino. Retorna, em seguida, a si, com olhar baixo, e inicia consigo mesmo o diálogo, em silêncio:

Como começar uma conversa com um amigo que não se vê há tempos? Pergunto pela família? Eu soube que ele se divorciou da mulher e, em algum lugar da memória, encontro a vaga menção a um filho doente.. leucemia, caxumba? Não tenho certeza agora. Talvez seja melhor não fazer referência a família e, para não pagar de deseducado, lançar um comentário na iminência da despedida; algo como: “espero que esteja tudo bem com a família”. Assim, evito as complicações do assunto e ao mesmo tempo faço menção a estes outros indeterminados, com boa fé cristã e simpatia moderada - desobrigando-o, de qualquer modo, de uma resposta provavelmente inoportuna. Posso perguntar sobre o trabalho. Não, isso não! Nesses tempos de crise, paira sempre a possibilidade de se estar desempregado. Além disso, estamos em uma idade em que, se não é a crise econômica a nos chicotear, uma crise interna vem nos dizer com frequência da insignificância e inutilidade social daquilo que fazemos no exercício da profissão (certa vez conheci um perfumista: e a lembrança certamente vale para ilustrar o caso). Responder-me-ia com pesar no primeiro caso e provavelmente evasivo no segundo. Ninguém aprecia, de fato, a ideia de desabafar as próprias frustrações e fracassos com o amigo eventual, dos encontros bienais quando muito. Aliás, pra tais frustrações o melhor amigo é o próprio ego, que não nos poupa por comiseração as suas verdades, mas, fazendo-o em silêncio, assegura-nos ao menos a imensa vantagem da discrição. De uma forma ou de outra, perguntar-lhe a essa altura sobre o trabalho teria sido um tiro no pé - e entre um tiro no pé e um na cabeça, difícil escolher o pior. Há quem valorize mais a vida que o orgulho próprio, mas vergonha é uma senda que não se ultrapassa sem algum dano maior permanente. É preciso iniciar a conversa com leveza, sob o risco sempre iminente de tornar-se o diálogo e, por consequência, o encontro, um fardo - tão logo se perceba não haver ali afinidade imediata. Nesse caso, o convite para o café teria sido um equívoco.

Nesse momento, abre-se a porta do café e a atenção do homem foge de seus pensamentos consigo e vaga até o senhor que agora caminha em sua direção. Alto, magro e barbado de uma orelha a outra, vestido casualmente, com calça jeans e camisa de flanela xadrez sobre uma camiseta branca sem estampa. Ele, então, passa pela sua mesa e mais duas, e vai sentar-se junto a um grupo onde dois outros já estavam, em uma cena de pratos e copos quase vazios, a não ser pelo resíduo visível de suas refeições em consumo.

Em sua própria mesa, o garçon acabara de repousar o pires e a xícara. Ele apoia a visão na espuma esbranquiçada sobre o líquido marrom, do qual um faixo estreito de vapor sobe continuamente, dando nota provável em respeito a temperatura da bebida. Ele agradece olhando para o garçon e devolve o olhar à xícara, liberando novamente sua atenção para os seus pensamentos:

Podemos pular já de cara para temas dinâmicos e atuais como política ou economia? Eu li esses dias que o presidente seria indiciado por corrupção passiva. Se ele esta a par da notícia, certamente terá jà formado uma opinião qualquer a respeito – e se há algo que as pessoas dispensam gratuitamente e aparentemente ao menos com algum prazer de uma forma ou de outra declarado são suas opiniões sobre o caráter do outro. Se ele, todavia, a desconhece, talvez sinta-se constrangido pela ignorância presumida sobre os acontecimentos do próprio país. Por isso mesmo, respaldamos os jornais para a função das notícias. De outro modo, pareceria sempre nos querer esfregar na cara o conhecimento antecipado dos fatos um amigo que nos viesse contar dos acontecimentos políticos últimos. Aos jornalistas, em todo caso, colocamos à disposição uma reserva tal sob a justificativa de que são eles pagos exatamente para isso. Afinal, política é um terreno conflituoso que se deve evitar quando se desconhece as posições mais gerais do seu interlocutor e sempre tendo em vista o risco da ignorância política do seu eventual interlocutor emergir como tal. Afinal, quem é mesmo que gosta de ser chamado de ignorante ainda quando da adjetivação apenas insinuada?

Ele alcança um sachê de açúcar no centro da mesa, segura-o na ponta dos dedos indicador e polegar e bate delicadamente com o dedo médio da outra mão, assentando o açúcar na base do envelope e liberando alguns milímetros de espaço no topo, justamente onde ele posiciona os polegares e indicadores das duas mãos, rasgando o recipiente de papel e dando passagem ao granulado, que ele quase imediatamente despeja sobre o café. Repete o gesto mais duas vezes e com uma pequena espátula de plástico, a disposição na mesa, bem ao lado dos sachês, faz circular o café dentro da xícara durante mais ou menos 12 segundos.

Devo evitar iniciar a conversa chamando atenção para a minha pessoa, mas nada me impede de deixar espaço para que ele mesmo inicie a conversa. Mas assim sendo, eu pareceria, talvez, omisso e desinteressado. Fui eu mesmo quem fiz o convite, de todo modo, devo assumir a responsabilidade de dar o pontapé inicial, ao menos. Aliás, seria de bom tom oferecer-me para pagar a conta. Parece que essa é uma implicação instituída do convite, que invariavelmente pesa sobre o... falta-me agora a palavra disponível na língua para nomear aquele que convida. “Convidador” parece morfologicamente adequado, mas soa como uma arbitrariedade sem tamanho. “Convitante” não soa tão mal. Duvido que exista na língua portuguesa, mas talvez funcione em italiano... quem sabe? O caso é que eu preciso articular com algum bom senso um inicio de conversa que ofereça à ocasião alguma possibilidade de desdobramento. Tendo cumprido esta etapa, é provável que a conversa tome seu próprio rumo, como geralmente tomam as conversas. Não sendo o rumo deliberado de uma singularidade vinda de um ou de outro, mas o meio termo entre interesses e opiniões dos envolvidos. E se não interesses e opiniões reais, ao menos de um senso social qualquer que espreita inexplicavelmente nessas criaturas que circulam pela cidade, abordando e sendo abordadas umas pelas outras. Já ouvi chamarem a isso de “presença de espírito”, mas não estou certo de que a expressão valha exatamente para essa capacidade notável de dizer com frequência a coisa certa entre as várias coisas erradas possíveis. Afinal, a cabeça é um universo inteiro de coisas que na linguagem se coagulam, quando justamente abandonam a abstração das sensações, sentimentos e outras imagens disformes – que a própria linguagem encontra dificuldades em designar mesmo que imprecisamente – e se inauguram como possibilidades reais. Cumpre que dentre essas tantas coisas que constituem um tal universo, apenas algumas poucas são as “coisas certas” a dizer em ocasiões determinadas, do que se infere que a estatística deveria estar imensamente a favor das “coisas erradas”, ou ao menos das coisas outras que, não sendo as "erradas", definitivamente também não são as “certas”. Eis que essa capacidade individual se instila no corpo e na mente das criaturas sociais mais diversas, fazendo equilibrar a estatística e tornando possível, talvez mesmo provável, que as pessoas se relacionem umas com as outras. Por isso mesmo, preciso eu iniciar essa conversa de forma apropriada. Sob a mácula de um começo ruim, pode todo o diálogo se perder num abismo interminável de proposições suspeitas ou mesmo enunciações sem propósito. Quando perguntado sobre o simbolismo presente na imagem de um anúncio publicitário, um homem de pouca instrução formal, digamos um pescador, por exemplo, humilde que seja em seu reconhecimento de si num mundo de coisas tão diversas quanto o átomo e uma música de George Michael, ou quanto a teoria da relatividade geral e um espremedor de alho, concluirá de seu interlocutor que, se não é louco, ao menos falta-lhe alguma peça na engrenagem que condiciona atividades sociais em geral. Do mesmo modo que, quando perguntado sobre o preço da gasolina, o filósofo mais habilidoso se encontrará numa situação desgostosa, perturbado e indeciso entre o sentido imediatamente prático da pergunta, direcionada a ele como usuário em potencial de um automóvel e as implicações teóricas do problema do valor abstrato, se deslocando entre noções como as de valor de uso, valor de troca, etc. Talvez, por isso, seja tão comum ouvir-se sobre assuntos como o clima, que independentemente da situação social dos envolvidos num diálogo qualquer, afeta-os diretamente e podem eles dar, senão uma opinião cientificamente fundamentada, ao menos um relato qualquer sobre sua experiência direta com ele. O homem de casaco dirá, provavelmente, que faz frio, enquanto o de camiseta que o tempo é fresco ou que sente algum calor. Pode ser que os dois concordem e por um segundo se identifiquem por meio de uma sensação comum, tremendo debaixo das próprias roupas ou enxugando ininterruptamente o suor que desce da testa, mas o caso é que podem compreender do que se trata e quem sabe até destilar dali alguma empatia mesmo que a opinião do outro seja diametralmente diversa da sua. Certo é que se irá ali encontrar comunicação válida e não precisarão nenhum dos envolvidos especular sobre a sanidade do outro - ou da falta dela. No meu caso, no entanto, o assunto não se justifica. O convite feito ao amigo de longa data, mas com o qual, por circunstância qualquer, não me engajo em diálogo há tempo considerável, requer que haja mais trato no expediente das primeiras palavras.

Ocorre-me agora que eu poderia muito bem ter feito uma pesquisa na rede. Certamente encontraria ali uma lista infindável de assuntos possíveis e apropriados para uma ocasião como esta. É certo que essa ocasião em questão possui suas particularidades, quais sejam as dos dois indivíduos que estão prestes a se engajar em diálogo, cada qual com as singularidades medidas de sua experiência de vida e, além disso, os termos estabelecidos de sua relação um com o outro, que manual algum poderia antecipar. Mas é provável que ao menos um bem intencionado qualquer teórico já se tenha ocupado de analisar, a partir de estudos de caso oportunos e das generalizações consequentes necessárias, conversas e situações sociais análogas, nas diversas esferas da vida moderna e entre elementos ocupantes de posições particulares em situações análogas, considerando questões contextuais como hierarquia, idade, gênero, etc. Mas esse insight agora de pouco me serve. Uma investida metalinguística como essa, colocando em pauta minha própria dificuldade em iniciar a conversa, soaria a ele como uma menção intencional a distância que nos separa, quando o diálogo pede justamente - nos termos de sua própria natureza e propósito - uma conexão em vista. Aquele que inicia uma conversa tem em mente, em geral, uma inclinação a associação com o outro, ou ao menos o apelo a uma reciprocidade qualquer. Não fosse isso, contentar-se-ia com sua fala resultando em uma ofensa ou no estandarte de uma fantasia determinada com a qual se faça identificá-lo com o público a volta, mediante um julgamento imediato sobre as palavras ditas, mas sem a continuidade explicativa do diálogo, como quando um entrevistado dando suas palavras como resposta ao entrevistador, oferece-a ao público sem muito se preocupar com o que irá pensar dela o próprio entrevistador. Nos dois casos, não haveria conversa.

Levantou a xícara, trazendo-a lentamente até a boca. Já não havia vapor aparente. Virou tudo de uma golada só e repousou a xícara novamente na mesa. Catou um guardanapo entre os muitos que se enfileiravam no mesmo recipiente de madeira que mantinha os envelopes de açúcar e as pequenas espátulas de plástico juntos, e esfregou-o nos lábios e ao redor. Dobrou-o em duas partes e repetiu, colocando na mesa o guardanapo sujo após a ação concluída.

Olhou a volta e percebeu que a disposição das pessoas no recinto havia mudado. O grupo que antes ocupava a mesa atrás de duas outras em relação a sua não estava mais lá. No seu lugar, um casal de idosos conversava discretamente, enquanto gesticulavam os dois funcionalmente sobre as xícaras diante de si, cada qual investido em sua relação própria com a bebida que tinha a frente, e a conversa fluía entre a atenção dirigida ao outro e a atenção dirigida a bebida, sem que um ou outro apresentasse empecilho algum ao fenômeno que entre eles se desenrolava.

Retornou a si sem, no entanto, tirar os olhos do casal:

A intimidade torna tudo mais fácil. Relações que, sem ela, de outro modo, improváveis seriam, revestem-se de uma naturalidade análoga àquela dos vegetais que crescem no campo. A intimidade - seja lá o que for que a palavra signifique – não apenas predispõe ao diálogo todos os enredados por essa força incomensurável que paira entre os animais mais diversos, como parece reembaralhar todos os elementos inteligíveis de uma situação de diálogo, redimensionando em proporção vantajosa para ambas as partes as “coisas certas” com relação a todas as outras, isto é, um indivíduo que se encontre em diálogo com alguém de quem é íntimo terá maior probabilidade de que as coisas que diga sejam as “coisas certas”, quaisquer que sejam elas, na medida mesma da sua intimidade com aquele com quem dialoga. Imagino o questionamento feito sobre a sanidade ou a inteligência de seu esposo, quando após 35 anos de uma relação diária e estável, sentados à mesa de jantar, ele diz a ela: “Me bateu uma imensa vontade de lamber o pús da ferida de um cachorro!”. Ainda assim, por mais improvável e mesmo repugnante que sejam as palavras em questão, o choque e a surpresa terão dado lugar ao abandono dos pormenores semânticos em favor da familiaridade com aquela voz. Possível até mesmo, aliás, que possam ficar confortáveis em silêncio um em frente ao outro, desde que a intimidade entre eles seja assim colossal. Numa situação como essa, no entanto, um observador externo terá mesmo dificuldade em precisar se aquilo que testemunha é fruto de intimidade tamanha ou da completa indiferença. E desconfio que seja justamente a intimidade que desenvolvem os homens consigo mesmos que os permite ficar em silêncio com seus próprios pensamentos, porque neles a intimidade com as ideias e os sentimentos que circulam dentro de si não prescreve outra atitude senão a simples e manifesta indiferença para com estes. Provavelmente, a mesma que emerge dentro de nós diante de uma notícia já conhecida ou de uma piada velha. E quem de nós já não se encontrou moderadamente surpreso com os próprios pensamentos? Se me deixo correr a revelia do tema e do propósito, por exemplo, me encontro com toda sorte de pensamentos: Um urso usando chapéu, uma máquina-de-lavar segurando um sorvete de casquinha, um número quase infinito de palavras-imagens enfileiradas em frente a um balcão, aguardando seu momento de estréia... Há, inclusive, quem encontre na intimidade o segredo de todas as coisas. A perpétua lei dos Hindus, a consciência espiritual como intimidade plena com o mundo, a intimidade do ser com todas as coisas, vivas e não vivas, entoada numa só palavra que se repete através da linguagem dos homens, dos ventos, dos rios. É, afinal, a intimidade com certa música que nos projeta a um estado de divertimento irrefletido quando repetimos, palavra por palavra, a letra e a melodia de uma canção conhecida. Ou, na sua forma mais frequentemente descrita, o acolhimento incondicional da família. Muitas vezes me perguntei se o amor em todo canto idealizado entre mãe e filho não seria apenas uma variação particular dos modos de intimidade possível entre duas pessoas.

Mas isso tampouco me ajuda. Intimidade é coisa que com ele não tenho e que, de outro modo, requer uma situação favorável para brotar. Situação essa que eu provavelmente não terei se não dispuser de um começo de conversa ao menos adequado. Talvez se eu evocar um tema da história - tão distante no tempo quanto possível, que retroceda às primeiras dinastias egípcias, ou antes ainda, aos sumérios - eu possa suscitar nele essa familiaridade objetiva, ainda que inexplicável que nos faz reconhecermos homens entre homens mesmo quando diferimos nos mais diversos aspectos da vida. Quem sabe se a distância que nos separa não pareça assim tão relevante desde a perspectiva da história das civilizações? Como se pudéssemos encontrar num tema assim objetivado e de tal modo externo as nossas pequenas aventuras pessoais, o terreno comum onde possam encontrar-se esses dois universos distintos que povoam nossas cabeças, diante de uma possibilidade real de comunicação; como uma pedra de Roseta ou uma inscrição de Behistum dos nossos próprios idioletos... Ou do contrário, se eu mencionar os investimentos em curso para tornar possível a colonização de outros planetas? Se essa perspectiva futura que a cada dia se revela menos improvável, não venha desmentir também, quem sabe, a improbabilidade de nos encontrarmos nós dois, de repente, em meio a uma conversa natural ou mesmo agradável? Se, assim, o preço do combustível para foguetes não seria um tema oportuno como outro qualquer, pedindo ao filósofo dentro de nós a presença de espírito necessária para reconhecer o sentido de cada palavra, objetivo como um comando remotamente enviado. Se o nome Curiosity serviu àquela criatura de poucos antecedentes sobre a superfície de Marte, por que não nos poderíamos servir de um assunto tão genuinamente humano para iniciarmos uma conversa em que a curiosidade seja, afinal, um agente ou um reagente propulsor? Mas e, então, se ele se questionasse sobre a impessoalidade do tema e nossa conversação jamais conseguisse escapar ao âmbito dessas matérias gerais, conquanto universais que sejam, e ele não pudesse evitar a absoluta ausência de empatia, como aquela que experimentamos ao nos relacionarmos com um manual de instruções ou a um dispositivo didático qualquer? Ainda que Carlos e Maurício sejam criaturas absolutamente idiossincráticas, ao discorrerem sobre um tema como este, é possível que os dois reproduzam diálogo, senão idêntico, ao menos possivelmente similar ao diálogo entabulado por Roberto e Elaine sobre o mesmo tema. Aliás, raramente se vê o leitor de um manual qualquer preocupado com a autoria daquele documento. Que diferença faz saber quem é a pessoa que, do outro lado, nos diz que não se deve separar o sujeito do verbo por meio de vírgula, esteja já de antemão a sua autoridade instituída?

Ele emerge novamente de seus pensamentos e estende o pescoço vasculhando ao redor à procura do garçon. Levanta a mão assim que o avista e aponta para xícara a sua frente enquanto articula a expressão “mais um” com a boca, sem emitir sequer um som. O garçon acena positivamente enquanto se dirige a uma outra mesa. Ele o observa fixamente. Nesse momento sua cabeça está vazia, limita-se a registrar a experiência visual para a qual se direcionam seus olhos. O garçon se inclina diante da mesa onde duas mulheres na faixa de seus quarenta anos descrevem a ele os seus pedidos. O garçon toma nota e assim que retorna à cozinha, escapando ao seu campo intencional de visão, ele baixa novamente a cabeça e aquele mundo interior cheio de dúvidas novamente se abre:

E se eu perguntar simplesmente “como vai a vida” ?! Deixo ao seu critério o que é ou não de interesse dele expor a minha pessoa, evitando assim colocá-lo em uma situação de constrangimento.
Mas e se ele reconhece da questão formulada não o interesse genuíno nos aspectos gerais dessa situação, de todo modo indeterminada, a que damos o nome de vida, mas a proposição fática, simplesmente? Provável até que me responda com um daqueles artifícios genéricos de redundância verbal, como o já conhecido “vai indo”, e a imagem da vida que vai uma vez mais e contínua, ininterruptamente, lançar-me-á num desfiladeiro sem fim de questionamentos sobre essa vida que vai: Tem ela um nome? Uma cor favorita? Prefere jazz ou samba? É a vida dele, afinal. Um outro modo de descrevê-la seria, então, a coleção absoluta das suas experiências de vida, dos seus impulsos biológicos e da sua consciência imanente. Ainda que ele entenda a pergunta, nem saberia por onde começar. Eu mesmo deveria questionar-me o interesse diante do movimento de vida de pessoa tão ordinária.

“Com licença!” - interfere o garçon: “Aqui seu capuccino” - e, com todo cuidado, apoia pires e xícara na mesa e recolhe os já vazios. Ele permanece estático, seu olhar não faz menção em ir ao encontro do rapaz, que após 3 segundos de constrangimento se retira, sem ouvir sequer um “obrigado”.

Pessoa ordinária... Tantos questionamentos e não tenho a perspectiva de encontrar nada além de uma pessoa ordinária, isto é, uma pessoa quase como todas as outras, ainda que das suas particularidades inalienáveis. Não somos todos, afinal, pessoas ordinárias? Ou justifica-se mesmo essa autoridade inexplicável das mídias públicas, que nos projetam a imagem de um e outro, impondo a nós a ideia de que sejam estes privilegiados pessoas inigualavelmente especiais. Ora, quão ordinário seja ele, interessa é que eu o tenha convidado para um café. Tendo convidado a ele especificamente, e não esperando neste momento nenhuma outra pessoa que não seja o convidado, há que se reconhecer ao menos um desvio circunstancial na ordinariedade que obnubila a personalidade de figura alguma indeterminada.

Nesse instante, um barulho contínuo, agudo e grave ao mesmo tempo, ressoa e ganha volume; as janelas do estabelecimento tremem; a vibração se intensifica a cada centésimo de segundo e, então, a atenção de todos ali parece voltada para uma resolução iminente: As paredes começam, em seguida, a tremer também - e o barulho, a essa altura, é já ensurdecedor; pequenos pedaços do teto se desprendem e caem quase ao mesmo tempo em que se pode reconhecer o som de um objeto gigantesco de metal impactando na estrutura do edifício. O homem se levanta e vê, como que em câmera lenta, o bico de um jato atravessando o teto e vir varrendo tudo à sua frente. O pequeno aeroplano cruza toda a extensão da loja, deixando um canal de desolamento entre a mesa do homem e a cozinha do lugar, agora abertamente exposta ao público, com paredes tombadas e o balcão a frente delas tendo sido carregado pelo avião. Curiosamente, apesar de algumas janelas rachadas, a estrutura atrás dele permanece de pé e, com ela, a porta de entrada, por onde agora entra um homem baixo, calvo e casualmente vestido, com jaqueta jeans e calça preta, e uma camiseta na qual a estampa chama menos atenção que a marca de uma barriga saliente pressionando para frente o tecido. Ele reconhece o amigo e acena. O homem à espera, que já estava de pé, dá um passo a frente para receber o amigo e estende-lhe a mão, oferecendo-a em aperto.

Tudo bem?

Tudo bem. E contigo?

Tudo bem.

Cessam, então, o aperto de mão e, enquanto um se prepara para voltar a seu assento, o outro, recém-chegado, põe as duas mãos na cintura e olha para o cenário. Cerra os olhos, esforçando-se para reconhecer em detalhes a imagem que tem em vista. Suspira. Olha para o chão, de um lado ao outro, e levanta novamente a cabeça, retornando o olhar frontal que parece se escorar no interior da cozinha à sua frente. Retornando, em seguida, o olhar para o amigo:

Vamos a outro lugar? Eu pretendia comer algo, mas fiquei um pouco frustrado com o que vejo dessa cozinha.

Os dois saem pela porta. O segundo capuccino permanece na mesa... intocado. Ao redor daquelas tantas ideias sobre mutualidade e a natureza associativa do diálogo, a conta não paga parece apenas detalhe que não deveria valer nem a pena mencionar.


O jato era um Citation Mustang 510 da CESSNA. Não havia passageiros a bordo, mas é provável que o piloto tenha morrido.    

sábado, 22 de abril de 2017

On Urban Ontology




The observer walks on paving stones and cracked concrete; broken glass and cigarette butts; around with buildings and windows and gates and lampposts and lights and written or silent walls and posters and outdoors and bus stops and trees and cars and bicicles and people and dogs, but, mainly, people; food and full or empty bottles and cigarettes and smoke and various smells and gestures and laughings and agressiveness and indifference and ostentation and misery; there are almost no flowers except for those printed on the girls' dresses; however, so many things are blooming there - beuatiful and terrible, red, grey, dangerous and harmless, natural, non-natural, reasonable and incomprehensible - that, even if they dont delight the eyes, one must adress them with regards and giving them names.






The city is a garden of things.

terça-feira, 18 de abril de 2017

O Silêncio dos Cordeiros



O rapaz entrou no ônibus e se dirigiu diretamente a última fileira, avistando lugar ao lado de um senhor de idade, de cabelos ralos e brancos e pele escura, que conversava com uma mulher negra sentada num banco imediatamente a frente. Pediu licença, conforme tomava em mãos a mochila – volumosa o suficiente para incomodar caso viesse ali presa as costas - e sentou-se, olhando para moça que mantinha o rosto virado para trás, uma vez engajada que estava no diálogo com o homem já descrito.

A mulher, então, olhou nos olhos do rapaz com tal profundidade, que capturou seu olhar a medida que entregava a ele também um sorriso. Ele sentiu-se como se não pudesse mais desvia-lo; sentiu-se deselegante com a simples ideia de ignorar a atenção que a moça dirigia ao seu rosto, mesmo que naquele momento as palavras dela ainda tivessem como ouvinte o senhor ao seu lado. Além do que, tratava-se de um sorriso verdadeiramente cativante. A medida que as luzes do sol invadiam o ônibus – por volta das 16 horas, numa tarde ensolarada – alcançavam a superfície branca dos dentes engenhosamente enfileirados na parte de dentro da boca da mulher, e eram imediatamente refletidas aos olhos de qualquer um que se dispusesse a dar testemunho ao sorriso da moça, cuja beleza tampouco era de se ignorar.

O olhar dela, então, voltou ao senhor a quem ela dizia: “Ele sabe de tudo que acontece e tudo o que acontece, acontece porque ele quer”. Concordava o homem com um aceno enfático de cabeça, e ela prosseguia: “Não há quem esconda nada dele, porque ele tudo sabe e tudo vê”. E o homem mais uma vez confirmava em acordo com a sentença da moça, repetindo laconicamente o enredo: “Ele vê tudo!”. A mulher se alongava naquele poema, que agora parecia requisitar dela uma expressão mais intensa do corpo, que se mexia energicamente conforme ela subia também o tom de voz: “Ele que tudo pode e que tudo faz, nada faz que não seja para o bem, e nada quer que não seja o nosso bem!”. O homem acompanhava como se suas linhas servissem agora de contraponto as melodias que já se ensaiavam na voz dela: “Ele tudo pode!”.

Nesse instante, o olhar da mulher vagava um a um os passageiros do ônibus, encarava aqueles que se atreviam a olhar pra ela, e se insinuava para aqueles que a ignoravam. As mãos gesticulavam com o dedo em riste, dando gravidade às sentenças que proferia e, já ali, se havia perdido a discreção antes recolhida no diálogo com o senhor. Ela encontrava agora no ônibus quase cheio uma platéia em potencial.

“A vida é ele quem dá e é ele quem tira!” - Dizia ela, seguida pelo comentário abafado do senhor atrás de si: “Ele tudo sabe!”.

Levantou-se, então, de sobressalto e agregou àqueles versos uma melodia já então formalizada. Seguiu pelo corredor do ônibus, cantando – e, agora, mal se ouvia o senhor de idade, que fazia de tudo para que a sua parte, apesar do baixo volume, mantivesse para com a voz da novissa uma afinação coerente.

“Ele tudo saaaaabe, ele tuuudo vêee! Ele tudo poooode e tuuuudo faaaaz......”

Terminou a performance alogando a nota entoada com a última vogal e fazendo tremer a voz, vibrando controladamente as cordas vocais. Sem voltar a sentar-se, esperou pela próxima parada e desceu do ônibus.

O senhor permaneceu, bem ao lado do jovem com a mochila no colo. Olharam-se por um breve instante e um silêncio sem jeito tomou forma entre os dois, sentados lado ao lado, enquanto lá fora, ecoava o ronco barulhento dos carros e a paranóia ininterrupta da cidade.

Aos poucos, o impacto deixado pela lírica envagelizadora da mulher se dissolvia nas conversas amenas que nasciam da composição humana daquele ônibus, com as pessoas dispostas lado a lado, de uma ponta a outra.

O ônibus parou novamente e, dessa vez, entrou um homem carregando uma grande sacola, constituida de numerosas sacolas menores, todas presas a um cabo que se prendia, no topo, a um gancho. Apoiou a sacola pelo gancho no corrimão preso ao teto do ônibus e disse: “Senhoras e senhores, estou aqui para lhes oferecer essa excelente oferta. Cada saquinho desse contém 10 balinhas de côco: macias e açucaradas, para entreter a vossa viagem. Mas isso não é tudo” - e fez uma pausa, certo de que o que tinha a dizer a seguir justificava o drama acrescido - “São balinhas de jesus! Cada balinha dessa foi abençoada por Deus-meu senhor-Jesus Cristo. E cada um de vocês que comprar e chupar uma balinha dessas, será também abençoado por ele! Isso tudo pela mísera quantia de 2 reais. Dois reais pelo doce e também pela benção de nosso senhor Jesus Cristo.”

Tirou a sacola do gancho e atravessou o corredor do ônibus, recolhendo o dinheiro e entregando as balas às dezenas de passageiros que lhe estendiam as mãos. Chegou até o fundo do ônibus, onde estavam o senhor e o rapaz com a mochila no colo. Olhou desconfiado e fundo nos olhos do rapaz com a mochila e, sem recolher o olhar, puxou um pacotinho de balas e ofereceu ao senhor ao lado, que estendeu a mão e aceitou sem haver tirado do bolso uma moedinha sequer. Virou-se lentamente, e seguiu, descendo do carro no ponto seguinte.

O velho, lentamente, abriu o saquinho e levou à boca uma bala. Sem dizer uma palavra, virou-se para aquele ao seu lado e ofereceu do saquinho que tinha em mãos. O outro fez que não e agradeceu. Guardou ele, então, o saquinho no bolso e cruzou os braços. Seguiram os dois lado a lado, ainda em silêncio. Ao rapaz restava a superfície áspera da mochila a pesar em seu colo e os seus pecados todos, incautos, a pesarem na consciência. Ao senhor, apenas o doce gosto do açúcar e do côco, e o balanço do ônibus, ritmado...



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O Meio é a Mensagem ou Hermes Pede Passagem

Caminho sobre a calçada numa rua que segue à minha frente: reta até o último centímetro de concreto que, contra as solas emborrachadas dos meus sapatos gastos, confessa-me a dureza inegociável da sua matéria.

No final dela, à distância, vindo lentamente em minha direção, uma senhora negra de idade avança apenas um pouco mais que absolutamente normal. Cabelo, calça e sandálias reiteram as convenções mais normativas de gênero, idade e classe social possíveis; e em todas elas, fragilidade é a nota comum em destaque. Na camiseta, no entanto, apesar do tecido e recorte ordinários, uma mensagem em relevo perturba o enredo que querem contar outros detalhes: “Strong is sexy”.

Ela segue o caminho e está prestes a passar por mim. Meus olhos vagam da leitura inesperada até seus olhos serenos, que me fitam. Sorrimos um para o outro em sincronia tão justa que é difícil identificar quem primeiro desatou estes nós invisíveis que impedem os gestos da face na ordem da brutalidade e frieza da máquina social.

Mas ainda que eu lhes possa confessar – sem orgulho algum – que o meu sorriso, então, nascia da contradição em vista e de seu potencial desdobramento literário, do sorriso dela posso apenas especular - Afinal, desconfiava ela da dimensão semântica do meu? Ou a camiseta sobre o seu torso era a ela indiferente como era a sua pele em relação aos fonemas ali grafados?

Olhei para trás uma última vez - a decifração de um enigma pede ao pescoço alguma flexibilidade. Nas costas que a agora se via, sensivelmente curvadas, nenhuma palavra à vista. Mas no andar vagaroso, passo a passo, uma constância robusta e cheia de significado. A rua era a linha que dava a senhora a magnitude de uma sentença, como a linha imaginária que dava àquelas letras de antes contexto e sentido. Porque a verdade não habita a mensagem; e se nasce na voz do mensageiro investido, revela-se apenas na consciência de um destinatário. Strong is sexy, e nunca houve razão alguma pra se duvidar.  

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O Guarani

O barulho do ar que escapa - como resultado da descompressão que regula o funcionamento do ônibus quando este pára e abre as portas – chama atenção do pedestre que segue distraído. Entram os últimos e o veículo fecha as portas enquanto o ônibus permanece parado devido ao engarrafamento que enfileira dezenas de automóveis naquela Rua do Passeio, já quase em frente a Escola de Música da UFRJ.

Uma panorâmica: da calçada, é possível ver toda a extensão lateral do veículo, com suas janelas dispostas de modo a convidar diálogos soturnos entre os passageiros que habitam tais posições e os outros que esperam no ponto. O olhar fixo de um garoto na parte de trás do ônibus chama atenção: ele recai sobre a figura de uma senhora que, com os braços cruzados, mantém firme a bolsa pendurada em um deles. A mulher ignora a presença do menino que se faz sentir cada vez mais a medida que a atenção do espectador delineia a cena. O menor, preto e em cujos trajes (ainda que em relação apenas àquilo que se dispunha a vista) se identifica uma condição social definida, encara uma mulher na idade de seus, talvez, 50 anos, vestida como que atenta ao escrutínio social que a cerca. Não se pode dar a ela, precisamente, um contorno de classe, e o fato de que ela espera em um ponto de ônibus redimensiona a desconfiança do avaliador, que a primeira vista identificaria naquelas roupas dela o traço residual de um privilégio, ainda que relativo.

Num primeiro momento, entende-se que se trata de um olhar de intimidação pelo simples fato de que o olhar que ele dirige a ela não cessa e não quer cessar. A natureza intencional do gesto, em todo caso, se torna mais clara a medida que o rapaz começa a cantar; primeiro, baixinho e em crescendo até que ganhem definição os significados que ali se veiculam:

“Eu sou ladrão! Eu sou ladrão! E você não pode nada!” - A melodia remete inequivocamente ao gênero de funk associado, em grande medida, às favelas da cidade - “Se eu quisesse eu ia aí e pegava a tua bolsa! - sem rima ou estrutura definida, apenas melodia e palavra como se quisesse com aquilo configurar uma indefinição estratégica entre o canto e o discurso objetivo. E retornava e prosseguia, até que um ritmo particular começasse a tomar forma na repetição induzida à maneira de um leitmotiv: - “Eu sou ladrão! Eu sou ladrão!...”

A mulher, já consciente da presença daquele que antes não era senão um fantasma, tensionou os braços cruzados, fincando as mãos por entre as axilas, de modo a certificar-se da segurança com que matinha a bolsa presa, pelas alças - ao redor de um dos ante-braços. De uma ingenuidade obtusa, no entanto. O ladrão de fato, não é aquele que anuncia sua presença, declarando com palavras – do contrário - a ausência da intenção para o roubo. Da contradição evidente, então, desenrolava-se uma ficção bastante original; marcadamente irônica e carregada de um simbolismo o qual apenas o contexto poderia fazer tornar-se inteligível.

A imagem da bolsa protegida se dirigia ao pobre passageiro como uma declaração sub-reptícia e, em última instância, uma ofensa. Assim como o olhar dele, fixo e intimidador, se desprendia em resposta como num jogo de significados em que nada era em ato, mas, ao contrário, tudo era sugestão. Na exegese do rapaz, a precaução da mulher fazia menção a si ou, pelo menos, ao lugar por ele ocupado naquele cenário indistinto; do mesmo modo como interpretava ela sua própria segurança a partir da tensão acumulada entre os braços e em defesa da bolsa. Mas porque não houvesse seu olhar chamado atenção da moça – e apesar de toda a intensidade em que culminavam aqueles olhos ocupados, o silêncio é justamente aquilo que faz do olhar uma voz a espreita – viu-se impelido a tornar audíveis as palavras que até então não estavam senão implícitas. Assim procedendo, no entanto, inaugurava o garoto um novo regime para o discurso, forçando o diálogo como um cantor de ópera que se impõe a seu público a plenos pulmões. E como na ópera, comprometia-se menos com a realidade que com a forma com a qual tratava seu tema - uma receita comum a quase todos os fenômenos que se inauguram em um regime estético.

Mas nem por isso, se podia dizer que não houvesse ali um interprete preocupado em compensar a fragilidade diegética da performance, com o apelo humanizado de quem incorpora os sentimentos que deseja expressar em uma segunda camada não tanto involuntária quanto intencional, ou seja, não como aquele que sente, mas como aquele que inventa e faz, por isso, do sentimento uma razão inequívoca, notável era o tom ameaçador com que sua música seguia a melodia pouco prodigiosa em curso. O volume induzido, portanto, era apenas aquele necessário para fazer-se ouvido pela mulher e mais um ou dois transeuntes atentos a volta, como aquele que testemunhava a encenação.

Para a mulher, a quem parecia importar menos a forma que o conteúdo explicitamente evocado, o terror tornava-se nota em destaque, porque sob a nódoa da ficção escondia-se então uma realidade em potência, em que se fazia vibrar dos sentimentos a espera antes o medo que um regozijo qualquer diante da beleza dos traços originais de uma peça como aquela.

A quem, no entanto, observava a distância os detalhes e casuais ornamentos como signos da obra em processo - reconhecendo não apenas o drama em relevo como a interpretação acabada, que sonora e expressivamente ressaltavam do artista a marca de uma kunstwollen feita evidente, enxergando não somente a técnica, mas principalmente a inteligência com a qual o autor se tornava o veículo de uma poderosa crítica a sociedade em questão – , e porque não houvesse aparato institucional algum dando contexto ao dispêndio de gritos de louvor e aplausos, restava apenas o elogio interiorizado da contemplação em retorno.


A arte é a forma magistral pela qual, ao atentarem uns aos outros os indivíduos de um mesmo contexto, assumem-se na ignorância mútua de suas razões profundas no momento mesmo em se desfazem dos julgamentos precipitados em nome de uma consideração segunda, para finalmente perceberem que o significado pleno da ação está na simples atenção que se dirige a ela.